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A ILHA DE MOÇAMBIQUE NOS FINAIS DO SECXVIII
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REVISITE A ILHA DE MOÇAMBIQUE CERCA DE 1790 PELA MÃO DO PROF. ADELTO GONÇALVES E PELA PENA
DE TOMÁS GONZAGA
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Da obra "Gonzaga, um poeta do Iluminismo"
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Terceira Parte Capítulo 7.
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7.
O ano de 1793 foi um período muito marcante na vida de Tomás Antônio Gonzaga. A vida
que parecia seguir bom rumo, de repente, sofreu um sobressalto com a chegada do novo capitão-general
e governador, dom Diogo de Sousa Coutinho, sargento-mor da cavalaria, nomeado por dona Maria I em 26
de maio de 1792. Ao contrário de Melo e Castro, seu antecessor, dom Diogo era homem pouco afável,
nada político e excessivamente arbitrário e irritadiço. Talvez porque já tivesse chegado doente à ilha,
sofrendo de escorbuto e lepra. Sete meses depois da posse, sua mulher, Ana Cândida, morreu, o que lhe
provocou profundo desgosto e aumentou o seu mau humor. Era fidalgo do conselho de Sua Majestade e descendia
de uma família ilustre - os Sousa Coutinho -, experimentada na governação ultramarina em Angola, Brasil,
ĺndia, Moçambique e na pasta da marinha e conquistas. Antes mesmo de deixar a Corte, dom Diogo
escreveu uma carta à rainha em que pedia instruções e recursos para tomar uma série de medidas, inclusive,
a de construir um cemitério na ponta da ilha para evitar que os mortos continuassem a ser enterrados
ao lado das igrejas. Na carta, acusava o ouvidor de Moçambique, Dias e Barros, de ter arrogado para si
o provimento do cargo de escrivão da provedoria de defuntos e ausentes, com base no regimento da provedoria(1).
Lembrou que esse procedimento havia sido adotado por ocasião do governo interino (1783-1786), do qual
era membro o ouvidor Morais Durão, e que o governador seguinte, Melo e Castro, havia tolerado a "usurpação"(2).
Dom Diogo argumentou que o regimento dos governadores das capitanias da América e das Ilhas permitia
aos capitães-generais prover interinamente todos os ofícios da repartição da fazenda e justiça.
Foi com esse estado de espírito que desembarcou na ilha de Moçambique em março de 1793. Mais irritado
ainda ficou quando constatou que Dias e Barros, em seus últimos dias, recorrera aos serviços de um degredado,
o ex-ouvidor de Vila Rica, Tomás Antônio Gonzaga, que, pior ainda, havia sido nomeado, pouco tempo depois,
promotor do juízo de defuntos e ausentes pelo novo ouvidor, Tavares de Siqueira. Tentou mudar a
situação, mas nunca receberia da Corte uma resposta positiva para a carta em que sugerira que o procedimento
seguisse o que dizia ser comum nas capitanias da América e Ilhas. Talvez para não se atritar logo de
início com o ouvidor Tavares de Siqueira, tolerou a presença de Gonzaga como promotor do juízo de defuntos
e ausentes. E também a do futuro sogro do inconfidente, Alexandre Roberto Mascarenhas, exatamente o escrivão
da provedoria de defuntos e ausentes provido pelos antigos ouvidores Morais Durão e Dias e Barros.
