Havia festa em Magul � a uma cen�tena de quil�metros
de Louren�o Marques, passada a Manhi�a e Xinavane, por conse�qu�ncia, nos
arredores da capital.
Assinalava-se
mais um anivers�rio da vit�ria alcan�ada sobre as mangas do Gungunhana.
Recordava-se o nome pur�s�simo de Paiva Couceiro.
A
festa era mais rija do que o costu�mado, pois gozava da presen�a de um Mi�nistro
das Col�nias. E, por esse motivo, t�o rija que a homenagem parecia rendida ao
Ministro e Magul funcionava como vaso de incenso, altar e terreiro de
espect�culos.
Vamos
a Magul.
O
percurso � agrad�vel.
Pass�mos
Maracuene, em correria.
Bordej�mos
a seguir o vale do Incomati, que (dizem ainda substanciais relat�rios e
sugere-o o recorte f�sico do terreno) poderia ser, como outros vales h�midos
deste Sul do Save, celeiro, pomar e talho, abundant�ssimos e generosos.
�
apenas um vago e mal amanhado mostru�rio de possibilidades. Top�mos arrozais e
planta��es de bananeiras, quase perdidas na imensidade dos incultos. As
planta��es de bananeiras resgatam at� certo ponto o panorama pobre da ocupa��o
agr�cola: um grande tapete verde de folhas largas e pregui�osas ocupa j� uma
superf��cie impressionante, e rende para o proprie�t�rio e para a economia da
col�nia valores consider�veis. O esplendor fresco e, ao mesmo tempo, solene, de
paisagem com�pensa os esp�ritos contemplativos de melan�colia que fere os
esp�ritos utilit�rios. Na Manhi�a, povoado sede de circunscri��o, alcan�ado
quarenta quil�metros al�m de Marracuene, houve um homem de bom gosto que preparou,
num poleiro ideal do terreno, uma varanda esplendorosa sobre o vale. O quadro
merece a viagem � Manhi�a. Toda a beleza magestosa da enorme lez�ria se oferece
a� para deslumbramento de tu�ristas. O verde dos vegetais, a suavidade de cor
dos planos profundos, as brandas neblinas que empoam o azul � e a extens�o
esmagadora dos horizontes, elevam a con�templa��o �s alturas espirituais das
gran�des emo��es de arte.
Neste
Sul do Save mon�tono, pobr�ssimo de paisagem e de frescura, todo ele imbu�do de
melancolia pesada das estepes�a va�randa da Manhi�a � j�ia rara, por onde n�o
passar� sem assomar-se nenhum esp�rito de bom gosto.
Mais
al�m, rodados mais umas dezenas de quil�metros, a estrada desce e penetra no
vale. De um lado e outro da estreita passadeira estendem-se a lonjuras a
lez�ria de Xirravane. Parece agora, nesta �poca ressequida do ano, uma grande
estepe. Surgem manadas de bovinos tasquinhando os primeiros reben�tos verdes. �
outro aspecto, outra forma das terras marginais do Incomati.
Bordejamos
as planta��es da Compa�nhia A�ucareira �Incomati States�, ao longo da cortina
do canavial�e, at� Magul, a paisagem n�o merece a fadiga de a contemplar.
Se
por�m a paisagem f�sica, na sua �rida chateza, aborrece as vistas que a pro�curam
- a paisagem hist�rica, mesmo diminu�da pelo aparato oficial das cerim�nias
comemorativas, tem a cor, o relevo e os horizontes dos melhores quadros da His�t�ria
de Mo�ambique. De Magul � daquele peda�o de terra plana e ressequida em que se
ergue o monumento � v�em-se, em golpe de vista lan�ado de culmin�ncia para
lonjuras, o quadrado de Marracuene, a batalha de Coolela e o acto apote�tico
que foi a pris�o do Gungunhana.
Enquanto
decorrem, perante a multid�o dos negros, chamados como vencidos a homenagear os
vencedores e perante os bu�rocratas da administra��o, as fases m�s�ticas do
cerimonial comemorativo�re�cordo, de um lugar tranquilo, as p�ginas de Hist�ria
que consagraram o nome e as ter�ras de Magul.
Poucos
anos antes de Magul, era este Sul do Save, sem limites definidos, hora amarga
da noite negra que precedeu a obra de ocupa��o. Politicamente, uma esp�cie de
vago protectorado, mantido, as mais das vezes com desvantagem e preju�zo, ora por manobras diplom�ticas em que o prest�gio da soberania sofria
frequentemente humilhantes desaires. Praticamente nada diferia, na ess�ncia, da
paisagem pol�tica e social dos vastos territ�rios ocupados por potentados
gentios: as correrias guerreiras, as inva�s�es e emigra��es, as intrigas
sucess�rias e din�sticas, enfim, a permanente fervura de sociedades b�rbaras,
ainda fortes pelas suas institui��es e pelo n�mero, perma�nentemente
movimentadas pela inquieta���o tr�gica dos povos bantos. Os colonizadores
europeus tentando, cada vez mais insistentemente, as penetra��es profundas, e
procurando sofregamente direitos de ocupa��o, intrometiam-se na intriga e nas
contendas ind�genas, procurando cada um orient�-las a favor dos seus des�gnios.
A
situa��o dram�tica resultava espe�cialmente do interesse suscitado pela �frica
entre algumas na��es poderosas da Europa�interesse que desencadeava campanhas
diplom�ticas e corridas expansionistas, ver�dadeiras corridas de obst�culos em
matos eri�ados de complicadas e trepidantes soberanias gent�licas.
Na
�ltima d�cada do s�culo passado, cerca de 1894, ganhos j� pelo antigo pre�s�dio
de Louren�o Marques, os foros de cidade�n�o se rompera ainda, todavia,
completamente, o cerco abafante que se opu�nha � expans�o da soberania no
sentido das terras do interior. A org�nica administra�tiva compreendia um distrito
de Louren�o Marques, mas, na verdade s� precariamente domin�vamos um
escasso territ�rio, de limi�tes indefinidos, ao longo do rio Incomati e para
Sul do rio Esp�rito Santo. Para al�m de Cossine (no Norte e no vale do
Incomati) eram as terras do Gungunhana � um potentado que condescendia em
dizer-se vassalo de Portugal... uma vez que lhe respeit�ssemos a independ�ncia.
Arrumada,
com a senten�a arbitral de Mac-Mahon, a quest�o com a Inglaterra e desviado
assim o mais perigoso concorrente �s terras do Maputo � perma�necia, no
interior que envolvia a cidade nas�cente, a soberania de facto dos r�gulos ind��genas,
contra a soberania que pretend�amos fazer reconhecer. Por detr�s dessa pesada
cortina surgia outra vez a Inglaterra, cati�vando o Gungunhana.
