MAGUL

 

Havia festa em Magul � a uma cen�tena de quil�metros de Louren�o Marques, passada a Manhi�a e Xinavane, por conse�qu�ncia, nos arredores da capital.

Assinalava-se mais um anivers�rio da vit�ria alcan�ada sobre as mangas do Gungunhana. Recordava-se o nome pur�s�simo de Paiva Couceiro.

A festa era mais rija do que o costu�mado, pois gozava da presen�a de um Mi�nistro das Col�nias. E, por esse motivo, t�o rija que a homenagem parecia rendida ao Ministro e Magul funcionava como vaso de incenso, altar e terreiro de espect�culos.

Vamos a Magul.

O percurso � agrad�vel.

Pass�mos Maracuene, em correria.

Bordej�mos a seguir o vale do Incomati, que (dizem ainda substanciais relat�rios e sugere-o o recorte f�sico do terreno) poderia ser, como outros vales h�midos deste Sul do Save, celeiro, pomar e talho, abundant�ssimos e generosos.

� apenas um vago e mal amanhado mostru�rio de possibilidades. Top�mos arrozais e planta��es de bananeiras, quase perdidas na imensidade dos incultos. As planta��es de bananeiras resgatam at� certo ponto o panorama pobre da ocupa��o agr�cola: um grande tapete verde de folhas largas e pregui�osas ocupa j� uma superf��cie impressionante, e rende para o proprie�t�rio e para a economia da col�nia valores consider�veis. O esplendor fresco e, ao mesmo tempo, solene, de paisagem com�pensa os esp�ritos contemplativos de melan�colia que fere os esp�ritos utilit�rios. Na Manhi�a, povoado sede de circunscri��o, alcan�ado quarenta quil�metros al�m de Marracuene, houve um homem de bom gosto que preparou, num poleiro ideal do terreno, uma varanda esplendorosa sobre o vale. O quadro merece a viagem � Manhi�a. Toda a beleza magestosa da enorme lez�ria se oferece a� para deslumbramento de tu�ristas. O verde dos vegetais, a suavidade de cor dos planos profundos, as brandas neblinas que empoam o azul � e a extens�o esmagadora dos horizontes, elevam a con�templa��o �s alturas espirituais das gran�des emo��es de arte.

Neste Sul do Save mon�tono, pobr�ssimo de paisagem e de frescura, todo ele imbu�do de melancolia pesada das estepes�a va�randa da Manhi�a � j�ia rara, por onde n�o passar� sem assomar-se nenhum esp�rito de bom gosto.

Mais al�m, rodados mais umas dezenas de quil�metros, a estrada desce e penetra no vale. De um lado e outro da estreita passadeira estendem-se a lonjuras a lez�ria de Xirravane. Parece agora, nesta �poca ressequida do ano, uma grande estepe. Surgem manadas de bovinos tasquinhando os primeiros reben�tos verdes. � outro aspecto, outra forma das terras marginais do Incomati.

Bordejamos as planta��es da Compa�nhia A�ucareira �Incomati States�, ao longo da cortina do canavial�e, at� Magul, a paisagem n�o merece a fadiga de a contemplar.

Se por�m a paisagem f�sica, na sua �rida chateza, aborrece as vistas que a pro�curam - a paisagem hist�rica, mesmo diminu�da pelo aparato oficial das cerim�nias comemorativas, tem a cor, o relevo e os horizontes dos melhores quadros da His�t�ria de Mo�ambique. De Magul � daquele peda�o de terra plana e ressequida em que se ergue o monumento � v�em-se, em golpe de vista lan�ado de culmin�ncia para lonjuras, o quadrado de Marracuene, a batalha de Coolela e o acto apote�tico que foi a pris�o do Gungunhana.

Enquanto decorrem, perante a multid�o dos negros, chamados como vencidos a homenagear os vencedores e perante os bu�rocratas da administra��o, as fases m�s�ticas do cerimonial comemorativo�re�cordo, de um lugar tranquilo, as p�ginas de Hist�ria que consagraram o nome e as ter�ras de Magul.

Poucos anos antes de Magul, era este Sul do Save, sem limites definidos, hora amarga da noite negra que precedeu a obra de ocupa��o. Politicamente, uma esp�cie de vago protectorado, mantido, as mais das vezes com desvantagem e preju�zo, ora por manobras diplom�ticas em que o prest�gio da soberania sofria frequentemente humilhantes desaires. Praticamente nada diferia, na ess�ncia, da paisagem pol�tica e social dos vastos territ�rios ocupados por potentados gentios: as correrias guerreiras, as inva�s�es e emigra��es, as intrigas sucess�rias e din�sticas, enfim, a permanente fervura de sociedades b�rbaras, ainda fortes pelas suas institui��es e pelo n�mero, perma�nentemente movimentadas pela inquieta���o tr�gica dos povos bantos. Os colonizadores europeus tentando, cada vez mais insistentemente, as penetra��es profundas, e procurando sofregamente direitos de ocupa��o, intrometiam-se na intriga e nas contendas ind�genas, procurando cada um orient�-las a favor dos seus des�gnios.

A situa��o dram�tica resultava espe�cialmente do interesse suscitado pela �frica entre algumas na��es poderosas da Europa�interesse que desencadeava campanhas diplom�ticas e corridas expansionistas, ver�dadeiras corridas de obst�culos em matos eri�ados de complicadas e trepidantes soberanias gent�licas.

Na �ltima d�cada do s�culo passado, cerca de 1894, ganhos j� pelo antigo pre�s�dio de Louren�o Marques, os foros de cidade�n�o se rompera ainda, todavia, completamente, o cerco abafante que se opu�nha � expans�o da soberania no sentido das terras do interior. A org�nica administra�tiva compreendia um distrito de Louren�o Marques, mas, na verdade s� precariamente domin�vamos um escasso territ�rio, de limi�tes indefinidos, ao longo do rio Incomati e para Sul do rio Esp�rito Santo. Para al�m de Cossine (no Norte e no vale do Incomati) eram as terras do Gungunhana � um potentado que condescendia em dizer-se vassalo de Portugal... uma vez que lhe respeit�ssemos a independ�ncia.

Arrumada, com a senten�a arbitral de Mac-Mahon, a quest�o com a Inglaterra e desviado assim o mais perigoso concorrente �s terras do Maputo � perma�necia, no interior que envolvia a cidade nas�cente, a soberania de facto dos r�gulos ind��genas, contra a soberania que pretend�amos fazer reconhecer. Por detr�s dessa pesada cortina surgia outra vez a Inglaterra, cati�vando o Gungunhana.

No pr�prio distrito, rijamente apertado entre o mar e as terras do Gungunhana, s� domin�vamos efectiva e soberanamente a cidade de Louren�o Marques e os arredores. O restante territ�rio � as chamadas terras da coroa, onde se cobrava imposto de pa�lhota e se recrutavam soldados e trabalha�dores � era um mosaico de regulados que, apertados entre o poderio do Gungunhana e os estabelecimentos portugueses, re�ceando ambos, ora se apoiavam em uma ou outra for�a. N�o distava mais do que a 1872 a �ltima grande chacina sofrida pelos por�tugueses de Louren�o Marques.

Em resumo: opunham-se � expans�o da cidade e � ocupa��o efectiva do territ�rio, uma regi�o habitada por r�gulos-vassalos insubmissos, apesar de sujeitos ao imposto e ao servi�o militar (nas terras da coroa �e, nos seus dom�nios, para al�m da Cossine, o Gungunhana derri�ado pela di�plomacia sertaneja de portugueses e in�gleses.

Era esta a situa��o, recordada naquela hora festiva de Magul, a tra�os grossos e breves.

Resta lembrar tamb�m quem eram os povos que se nos opunham�av�s, daque�les que participam hoje, com m�micas de guerra,�� nas� festas� comemorativas� do combate. O Gungunhana era um Zulu (v�tua) na�� denomina��o�� portuguesa) descendente de aguerridos chefes, cujo������ poder e prest�gio tiveram como fundador o c�lebre Tshaka � pol�tico e guerreiro t�o not�vel que ficou conhecido como o Napole�o negro da �frica do Sul

Tshaka obteve o poder, impondo-se, pela for�a de que dispunha como chefe do ex�r�cito e como guerreiro de altas qualidades, herdeiro do soberano de sangue da Zulul�ndia�o Dinjissnaio. Dois dos melhores generais�o Mosselakatse e o Manikusso � bons disc�pulos da sua escola pol�tica e guerreira � seguiram-lhe o exemplo. Quando as conquistas de Tshaka excediam j�, territorialmente, as suas capacidades para govern�-las e mant�-las, resolveram estes seus generais, libertar-se do comando do chefe supremo e prosseguir nas conquis�tas � mas em proveito pr�prio.

Mosselakatase, depois de aventuras guerreiras mais ou menos afortunadas, que o levaram a terras da Rod�sia, fundou a� o reino dos Matabeles, de que foi o primeiro rei. Manikusso, avan�ando, raziando, con�quistando, entrou pelo Maputo e foi at� � Cossine (Mazimchope). Consolida prest�gio e poder derrotando um outro general do Tshaka que viera em sua persegui��o � e, assim destravado, estende a sua conquista at� �s margens do Zambeze para onde empurra o seu antigo aliado Sangadaba.

Tudo decore, como se v�, conforme os moldes cl�ssicos das intrigas sucess�rias e guerras gentias em toda a �frica banto.

Em 1834, eram tamanhos o poder e ousadia do Manikusso que Louren�o Mar�ques foi atacada pelas suas tropas e truci�dada a pequena guarni��o que defendia o Pres�dio.

Estava fundado, com este Manikusso, que s� em 1861, viria a morrer em Bilene, o reino que mais tarde seria do Gungunhana.

Depois�� de�� Manikusso�� veio�� seu�� filho Mau�ua, que logo se ati�ou contra um irm�o�o Muzila�obrigando-o a refugiar-se no Transval.

