A ILHA DE MOÇAMBIQUE NOS FINAIS DO SECXVIII




REVISITE A ILHA DE MOÇAMBIQUE CERCA DE 1790
PELA MÃO DO PROF. ADELTO GONÇALVES E
PELA PENA DE TOMÁS GONZAGA



Da obra "Gonzaga, um poeta do Iluminismo"



Terceira Parte
Capítulo 8.



     8.

  Juliana de Sousa Mascarenhas, quando Gonzaga a conheceu, tinha 18 anos e, a julgar pelos costumes da época, seria uma moça submissa, acanhada e ingênua. Talvez sonhasse casar com algum reinol ou mesmo com algum daqueles escuros goeses que chegavam para tentar a sorte nos sertões africanos, mas não se rebelou quando as conveniências indicaram que deveria desposar um advogado quase cinqüentão, calvo, de baixa estatura, cheio de corpo, bem posto na vida.
  Havia sido criada para obedecer a Deus e aos pais e a servir da melhor maneira o futuro marido. Era analfabeta, porque esse era o costume naquela capitania em que até para os homens faltavam professores. E os seus limites do mundo seriam bem estreitos: vivia com o pai e a mãe nas casas da rua do largo da Saúde, no bairro alto da Marangonha, na ilha de Moçambique, e conhecia também as propriedades da família que ficavam na Cabaceira Grande, na península do Mossuril, nas Terras Firmes, onde escravos cuidavam das colimas(1), principalmente de mandioca e algumas hortaliças.
  Em casa, como era habitual, a menina Juliana crescera cercada pelos cuidados das escravas negras e dos bichos(2). Como a maioria das moças da ilha, o seu modo de agir repetiria um pouco o comportamento dos cafres. Seria tímida entre estranhos, falaria apenas quando lhe dirigissem a palavra e só se sentiria bem quando retornasse ao convívio com a cafraria, embora soubesse exercitar o seu poder de filha de um comerciante de algumas posses e funcionário régio influente.
  Juliana não devia consumir as horas nas tarefas domésticas porque dispunha de negros e negras para empregar naquelas funções. Talvez supervisionasse o trabalho na cozinha, a feitura dos bolos de mapira(3). Como era costume entre as moças e mulheres casadas, talvez passasse o dia a enrolar o tabaco na folha de bananeira, fazendo cigaros ou cigarrilhas de uma forma particular, imitando o embrulhado do cigarro espanhol, em que seria também acompanhada pelos escravos.
  Depois, determinaria aos negros que vendessem os cigarros ao largo do Bazar dos Mouros, em São Domingos, fazendo dessa atividade um pequeno comércio. Eram as mulheres também que geralmente negociavam com os cafres do sertão, para si e para os homens, porque entendiam melhor a língua macua pelo maior contato em que viviam com os escravos. Quando saía às ruas, Juliana andaria sempre acompanhada por bandazias(4) e protegida por um pára-sol da ĺndia.
  Seria assim também dona Ana Maria, sua mãe. Essa mulher de 38 anos já nascera na Cabaceira Grande e herdara da família as propriedades nas Terras Firmes e duas dezenas de escravos. Seria também analfabeta e do mundo só conheceria aquela vida perigosa entre a ilha e a península do Mossuril. À época em que sua filha casou com Gonzaga, sua mãe, também Juliana, era viva e possuía machambas e escravaria na Cabaceira Grande, embora também mantivesse residência na ilha, como todos os grandes proprietários(5).  
  Protegida pela mãe e a avó, Juliana tivera uma infância sem maiores sobressaltos, entre brincadeiras com outras meninas de sua idade no largo da Saúde, entre árvores frondosas que no lugar chamavam de tombe-tombes(6). O largo da Saúde, no bairro alto da Marangonha, era uma praça quadrilonga, com uma rua para a ponta Sul da ilha e outras duas que saíam dos dois ângulos do lado da entrada. De uma parte ficava o Hospital Militar e de outra a igreja de Nossa Senhora da Saúde com sua bela escadaria para o lado esquerdo de quem se dirige para a ponta da ilha, erguida sobre rochedos em local que dominava grande parte da ilha(7). Quase no extermo do largo ficava o tanque da Marangonha que servia de lavadouro público. Lá, durante quase todo o dia, podia-se ver as lavadeiras e suas crianças.