No
pr�prio distrito, rijamente apertado entre o mar e as terras do Gungunhana, s�
domin�vamos efectiva e soberanamente a cidade de Louren�o Marques e os
arredores. O restante territ�rio � as chamadas terras da coroa, onde se
cobrava imposto de pa�lhota e se recrutavam soldados e trabalha�dores � era um
mosaico de regulados que, apertados entre o poderio do Gungunhana e os
estabelecimentos portugueses, re�ceando ambos, ora se apoiavam em uma ou outra
for�a. N�o distava mais do que a 1872 a �ltima grande chacina sofrida pelos por�tugueses
de Louren�o Marques.
Em
resumo: opunham-se � expans�o da cidade e � ocupa��o efectiva do territ�rio,
uma regi�o habitada por r�gulos-vassalos insubmissos, apesar de sujeitos ao
imposto e ao servi�o militar (nas terras da coroa �e, nos seus dom�nios,
para al�m da Cossine, o Gungunhana derri�ado pela di�plomacia sertaneja de
portugueses e in�gleses.
Era
esta a situa��o, recordada naquela hora festiva de Magul, a tra�os grossos e
breves.
Resta
lembrar tamb�m quem eram os povos que se nos opunham�av�s, daque�les que
participam hoje, com m�micas de guerra,��
nas� festas� comemorativas� do combate. O Gungunhana era um
Zulu (v�tua) na�� denomina��o�� portuguesa) descendente de aguerridos chefes, cujo������ poder e prest�gio tiveram como fundador
o c�lebre Tshaka � pol�tico e guerreiro t�o not�vel que ficou conhecido como o
Napole�o negro da �frica do Sul
Tshaka obteve o
poder, impondo-se, pela for�a de que dispunha como chefe do ex�r�cito e como
guerreiro de altas qualidades, herdeiro do soberano de sangue da Zulul�ndia�o
Dinjissnaio. Dois dos melhores generais�o Mosselakatse e o Manikusso � bons
disc�pulos da sua escola pol�tica e guerreira � seguiram-lhe o exemplo. Quando
as conquistas de Tshaka excediam j�, territorialmente, as suas capacidades para
govern�-las e mant�-las, resolveram estes seus generais, libertar-se do comando
do chefe supremo e prosseguir nas conquis�tas � mas em proveito pr�prio.
Mosselakatase,
depois de aventuras guerreiras mais ou menos afortunadas, que o levaram a
terras da Rod�sia, fundou a� o reino dos Matabeles, de que foi o primeiro rei.
Manikusso, avan�ando, raziando, con�quistando, entrou pelo Maputo e foi at� �
Cossine (Mazimchope). Consolida prest�gio e poder derrotando um outro general
do Tshaka que viera em sua persegui��o � e, assim destravado, estende a sua
conquista at� �s margens do Zambeze para onde empurra o seu antigo aliado
Sangadaba.
Tudo
decore, como se v�, conforme os moldes cl�ssicos das intrigas sucess�rias e
guerras gentias em toda a �frica banto.
Em
1834, eram tamanhos o poder e ousadia do Manikusso que Louren�o Mar�ques foi
atacada pelas suas tropas e truci�dada a pequena guarni��o que defendia o
Pres�dio.
Estava
fundado, com este Manikusso, que s� em 1861, viria a morrer em Bilene, o reino
que mais tarde seria do Gungunhana.
Depois�� de��
Manikusso�� veio�� seu��
filho Mau�ua, que logo se ati�ou contra um irm�o�o Muzila�obrigando-o a
refugiar-se no Transval.
Os portugueses
resolveram ent�o, habil�mente, tomar partido pelo exilado, que tendo, com este
aux�lio, conseguido derro�tar o Mau�ua e ocupar o trono, se reconhe�ceu vassalo
de Portugal.
Morreu
em 1883. Devia suceder-lhe Mafemane, seu filho e herdeiro leg�timo. Mas outro
filho, sem direitos, que lhe cobi�ava a heran�a e o poder, mandou-o assassinar.
O
assassino chamava-se Mardungaz ou Mordungaz�mas subiu ao trono com o nome de
Gungunhana.
A
morte do nosso aliado Muzila preo�cupou naturalmente a governa��o portu�guesa.
O sucessor respeitaria ou n�o os sen�timentos de gratid�o e obedi�ncia de seu
pai. Da sua crueldade e esp�rito sanguin�rio dera imediatamente provas: da sua
versa�tilidade sabia-se que era soberano do gentio�e isso bastava.
A
habilidade de um sertanejo, antigo oficial do ex�rcito, armado em embaixador
junto do Gungunhana � Jos� Cavaleiro de Alegria Rodrigues�permitiu que as coi�sas
se n�o descompuzessem at� 1894. N�o s� o Gungunhana se manteve relativamente
fiel nas suas terras, para al�m da Cossine, sem incomodar desmedidamente as
autoridades portuguesas e o gentio do distrito de Louren�o Marques�como tamb�m
concordou em aceitar, como vas�salo, algumas condi��es essenciais para a
afirma��o dos nossos direitos de soberania perante o mundo civilizado.
Praticamentegozava
magn�fica independ�ncia�e fun�cionava, de facto, como sombra negra, amea�a
permanente.
Exageravam-se
certamente o seu poder, a organiza��o militar do seu ex�rcito, as suas
riquezas�at� a extens�o dos seus dom�nios. Mas, descontados mesmos os exageros,
o Gungunhana era, na ver�dade, o potentado mais temido e influente da col�nia, depois
do Monomotapa. Os r�gulos v�tuas enfeudados ao Gungunhana dominavam, pelo
menos, todos os vastos territ�rios que se estendem� do Incomati at� ao Zambeze e do pa�s dos
Matabeles
(Rod�sia) at� ao Oceano.
A
corte� do soberano funcionava em
Manjacaze, povoa��o que ele fundara, con�forme a tradi��o din�stica, como seu
pai fundara o Udongo e Manikusso o Chaimite. A calma em que se vivera entre o
rei�nado de Muzila e 1894�calma relativa, muito eri�ada de preocupa��es, erros
e fraquezas, agravadas pela��
eterna�� incom�preens�o do
Terreiro do Pa�o acerca das realidades pol�ticas e administrativas das
col�nias�quebrou-se aparatosamente com uma insurrei��o dos principais r�gulos
das terras da coroa. N�o tardou que a revolta se esten�desse e avassalasse
quase todo o distrito de Louren�o Marques.
A
cidade viu-se novamente amea�ada, reduzida outra vez � situa��o de burgo cer�cado
- como amea�ado estava todo o pr�prio esfor�o realizado nos �ltimos anos para
vencer as terras do interior.