Os portugueses resolveram ent�o, habil�mente, tomar partido pelo exilado, que tendo, com este aux�lio, conseguido derro�tar o Mau�ua e ocupar o trono, se reconhe�ceu vassalo de Portugal.

Morreu em 1883. Devia suceder-lhe Mafemane, seu filho e herdeiro leg�timo. Mas outro filho, sem direitos, que lhe cobi�ava a heran�a e o poder, mandou-o assassinar.

O assassino chamava-se Mardungaz ou Mordungaz�mas subiu ao trono com o nome de Gungunhana.

A morte do nosso aliado Muzila preo�cupou naturalmente a governa��o portu�guesa. O sucessor respeitaria ou n�o os sen�timentos de gratid�o e obedi�ncia de seu pai. Da sua crueldade e esp�rito sanguin�rio dera imediatamente provas: da sua versa�tilidade sabia-se que era soberano do gentio�e isso bastava.

A habilidade de um sertanejo, antigo oficial do ex�rcito, armado em embaixador junto do Gungunhana � Jos� Cavaleiro de Alegria Rodrigues�permitiu que as coi�sas se n�o descompuzessem at� 1894. N�o s� o Gungunhana se manteve relativamente fiel nas suas terras, para al�m da Cossine, sem incomodar desmedidamente as autoridades portuguesas e o gentio do distrito de Louren�o Marques�como tamb�m concordou em aceitar, como vas�salo, algumas condi��es essenciais para a afirma��o dos nossos direitos de soberania perante o mundo civilizado. Praticamentegozava magn�fica independ�ncia�e fun�cionava, de facto, como sombra negra, amea�a permanente.

Exageravam-se certamente o seu poder, a organiza��o militar do seu ex�rcito, as suas riquezas�at� a extens�o dos seus dom�nios. Mas, descontados mesmos os exageros, o Gungunhana era, na ver�dade, o potentado mais temido e influente da col�nia, depois do Monomotapa. Os r�gulos v�tuas enfeudados ao Gungunhana dominavam, pelo menos, todos os vastos territ�rios que se estendem� do Incomati at� ao Zambeze e do pa�s dos Matabeles (Rod�sia) at� ao Oceano.

A corte� do soberano funcionava em Manjacaze, povoa��o que ele fundara, con�forme a tradi��o din�stica, como seu pai fundara o Udongo e Manikusso o Chaimite. A calma em que se vivera entre o rei�nado de Muzila e 1894�calma relativa, muito eri�ada de preocupa��es, erros e fraquezas, agravadas pela�� eterna�� incom�preens�o do Terreiro do Pa�o acerca das realidades pol�ticas e administrativas das col�nias�quebrou-se aparatosamente com uma insurrei��o dos principais r�gulos das terras da coroa. N�o tardou que a revolta se esten�desse e avassalasse quase todo o distrito de Louren�o Marques.

A cidade viu-se novamente amea�ada, reduzida outra vez � situa��o de burgo cer�cado - como amea�ado estava todo o pr�prio esfor�o realizado nos �ltimos anos para vencer as terras do interior.

Por detr�s dos revoltosos espreitava o Gungunhana.

Por detr�s do Gungunhana esperavam activamente os ingleses.

N�o bastavam as tropas aquarteladas em Louren�o Marques para defender a cidade. Cada habitante teve de fazer-se sol�dado. Fortifica��es improvisadas procura�ram aumentar a capacidade de defesa. O estado de alerta tornou-se permanente � e a fadiga, as vig�lias, amea�avam vencer a popula��o como aliados dos negros revol�tados.

Em 14 de Outubro, foi a cidade violen�tamente assaltada. Defendida com deses�pero, os assaltantes foram repelidos ao cabo de uma hora angustiosa de combate. E s� a fome e as dissid�ncias entre os r�gulos assaltantes impediram novas investidas do gentio.

Em Novembro chegavam refor�os da Metr�pole, que consolidaram a posi��o de�fensiva e puseram Louren�o Marques a coberto de novos assaltos � mas por falta de capacidade ofensiva a situa��o n�o se modificou. A cidade continuava cercada.

Produz-se ent�o um acontecimento raro na amargurada Hist�ria de Mo�ambique � Hist�ria de her�is e de m�rtires sacrificados a incapacidades pol�ticas e administrativas: o Governo considera a gravidade da situa��o, sem ilus�es nem cobardias, e escolhe para enfrentar o homem recomendado pelas mais altas qualidades.

Ant�nio Jos� Enes, homem de letras e homem de ac��o, esp�rito combativo e esp��rito estudioso, energia clara e reflectida

� o pol�tico que sabia pensar como homem de ideias e agir como homem de ac��o, que amava os valores e n�o os invejava, que n�o se sentia deminuido com os triunfos e as gl�rias dos seus colaboradores, e para o qual a pol�tica era apenas o meio de servir supe�riormente o seu pa�s�foi nomeado Comis�s�rio R�gio e enviado a Mo�ambique, com os poderes necess�rios.

N�o tornaria a verificar-se na pol�tica colonial da Na��o esta feliz coincid�ncia perante uma situa��o de gravidade ou emerg�ncia: um Governo reconhecendo nobremente a sua incapacidade para resol�ver directamente, e a dist�ncia, problemas de governo local; uma pol�tica que consentiu a nomea��o do homem mais indicado para enfrentar uma grande quest�o, desistindo de impor, conforme as suas tend�ncias e tradi��es, o primeiro med�ocre categorizado pela influ�ncia e compadrio,� finalmente � o pr�prio Homem.

A coincid�ncia entre estas circunst�n�cias e estes valores libertam definitiva�mente Mo�ambique das amargas aventuras do seu passado, entregando a col�nia, livre�mente, �s suas extraordin�rias possibili�dades de futuro.

Principia ent�o � e desta vez em ascen��o gloriosa e firme�o per�odo moderno da Hist�ria de Mo�ambique.

Ant�nio Enes concebe um plano pol�tico, � e todas as virtudes do plano res�saltaram � medida que a sua execu��o se ia desenvolvendo.

Um plano directo, objectivo, de homem de ac��o que sabe pensar e sabe rir dos ret�ricos de Biz�ncio: sufocar e punir a revolta das gentes das terras da coroa, em termos de n�o ficarmos � merc� de outras; partir da defensiva organizada para a ofen�siva decidida, conduzindo esta at� � pacifi�ca��o real e definitiva; criar as possibili�dades t�ticas e estrat�gicas de ataque ao Gungunhana � e atac�-lo, logo que as cir�cunst�ncias o permitissem, com o fim de o reduzir a verdadeiro vassalo da coroa, ou aniquil�-lo.

O homem de letras soubera subtrair-se inteiramente �s tenta��es liter�rias que, no seu tempo, e entre os homens da sua for�ma��o, deformavam os entendimentos pe�rante as realidades.

O plano, precisamente concebido, seria preciosamente executado: dos elementos materiais, das oportunidades, da selec��o e est�mulo aos valores, das particularidades ambientes�de tudo, enfim, cuidou supe�riormente o extraordin�rio chefe.

E aqueles que com ele serviram conhe�ceram a gl�ria de servir, a gl�ria de man�dar, a gl�ria de obedecer�sem sofrerem decerto a melancolia dos valores que apo�drecem por n�o terem encontrado um chefe.

Em 28 de Janeiro de 1895, procedendo a organiza��o da rectaguarda a reconheci�mentos cautelosos, abalava de Louren�o Marques a primeira coluna da ofensiva. Tratava-se de ocupar Marracuene, �ptima posi��o sobre o Incomati, e de exercer a pri�meira ac��o punitiva sobre os rebeldes.

No� dia� imediato assentaram-se arraiais, junto � margem do rio, no chamado Alto da Massinga. As tropas tinham sido rudemente experimentadas� pela� fadiga� e� pela chuva�e hesitava-se entre prosseguir as opera��es na margem direita do Incomati e retirar de Marracuene para Louren�o Marques, depois de instalar ali um posto militar� de� ocupa��o.� Tudo� dependia� do tempo melhorar, ou continuar a chuva a impedir prop�sitos mais ofensivos.

As coisas pareciam indicar que a sim�ples presen�a da coluna afugentara os re�beldes. N�o se pressentia inimigo nem se quebrara o soc�go das primeiras noites mal dormidas em bivaque.

Inesperadamente, pelas quatro horas da madrugada de 2 de Fevereiro, acabavam as tropas de despertar � ordem do toque de alvorada, foi o quadrado t�tico violenta�mente acometido e roto em uma das faces. E o combate principiou em luta corpo-a-corpo.

A surpresa, a fadiga das tropas, a escurid�o da noite, a vozearia b�rbara do gentio, provocaram o p�nico � e tudo redundaria em tr�gico desastre, de incal�cul�veis consequ�ncias, se a t�mpera e bra�vura de alguns oficiais o n�o conjurasse, em prod�gios de energia her�ica. O nome de Roque de Aguiar grava-se para sempre, na Hist�ria de Mo�ambique, durante este quarto de hora de ang�stia. Outros o acom�panham em esplendor her�ico. Conseguem estes oficiais reconstituir o quadrado, rea�nimar os t�midos, excitar os bravos e, por fim, mudar inteiramente a fisionomia do combate. Os assaltantes, a cuja bravura se deve tamb�m justa homenagem, s�o repeli�dos. E do quadrado assim reorganizado, depois de sacudida a luta corpo-a-corpo, par�tem balas, em rajadas, que os desmoralizam. A luta a dist�ncia perde logo intensidade. E antes que a manh�� rompesse a batalha estava ganha � e conclu�da com as primeiras luzes do dia, �s seis horas.��������������������������������������

Fora vencido um rude e perigos�ssimo passo.

O desastre que pairou sobre o quadrado de Marracuene teria sido, a consumar-se, talvez irrepar�vel. Juntaria aos rebeldes os poucos r�gulos que ainda se conservavam na espectativa; lan�aria as terras da coroa para os bra�os �vidos do Gungunhana � e teria certamente decidido este contra n�s.

Louren�o Marques dificilmente se teria salvo.