  Próximo ficava a Miçanga, bairro com poucos e pequenos prédios de pedra e casas térreas com paredes de adobe, mas cheio de palhoças fabricadas de madeira de mangal, rebocadas com entulho, algumas caiadas, cobertas de macutas(8). O bairro, quase todo pontilhado por coqueiros, ia das vizinhanças da Marangonha até o Campo de São Gabriel. Lá moravam, em meio a muita imundície, escravos, negros livres, mulatos e mulatas, nanas, mouros e mujojos(9).
  Além desse pequeno mundo, Juliana conheceria, de passagem, por andar com o pai e a mãe, nas Terras Firmes, as aldeias portuguesas do Mossuril, Cabaceira Grande e Cabaceira Pequena, com suas robustas e copadas acácias, duas igrejas paroquiais e uma ermida, algumas casas de recreio dos mais abastados moradores da capital e uma bela vivenda do governador.
  No continente, a família nunca se demorava além do tempo necessário por causa do perigo que corria diante de inesperados ataques dos nativos. No Sancul e na Quitangonha, viviam xeques avassalados à Coroa portuguesa, mas seus homens atacavam os colonos sempre que se sentiam descontentes ou ludibriados no comércio. Nas Terras Firmes, havia também Angoche, povoação de mouros ainda mais atrevidos e insolentes que os outros da costa. Eram maus vizinhos(10).  
  Ao conhecer o ex-ouvidor de Vila Rica às vésperas do Natal de 1792, Juliana percebeu que o seu destino já estava traçado. E passou a se preparar para o casamento que ocorreria no dia 9 de maio de 1793, na Sé Matriz(11). Foi uma quinta-feira movimentada para toda a elite de comerciantes e funcionários régios da ilha, que tiveram de deixar de lado os seus afazeres costumeiros. Ao casamento esteve presente o administrador episcopal e bispo prelado de Moçambique, dom frei Amaro José de Santo Tomás, da Ordem dos Pregadores da Congregação da ĺndia, o bispo da Pentacomia.
  Já esquecido de sua Marília mineira, o noivo, conhecido peralta(12), deve ter comparecido muito bem trajado, com casaca, camisa fina com babados e punhos de renda, sapatos com fivelas de prata. Ao vigário-geral e juiz dos casamentos, padre Luís Francisco Rodrigues, escrivão do juízo e auditório eclesiástico, Gonzaga declarou que tinha 48 anos de idade, "era solteiro e nunca fora casado". Sua esposa, Juliana, de 19 anos, era natural da freguesia da Cabaceira Grande e "nela batizada". Como era analfabeta, assinou em cruz(13).
  Os paraninfos do casamento foram José Ferreira Nobre, vice-almirante da Real Armada, e sua mulher, dona Bárbara de Saldanha Ferreira Nobre(14). Feitor de Inhambane em 1783 e, mais tarde, governador de Lourenço Marques e Sofala, Nobre era, à época, proprietário rural nas Terras Firmes, mas residia na ilha. Em Inhambane, inaugurara os serviços de patamares, colocando à disposição da comunidade estafetas negros que levavam cartas entre aquela vila e Sofala(15). Nesta localidade, enriquecera comprando fazendas da ĺndia a crédito na capital e vendendo-as para os cafres do sertão(16).
  Para casar, Gonzaga teve de deixar de lado muitos afazeres. Por aqueles dias, cuidava do processo que envolvia o tenente Pacheco, acusado de sedição na fortaleza de Lourenço Marques. Passara horas e horas na prisão da fortaleza de São Sebastião da Barra a conversar com o cliente para, depois, escrever uma defesa em que consumiria sete páginas. Quatro dias antes de casar, pedira vistas do processo para melhor estudá-lo(17).
  Apesar do clima festivo provocado pelo casamento, a ilha vivia momentos de sobressalto. Dias antes, um navio da América inglesa havia fundeado na barra, ao largo do cais da alfândega, como faziam as embarcações de alto calado. Ao subir ao navio para fazer o auto de visita, o ouvidor Tavares de Siqueira, em companhia do escrivão Benjamin Ferrão, recebera do comandante algumas gazetas em língua inglesa que traziam notícias da proclamação da república francesa a 21 de setembro de 1792, da cabeça guilhotinada de Luís XVI, a 21 de janeiro de 1793, e da declaração de guerra entre a França e Portugal(18).