Por
detr�s dos revoltosos espreitava o Gungunhana.
Por
detr�s do Gungunhana esperavam activamente os ingleses.
N�o
bastavam as tropas aquarteladas em Louren�o Marques para defender a cidade.
Cada habitante teve de fazer-se sol�dado. Fortifica��es improvisadas procura�ram
aumentar a capacidade de defesa. O estado de alerta tornou-se permanente � e a
fadiga, as vig�lias, amea�avam vencer a popula��o como aliados dos negros revol�tados.
Em
14 de Outubro, foi a cidade violen�tamente assaltada. Defendida com deses�pero,
os assaltantes foram repelidos ao cabo de uma hora angustiosa de combate. E s�
a fome e as dissid�ncias entre os r�gulos assaltantes impediram novas
investidas do gentio.
Em
Novembro chegavam refor�os da Metr�pole, que consolidaram a posi��o de�fensiva
e puseram Louren�o Marques a coberto de novos assaltos � mas por falta de
capacidade ofensiva a situa��o n�o se modificou. A cidade continuava cercada.
Produz-se
ent�o um acontecimento raro na amargurada Hist�ria de Mo�ambique � Hist�ria de
her�is e de m�rtires sacrificados a incapacidades pol�ticas e administrativas:
o Governo considera a gravidade da situa��o, sem ilus�es nem cobardias, e
escolhe para enfrentar o homem recomendado pelas mais altas qualidades.
Ant�nio
Jos� Enes, homem de letras e homem de ac��o, esp�rito combativo e esp��rito
estudioso, energia clara e reflectida
� o
pol�tico que sabia pensar como homem de ideias e agir como homem de ac��o, que
amava os valores e n�o os invejava, que n�o se sentia deminuido com os triunfos
e as gl�rias dos seus colaboradores, e para o qual a pol�tica era apenas o meio
de servir supe�riormente o seu pa�s�foi nomeado Comis�s�rio R�gio e enviado a
Mo�ambique, com os poderes necess�rios.
N�o
tornaria a verificar-se na pol�tica colonial da Na��o esta feliz coincid�ncia
perante uma situa��o de gravidade ou emerg�ncia: um Governo reconhecendo
nobremente a sua incapacidade para resol�ver directamente, e a dist�ncia,
problemas de governo local; uma pol�tica que consentiu a nomea��o do homem mais
indicado para enfrentar uma grande quest�o, desistindo de impor, conforme as
suas tend�ncias e tradi��es, o primeiro med�ocre categorizado pela influ�ncia e
compadrio,� finalmente � o pr�prio
Homem.
A coincid�ncia
entre estas circunst�n�cias e estes valores libertam definitiva�mente
Mo�ambique das amargas aventuras do seu passado, entregando a col�nia, livre�mente,
�s suas extraordin�rias possibili�dades de futuro.
Principia
ent�o � e desta vez em ascen��o gloriosa e firme�o per�odo moderno da Hist�ria
de Mo�ambique.
Ant�nio
Enes concebe um plano pol�tico, � e todas as virtudes do plano res�saltaram �
medida que a sua execu��o se ia desenvolvendo.
Um
plano directo, objectivo, de homem de ac��o que sabe pensar e sabe rir dos
ret�ricos de Biz�ncio: sufocar e punir a revolta das gentes das terras da
coroa, em termos de n�o ficarmos � merc� de outras; partir da defensiva
organizada para a ofen�siva decidida, conduzindo esta at� � pacifi�ca��o real e
definitiva; criar as possibili�dades t�ticas e estrat�gicas de ataque ao
Gungunhana � e atac�-lo, logo que as cir�cunst�ncias o permitissem, com o fim
de o reduzir a verdadeiro vassalo da coroa, ou aniquil�-lo.
O
homem de letras soubera subtrair-se inteiramente �s tenta��es liter�rias que,
no seu tempo, e entre os homens da sua for�ma��o, deformavam os entendimentos
pe�rante as realidades.
O
plano, precisamente concebido, seria preciosamente executado: dos elementos
materiais, das oportunidades, da selec��o e est�mulo aos valores, das
particularidades ambientes�de tudo, enfim, cuidou supe�riormente o
extraordin�rio chefe.
E
aqueles que com ele serviram conhe�ceram a gl�ria de servir, a gl�ria de
man�dar, a gl�ria de obedecer�sem sofrerem decerto a melancolia dos
valores que apo�drecem por n�o terem encontrado um chefe.
Em
28 de Janeiro de 1895, procedendo a organiza��o da rectaguarda a reconheci�mentos
cautelosos, abalava de Louren�o Marques a primeira coluna da ofensiva.
Tratava-se de ocupar Marracuene, �ptima posi��o sobre o Incomati, e de exercer
a pri�meira ac��o punitiva sobre os rebeldes.
No� dia�
imediato assentaram-se arraiais, junto � margem do rio, no chamado Alto
da Massinga. As tropas tinham sido rudemente experimentadas� pela�
fadiga� e� pela chuva�e hesitava-se entre prosseguir as
opera��es na margem direita do Incomati e retirar de Marracuene para Louren�o
Marques, depois de instalar ali um posto militar� de� ocupa��o.� Tudo�
dependia� do tempo melhorar, ou
continuar a chuva a impedir prop�sitos mais ofensivos.
As
coisas pareciam indicar que a sim�ples presen�a da coluna afugentara os re�beldes.
N�o se pressentia inimigo nem se quebrara o soc�go das primeiras noites mal
dormidas em bivaque.
Inesperadamente,
pelas quatro horas da madrugada de 2 de Fevereiro, acabavam as tropas de
despertar � ordem do toque de alvorada, foi o quadrado t�tico violenta�mente
acometido e roto em uma das faces. E o combate principiou em luta
corpo-a-corpo.
A
surpresa, a fadiga das tropas, a escurid�o da noite, a vozearia b�rbara do
gentio, provocaram o p�nico � e tudo redundaria em tr�gico desastre, de incal�cul�veis
consequ�ncias, se a t�mpera e bra�vura de alguns oficiais o n�o conjurasse, em
prod�gios de energia her�ica. O nome de Roque de Aguiar grava-se para sempre, na
Hist�ria de Mo�ambique, durante este quarto de hora de ang�stia. Outros o acom�panham
em esplendor her�ico. Conseguem estes oficiais reconstituir o quadrado, rea�nimar
os t�midos, excitar os bravos e, por fim, mudar inteiramente a fisionomia do
combate. Os assaltantes, a cuja bravura se deve tamb�m justa homenagem, s�o
repeli�dos. E do quadrado assim reorganizado, depois de sacudida a luta
corpo-a-corpo, par�tem balas, em rajadas, que os desmoralizam. A luta a
dist�ncia perde logo intensidade. E antes que a manh�� rompesse
a batalha estava ganha � e conclu�da com as primeiras luzes do dia, �s seis
horas.��������������������������������������
Fora
vencido um rude e perigos�ssimo passo.