A vit�ria arrancada, contra as pr�prias circunst�ncias que pesaram consider�velmente a favor da derrota, surtiu efeitos opostos. Sen�o diametralmente opostos, pelo menos suficientes para desembara�ar o caminho at� esta planura de Magul, onde me encontrei naquela manh� festivamente ministerial, a recordar estas coisas.

A vit�ria significou a conquista do ter�rit�rio � mas n�o realizara a pacifica��o. Os r�gulos rebeldes debandaram para a sombra do Gungunhana, levando as suas gentes, e deixando praticamente despovoa�dos os territ�rios da conquista.

Fora vencida a terra, tamb�m insubmissa e cruel, armada de chuvas copiosas, mosquitos e humidades corrosivas; fora vencido o gentio aguerrido que se levantara em alian�a com a terra inimiga � mas nem terra nem gentes estavam pacificadas.

Era necess�rio organizar uma paz nos territ�rios�� vencidos�� ��� e�� prosseguir�� a guerra; consolidar a vit�ria � e project�-la � dist�ncia. Demais estava indicado que se aproveitasse o favor das circunst�ncias, para� desanuviar de vez,� de todas� as nuvens negras, o c�u azul do Sul do Save. Isto �: para suscitar a oportunidade� de eliminar ou reduzir � impot�ncia o Gungunhana. O plano do Comiss�rio R�gio cumprir-se-ia at� final.

Reorganizados, com a decis�o de quem sabe o que quer, as for�as e o territ�rio, pas�sou-se � ac��o imediata: bater definitiva�mente os rebeldes vencidos, mas ainda n�o convencidos, das terras da coroa; ocupar em volta, e mesmo no interior das terras do Gungunhana, posi��es de onde o mantiv�s�semos em respeito de verdadeiro vassalo; se as circunst�ncias o permitissem, atac�-lo em profundidade, liquidando-o de vez como chefe de gentes v�tuas.

Era o caminho para Coolela e Chaimite, com escala por esta plan�cie de Magul�onde hoje nos encontramos, em ar de festa.

Em fins de Maio daquele mesmo ano de 1895 (bem se v� que a burocracia ainda n�o sujeitava desmedidamente os homens de ac��o) estavam as coisas preparadas e dis�postas para se principiar a cumprir o plano ofensivo do Comiss�rio R�gio.

Organizaram-se duas colunas � uma que se destinava a opera��es nas terras de Inhambane, e se chamava a coluna do Norte; outra que operaria no distrito de Louren�o Marques�a coluna do Sul. A primeira liquidaria de vez a insubmiss�o dos r�gulos das terras da coroa; a segunda levaria a ocupa��o de posi��es e demonstra���es de for�a, em volta e adentro das terras do Gungunhana, at� onde a fortuna o per�mitisse. Comandava a primeira o major Gomes Pereira, levando consigo oficiais como Paiva Couceiro, Freire de Andrade e Sanches de Miranda. Comandava a segunda o coronel Eduardo Galhardo, entre cujos oficiais se contava Mousinho de Albuquerque. Aquela primeira coluna, cuja mem�ria se fixou nesta terra rebarbativa de Magul, defrontava, conforme o his�toriador� dos� portugueses� em�� Mo�am�bique, a seguinte situa��o:

��Toda a regi�o para o Sul do Incomati e entre este rio e o mar estava pacificada, ou, pelo menos, n�o era abertamente hostil. A Magaia, depois das opera��es que ali se realizaram, foi abandonada pelos r�gulos rebeldes, o Matibejana e o Maazul, que se retiraram para o Norte; a Matola conser�vava-se sempre, ao menos na apar�ncia, a nosso favor; o r�gulo da Moamba e o seu aliado da Cherinda esperavam o resultado da luta para se pronunciarem, e entretanto n�o nos hostilizavam; a Manhi�a estava a nosso favor desde que as nossas tropas lhe pisavam o territ�rio; os povos de Intimane, repartidos em v�rios regulados, eram uns por n�s enquanto outros se bandeavam com o Gungunhana. Para al�m da margem esquerda do Incomati fica a Cossine, que obedecia a um r�gulo vassalo do Gungu�nhana chamado Chonguela Manavi, crian�a de quinze anos de quem era tutor um tal Massingele. Esta gente, que s� obedecia ao Gungunhana, por medo das suas sanguin�rias mangas, n�o se nos mostrou hostil. Para nordeste ficavam v�rios pequenos regulados, sujeitos a um chefe de nome Magioli, cujas rela��es com o senhor de Gaza eram mais �ntimas e portanto mais acentuado o esp�rito de hostilidade con�tra n�s. Era a�, com a gente desse r�gulo, com os cossas que mais o avizinhavam, e com os habitantes da margem do Limpopo, que o Gungunhana, parece, mais contava e com eles se propunha experimentar a sorte das armas�.

Apesar da vit�ria de Marracuene, a situa��o n�o era, por consequ�ncia, f�cil. O gentio rebelde do distrito de Louren�o Marques, certamente con�fiado no poder do Gungunhana, e con�vencido que era do interesse deste apoiar os seus prop�sitos de desforra, mostrava-se disposto a resistir e recuperar as posi��es perdidas.

A coluna entrou afoitamente na Cossine, onde estabeleceu um posto, e, em 30 de Agosto, iniciou a marcha na direc��o de Magul, onde ent�o o Matibejana residia e organizara o quartel general da resis�t�ncia.

Em 3 de Setembro alcan�ava a plan�cie de Magul.

Procuro distinguir a paisagem brava de ent�o no pac�fico recorte desta planura, agora animada por um monumento simples e esguio como ponto de exclama��o, em volta do qual h� um palanque armado e ban�deiras desfraldadas.

Uma superf�cie ch�, exposta � torreira do sol, atapetada de capins amarelos, quente como uma grelha. Meia d�zia de �rvores esquel�ticas, amarguradas, vagueiam, per�didas na solid�o. No horizonte uma onda branda do terreno, arborizada, recorta no c�u linhas crespas de mata pobre.

Cerro os olhos e parece-me ouvir, exala�dos da pr�prias paisagem, os acordes do poema musical de Borodine sobre as estepes da �sia Central.

Avistam-se as primeiras for�as inimi�gas j� a curta dist�ncia da mata que limita a plan�cie. Os auxiliares � gentes recruta�das nas terras da coroa, acobardados perante n�s depois da vit�ria de Marracuene, e acobardados perante os rebeldes, que n�o consideravam definitivamente vencidos � paralisados�� de�� pavor, recusam-se a prosseguir. In�teis todos os esfor�os para os imobilizar; e iriam pesar nas opera��es de combate, como mais um inimigo. Toda a coluna � obrigada a parar, tolhida pela paralisia nervosa de um dos seus �rg�os�e exactamente no momento em que uma paragem, por dar a entender receio ou hesita��o, se tornava mais arriscada.

Algu�m aparece, no entanto, disposto a sacrificar-se para salvar a situa��o.

� magro e comprido como D. Quixote. Pulsam no seu cora��o todas as generosidades her�icas do cavaleiro da Mancha. A sua consci�ncia � escrava da sua alma de cavaleiro. E seria mais tarde, somados os passos que deu na vida e o esp�rito que os conduziu, o car�cter de portugu�s mais puro do seu tempo.

Tinha a seu cargo o servi�o de segu�ran�a da coluna.

Chamava-se Henrique de Paiva Couceiro � e era ent�o s� tenente de artilharia.

Adiantou-se na direc��o do inimigo, a galope curto, bravo e sereno.

A sua aud�cia, a simplicidade e natu�ralidade do cavaleiro e, certamente tamb�m, o poder dominador que irradia dos gestos her�icos � impuzeram-se aos rebeldes. Couceiro, n�o s� os alcan�a sem receber ofensa, como tamb�m, chegado � fala, os intima, em voz de estertor, confiada e amea�adora, a entregarem o Matibejana. Dava-lhes tr�s dias�s� tr�s dias!�para cumprirem a intima��o. E se n�o cumprissem...

Dir-se-ia que trazia consigo o poder divino de castigar e perdoar.

Os rebeldes, assombrados, ouviram � e n�o ousaram o menor gesto contra o her�i.

Couceiro,� terminada a sua arenga� intimativa� e� amea�adora, volta as costas ao gentio e retira-se a passo.

Foi esta fa�anha que salvou a coluna de um ataque imediato e deu ao comando o tempo necess�rio para se refor�ar e conju�rar o perigo que resultava da cobardia dos auxiliares.

As tropas recuaram at� Xinavane sob o pretexto de a� aguardarem que decorresse o prazo fixado para a entrega do Matibejana. Na verdade procuravam apenas refa�zer-se do precal�o.

Passados tr�s dias, refor�adas e bem dispostas, avan�aram novamente.

Em 7 alcan�aram outra vez as terras de Magul. E na manh� de 8, marchavam ent�o a quil�metro e meio da mata que orla a plan�cie, sensivelmente neste lugar em que hoje nos encontramos, quando lhes sur�giram pela frente as mangas inimigas.

Era uma massa negra e ululante de cerca de sete mil guerreiros, apostados em envolver e chacinar os 275 brancos da coluna portuguesa.

O assalto n�o tardou.

Enquanto as colunas rebeldes se lan�am, desaustinadas e ferozes, a coluna, em qua�drado, defende-se a p� firme, golfando des�cargas compactas. Cortinas de fumo, espes�sas e amargas, ocultam o inimigo � e � necess�rio cessar fogo para render a atmossfera � sua transpar�ncia. Mas logo se v� que apesar das descargas cerradas, o inimigo conseguiu aproximar-se perigosamente. O fogo rompe outra vez, mais vivo, raivoso, cont�nuo, para tornar a cegar as vistas da coluna. Combate-se entre nuvens de p�lvora, numa luta de fantasmas. As mangas do Matibejana conseguem assim aproximar-se a menos de cem metros do quadrado. Mas a�, j� muito ceifadas, quebrados os �mpetos iniciais�hesitam. � o momento cr�tico em que a vit�ria se decide. Os auxiliares perce�bem o desgaste e fraqueza do inimigo. Pres�sentem que apesar do seu avan�o, ele n�o conseguir� transpor a curta dist�ncia que j� o separa do quadrado. E ent�o deci�dem-se. Com �mpeto feroz das cobardias que explodem em bravura, lan�am-se � carga com as suas azagaias. E � o golpe de miseri�c�rdia. Os �ltimos assaltantes caem ou fogem desabaladamente � e n�o tarda que em toda a plan�cie s� restem as tropas ven�cedoras, sangrando do sangue da vit�ria, e os mortos.