Por decisão de dom Diogo, quase todos os degredados que haviam sido condenados para outras conquistas
da costa oriental africana não puderam continuar na ilha de Moçambique. Tiveram de seguir para o lugar
que determinava cada condenação. Foi um duro golpe. Salvador Carvalho do Amaral Gurgel, com 30 anos ao
chegar à ilha, logo a 7 de setembro de 1792, havia sido admitido como ajudante de cirurgião-mor do regimento
de infantaria(3), Consigo Gurgel havia levado o estojo com instrumentos cirúrgicos que lhe fora devolvido
pelas autoridades às vésperas do embarque(4). O físico-mor da capitania, João Domingos Tosco,
até lhe fornecera um elogioso atestado de sua capacidade em 20 de março de 1793. Mas, em novembro, Gurgel
já estava no destacamento de Inhambane em companhia do coronel José Aires Gomes(5). Ao que parece, o
único benefício que Gurgel teve foi a alteração de seu degredo de Catalá para Inhambane, embora pouca
diferença pudesse haver entre as duas povoações(6). José Aires Gomes, antigo fazendeiro da Borda
do Campo, na Mantiqueira, nunca receberia resposta para o pedido de redução de pena, que fizera com a
ajuda de Gonzaga. Vicente Vieira da Mota, guarda-livros, nascido no Porto, que fora caixeiro de João
Rodrigues de Macedo por onze anos e um dos principais disseminadores dos ideais dos inconfidentes, iria
para a vila de Sena, onde morreria por volta de 1798, com aproximadamente 63 anos de idade(7).
O carpinteiro e piloto Antônio de Oliveira Lopes, o Fraca-Roupa, reinol da vila de Abranches, comarca
e bispado da Guarda, que residira em Itajubá, Minas, não iria cumprir a pena na Macuana, no Norte da
capitania, território dos negros bantos sujeito à jurisdição portuguesa. Tinha 67 anos em 1793 e, talvez
por comiseração do governador, pôde continuar na ilha de Moçambique, onde morreu antes de 1800(8).
Os outros dois também ficaram próximos a Gonzaga porque assim determinavam suas penas. João da Costa
Rodrigues, antigo estalajadeiro de Varginha de Queluz, foi morar no Mossuril, no continente fronteiro,
onde morreu em data ainda desconhecida. E o alfaiate Vitoriano Gonçalves Veloso, ex-alferes, mulato nascido
livre, o único pardo entre os inconfidentes e o único condenado que foi obrigado a dar três voltas ao
redor da forca, além de ter sido açoitado publicamente, passou a morar na Cabaceira Grande, onde se empregou
como caixeiro de um negociante de marfim(9). Lá morreu em 1803 com 65 anos de idade(10). Não foi
por falta de insinuações e apelos do governador que o ouvidor Tavares de Siqueira decidiu manter Gonzaga
no exercício das funções de promotor do juízo de defuntos e ausentes e de advogado dos auditórios públicos.
Em relatório à Corte, dom Diogo deixou claro: "É certo que o atual ouvidor contra o meu voto e os meus
conselhos tem insistido em conservar o doutor Tomás Antônio Gonzaga no exercício de promotor do juízo
de defuntos e ausentes, para que o nomeara, e no de advogado dos auditórios públicos, ainda apesar de
saber que ele é bastantemente venal nas funções da primeira destas ocupações, e sumamente embrulhador
e intrigante nas da segunda"(11). Mais adiante, disse o governador: "Em quanto ao mais que neste
artigo respeita ao dito Gonzaga, é verdade que está com o cérebro desconcertado e consta-me que, sem
tirar lição de sua desgraça, ainda conserva alguma soltura de língua em matérias concernentes a diferentes
constituições; mas nem há que recear conseqüências públicas disso, nem por ora as suas práticas particulares
obrigam a procedimento grave contra ele". Mesmo com a oposição do governador, o doutor Tomás Antônio
Gonzaga continuou a fazer o seu trabalho. Sob a administração de Melo e Castro, tivera a oportunidade
de mostrar o seu valor e conquistara o respeito da comunidade. E o próprio dom Diogo de Sousa teria,
logo em seus primeiros dias de governo, ocasião de ver a importância de um advogado de alto saber para
uma conquista tão desprovida de talentos. A história começou no dia 3 de fevereiro de 1793, quando
aportou à ilha uma chalupa que trazia sobreviventes do navio Winterton, da Companhia Inglesa, que naufragara
no dia 20 de agosto de 1792, ao colidir com um recife pouco distante da costa ocidental de Madagáscar(12).