O desastre
que pairou sobre o quadrado de Marracuene teria sido, a consumar-se, talvez
irrepar�vel. Juntaria aos rebeldes os poucos r�gulos que ainda se conservavam
na espectativa; lan�aria as terras da coroa para os bra�os �vidos do Gungunhana
� e teria certamente decidido este contra n�s.
Louren�o
Marques dificilmente se teria salvo.
A
vit�ria arrancada, contra as pr�prias circunst�ncias que pesaram
consider�velmente a favor da derrota, surtiu efeitos opostos. Sen�o
diametralmente opostos, pelo menos suficientes para desembara�ar o caminho at�
esta planura de Magul, onde me encontrei naquela manh� festivamente
ministerial, a recordar estas coisas.
A
vit�ria significou a conquista do ter�rit�rio � mas n�o realizara a
pacifica��o. Os r�gulos rebeldes debandaram para a sombra do Gungunhana,
levando as suas gentes, e deixando praticamente despovoa�dos os territ�rios da
conquista.
Fora vencida a terra, tamb�m
insubmissa e cruel, armada de chuvas copiosas, mosquitos e humidades
corrosivas; fora vencido o gentio aguerrido que se levantara em alian�a com a
terra inimiga � mas nem terra nem gentes estavam pacificadas.
Era
necess�rio organizar uma paz nos territ�rios��
vencidos�� ��� e��
prosseguir�� a guerra; consolidar
a vit�ria � e project�-la � dist�ncia. Demais estava indicado que se
aproveitasse o favor das circunst�ncias, para�
desanuviar de vez,� de todas� as nuvens negras, o c�u azul do Sul do Save.
Isto �: para suscitar a oportunidade� de eliminar ou reduzir �
impot�ncia o Gungunhana. O plano do Comiss�rio R�gio cumprir-se-ia at� final.
Reorganizados,
com a decis�o de quem sabe o que quer, as for�as e o territ�rio, pas�sou-se �
ac��o imediata: bater definitiva�mente os rebeldes vencidos, mas ainda n�o
convencidos, das terras da coroa; ocupar em volta, e mesmo no interior das
terras do Gungunhana, posi��es de onde o mantiv�s�semos em respeito de
verdadeiro vassalo; se as circunst�ncias o permitissem, atac�-lo em
profundidade, liquidando-o de vez como chefe de gentes v�tuas.
Era
o caminho para Coolela e Chaimite, com escala por esta plan�cie de Magul�onde
hoje nos encontramos, em ar de festa.
Em
fins de Maio daquele mesmo ano de 1895 (bem se v� que a burocracia ainda n�o
sujeitava desmedidamente os homens de ac��o) estavam as coisas preparadas e dis�postas
para se principiar a cumprir o plano ofensivo do Comiss�rio R�gio.
Organizaram-se
duas colunas � uma que se destinava a opera��es nas terras de Inhambane, e se
chamava a coluna do Norte; outra que operaria no distrito de Louren�o Marques�a
coluna do Sul. A primeira liquidaria de vez a insubmiss�o dos r�gulos das
terras da coroa; a segunda levaria a ocupa��o de posi��es e demonstra���es de
for�a, em volta e adentro das terras do Gungunhana, at� onde a fortuna o per�mitisse.
Comandava a primeira o major Gomes Pereira, levando consigo oficiais como Paiva
Couceiro, Freire de Andrade e Sanches de Miranda. Comandava a segunda o coronel
Eduardo Galhardo, entre cujos oficiais se contava Mousinho de Albuquerque.
Aquela primeira coluna, cuja mem�ria se fixou nesta terra rebarbativa de Magul,
defrontava, conforme o his�toriador�
dos� portugueses� em��
Mo�am�bique, a seguinte situa��o:
��Toda a regi�o para o Sul do Incomati e entre
este rio e o mar estava pacificada, ou, pelo menos, n�o era abertamente hostil.
A Magaia, depois das opera��es que ali se realizaram, foi abandonada pelos
r�gulos rebeldes, o Matibejana e o Maazul, que se retiraram para o Norte; a
Matola conser�vava-se sempre, ao menos na apar�ncia, a nosso favor; o r�gulo da
Moamba e o seu aliado da Cherinda esperavam o resultado da luta para se
pronunciarem, e entretanto n�o nos hostilizavam; a Manhi�a estava a nosso favor
desde que as nossas tropas lhe pisavam o territ�rio; os povos de Intimane,
repartidos em v�rios regulados, eram uns por n�s enquanto outros se bandeavam
com o Gungunhana. Para al�m da margem esquerda do Incomati fica a Cossine, que
obedecia a um r�gulo vassalo do Gungu�nhana chamado Chonguela Manavi, crian�a
de quinze anos de quem era tutor um tal Massingele. Esta gente, que s� obedecia
ao Gungunhana, por medo das suas sanguin�rias mangas, n�o se nos mostrou
hostil. Para nordeste ficavam v�rios pequenos regulados, sujeitos a um chefe de
nome Magioli, cujas rela��es com o senhor de Gaza eram mais �ntimas e portanto
mais acentuado o esp�rito de hostilidade con�tra n�s. Era a�, com a gente desse
r�gulo, com os cossas que mais o avizinhavam, e com os habitantes da
margem do Limpopo, que o Gungunhana, parece, mais contava e com eles se
propunha experimentar a sorte das armas�.
Apesar
da vit�ria de Marracuene, a situa��o n�o era, por consequ�ncia, f�cil. O
gentio rebelde do distrito de Louren�o Marques, certamente con�fiado no poder
do Gungunhana, e con�vencido que era do interesse deste apoiar os seus
prop�sitos de desforra, mostrava-se disposto a resistir e recuperar as posi��es
perdidas.
A
coluna entrou afoitamente na Cossine, onde estabeleceu um posto, e, em 30 de
Agosto, iniciou a marcha na direc��o de Magul, onde ent�o o Matibejana residia
e organizara o quartel general da resis�t�ncia.
Em
3 de Setembro alcan�ava a plan�cie de Magul.
Procuro
distinguir a paisagem brava de ent�o no pac�fico recorte desta planura, agora
animada por um monumento simples e esguio como ponto de exclama��o, em volta do
qual h� um palanque armado e ban�deiras desfraldadas.
Uma
superf�cie ch�, exposta � torreira do sol, atapetada de capins amarelos, quente
como uma grelha. Meia d�zia de �rvores esquel�ticas, amarguradas, vagueiam, per�didas
na solid�o. No horizonte uma onda branda do terreno, arborizada, recorta no c�u
linhas crespas de mata pobre.