O combate durara uma hora.

Se n�o fora a vit�ria seria a chacina em massa e a perda de todos os resultados j� alcan�ados.

E a vit�ria era, apesar de alcan�ada sobre um r�gulo rebelde das terras da coroa, o primeiro golpe vibrado no poder e pres�t�gio do Gungunhana.

Em volta do monumento prosseguiam protocolarmente as cerim�nias comemora�tivas.

Distra�do com lembran�as do passado e alheio ao que se passava em volta, cincoenta anos depois do Matibejana, fui repentinamente surpreendido por imagens que pareciam arrancadas � evoca��o em que me perdera. Vi-me eu pr�prio, e a gente grada que me acompanhava, embora confort�velmente sentados, no quadrado de Magul de 1895, enquanto as mangas do� Matibejana nos carregavam de azagaias em riste.

Foi um segundo de alucina��o.

O quadrado era simplesmente o palanque amaneirado de onde assistia � cerim�nia�e que tamb�m era qua�drado. Os negros que avan�avam entre nuvens de poeira, com azagaias e escudos, eram simplesmente bailarinos.

Para gozo do Ministro, que, infelizmente para a Hist�ria de Portugal, n�o nasceu a tempo de bater-se em Magul, tinham sido concentrados alguns milhares de v�tuas para, ao mesmo tempo, reverenciarem a soberania e exibir-se em batuque de guerra.

A ideia fora felic�ssima, menos como demonstra��o do entendimento em que vive�mos com os advers�rios de 1895 - entendi�mento que por outras formas salta aos olhos � do que como pretexto para apresenta��o de um dos mais belos e impressionantes espect�culos a que pode assistir, no Sul do Save, quem anda por a� a espreitar curiosa�mente terras e gentes menos conhecidas.

Trata-se de uma m�mica de guerra, representada e bailada, ao som de marim�bas, por artistas coreogr�ficos e musicais de magn�ficos recursos e expontaneidade.

Os negros s�o m�sicos e escultores natos.

Estes, s�o m�sicos e bailarinos de apti�d�es naturais, cultivadas durante alguns s�culos de escola guerreira e coreogr�fica. Treinavam-se para a guerra, dan�ando � e aprendiam na guerra os seus passos de dan�a. Da guerra, que n�o puderam fazer mais, guardaram, como saudade f�sica e espiritual, a dan�a. O sentido ou instinto que t�m do ritmo e das atitudes, s�o dos mais apurados da sua ra�a�essa ra�a que forneceu aos civilizados de hoje, os ele�mentos essenciais da m�sica e do bailado chamados modernistas.

Aproximaram-se,� em multid�o de alguns milhares, levantando poeiras que o sol doirava, com as suas azagaias brandidas, os escudos de pele de boi cobrindo os corpos, rumorejando como o mar.

No primeiro plano, uma orquestra de muitas dezenas de marimbas esperava com impaci�ncia.

N�o se realizara, evidentemente, apesar do n�mero e das armas, um clima de guerra. Mas este rolar de multid�o armada, crispando por milhares de bra�os agitados, envolta em poeira, eri�ada de lan��as, provocava, ao menos sens�vel, os fr�mi�tos emotivos dos grandes espect�culos viris.

Um velho zulo, que certamente era do tempo do Gungunhana, e que, possivel�mente, se batera em mangas de guerra, adiantou-se, com gravidade n�o isenta de melancolia. E, dirigida ao palanque-quadrado, a sua voz, encorporada de soleni�dade, cava, que parecia desgarrada da boca de uma caverna, gritou a sauda��o v�tua:

�-� Bayete!

E logo a multid�o, por milhares de gar�gantas, numa s� voz de sonoridades oce�nicas, exclamam:

�-� Bayete! Bayete! Bayete! E o velho repete:

�- Bayete! E o coro:

�-� Bayete! Bayete! Bayete!

Tr�s vezes ribombam, no sil�ncio sole�n�ssimo da plan�cie, os Bayet v�tuas.

Um arrepio eri�a todas as peles sens�veis da gente branca.

Estas mangas pac�ficas de m�sicos e bailarinos, armados para cantarem e dan��arem, ainda conservam, do seu antigo poder de amedrontar, a faculdade de arrepiar. Todo o palanque-quadrado, galharda�mente comandado por um ministro e um general, foi violentamente sacudido por esta carga de comoventes sauda��es.

Perdidas em lonjuras as �ltimas notas da terceira sauda��o, explodiram entusiasticamente dezenas de marimbas. E logo a rigidez e sil�ncio das forma��es, se quebraram em movimento e alarido musical.

Na primeira fila, dois grupos coreogr�ficos, �geis e nervosos, extraordin�rios bai�larinos e excelentes actores, simulam, em ritmos frementes, as fases de um combate. O coro, de milhares de vozes, milhares de corpos, milhares de azagaias � a multid�o, com tudo que a multid�o tem de cruel, de violento, de brutal e de belo � acompanha o bailado, em ondula��es de vaga crispada pelo temporal.

Uma primeira figura, esp�cie de comentador coreogr�fico, desloca-se como um dem�nio em paroxismos de movimento e ritmo; todos os seus m�sculos trepidam como se os excitasse poderosa corrente el�ctrica.

No ar rodopiam poeiras. E a nuvem fina de p�, sobre os corpos suados, bailando tam�b�m em espirais destrambelhadas, cria ambientes de coisa fant�stica.

Em certa fase do bailado, exactamente a mais pictural e movimentada, os dan�ari�nos batem com os escudos no solo, elevan�do-os seguidamente, com as lan�as, num salto brusco, magn�fico de energia r�tmica e destreza, em que desenham no espa�o preciosamente, em atitudes inacredit�veis, os seus corpos negros de longos m�sculos. Apesar da viol�ncia selvagem do passo, n�o lhes falta a gra�a original com que desa�brocham algumas flores estranhas dos tr�picos.

E�� a� grande ��onda,�� sempre�� animada pela cantilena vibrante das marimbas, pelos gritos de guerra, em crispa��es de lan�as e escudos,

consegue na verdade realizar, no ambiente musical, imagens espectaculares de guerra gentia.

Terminado o bailado e desenvolvido o argumento at� � �ltima cena, a vaga desce aparatosamente sobre o palanque-quadrado em carga ululante de guerreiros. � uma flo�resta inteira de azagaias e escudos, que rola tumultuosamente, envolta em poeiras, espessas como fumos de p�lvora, e que parece ir subverter a alta burocracia de Mo�ambique.

P�ra repentinamente, ofegante e luzindo pelo suor de milhares de corpos, a poucos metros do palanque ministerial�que resiste como o quadrado de 1895. Os v�tuas de hoje carregaram como os rebel�des de h� cincoenta anos � e estacaram como gentes que pagam o imposto.

S� ent�o distingo na massa fremente, entre os rapazes destas gera��es submissas, os velhos que ainda pertenceram �s hordas do Matibejana e �s mangas do Gungunhana.

Procuro nos seus olhos a saudade da sua juventude independente e belicosa � mas o seu olhar mostra-se ba�o, resignado, apenas levemente ir�nico.

O espect�culo seria mais puro, e inapag�vel a impress�o que deixaria, se o guarda-roupa e adere�os dos artistas n�o fossem desmanchados pelo mesmo mau gosto s�r�dido que tem pretendido, nos �ltimos anos. vestir a gloriosa nudez ind�gena. Quer dizer: se os m�micos de hoje se apresentas�sem mais rigorosamente semelhantes, no traje e no armamento, aos guerreiros de ontem.

Mas n�o. Sobre os corpos, sempre vigo�rosos e belos destes magn�ficos v�tuas - fisicamente�� t�o�� semelhantes�� aos cuanhamas de Angola - vestindo os seus bra�os esguios e as suas pernas nervosas, v�em-se sobretudos esfarra�pados e camisolas em frangalhos, em mistura confrangedora com peles de leo�pardo, polainas de pele de cabra e preciosos escudos de coiro. E assim, a beleza pl�stica do quadro sofre, naturalmente, destas n�doas de mis�ria e mau gosto.

No entanto, o espect�culo � ainda impressionante � especialmente quando se observa em conjunto e as vistas deslumbra�das pelo movimento e a cor se distraem de pormenores agoniativos.

 

Terminada a cerim�nia na plan�cie de Magul, as for�as ministeriais retiraram, em ordem perfeita, sobre a Manhi�a, onde nos esperava o almo�o.

Diga-se, em abono da verdade, que nem outra coisa mais her�ica era poss�vel fazer, passados cincoenta anos sobre a vit�ria de Magul, por mais excelente que fosse � e era de facto � o moral da comitiva.

Entretanto, rodando na estrada de 1945, os olhos ainda cheios de imagens de v�tuas em m�mica de guerra, retomo a evoca��o dos acontecimentos passados at� � pris�o do Gungunhana e pacifica��o definitiva do Sul do Save.

Enquanto a coluna do Sul cumpria em Magul o melhor e mais not�vel da sua miss�o, dispunha-se e manobrava a coluna do Norte, para trilhar espinhoso caminho de gl�ria.

Era muito mais circunstancial a miss�o desta coluna. Enquanto a do Sul marchou, desde o princ�pio, para o objectivo preciso e definido de bater os rebeldes do distrito de Louren�o Marques e limpar o territ�rio de focos de insubmiss�o � a coluna do Norte organizou-se

e iniciou opera��es, cujo desenvolvimento e objectivos iam depender das reac��es do Gungunhana perante as nossas exig�ncias para o estabelecimento de uma soberania efectiva nas terras de Gaza.