Os náufragos que chegaram à ilha eram o comerciante Tomás de Sousa, nascido em Lisboa e estabelecido
em Bombaim, dois pilotos e quatro marinheiros. Eles contaram que, com o naufrágio, não houvera
perda de vidas, apesar da presença de mulheres a bordo. Os náufragos escaparam em jangadas e pequenos
barcos. Mas, quando chegaram à terra, foram constrangidos pelos negros da costa da baía de Santo Agostinho,
na ilha de São Lourenço de Madagáscar, e tiveram todos os seus pertences apreendidos, de acordo com o
costume na região. Depois de muitos dias, o comerciante tivera permissão do régulo local para sair
no bote em que se salvara, em companhia dos pilotos e marinheiros. Chegaram a Sofala em 15 dias e seguiram
para Quelimane, onde embarcaram na chalupa que os levara à ilha de Moçambique. Aquela odisséia durara
quase seis meses. Ao saber do naufrágio, o governador Melo e Castro mandou uma pala buscar os náufragos
na baía de Santo Agostinho. Os náufragos só chegariam à ilha no dia 11 de abril de 1793, quando dom Diogo
de Sousa já havia assumido o governo. Dos 130 sobreviventes, poucos puderam desembarcar por seus próprios
pés, de tão debilitados que estavam. O advogado dos auditórios públicos Tomas Antônio Gonzaga teve, então,
muito trabalho para escrever petições em que os náufragos pediam ajuda à Corte e a familiares no Reino.
Por aqueles dias, Gonzaga já estava restabelecido da doença que o acometera ao final de dezembro.
Logo reassumiria a defesa do tenente Pacheco e prepararia o embargo que apresentaria contra a sentença
que condenara o militar ao degredo na vila de Sena. Vivia dias de enlevo semelhantes aos que passara
em Vila Rica, à época em que bordava roupas à espera do casamento com Maria Dorotéia, a sua Marília.
Ao ser surpreendido por uma moléstia nos últimos dias do ano, Gonzaga caiu de cama, mas teve a ampará-lo
vários amigos. Um deles, Alexandre Roberto Mascarenhas, que ocupava o cargo de escrivão do juízo da provedoria-mor
da fazenda de defuntos e ausentes e era seu subordinado, levou-o para a sua confortável casa na ilha
de Moçambique, onde o ajudou a superar aqueles meses de dezembro e janeiro de abundância de chuvas e
intenso calor. O poeta voltara a sentir os sintomas das enfermidades do fígado e da vesícula biliar
que o perseguiam ao tempo em que fora ouvidor de Vila Rica. Perdera o apetite, enchera-se de náuseas
e dores de cabeça, sentira febre, vomitara bílis e tivera delírios - a fermentação formara a "febre podre".
Era comum que isso ocorresse a quem não estava ainda acostumado ao clima, aos europeus principalmente.
Tão doentios eram aqueles ares que os da terra sempre recomendavam que fossem evitados passeios pela
ilha das nove às quatro da tarde, de dezembro até o fim de abril(13). Aqueles ares, acreditavam, tornavam
as pessoas biliosas, melancólicas, azedas e displicentes. A língua fazia-se mais comprida e aguçada,
os amores próprios tornavam-se mais susceptíveis, a autoridade mais imperiosa, as emulações mais ásperas,
as opiniões menos tolerantes e as paixões mais violentas(14). Foi graças ao desvelo da filha de
Mascarenhas, Juliana, e de sua mulher, Ana Maria, que Gonzaga recuperou a saúde. Quando deixou a casa,
já estava apaixonado por Juliana. Não guardava mais esperança de reencontrar Maria Dorotéia Joaquina
de Seixas. Até porque seria ir longe demais imaginar que Maria Dorotéia pudesse desafiar a lei e viajar
para Moçambique a fim de se encontrar com Gonzaga, embora tenha recebido licença da rainha em 13 de fevereiro
de 1797 para viajar ao Reino em companhia da tia Clara Gertrudes de Seixas da Fonseca Borges(15).