Cerro
os olhos e parece-me ouvir, exala�dos da pr�prias paisagem, os acordes do poema
musical de Borodine sobre as estepes da �sia Central.
Avistam-se
as primeiras for�as inimi�gas j� a curta dist�ncia da mata que limita a
plan�cie. Os auxiliares � gentes recruta�das nas terras da coroa, acobardados
perante n�s depois da vit�ria de Marracuene, e acobardados perante os rebeldes,
que n�o consideravam definitivamente vencidos � paralisados�� de��
pavor, recusam-se a prosseguir. In�teis todos os esfor�os para os
imobilizar; e iriam pesar nas opera��es de combate, como mais um inimigo. Toda
a coluna � obrigada a parar, tolhida pela paralisia nervosa de um dos seus
�rg�os�e exactamente no momento em que uma paragem, por dar a entender receio ou
hesita��o, se tornava mais arriscada.
Algu�m
aparece, no entanto, disposto a sacrificar-se para salvar a situa��o.
�
magro e comprido como D. Quixote. Pulsam no
seu cora��o todas as generosidades her�icas do cavaleiro da Mancha. A sua
consci�ncia � escrava da sua alma de cavaleiro. E seria mais tarde, somados os
passos que deu na vida e o esp�rito que os conduziu, o car�cter de portugu�s
mais puro do seu tempo.
Tinha
a seu cargo o servi�o de segu�ran�a da coluna.
Chamava-se
Henrique de Paiva Couceiro � e era ent�o s� tenente de artilharia.
Adiantou-se
na direc��o do inimigo, a galope curto, bravo e sereno.
A
sua aud�cia, a simplicidade e natu�ralidade do cavaleiro e, certamente tamb�m, o
poder dominador que irradia dos gestos her�icos � impuzeram-se aos rebeldes.
Couceiro, n�o s� os alcan�a sem receber ofensa, como tamb�m, chegado � fala, os
intima, em voz de estertor, confiada e amea�adora, a entregarem o Matibejana.
Dava-lhes tr�s dias�s� tr�s dias!�para cumprirem a intima��o. E se n�o
cumprissem...
Dir-se-ia
que trazia consigo o poder divino de castigar e perdoar.
Os
rebeldes, assombrados, ouviram � e n�o ousaram o menor gesto contra o her�i.
Couceiro,� terminada a sua arenga� intimativa�
e� amea�adora, volta as costas ao
gentio e retira-se a passo.
Foi
esta fa�anha que salvou a coluna de um ataque imediato e deu ao comando o tempo
necess�rio para se refor�ar e conju�rar o perigo que resultava da cobardia dos
auxiliares.
As
tropas recuaram at� Xinavane sob o pretexto de a� aguardarem que decorresse o
prazo fixado para a entrega do Matibejana. Na verdade procuravam apenas refa�zer-se
do precal�o.
Passados
tr�s dias, refor�adas e bem dispostas, avan�aram novamente.
Em
7 alcan�aram outra vez as terras de Magul. E na manh� de 8, marchavam ent�o a
quil�metro e meio da mata que orla a plan�cie, sensivelmente neste lugar em que
hoje nos encontramos, quando lhes sur�giram pela frente as mangas inimigas.
Era
uma massa negra e ululante de cerca de sete mil guerreiros, apostados em
envolver e chacinar os 275 brancos da coluna portuguesa.
O
assalto n�o tardou.
Enquanto
as colunas rebeldes se lan�am, desaustinadas e ferozes, a coluna, em qua�drado,
defende-se a p� firme, golfando des�cargas compactas. Cortinas de fumo, espes�sas
e amargas, ocultam o inimigo � e � necess�rio cessar fogo para render a
atmossfera � sua transpar�ncia. Mas logo se v� que apesar das descargas
cerradas, o inimigo conseguiu aproximar-se perigosamente. O fogo rompe outra
vez, mais vivo, raivoso, cont�nuo, para tornar a cegar as vistas da coluna.
Combate-se entre nuvens de p�lvora, numa luta de fantasmas. As mangas do
Matibejana conseguem assim aproximar-se a menos de cem metros do quadrado. Mas
a�, j� muito ceifadas, quebrados os �mpetos iniciais�hesitam. � o momento
cr�tico em que a vit�ria se decide. Os auxiliares perce�bem o desgaste e
fraqueza do inimigo. Pres�sentem que apesar do seu avan�o, ele n�o conseguir�
transpor a curta dist�ncia que j� o separa do quadrado. E ent�o deci�dem-se.
Com �mpeto feroz das cobardias que explodem em bravura, lan�am-se � carga com
as suas azagaias. E � o golpe de miseri�c�rdia. Os �ltimos assaltantes caem ou
fogem desabaladamente � e n�o tarda que em toda a plan�cie s� restem as tropas
ven�cedoras, sangrando do sangue da vit�ria, e os mortos.
O
combate durara uma hora.
Se
n�o fora a vit�ria seria a chacina em massa e a perda de todos os resultados j�
alcan�ados.
E a
vit�ria era, apesar de alcan�ada sobre um r�gulo rebelde das terras da coroa, o
primeiro golpe vibrado no poder e pres�t�gio do Gungunhana.
Em
volta do monumento prosseguiam protocolarmente as cerim�nias comemora�tivas.
Distra�do
com lembran�as do passado e alheio ao que se passava em volta, cincoenta anos
depois do Matibejana, fui repentinamente surpreendido por imagens que pareciam
arrancadas � evoca��o em que me perdera. Vi-me eu pr�prio, e a gente grada que
me acompanhava, embora confort�velmente sentados, no quadrado de Magul de 1895,
enquanto as mangas do� Matibejana nos
carregavam de azagaias em riste.
Foi
um segundo de alucina��o.
O quadrado
era simplesmente o palanque amaneirado de onde assistia � cerim�nia�e que
tamb�m era qua�drado. Os negros que avan�avam entre nuvens de poeira, com azagaias
e escudos, eram simplesmente bailarinos.
Para
gozo do Ministro, que, infelizmente para a Hist�ria de Portugal, n�o nasceu a
tempo de bater-se em Magul, tinham sido concentrados alguns milhares de v�tuas
para, ao mesmo tempo, reverenciarem a soberania e exibir-se em batuque de
guerra.
A
ideia fora felic�ssima, menos como demonstra��o do entendimento em que vive�mos
com os advers�rios de 1895 - entendi�mento que por outras formas salta aos
olhos � do que como pretexto para apresenta��o de um dos mais belos e
impressionantes espect�culos a que pode assistir, no Sul do Save, quem anda por
a� a espreitar curiosa�mente terras e gentes menos conhecidas.