Assim, a primeira miss�o da coluna do Norte consistia em apoiar energicamente uma campanha diplom�tica contra o famoso r�gulo.

O combate de Magul viria a impressio�nar mais tarde, e profundamente, o filho de Muzila. Mas j� muito antes, a organiza���o e os primeiros movimentos da coluna do Norte, que alcan�ara tormentosamente Chicomo, na fronteira dos seus territ�rios, o haviam convencido da possibilidade de ser atacado no pr�prio reduto sagrado de Manjacaze. Se a coluna do Sul fracas�sasse, na sua persegui��o aos rebeldes das terras da coroa, alcan�aria ele, sem riscos nem sacrif�cios, uma vit�ria quase decisiva. Mas podia n�o fracassar e vencer � e n�o lhe restavam d�vidas que, nesse caso, seria ele, Gungunhana, o verdadeiro derrotado.

Enviou ent�o, para negocia��es, uma embaixada ao Comiss�rio R�gio.

Ant�nio Enes n�o recebeu a embaixada. Preferiu que fossem delegados seus a Man�jacaze � n�o para negociar, mas para impor condi��es. E ou o Gungunhana as aceitaria, reduzindo-se de facto, como de direito, a verdadeiro vassalo da coroa, � ou seria a guerra.

A coluna do Norte principiou pois por apoiar a miss�o dos delegados da autoridade soberana.

Os delegados que em Julho se desloca�ram a Manjacaze iam exigir do Gungunhana a entrega dos r�gulos rebeldes do distrito de Louren�o Mar ques e o pagamento anual de um tributo de dez mil libras em oiro, al�m do compromisso de n�o impedir, nos seus territ�rios, a cobran�a de impostos, a liberdade de com�rcio, o estabelecimento de postos militares e vias de comunica��o, etc.

Entretanto a coluna, j� em guerra dolo�rosa contra o clima e a insalubridade, aguardaria em Chicomo o resultado do ultimatum.

O Gungunhana, cujo retrato psicol�gico se pintava ent�o, como bruto cruel e san�guin�rio, violento e cobarde � n�o era t�o bruto nem t�o cobarde como se dizia. Nem a sua alma era completamente destituida daquela nobreza que, em todos os tempos, marcou a ra�a dos grandes chefes. A pro�paganda de guerra diminuiu injustamente a figura.

N�o s� teve artes para demorar as negocia��es at� meio de Setembro � como tendo, por fim, concordado quanto �s condi��es que o expoliavam de todos os direitos de sobe�rania no seu territ�rio, recusou, no entanto, e terminantemente, ceder quanto � �nica que manchava a sua dignidade de soberano. O Gungunhana submetia-se a todas as con�di��es que lhe impunham � excepto a entre�gar os rebeldes que junto dele tinham pro�curado asilo. N�o queria, quando morresse, apresentar-se desonrado perante os seus manes.

E t�o intransigentemente manteve a sua atitude que, ante a intransig�ncia, tamb�m irredut�vel, do Comiss�rio R�gio, a guerra se encontrou automaticamente declarada.

 

Por essa altura � tinham principiado, com correrias aparatosas nas terras do Gungunhana, as primeiras demonstra��es ofensivas da coluna do Norte

� travou-se o combate de Magul. E esta vit�ria portuguesa, ao mesmo tempo que desmoralizava um pouco as hostes do fami�gerado chefe v�tua, elevava naturalmente o moral das tropas do coronel Galhardo, que o clima e as incertezas tinham deprimido.

Estava aberto o caminho para Manjacaze.

Em 3 de Novembro, vencidas tremendas dificuldades de organiza��o, foi dada a ordem de marcha.

Esperava-se alcan�ar Maajacaze em 6� o que n�o foi poss�vel por via da natureza do terreno que n�o o consentiu. A coluna bivacou junto da l�ngua de Coolela, tencio�nando lan�ar-se da� rapidamente sobre o reduto do Gungunhana. Na manh� seguinte tudo se encontrava preparado para a arre�metida. E ia dar-se a voz de marcha, quando surgiram pela frente, em todo o seu poder, as mangas do Senhor de Manjacaze.

O Gungunhana, esgotados todos os recursos da sua diplomacia, e n�o tendo querido sacrificar a sua dignidade de chefe v�tua com um acto de trai��o a gentes da sua ra�a � acossado no pr�prio lar real � decidira confiar o seu destino � sorte das armas.

Frente �s tropas do coronel Galhardo, e a menos de trezentos metros, marchava, com seguran�a e galhardia espectaculares, a fina flor do ex�rcito v�tua�cerca de doze mil guerreiros dispostos em oito mangas.

Era uma floresta de azagaias luzindo � luz doirada do nascente e erguida sobre a onda negra dos melhores soldados do� Gungunhana � soldados�� que sabiam bater-se, manobrados por chefes prestigiados em dezenas de combates e cuja estirpe guerreira enrai�zava no c�lebre Tshaka.

Seria necess�rio remontar ao poderio do Monomotapa para encontrar na Hist�ria de Mo�ambique poder e territ�rio tamanhos.

Atacaram em massa, dispostos em meia lua � um grande abra�o de morte e de fogo que procurava envolver o quadrado.

O alvo era magn�fico. As descargas da coluna batiam-no em cheio. No entanto as mangas, insens�veis � sangria, continuavam a avan�ar imperturbavelmente. S� passado algum tempo, muito desbastadas, se acachaparam entre o capim, de onde respondiam ao nosso fogo, prosseguindo o avan�o. A artilharia troou sem conseguir desmorali�z�-los.

Era evidente que o comando inimigo ten�tava aproximar-se at� de onde pudesse lan��ar-se com �xito para o esmagamento do quadrado. E para tanto pagava com o sacrif�cio de numerosas vidas os metros de ter�reno que ia ganhando. O quadrado pro�curava, por sua vez, inutilizar a possibili�dade de uma carga final poderosa, desbas�tando violentamente pelo fogo as colunas assaltantes. Estas refaziam-se concentran�do-se � isto �, vedando constantemente as brechas abertas na massa cerrada pela arti�lharia e pelas rajadas de infantaria.

E como se tratava de guerreiros aman�tes da guerra, portadores de uma tradi��o b�lica t�o cultivada que ainda hoje se imp�e nas suas dan�as, a carga disparou-se com entusiasmo, conduzida heroicamente pelos mais aguerridos�os famosos b�falos e jacar�s, especialistas ferozes e experimentados das cargas exterminadoras. Dirigia-se, com magn�fico entusiasmo, a um canto do quadrado, brandindo armas, eri�adas de azagaias, com jeitos de vaga irreprim�vel.

N�o lhes bastou por�m o impulso nem a alma guerreira para resistirem �s rajadas certas e ceifantes do quadrado. A coluna assaltante, por fim, rota e esfarrapada, teve que ceder. Dela j� n�o restavam sen�o alguns punhados de bravos, que insistiam com ganas de her�is, enquanto a maioria, convencida da derrota, se escapulia por entre o capim basto da l�ngua. Havia cad�veres a menos de trinta metros do quadrado.

Estava ganha a batalha.

Em quarenta minutos ansiosos de com�bate fora batido e desprestigiado todo o poderio v�tua, destro�adas as esperan�as de quantas cubicas viram nele a m�quina de guerra que nos expulsaria do distrito de Louren�o Marques � e reduzidas para sem�pre as lendas temerosas que engrandeciam a figura do Gungunhana como pap�o afri�cano. O Senhor de Gaza era, depois daquela manh� h�mida de Coolela, apenas um r�gulo batido e em fuga � como o Matibejana.

Fora dado e vencido o passo decisivo, mas restava ocupar Manjacaze e prender o Gungunhana, para eliminar ao mesmo tempo todas as veleidades de reconstitui��o do poderio v�tua.

Logo no dia 11 as tropas avan�aram sobre a povoa��o real, que incendiaram e reduziram a cinzas. O Gungunhana, natu�ralmente, tinha-se escapulido a tempo com as suas numerosas mulheres e alguns dos grandes da sua corte.

E como de facto n�o valia a pena man�ter t�o custosa e dif�cil m�quina de guerra s� para o aprisionar, deu-se ent�o por pra�ticamente conclu�da a campanha de 1895.

Estava desbravado o caminho para a pacifica��o total, n�o s� do Sul do Save, como tamb�m de toda a col�nia.

Bem pode dizer-se que principiou em Coolela a era moderna da Hist�ria de Mo�ambique e a� se fechou o ros�rio de amarguras de tr�s s�culos tormentosos.

Reverenciados os her�is e os m�rtires, rendidas todas as homenagens �queles que escreveram uma p�gina gloriosa de hist�ria pol�tica e militar, avaliados comovidamente os esfor�os e sacrif�cios de quantos se bate�ram, recordada com justi�a a galhardia dos vencidos - fica sempre viva para o esp�rito e consci�ncia dos homens de hoje a li��o dos factos.

A campanha de 1895 � s�rie de �xitos militares, cujas consequ�ncias pol�ticas lhe deram relevo culminante na Hist�ria de Mo�ambique � vale como experi�ncia, como li��o, como imperativo dos acontecimentos do passado sobre a ordem de coisas e de ideias do presente e do futuro, especial�mente, pela demonstra��o que fez de quanto podem em pol�tica colonial, o sentido das realidades, a ac��o pronta e decidida e o respeito pelo valor e pelas compet�ncias.

Um chefe que sabia o que queria e se documentara, sem ilus�es livrescas nem c�lculos de baixa pol�tica, acerca das reali�dades da col�nia � e que tamb�m n�o inve�java os seus colaboradores, disposto como estava a repartir com eles toda a gl�ria e todos os sacrif�cios; possibilidades de ac��o desentorpecidas de f�rmulas e burocracia corrosivas; um conjunto de valores cuidaadosamente selecionados; um Terreiro do Pa�o compreensivo (momentaneamente compreensivo) acerca da gravidade da situa��o e, por isso mesmo, disposto a dei�xar fazer�explicam, n�o s� o �xito da campanha, t�o necess�rio ent�o � situa���o dific�lima a que os acontecimentos pol�ticos externos e internos tinham conduzido a col�nia, como mostram tamb�m as raz�es profundas que determinaram uma mudan�a completa de face na Hist�ria de Mo�ambique.