  As informações foram transmitidas imediatamente ao governador dom Diogo de Sousa, que passou a tomar providências para que nem a ilha nem as demais povoações pudessem ser tomadas de surpresa por eventuais ataques dos mafutres(19). As fortalezas começaram a ser reforçadas e algumas normas sobre recrutamento foram baixadas, causando desassossego entre os moradores.
  As providências, porém, seria inúteis, pelo menos por um bom tempo(20). Só em fins de 1793, chegaria uma carta-ofício do Palácio de Queluz, com data de 10 de março, alertando o governador para a declaração de guerra da França e recomendando que fosse preparada a resistência contra qualquer ataque.
  As festas de casamento de Tomás com Juliana ocorreram nas casas do sogro Alexandre Roberto Mascarenhas na rua do largo da Saúde. E, depois de tudo, o poeta passaria a morar ali mesmo, ao lado dos pais da moça. Mas, em pouco tempo, Gonzaga seria o único varão da casa. Alexandre Roberto Mascarenhas morreria pouco depois, naquele mesmo ano de 1793(21).
  Gonzaga não teria a oportunidade de ajudar o sogro a aumentar a sua fortuna, como imaginaram alguns historiadores. Tampouco a fortuna herdada pelo poeta seria tão imensa. Gonzaga ficaria com a morada da rua do largo da Saúde, uma propriedade na Cabaceira Grande e alguns escravos, mas a sogra, dona Ana Maria, continuaria a admistrar as propriedades rurais da família no continente fronteiro.
  Já usufruindo de grande prestígio, apesar das desconfianças do governador dom Diogo de Sousa, Gonzaga deve ter recebido muitos presentes dos comerciantes e serventuários régios. Mas o maior dos presentes chegaria dias depois, quando o navio da monção de Lisboa ancoraria ao largo em frente ao cais da alfândega. Não foi sem pensar nas humilhações sofridas que leu num exemplar da Gazeta de Lisboa, com data de 10 de novembro de 1792, segundo suplemento ao número XLV, a notícia de que saíra publicado em Lisboa, pela tipografia Nunesiana, o livro Marília de Dirceu, primeira parte das poesias líricas de T.A.G.
  A nota dizia que o livro estava à venda por 240 réis na loja da Gazeta e na do livreiro da Academia. Embora o livro tivesse sido publicado apenas com as suas iniciais, poucas pessoas cultas no Reino não saberiam que aquelas letras indicavam o nome do ex-ouvidor de Vila Rica. Mesmo assim, durante boa parte do século XIX, não faltaria quem tomasse o autor por Tomé Joaquim Gonzaga Neves, o primo teatrólogo que desempenharia as funções de auditor do regimento do cais em Lisboa(22).
  Mas, se alguma dúvida persistisse, não seria por falta de notícias. No final do ano, outro navio traria novo exemplar da Gazeta de Lisboa, com data de 29 de junho de 1793,  em que se lia: "Saíram à luz: Os Liras (sic) do Doutor Tomás Antônio Gonzaga cuja obra tem merecido geral aplauso. Vendem-se a 240 réis em Lisboa na loja da Gazeta e na da Academia e no Porto na de Antônio Álvares Ribeiro".
  Era a terceira nota da seção do suplemento extraordinário do número XXVI, em que se anunciava o lançamento de livros. As outras novidades eram um Tratado prático das manobras dos navios em que se ensina o modo de dar-lhes todos os movimentos por meio do leme, velas e vento, de dom Antônio Gabriel Fernandes, mestre de Matemática da Real Academia dos Guardas-Marinhas de Cádiz; a segunda parte das Poesias Líricas, de Francisco de Paula Medina; e Eufêmia ou triunfo da religião, drama de Mr. D�Arnaud, traduzido em versos portugueses por Manuel Maria de Barbosa du Bocage.
  Eram as glórias que chegavam tarde e, portanto, frias(23), mas, ainda assim, a tempo: a Gazeta de Lisboa tinha ampla tiragem para a época, cerca de dois mil exemplares, e atingia, com o atraso imposto pelo regime de navegação à vela, todas as conquistas do ultramar(24). O navio traria não só várias edições da Gazeta de Lisboa, que noticiava com alarme a morte na guilhotina de Maria Antonieta, rainha da França, como alguns exemplares do pequenino volume de Marília de Dirceu, que logo correriam entre as mãos das pessoas mais cultas da ilha. A essa época, andariam também em Vila Rica, entre os comerciantes mais ilustres, como Manuel Teixeira de Queiroga, o Roquério das Cartas Chilenas, notório devedor fiscal e conhecido amante de bons livros(25).