Trata-se
de uma m�mica de guerra, representada e bailada, ao som de marim�bas, por
artistas coreogr�ficos e musicais de magn�ficos recursos e expontaneidade.
Os
negros s�o m�sicos e escultores natos.
Estes,
s�o m�sicos e bailarinos de apti�d�es naturais, cultivadas durante alguns
s�culos de escola guerreira e coreogr�fica. Treinavam-se para a guerra, dan�ando
� e aprendiam na guerra os seus passos de dan�a. Da guerra, que n�o puderam
fazer mais, guardaram, como saudade f�sica e espiritual, a dan�a. O sentido ou
instinto que t�m do ritmo e das atitudes, s�o dos mais apurados da sua
ra�a�essa ra�a que forneceu aos civilizados de hoje, os ele�mentos essenciais
da m�sica e do bailado chamados modernistas.
Aproximaram-se,� em multid�o de alguns milhares, levantando
poeiras que o sol doirava, com as suas azagaias brandidas, os escudos de pele
de boi cobrindo os corpos, rumorejando como o mar.
No
primeiro plano, uma orquestra de muitas dezenas de marimbas esperava com
impaci�ncia.
N�o
se realizara, evidentemente, apesar do n�mero e das armas, um clima de guerra.
Mas este rolar de multid�o armada, crispando por milhares de bra�os agitados,
envolta em poeira, eri�ada de lan��as, provocava, ao menos sens�vel, os fr�mi�tos
emotivos dos grandes espect�culos viris.
Um
velho zulo, que certamente era do tempo do Gungunhana, e que, possivel�mente,
se batera em mangas de guerra, adiantou-se, com gravidade n�o isenta de
melancolia. E, dirigida ao palanque-quadrado, a sua voz, encorporada de soleni�dade,
cava, que parecia desgarrada da boca de uma caverna, gritou a sauda��o v�tua:
�-�
Bayete!
E logo
a multid�o, por milhares de gar�gantas, numa s� voz de sonoridades oce�nicas,
exclamam:
�-� Bayete!
Bayete! Bayete! E
o velho repete:
�- Bayete! E o coro:
�-� Bayete! Bayete! Bayete!
Tr�s
vezes ribombam, no sil�ncio sole�n�ssimo da plan�cie, os Bayet v�tuas.
Um
arrepio eri�a todas as peles sens�veis da gente branca.
Estas
mangas pac�ficas de m�sicos e bailarinos, armados para cantarem e dan��arem,
ainda conservam, do seu antigo poder de amedrontar, a faculdade de arrepiar.
Todo o palanque-quadrado, galharda�mente comandado por um ministro e um
general, foi violentamente sacudido por esta carga de comoventes sauda��es.
Perdidas
em lonjuras as �ltimas notas da terceira sauda��o, explodiram entusiasticamente
dezenas de marimbas. E logo a rigidez e sil�ncio das forma��es, se quebraram em
movimento e alarido musical.
Na
primeira fila, dois grupos coreogr�ficos, �geis e nervosos, extraordin�rios bai�larinos
e excelentes actores, simulam, em ritmos frementes, as fases de um combate. O
coro, de milhares de vozes, milhares de corpos, milhares de azagaias � a
multid�o, com tudo que a multid�o tem de cruel, de violento, de brutal e de
belo � acompanha o bailado, em ondula��es de vaga crispada pelo temporal.
Uma
primeira figura, esp�cie de comentador coreogr�fico, desloca-se como um dem�nio
em paroxismos de movimento e ritmo; todos os seus m�sculos trepidam como se os
excitasse poderosa corrente el�ctrica.
No
ar rodopiam poeiras. E a nuvem fina de p�, sobre os corpos suados, bailando tam�b�m
em espirais destrambelhadas, cria ambientes de coisa fant�stica.
Em
certa fase do bailado, exactamente a mais pictural e movimentada, os dan�ari�nos
batem com os escudos no solo, elevan�do-os seguidamente, com as lan�as, num
salto brusco, magn�fico de energia r�tmica e destreza, em que desenham no
espa�o preciosamente, em atitudes inacredit�veis, os seus corpos negros de
longos m�sculos. Apesar da viol�ncia selvagem do passo, n�o lhes falta a gra�a
original com que desa�brocham algumas flores estranhas dos tr�picos.
E�� a�
grande ��onda,�� sempre��
animada pela cantilena vibrante das
marimbas, pelos gritos de guerra, em crispa��es de lan�as e escudos,
consegue
na verdade
realizar, no ambiente musical, imagens espectaculares de guerra gentia.
Terminado
o bailado e desenvolvido o argumento at� � �ltima cena, a vaga desce
aparatosamente sobre o palanque-quadrado em carga ululante de guerreiros. � uma
flo�resta inteira de azagaias e escudos, que rola tumultuosamente, envolta em
poeiras, espessas como fumos de p�lvora, e que parece ir subverter a alta
burocracia de Mo�ambique.
P�ra
repentinamente, ofegante e luzindo pelo suor de milhares de corpos, a poucos
metros do palanque ministerial�que resiste como o quadrado de 1895. Os v�tuas
de hoje carregaram como os rebel�des de h� cincoenta anos � e estacaram como
gentes que pagam o imposto.
S�
ent�o distingo na massa fremente, entre os rapazes destas gera��es submissas,
os velhos que ainda pertenceram �s hordas do Matibejana e �s mangas do
Gungunhana.
Procuro
nos seus olhos a saudade da sua juventude independente e belicosa � mas o seu
olhar mostra-se ba�o, resignado, apenas levemente ir�nico.
O
espect�culo seria mais puro, e inapag�vel a impress�o que deixaria, se o
guarda-roupa e adere�os dos artistas n�o fossem desmanchados pelo mesmo mau gosto
s�r�dido que tem pretendido, nos �ltimos anos. vestir a gloriosa nudez
ind�gena. Quer dizer: se os m�micos de hoje se apresentas�sem mais
rigorosamente semelhantes, no traje e no armamento, aos guerreiros de ontem.
Mas
n�o. Sobre os corpos, sempre vigo�rosos e belos destes magn�ficos v�tuas -
fisicamente�� t�o�� semelhantes�� aos cuanhamas de Angola - vestindo os seus bra�os esguios e as
suas pernas nervosas, v�em-se sobretudos esfarra�pados e camisolas em
frangalhos, em mistura confrangedora com peles de leo�pardo, polainas de pele
de cabra e preciosos escudos de coiro. E assim, a beleza pl�stica do quadro
sofre, naturalmente, destas n�doas de mis�ria e mau gosto.