Na verdade, na Hist�ria da col�nia, at� 1895, � menos povoada e brilhante a galeria de her�is e construtores, do que a galeria de m�rtires. E todo o longo e amargurado ros�rio de desastres, sacrif�cios e sofrimen�tos que custou a persist�ncia de tr�s s�culos � foi armado pela inconsist�ncia, descoor�dena��o ou simples desprezo, dos valores que, sabiamente coordenados, fabricaram o �xito de 1895.

Seria magn�fico que na passagem de todas estas datas comemorativas da campa�nha � Marracuene, Magul, Coolela, depois Chaimite, Maputo, Macontene, etc. � esta li��o se mostrasse t�o viva nos esp�ritos como aos olhos se mostram as bandeiras des�fraldadas e a alegria dos burocratas em feriado.

Entretanto cheg�vamos � Manhi�a � naturalmente com apetite, o mais devorador de todos os apetites de est�mago: o oficial.

A pequena povoa��o, constitu�da quase exclusivamente pelos edif�cios da adminis�tra��o, � bonita e agrad�vel�e n�o s� porque se debru�a garridamente na sua varanda sobre o vale do Incomati, mas tam�b�m nos pr�prios tra�os da sua fisionomia fresca e asseada.

Estava naturalmente em festa � enga�lanada para receber Sexa Ministro, trans�ladado transitoriamente do Terreiro do Pa�o com a inten��o de se documentar sobre a paisagem de Mo�ambique, e que se fazia acompanhar de outros Sexas �nomeadamente Sexa Governador Geral.

Havia meses que a col�nia se vinha passando a ferro, disfar�ando, embonecando � para que Sexa Ministro, que desejava conhecer de perto as suas virtudes e mazelas, ficasse bem impres�sionado. A Manhi�a acompanhara o movi�mento geral. Estradas, edif�cios e almas haviam sofrido, pelo menos, um m�s de intensiva e zelosa prepara��o;� nas estradas tinham-se alisado os pisos para que o f�sico quebradi�o, mas precioso, de Sexa, n�o tre�pidasse nem conhecesse as afli��es da areia e as ciladas do matope; nos edif�cios tinham-se alindado as fachadas e as casas de banho;� nas almas tinham-se incutido entusiasmos, que deveriam explodir em vivas e palmas. Todas as coisas e lugares, que, conforme o programa, deveriam rece�ber a honrosa visita de Sexa, procuravam mostrar-se, nesse dia festivo, como os mais exigentes as desejariam ver sempre.

E tudo para que Sexa se informasse, como bom estudioso que era, acerca do corpo e alma da col�nia que se honrava com a sua presen�a.

Multid�es de negros, amavelmente con�vidados pela autoridade local, tinham des�cido dos seus povoados ao povoado dos brancos, para ver, cumprimentar e admirar Sexa�o Branco Grande, quase M�ximo, que descendia em linha pol�tica dos brancos fortes que tinham derrotado o Gungunhana. Envergavam panos novos e vestimentas lavadas. Ao longo de uma esp�cie de ave�nida orlada de verduras, e atrav�s da qual deveria passar Sexa, alinhavam-se rapazes e raparigas, trazidos ao cui�dado de mission�rios. E as suas faces negras, de risos brancos, luziam alegre�mente entre a policromia garrida dos panos que vestiam.

Quando Sexa Grande apareceu entre os Sexas menos grandes, a multid�o gentia, respondendo, pronta e convictamente, aos sinais de comando das autoridades, missio�n�rios e cipaios, explodiu em manifesta��o quente � e expont�nea, demonstrando assim quanto aqueles cora��es selvagens se sentiam desvanecidos, honrados e agrade�cidos.

De princ�pio�e porque Sexa Grande era menos avantajado em corpo que os Sexas menos grandes � os pretos n�o o dis�tinguiam entre os brancos solenes. Procura�vam, em v�o, o representante imponente dos vencedores de Magul, e n�o compreendiam, no seu besunto de b�rbaros, que esse fosse o homem franzino e macerado que se adian�tava no desfile.

Mas quando perceberam que era ele mesmo�o entusiasmo n�o teve limites. Enquanto a multid�o de fundo, em movi�mentos de mar�, gritava vivas prolongados, as crian�as e as raparigas lan�avam flores quentes dos tr�picos.

�s vezes o entusiasmo descoordenava-se um pouco. A chuva de p�talas n�o coincidia ' com os vivas. Mas dez metros � frente do grupo ministerial, um mission�rio zeloso, e encantador de entusiasmo, afinava o des�concerto com express�o afogeada e muito significativa:

�V�, d�em palmas!... Mais palmas, mais vivas!... Ent�o aquele!... V�!... N�o te esque�as das flores!... Viva! Viva!...

E tudo se recompunha.

Atingimos� a meta� do almo�o, como n�o podia deixar de ser, pro�fundamente comovidos. E distra�do assim de lembran�as dos tem�pos her�icos, em que se construiu a estru�tura da col�nia moderna, encontrei-me a meditar acerca das vantagens destas digres�s�es ministeriais pelas col�nias�e, infe�lizmente para mim, em desacordo com a maioria que condenava, sen�o as visitas, pelo menos�como direi?�o estilo de tais visitas.

Por outro lado�e uma vez que se admite que o cargo de Ministro das Col�nias � muito acess�vel a pessoas da pol�tica que apenas conhecem o ultramar de leitura, ou de viagens mais ou menos tur�sticas�parece-me de bom senso dar aos ministros a instru��o que lhes falta. Instruir � uma mis�s�o de Estado que bem pode abranger os pr�prios ministros. Por outro lado, estas visitas, salvos os desfiles, discursos e recep���es que, na verdade, n�o aproveitam a nin�gu�m, obrigam a reparar muitas estradas (aquelas por onde o ministro passar�); a limpar e arranjar muitos edif�cios (aqueles onde o ministro entrar�) � e a vestir de ponto em branco alguns esfarrapados. E acontece que, por vezes, obrigam tamb�m a deslocar-se na col�nia alguns funcion�rios superiores que a conhecem t�o pouco como o ministro, praticando-se assim a chamada instru��o em classe.

� certo que, em alguns sectores da admi�nistra��o, certas coisas padecem um pouco; param, enervadas, � espera que o ministro se v�. Mas em compensa��o movimentam-se extraordinariamente alfaiates e costurei�ras; pastelarias, hot�is e restaurantes; o com�rcio em tintas e vernizes etc. H� rep�rteres que viajam arrecadando suculentos an�ncios para os seus jornais; produzem-se, em orat�ria, estreias auspiciosas que decidem alguns destinos�enfim, estas visitas, encaradas de certos pontos de vista muito reflectidos, al�m de deixarem no esp�rito dos ministros ideias optimistas, que muito contribuem para excitar o seu zelo e acendrado patrio�tismo, movimentam as actividades, animam o com�rcio � e lavam a col�nia.

Discordo daqueles que as condenam, gri�tando que os ministros apenas v�m encher-se de mais ideias falsas, que n�o aprofundam quest�es al�m do n�vel superficial que as reveste, e que se dilata assim a dist�ncia j� consider�vel que existe entre a col�nia e o Terreiro do Pa�o. Pura maledic�ncia! Os ministros ficam com ideias muito precisas acerca da paisagem da esta��o seca, adqui�rem util�ssimos conhecimentos pr�ticos de geografia�e at�, no prolongamento des�tas viagens, indo a Vidago, Gerez e Pedras Salgadas, reparar as sa�des abaladas por t�o fatigantes e arriscadas travessias, entram em contacto directo e util�ssimo com muitos colonos, que tamb�m bebem �guas quando v�o � metr�pole.

� sempre com infinito prazer que con�sidero as viagens ministeriais�e com invej�vel conforto que me desloco nas estra�das que se honram com a passagem prov�vel de Sexas. Se alguma coisa lamento, � que n�o se desloquem anualmente �s col�nias tr�s ministros, ao mesmo tempo, e que os tr�s n�o transitem por todas as estradas, n�o visitem todas as escolas e hospitais e n�o recebam homenagens em todos os povoados europeus e ind�genas.

Recolhemos a Louren�o Marques quando anoitecia e depois de uma reve�r�ncia oficial muito r�pida�porque a hora do jantar se aproximava naturalmente comovida, perante o monumento que, em Marracuene, lem�bra� aos� homens� distra�dos� de� hoje,� os bravos que ontem morreram, para salvar a capital e assegurar �s gera��es modernas a regularidade das refei��es.

Embu�ado na noite ambiente, retomei com devo��o, o fio de lembran�as que, durante o dia, levara at� Coolela.

A campanha de 1895�e com ela a ocupa��o ou dom�nio do Sul do Save, tive�ram em Coolela, como dissemos, os seus pontos de decis�o e culmin�ncia. A� se ganhou, de facto, a guerra contra o gentio insubmisso e se conquistou praticamente o Sul do Save.

No entanto, nem tudo fora conclu�do.

T�o bem e valorosamente se conduzira a campanha que bem merecia coroar-se com uma ac��o apote�tica.

E a apoteose consumou-se, no fim desse mesmo ano, em Chaimite.

Depois de Coolela, as tropas expedicio�n�rias, cobertas de gl�ria mas muito expe�rimentadas e combalidas, regressaram � metr�pole. As terras de Gaza � do Senhor de Gaza! � passaram a constituir um dis�trito, cujo governo foi confiado ao coman�dante da cavalaria de Coolela e Manjacaze, capit�o Joaquim Mousinho de Albuquer�que. O Comiss�rio R�gio embarcava para Lisboa a dar contas da sua miss�o.