1 Colima: cultura de terra.
2 Bicho: escravo de pouca idade.
3 Mapira: milho fino.
4 Banzadia: escrava para companhia e serviços da dona.
5 AHU, Moçambique, caixa 70, doc. 80, 12/5/1795.
6 J.V. da Gama, Almanque civil eclesiástico histórico-administativo da província de Moçambique para o ano de 1859, depois do 3� bissexto, 1859, p. 106.
7 Campos Oliveira, "Moçambique: a igreja de Nossa Senhora da Saúde", Brasil-Portugal, Lisboa,  n� 159, vol. 7, 1/9/1905, p. 240.
8 Macuta: palma de coqueiro.
9 Alexandre Lobato, A ilha de Moçambique, 1945, p. 75.
10 Sousa Ribeiro, Anuário de Moçambique, 1940, p. 816.
11 BNRJ, seção de manuscritos, I-46, 14, 10, certidão tirada na ilha de Moçambique em 17/4/1850. Ver também "Termo de inquirição dos contraentes Dr. Tomás Antônio Gonzaga e D. Juliana de Sousa Mascarenhas", publicado em Marília de Dirceu - liras de Tomás
Antônio Gonzaga, Rio de Janeiro, Livraria de B.L.Garnier, 1862, pp. 119-121.
12 Peralta: pessoa elegante.
13 BNRJ, seção de manuscritos, I-46, 14, 10.
14 IHGB, lata 360, pasta 12. O manuscrito de 1902, sobre dados biográficos de Gonzaga, não tem identificação de autor, mas a exatidão de algumas informações o faz digno de crédito. Apresenta, porém, alguns dados inexatos.
15 AHU, Moçambique, códice 1563, fl. 31v.
16 Alexandre Lobato, História do presídio de Lourenço Marques, p. 215.
17 AHU, Moçambique, caixa 61, doc. 51, 5/5/1793.
18 AHU, Moçambique, caixa 64, 8/5/1793.
19 Mafutre: designação dada aos franceses pelos cafres. Em Inhambane, nome também dado a todos os barcos estrangeiros.
20 AHU, Moçambique, caixa 75, doc. 44, 22/9/1796, documento em que o governador dom Diogo de Sousa diz que, "até esta
data, o comércio de Moçambique não sofreu nenhum dano por parte dos franceses".
21 AHU, Moçambique, caixa 122, doc. 8, 6/1/1808. Neste documento consta que Eleutério José Delfim, em 23/7/1796, ficou com o cargo  de "tenente-coronel do terço da infantaria auxiliar desta capital, vago por falecimento de Alexandre Roberto Mascarenhas no ano de 1793". O dia e o mês da morte de Mascarenhas não são conhecidos. Presume-se que o falecimento tenha ocorrido depois do matrimônio de sua filha com Gonzaga, pois da certidão de casamento não consta que Mascarenhas fosse falecido à época. A mãe de Gonzaga, Tomásia Isabel, consta da certidão como "já falecida".
22 Inocêncio Francisco da Silva, Dicionário Bibliográfico Português, t. 7, 1862, p. 320. Segundo Inocêncio, os filólogos José Maria da Costa e Silva, em 1844, e Francisco Freire de Carvalho, em 1845, entre outros, atribuíram Marília de Dirceu a Tomé Joaquim Gonzaga.
23 Tomás Antônio Gonzaga, Obras Completas, poesia 38, v. 43, 1942, p. 37.

24 Jorge de Macedo, O bloqueio continental - economia e guerra peninsular, 1962, p. 25.
25 Tarquínio J.B. de Oliveira, "Os casos da rua dos cobertos", AMI, 1978, p. 35.



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