No
entanto, o espect�culo � ainda impressionante � especialmente quando se observa
em conjunto e as vistas deslumbra�das pelo movimento e a cor se distraem de
pormenores agoniativos.
Terminada
a cerim�nia na plan�cie de Magul, as for�as
ministeriais retiraram, em ordem perfeita, sobre a Manhi�a, onde nos esperava o
almo�o.
Diga-se,
em abono da verdade, que nem outra coisa mais her�ica era poss�vel fazer,
passados cincoenta anos sobre a vit�ria de Magul, por mais excelente que fosse
� e era de facto � o moral da comitiva.
Entretanto,
rodando na estrada de 1945, os olhos ainda cheios de imagens de v�tuas em
m�mica de guerra, retomo a evoca��o dos acontecimentos passados at� � pris�o do
Gungunhana e pacifica��o definitiva do Sul do Save.
Enquanto a coluna do Sul cumpria em Magul o melhor e mais
not�vel da sua miss�o, dispunha-se e manobrava a coluna do Norte, para trilhar
espinhoso caminho de gl�ria.
Era
muito mais circunstancial a miss�o desta coluna. Enquanto a do
Sul marchou, desde o princ�pio, para o
objectivo preciso e definido de bater os rebeldes do distrito de Louren�o Marques e limpar o territ�rio de focos de insubmiss�o � a coluna
do Norte organizou-se
e
iniciou opera��es, cujo desenvolvimento e objectivos iam depender das reac��es
do Gungunhana perante as nossas exig�ncias para o estabelecimento de uma
soberania efectiva nas terras de Gaza.
Assim,
a primeira miss�o da coluna do Norte consistia em apoiar energicamente uma
campanha diplom�tica contra o famoso r�gulo.
O
combate de Magul viria a impressio�nar mais tarde, e profundamente, o filho de Muzila.
Mas j� muito antes, a organiza���o e os primeiros movimentos da coluna do
Norte, que alcan�ara tormentosamente Chicomo, na fronteira dos seus
territ�rios, o haviam convencido da possibilidade de ser atacado no pr�prio
reduto sagrado de Manjacaze. Se a coluna do Sul fracas�sasse, na sua
persegui��o aos rebeldes das terras da coroa, alcan�aria ele, sem riscos nem
sacrif�cios, uma vit�ria quase decisiva. Mas podia n�o fracassar e vencer � e
n�o lhe restavam d�vidas que, nesse caso, seria ele, Gungunhana, o verdadeiro
derrotado.
Enviou
ent�o, para negocia��es, uma embaixada ao Comiss�rio R�gio.
Ant�nio
Enes n�o recebeu a embaixada. Preferiu que fossem delegados seus a Man�jacaze �
n�o para negociar, mas para impor condi��es. E ou o Gungunhana as aceitaria,
reduzindo-se de facto, como de direito, a verdadeiro vassalo da coroa, � ou
seria a guerra.
A
coluna do Norte principiou pois por apoiar a miss�o dos delegados da autoridade
soberana.
Os
delegados que em Julho se desloca�ram a Manjacaze iam exigir do Gungunhana a
entrega dos r�gulos rebeldes do distrito de Louren�o Mar ques e o pagamento anual de
um tributo de dez mil libras em oiro, al�m do compromisso de n�o impedir, nos
seus territ�rios, a cobran�a de impostos, a liberdade de com�rcio, o
estabelecimento de postos militares e vias de comunica��o, etc.
Entretanto
a coluna, j� em guerra dolo�rosa contra o clima e a insalubridade, aguardaria
em Chicomo o resultado do ultimatum.
O
Gungunhana, cujo retrato psicol�gico se pintava ent�o, como bruto cruel e san�guin�rio,
violento e cobarde � n�o era t�o bruto nem t�o cobarde como se dizia. Nem a sua
alma era completamente destituida daquela nobreza que, em todos os tempos,
marcou a ra�a dos grandes chefes. A pro�paganda de guerra diminuiu injustamente
a figura.
N�o
s� teve artes para demorar as negocia��es at� meio de Setembro � como tendo,
por fim, concordado quanto �s condi��es que o expoliavam de todos os direitos
de sobe�rania no seu territ�rio, recusou, no entanto, e terminantemente, ceder
quanto � �nica que manchava a sua dignidade de soberano. O Gungunhana
submetia-se a todas as con�di��es que lhe impunham � excepto a entre�gar os
rebeldes que junto dele tinham pro�curado asilo. N�o queria, quando morresse,
apresentar-se desonrado perante os seus manes.
E t�o
intransigentemente manteve a sua atitude que, ante a intransig�ncia, tamb�m
irredut�vel, do Comiss�rio R�gio, a guerra se encontrou automaticamente
declarada.
Por
essa altura � tinham principiado, com correrias aparatosas nas terras do
Gungunhana, as primeiras demonstra��es ofensivas da coluna do Norte
�
travou-se o combate de Magul. E esta vit�ria portuguesa, ao mesmo tempo que
desmoralizava um pouco as hostes do fami�gerado chefe v�tua, elevava
naturalmente o moral das tropas do coronel Galhardo, que o clima e as
incertezas tinham deprimido.
Estava
aberto o caminho para Manjacaze.
Em
3 de Novembro, vencidas tremendas dificuldades de organiza��o, foi dada a ordem
de marcha.
Esperava-se
alcan�ar Maajacaze em 6� o que n�o foi poss�vel por via da natureza do terreno
que n�o o consentiu. A coluna bivacou junto da l�ngua de Coolela, tencio�nando
lan�ar-se da� rapidamente sobre o reduto do Gungunhana. Na manh� seguinte tudo
se encontrava preparado para a arre�metida. E ia dar-se a voz de marcha, quando
surgiram pela frente, em todo o seu poder, as mangas do Senhor de Manjacaze.
O
Gungunhana, esgotados todos os recursos da sua diplomacia, e n�o tendo querido
sacrificar a sua dignidade de chefe v�tua com um acto de trai��o a gentes da
sua ra�a � acossado no pr�prio lar real � decidira confiar o seu destino �
sorte das armas.
Frente
�s tropas do coronel Galhardo, e a menos de trezentos metros, marchava, com
seguran�a e galhardia espectaculares, a fina flor do ex�rcito v�tua�cerca de
doze mil guerreiros dispostos em oito mangas.
Era
uma floresta de azagaias luzindo � luz doirada do nascente e erguida sobre a
onda negra dos melhores soldados do�
Gungunhana � soldados�� que
sabiam bater-se, manobrados por chefes prestigiados em dezenas de combates e
cuja estirpe guerreira enrai�zava no c�lebre Tshaka.
Seria
necess�rio remontar ao poderio do Monomotapa para encontrar na Hist�ria de
Mo�ambique poder e territ�rio tamanhos.