Parecia um ponto final, decerto preci�pitado.

A fadiga sofrida em opera��es dur�ssi�mas � e tamb�m o optimismo resultante das gl�rias alcan�adas, explicavam a pre�cipita��o.

Na verdade, havia que recear, enquanto o Gungunhana e os seus mais aguerridos cabos de guerra n�o fossem reduzidos a zero � e apesar do clar�o decisivo da vit�ria�uma ten�tativa desesperada de ressurrei��o do poderio v�tua. Todos compreendiam que n�o se realizaria pacifica��o completa e dom�nio absoluto sobre povos e territ�rios, enquanto o Gungunhana e os seus generais � mas especialmente o Gungunhana � andassem a monte.

Todos o compreendiam�e Mousinho de Albuquerque melhor do que ningu�m... porque o compreendia activamente.

Todos o compreendiam, receando, no entanto, comprometer o �xito alcan�ado, com empreendimentos complementares arriscados � e Mousinho com a clarivid�n�cia e decis�o dos homens de ac��o perante a sugest�o das oportunidades.

Os pol�ticos, contentavam-se com o que tinham, adiando a conquista do que lhes faltava, conforme uma indecis�o tradicio�nal dos pol�ticos, a que estes chamam Pru�d�ncia. O Homem, pretendia concluir a tarefa, pensando, decerto, que, mesmo em pol�tica, se arrisca menos intervindo a tempo do que deixando engordar as difi�culdades em c�modos adiamentos.

E assim, ao mesmo tempo que os coman�dos superiores davam a campanha por con�clu�da � o Governador do distrito de Gaza pensava em conclui-la de facto, prendendo o Gungunhana e liquidando com ele todas as veleidades de ressurrei��o do poderio v�tua.

Enquanto Mousinho procurava infor�mar-se acerca do paradeiro do r�gulo batido, teve o Governo conhecimento dos seus planos � e logo o proibiu de lev�-los por diante. A Prud�ncia dos chefes entendia dever refrear os impulsos do her�i.

Demais,� sempre� assim� fora.�� E� se assim n�o fosse haveria muitos mais her�is� e� seria,�� por� consequ�ncia, muito mais dif�cil�a pol�tica. A esta interessa sempre festejar os� her�is mortos, e os vivos quando n�o pode deixar de ser - mas n�o lhe conv�m, em geral, fabricar her�is de pura �gua. Pre�fere fabric�-los, entre os seus apaniguados�her�is c�modos, sint�ticos.

Entretanto Sanches de Miranda, encar�regado pelo Governador de Gaza de des�cobrir o ref�gio do Gungunhana, dava boa conta dos seus esfor�os: o r�gulo refugia�ra-se em Chaimite, a povoa��o onde seu av� Manikusso fora enterrado, e a� procurava, mediante pr�ticas de feiti�aria, reconquis�tar os favores da Fortuna.

Mousinho encontrava-se, portanto, quando o Governo pretendeu cortar-lhe as asas, muito mais perto do Gungunhana, que excitava poderosamente as suas intui��es e imagina��o de her�i�do que dos chefes que pretendiam segur�-lo.

Em tais circunst�ncias os her�is liber�tam-se sempre, jogam o seu destino e o des�tino da sua causa numa cartada. Se perdem, perdem tudo � e a Hist�ria, ou n�o os recebe, ou os guarda como traidores ou loucos. A Prud�ncia dos pol�ticos exulta ent�o com estas modestas vit�rias. Se ganham�e geralmente ganham, porque as intui��es dos puros her�is raras vezes falham�os pol�ticos, for�ados a degluti�rem a desobedi�ncia, apressam-se a partici�par nas suas gl�rias festejando-os, para os liquidarem logo que podem � e consagr�-los definitivamente no primeiro cente�n�rio do seu nascimento. E s� a Hist�ria, mais tarde, far� justi�a completa, esque�cendo os pol�ticos e arrecadando sob luzes eternas as figuras dos her�is.

Mousinho tinha de correr a sorte dos her�is.

Entre a proibi��o de tentar qualquer ofensiva contra o Gungunhana e o impera�tivo das suas intui��es de portugu�s e her�i, sentiu, poss�velmente, pela primeira vez, o amargor, a revolta e o desd�m que mais tarde ressaltariam, consider�velmente dila�tados, da carta que, como Comiss�rio R�gio, escreveria ao ingl�rio ministro que ent�o o comandava... e que s� atrav�s deste documento passou � Hist�ria.

Tamb�m o Gungunhana � perfeita�mente de acordo com o Governo portugu�s�n�o desejava ser incomodado. E � falta de for�a e capacidade hier�rquica para se impor ao Governador de Gaza�deson�rou-se, mandando entregar o Matibejana e enodoando assim a p�gina de nobreza e dignidade reais, que escrevera para a sua hist�ria, antes de Coolela.

Em resumo: Mousinho encontrou-se sitiado, por um lado pela proibi��o termi�nante do seu governo; por outro lado pela rendi��o moral do Gungunhana, que tra�duzia uma s�plica desesperada de paz. Se o Governo n�o queria e o Gungunhana supli�cava at� � desonra � como prosseguir?

E Mousinho prosseguiu � rompeu o cerco.

E a sua decis�o de prosseguir foi a pri�meira atitude moral de hero�smo do cava�leiro, que sabia o que queria e aonde ia, e o primeiro passo da investida a Chaimite.

Seguro de si, certo de que a sua desobe�di�ncia seria um alto servi�o prestado ao pa�s�deslocou-se ao posto de Languene, e da� arrancou na madrugada de 26 de Dezembro, a encontrar-se na foz do Chengane, com Sanches de Miranda, o des�cobridor do r�gulo fugitivo. Logo vie�ram ao seu encontro emiss�rios do Gungunhana, pedindo que n�o avan��asse mais, pois o seu chefe viria pes�soalmente prestar vassalagem.

Adiante!

Em 27, antes de romper a manh�, Mousinho, acompanhado apenas por Sanches de Miranda, o tenente Couto, quatro dezenas de pra�as europeias volunt�rias, tentadas pelos riscos da empresa, e alguns auxiliares, abalou como bala disparada.

Chovia como chove em �frica � quando chove. Do terreno encharcado rompiam, j� altos e densos, os capins quesilentos desta quadra do ano. O matagal hirsuto e arrevezado da regi�o tornava a marcha ainda mais dura. Mas ningu�m dava pela chuva nem pelas dificuldades, vontade e entusiasmos superiores reduziam os m�sculos a pe�as de m�quinas. A resist�ncia moral torna�va-se contudo ainda mais necess�ria do que a resist�ncia f�sica. A chuva, a lama, as bravezas do mato, eram dificuldades de ontem e de hoje � mas n�o era a mesma a seguran�a do territ�rio que trilhavam. O Gungunhana encontrava-se na situa��o de fera acossada e dispunha ainda de for�as que chegavam para esmagar meio cento de europeus atrevidos. Uma reac��o brusca e desesperada era mais do que prov�vel.

E Mousinho, com a sua gente, a sua alma, a sua ideia, contra os rigores do mato dezembr�o, contra a chuva teimosa, contra as incertezas mortais � caminhava, cami�nhava sempre...

O �nico receio que angustiava aquele punhado de her�is era o de n�o chegarem a tempo e encontrarem o covil vazio. E ent�o aceleravam o passo, exigindo dos m�sculos o que os m�sculos s� d�o em horas supre�mas de excita��o nervosa.

�s oito horas, cerca de uma povoa��o que dava pelo nome de Vuiana aco-dem novos� emiss�rios� do� Gungunhana a pedirem que se detivesse. O r�gulo parecia excelentemente informado acerca do itiner�rio e des�gnios do Gover�nador de Gaza.

Adiante!

�s dez horas da manh� j� alguns solda�dos dificilmente acompanham o Chefe. As febres reacendidas pelo esfor�o minam os menos fortes. Mas arrastam-se; nenhum pensaria em desistir enquanto lhe restasse um sopro de energia.

�s onze horas parece imposs�vel supor�tar mais a teimosa velocidade da marcha. Mas caminham ainda, como aut�matos, gas�tando em cada passada as �ltimas energias do impulso inicial. Deixaram de sentir os tormentos da incerteza e as sedes de gl�ria. Caminham � e � tudo!

Ao meio dia caem alguns estropiados.

� uma hora torna-se absolutamente indispens�vel conceder um descanso.

Al�m do m�ximo que humanamente se lhes pode�ria exigir todos tinham dado o m�ximo que s� Deus concede em momentos raros. Acam�pam � e Mousinho, enervado, tem de supor�tar mais essa fadiga � a de descansar.

Em certa altura surge, perante o pequeno quadrado, uma malta de gentio armado, que faz fugir os auxiliares espavoridamente. Os europeus mal o pressen�tem. Uns dormem como brutos e sonham gl�rias, outros deliram de febre e sonham acordados. Mas os do bando n�o v�m em ar de guerra. � Godide, um filho do Gungunhana, acompanhado por alguns guerreiros, que vem reeditar a s�plica dos emiss�rios ante�riores. O Governador que n�o avance mais.

Seu pai�o famoso, o tem�vel Gungu�nhana! - vir�, vir� mesmo, em pessoa, submeter-se. N�o quer mais guerras; implora a paz.

E o Godide n�o consegue deter o cavaleiro como n�o conseguiria deter, na sua traject�ria, a bala disparada.

Adiante!

�s tr�s horas da madrugada Mousinho n�o suporta mais o enervamento do des�canso. Uma voz de comando disperta a hoste adormecida sob o aguaceiro. Uma palavra de encorajamento anima a boa fibra dos seus companheiros: �V� rapazes, j� falta pouco! Mais um salto e estamos l�!�

E a caminhada her�ica recome�a.

N�o tarda por�m que tudo pare�a per�dido. De repente, e quando menos o espera�vam, surgem pela frente da pequena coluna negros armados em multid�o � nada menos que tr�s mangas de guerra, das mesmas que durante anos fizeram tremer o sert�o.

Era uma imagem de esmagamento ful�minante...