Àquela altura, Gonzaga já teria outros objetivos. Era um homem de 48 anos, que sempre sonhara com uma
moça honesta que lhe pudesse dar um casamento repousante. Em sua poesia sempre fizera o culto do heroísmo
civil e pacífico e do acatamento à normas burguesas:
Nas noites de serão nos sentaremos
c�os filhos, se os tivermos, à fogueira: entre as falsas histórias, que contares, lhes
contarás a minha, verdadeira: pasmados te ouvirão; eu, entretanto, ainda o rosto banharei
de pranto(16)
Agora, estava outra vez diante de uma Marília que, com certeza, não o recusaria,
mas cujo pai era sete anos mais jovem que ele(17). Em compensação, poderia oferecer à filha do amigo
uma situação rara naquela capitania perdida da costa oriental da África: não era algum vaqueiro, que
vivesse de guardar gado alheio(18), era experiente, tinha posição social, dons imortalizantes de poeta
e até boas perspectivas econômicas porque, naqueles dias, já se podia considerar homem de algumas posses
e, por seu notório saber, uma das principais pessoas da vila. Decidiu, então, arriscar-se a pedir a mão
da moça em casamento e só encontrou júbilo por parte do novo amigo. Era, outra vez, um homem feliz.
1 AHU, Moçambique, caixa 63, doc. 49, 2/10/1792. A essa altura, Dias e Barros já havia deixado o cargo.
2 AHU, Moçambique, códice 1351, fls. 68-69. Nesta anotação, consta provisão do governador Melo e Castro,
com data de 21/8/1792, dizendo que cabe ao ouvidor também nomear os escrivães. 3 AHU, Moçambique,
códice 1349, fl. 51, 7/9/1792. Das anotações, consta que Gurgel era solteiro, natural da vila de Parati,
comarca do Rio de Janeiro, tinha 30 anos de idade, olhos pretos, cabelos castanhos e 5x5 polegadas de
altura. 4 ADIM, 2� ed., vol. 6, p. 486. 5 AHU, Moçambique, códice 1349, fl. 51. 6 AHU, Moçambique,
códice 1360, fl. 105, 2/11/1793, anotação em que dom Diogo manda Gurgel para Inhambane e determina ao
governador local que lhe garanta mantimentos por dois meses. 7 ADIM, 2� ed., vol. 1, p. 100, nota
de Tarquínio J.B. de Oliveira. 8 Idem, ibidem, vol. 2, p. 260. Augusto Lima Júinior, História da
Inconfidência de Minas Gerais, p. 261, dá Lopes como morto em 1794 e enterrado na capela de Porto Belo,
na Zambézia. Seus restos mortais, como os dos demais, teriam sido recolhidos em 1936 e levados para o
Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, Minas Gerais. 9 Augusto Lima Júnior, op. cit., p. 260. 10
ADIM, 2� ed., vol. 1, p. 114; e vol. 2, p. 160, nota de Tarquínio J.B. de Oliveira. 11 AHU, Moçambique,
caixa 72, doc. 58, posterior a nov.1795. 12 AHU, Moçambique, caixa 64, doc. 2, 3/2/1793. 13 Joaquim
José Varela, "Descrição da capitania de Moçambique e suas povoações e produções, pertencentes à Coroa
de Portugal", c. 1788, Fontes para a História, Geografia e Comércio de Moçambique, Anais da Junta de
Investigações do Ultramar, 1954, vol. 9, t. 1, p. 293. (Original no ANTT, Ministério do Reino, caixa
706, maço 604). 14 Antônio Ennes, "De Lisboa a Moçambique", Serões, Lisboa, vol. 1, n� 4, 1901,
p. 222. 15 AHU, Conselho Ultramarino, códice 610, fl. 200, 13/2/1797. 16 Tomás Antônio Gonzaga,
Marília de Dirceu e mais poesias, parte II, lira 15, 1982, p. 109. 17 AHU, Moçambique, caixa 53,
doc. 5. Nos autos da devassa aberta contra o ex-governador Vicente Caetano da Maia e Vasconcelos, em
27/2/1787, Alexandre Roberto Mascarenhas aparece como testemunha. É sargento-mor do terço de auxiliares,
vive de suas fazendas e tem 36 anos de idade, "pouco mais ou menos". 18 Tomás Antônio Gonzaga, Obras
Completas, poesia 58, vv. 1-2, 1942, p. 3.
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