Mas n�o. O moral dos v�tuas ainda n�o se refizera do desastre de Coolela. Os guer�reiros n�o compreendiam a sua superiori�dade. Vinham apenas entregar-se � pagar p� � render-se � hoste estropiada de Mou�sinho.

Adiante!

O incidente ressuscitou energias que pareciam mortas pela como��o e pela fadiga. A marcha reganhou o ritmo das pri�meiras horas e a jornada her�ica refez-se por algum tempo na sua express�o de entu�siasmo e vontade.

E �s seis horas e meia, pisando terras arenosas, empapadas de �gua, p�lidas e sujas, eri�adas de verrugas de muchem � avistavam a pali�ada de Chaimite, o antro do Gungunhana!

Os que ainda puderam deitaram a correr atr�s de Mousinho. Os que mais n�o puderam foram caindo extenuados pelo caminho. Uma ordem breve, terminante, gritada em corrida: os auxiliares cercariam a povoa��o; s� aos brancos seria concedida a honra de transpor a pali�ada.

Aproximava-se o grande momento!

Dificilmente se acreditaria que o Gungunhana, o fraticida que assaltara um trono, durante largos anos chefe incontes�tado e temido de aguerridas gentes v�tuas, que fora pap�o de conquistadores europeus e trunfo de diplomacias civilizadas � e que apesar de copiosamente batido reunia ainda em volta de si for�as consider�veis � difi�cilmente se acreditaria que se deixasse prender na sua casa, entre os seus, por um capit�o de cavalaria, dois oficiais subalternos e quarenta soldados estro�piados.

A pondera��o � uma bela e respeit�vel qualidade burguesa... mas com ela ningu�m conseguiria entrar em Chaimite...

Daquele passo com que Mousinho trans�p�s a pali�ada que cercava a povoa��o do Gungunhana � depois do facto, j� de si espantoso, de ter conseguido alcan��-la ape�nas com a for�a da sua aud�cia � era mais previs�vel, na verdade, o massacre em massa daquele punhado de europeus, do que o �xito e a gl�ria.

Mousinho lan�ou-se, � frente dos seus homens, em p� de vento, decidido, r�pido e inexor�vel, levando consigo todas as fatali�dades her�icas do seu temperamento � inclusivamente a suicida. De espada desem�bainhada correu sobre alguns negros arma�dos de espingarda, que davam ares de querer defender-se � e a sua ofensiva pronta e fulminante, bastou para esfran�galhar as �ltimas e hesitantes veleidades de resist�ncia daquela guarda real. Guer�reiros e outras gentes que se encontravam na povoa��o reduziram-se num momento a simples espectadores at�nitos da aventura do her�i. Gungunhana! Gungunhana!

Logo lhe indicaram a palhota onde o Gungunhana se escondia.

�Deitem fogo � palhota!

Ent�o o Gungunhana apareceu.

N�o se desprendera dele, apesar da der�rota e da desonra, toda a dignidade real. Apareceu�mas ainda de fronte erguida, ar arrogante, como se houvera determinado viver esse �ltimo minuto magest�tico da sua exist�ncia de grande chefe v�tua, como quem f�ra.

Mas n�o durou, poss�velmente, os ses�senta segundos precisos, esse minuto de coragem e dignidade reais. Mal apareceu, Mousinho ordenou que lhe amarrassem as m�os e o obrigassem a sentar-se no ch�o, a seus p�s.

O momento apote�tico da campanha de 1895 produziu-se ent�o. A prostra��o humi�lhada do famigerado chefe v�tua, rendido aos p�s de Mousinho, do qual se despren�diam todos os poderosos e transcendentes feiti�os dos her�is em ac��o culminante, tinha o valor de um s�mbolo.

O her�i e o vencido encontravam-se, finalmente, na mesma p�gina vibrante de Hist�ria�o primeiro no momento culmi�nante da sua gl�ria, o segundo nas profun�dezas mais amargas da sua derrota.

Era a derrota irremedi�vel e definitiva do Gungunhana � e, com ele, independen�temente de futuras erup��es, desse j� ca�do imp�rio v�tua, que as suas manhas de pol��tico e a sua exist�ncia de soberano-vivo, ainda mantinham, no covil de Chaimite.

Ainda n�o p�de dignamente fixar-se em� Arte�e� decerto� porque� a� velha escola� de pintura hist�rica,� que as artes modernas condenaram, encontra cumprindo pena de ex�lio � este momento sublime da nossa hist�ria militar nas col�nias: o momento preciso em que o Gungunhana verga, manietado e demolido, perante o capi�t�o de cavalaria, desgrenhado como uma chama, a ressumar suor e gl�ria. Em volta, sobrepondo-se aos elementos f�sicos de fundo que completam a express�o pl�stica do quadro � gentes assombradas, palhotas friorentas num ambiente de cores �midas e desmaiadas, plumas de fumo sobre as fogueiras cansadas�pairaria, como per�sonagem viva e material, o assombro hipn�tico dos v�tuas, paralisados e transmuda�dos em espectadores da inacredit�vel cena.

Teria eclodido um segundo angustioso e supremo de sil�ncio...

Logo a seguir, por insustent�vel, o qua�dro esbandalha-se em cenas mais vizinhas do humano-comum. O assombro dos v�tuas deflagra em alarido. Batem com as aza�gaias nos escudos de coiro, aplaudindo. � a sujei��o moral, a rendi��o deslumbrada ao her�i�mas � tamb�m a explos�o de um conjunto de sentimentos transcendentes e recalcados de desforra, contra o d�spota sanguin�rio que fora seu chefe. Parecia-lhes agora insignificante, rid�culo�e j� n�o compreendiam a raz�o dos temores que antes lhes inspirava.

Sic transit gloria mundi... �para os d�s�potas.

O acto her�ico caminhou ent�o rapida�mente para o seu desenlace.

Era indispens�vel manter e refor�ar, sem solu��es de continuidade, esta press�o violenta da aud�cia sobre o esp�rito dos vencidos � ainda, materialmente, muito mais numerosos e fortes.

O Gungunhana estava ali, liquidado para sempre como chefe� sem os seus Grandes, os seus conselheiros, o seu Estado Maior? O pr�prio r�gulo, esvasiado j� de toda a dignidade real, regressado � pele do Mardungaz, apontou dois�o Quito, irm�o de Muzila, e o Manhuno. � Fusilem-nos!

O Manhuno morreu como um v�tua, sor�rindo � como teria morrido o Gungunhana, se fora na verdade o melhor, o mais forte e o mais digno dos v�tuas.

Entretanto a m�e do r�gulo prostrado, rogava pelas vidas do filho e do neto.

Depois, tudo mais � o regresso, a deporta��o do Gungunhana, a consagra��o dos her�is, etc. � s�o meras ondula��es destes minutos sublimes...

Anotemos apenas que Mousinho teve raz�o � e n�o s� porque venceu. Continua�ria a ter raz�o se houvera fracassado. Ape�sar de preso e reduzido � impot�ncia, o Gun�gunhana � por consequ�ncia, apesar de esfrangalhado at� ao �mago o imp�rio v�tua � n�o eram as suas gentes, honra lhes seja feita, daquelas que se submetem facilmente.

E os acontecimentos futuros iam demonstr�-lo.

Dois anos mais tarde, Mousinho, guin�dado j� �s culmin�ncias do Governo Geral da col�nia, teria que haver-se, embora tendo aprisionado o Gungunhana, com a �ltima erup��o do esp�rito de independ�ncia v�tua, que liquidaria definitivamente em Macontene, com o desaparecimento do �ltimo Grande.

Nem todos os chefes do Gungunhana tinham sido apanhados. Escapara o mais not�vel�aquele que havia de encerrar, para os vencidos, com uma p�gina de bravura her�ica digna das gentes da sua� ra�a,� a� hist�ria� do� imp�rio v�tua. Chamava-se� Maguiguana,� gozava de enorme prest�gio e era, al�m de guerreiro audaz, agitador habil�ssimo. Conseguiu reacender a chama v�tua, orga�nizou a revolta em terras do Chibuto e Bilene, e consumou-a aparatosamente, ata�cando e massacrando uma pequena for�a portuguesa do comando do alferes Cha�musca.

A aventura veio a naufragar quatro meses mais tarde, contra nova coluna do comando de Mousinho, em Macontene.

O her�i de Chaimite fechou a vit�ria e o ciclo de oiro das suas fa�anhas de guer�reiro, com a mais audaciosa e not�vel carga de cavalaria despedida em sert�es afri�canos.

O Maguiguana conseguiu escapar depois do combate.

Mousinho, naturalmente, resolve pren�d�-lo. Depois de Coolela f�ra a sua intui��o que lhe comunicara a necessidade de pren�der o Gungunhana para liquidar de vez a inquieta��o b�lica dos v�tuas. Agora era a pr�pria experi�ncia e a li��o dos aconteci�mentos que o comandavam.

Repete-se, embora com outras propor��es, o fossado de Chaimite: uma corrida violenta e comovente em perse�gui��o do guerreiro e, por fim, a des�coberta do seu covil em Mapulanguene, onde o vencido se refugiara. Cerca-se a povoa���o,� mas ao contr�rio do que fizera o Gungunhana, que se deixara surpreender na sua palhota, sem galhardia nem �nimo, o Maguiguana n�o se entrega. Procura esca�pulir-se � mas o cerco que o aperta n�o lho consente. V�-se acossado por todos os lados. E para n�o ser preso, com a decis�o dos bravos que n�o admitem humilha��es, lan��a-se, disposto a morrer ou a fender a mura�lha armada que o sitiava. E morre combatendo, heroicamente e cumprindo assim a palavra que dera aos seus quando os levara para a revolta:

� Se os brancos me apanharem hei-de saber morrer!

 

Nunca mais os v�tuas se insurgiram nem a guerra voltou a ensanguentar estas terras de Gaza.

Louren�o Marques podia, enfim, respi�rar e demandar tranquilamente o seu des�tino de cidade e capital.