Atacaram
em massa, dispostos em meia lua � um grande abra�o de morte e de fogo que
procurava envolver o quadrado.
O
alvo era magn�fico. As descargas da coluna batiam-no em cheio. No entanto as
mangas, insens�veis � sangria, continuavam a avan�ar imperturbavelmente. S�
passado algum tempo, muito desbastadas, se acachaparam entre o capim, de onde
respondiam ao nosso fogo, prosseguindo o avan�o. A artilharia troou sem
conseguir desmorali�z�-los.
Era
evidente que o comando inimigo ten�tava aproximar-se at� de onde pudesse lan��ar-se
com �xito para o esmagamento do quadrado. E para tanto pagava com o sacrif�cio
de numerosas vidas os metros de ter�reno que ia ganhando. O quadrado pro�curava,
por sua vez, inutilizar a possibili�dade de uma carga final poderosa, desbas�tando
violentamente pelo fogo as colunas assaltantes. Estas refaziam-se concentran�do-se
� isto �, vedando constantemente as brechas abertas na massa cerrada pela arti�lharia
e pelas rajadas de infantaria.
E
como se tratava de guerreiros aman�tes da guerra, portadores de uma tradi��o
b�lica t�o cultivada que ainda hoje se imp�e nas suas dan�as, a carga
disparou-se com entusiasmo, conduzida heroicamente pelos mais aguerridos�os
famosos b�falos e jacar�s, especialistas ferozes e experimentados
das cargas exterminadoras. Dirigia-se, com magn�fico entusiasmo, a um canto do
quadrado, brandindo armas, eri�adas de azagaias, com jeitos de vaga
irreprim�vel.
N�o
lhes bastou por�m o impulso nem a alma guerreira para resistirem �s rajadas
certas e ceifantes do quadrado. A coluna assaltante, por fim, rota e
esfarrapada, teve que ceder. Dela j� n�o restavam sen�o alguns punhados de
bravos, que insistiam com ganas de her�is, enquanto a maioria, convencida da
derrota, se escapulia por entre o capim basto da l�ngua. Havia cad�veres a
menos de trinta metros do quadrado.
Estava
ganha a batalha.
Em
quarenta minutos ansiosos de com�bate fora batido e desprestigiado todo o
poderio v�tua, destro�adas as esperan�as de quantas cubicas viram nele a
m�quina de guerra que nos expulsaria do distrito de Louren�o Marques � e
reduzidas para sem�pre as lendas temerosas que engrandeciam a figura do
Gungunhana como pap�o afri�cano. O Senhor de Gaza era, depois daquela manh�
h�mida de Coolela, apenas um r�gulo batido e em fuga � como o Matibejana.
Fora
dado e vencido o passo decisivo, mas restava ocupar Manjacaze e prender o
Gungunhana, para eliminar ao mesmo tempo todas as veleidades de reconstitui��o
do poderio v�tua.
Logo
no dia 11 as tropas avan�aram sobre a povoa��o real, que incendiaram e
reduziram a cinzas. O Gungunhana, natu�ralmente, tinha-se escapulido a tempo
com as suas numerosas mulheres e alguns dos grandes da sua corte.
E
como de facto n�o valia a pena man�ter t�o custosa e dif�cil m�quina de guerra
s� para o aprisionar, deu-se ent�o por pra�ticamente conclu�da a campanha de
1895.
Estava
desbravado o caminho para a pacifica��o total, n�o s� do Sul do Save, como
tamb�m de toda a col�nia.
Bem
pode dizer-se que principiou em Coolela a era moderna da Hist�ria de Mo�ambique
e a� se fechou o ros�rio de amarguras de tr�s s�culos tormentosos.
Reverenciados
os her�is e os m�rtires, rendidas todas as homenagens �queles que escreveram
uma p�gina gloriosa de hist�ria pol�tica e militar, avaliados comovidamente os
esfor�os e sacrif�cios de quantos se bate�ram, recordada com justi�a a
galhardia dos vencidos - fica sempre viva para o esp�rito e consci�ncia dos
homens de hoje a li��o dos factos.
A
campanha de 1895 � s�rie de �xitos militares, cujas consequ�ncias pol�ticas lhe
deram relevo culminante na Hist�ria de Mo�ambique � vale como experi�ncia, como
li��o, como imperativo dos acontecimentos do passado sobre a ordem de coisas e
de ideias do presente e do futuro, especial�mente, pela demonstra��o que fez de
quanto podem em pol�tica colonial, o sentido das realidades, a ac��o pronta e
decidida e o respeito pelo valor e pelas compet�ncias.
Um
chefe que sabia o que queria e se documentara, sem ilus�es livrescas nem
c�lculos de baixa pol�tica, acerca das reali�dades da col�nia � e que tamb�m n�o
inve�java os seus colaboradores, disposto como estava a repartir com eles toda
a gl�ria e todos os sacrif�cios; possibilidades de ac��o desentorpecidas de
f�rmulas e burocracia corrosivas; um conjunto de valores cuidaadosamente
selecionados; um Terreiro do Pa�o compreensivo (momentaneamente compreensivo)
acerca da gravidade da situa��o e, por isso mesmo, disposto a dei�xar fazer�explicam,
n�o s� o �xito da campanha, t�o necess�rio ent�o � situa���o dific�lima a que
os acontecimentos pol�ticos externos e internos tinham conduzido a col�nia,
como mostram tamb�m as raz�es profundas que determinaram uma mudan�a completa
de face na Hist�ria de Mo�ambique.
Na
verdade, na Hist�ria da col�nia, at� 1895, � menos povoada e brilhante a
galeria de her�is e construtores, do que a galeria de m�rtires. E todo o longo
e amargurado ros�rio de desastres, sacrif�cios e sofrimen�tos que custou a
persist�ncia de tr�s s�culos � foi armado pela inconsist�ncia, descoor�dena��o
ou simples desprezo, dos valores que, sabiamente coordenados, fabricaram o
�xito de 1895.
Seria
magn�fico que na passagem de todas estas datas comemorativas da campa�nha �
Marracuene, Magul, Coolela, depois Chaimite, Maputo, Macontene, etc. � esta
li��o se mostrasse t�o viva nos esp�ritos como aos olhos se mostram as
bandeiras des�fraldadas e a alegria dos burocratas em feriado.
Entretanto cheg�vamos � Manhi�a � naturalmente com
apetite, o mais devorador de todos os apetites de est�mago: o oficial.
A
pequena povoa��o, constitu�da quase exclusivamente pelos edif�cios da adminis�tra��o,
� bonita e agrad�vel�e n�o s� porque se debru�a garridamente na sua varanda
sobre o vale do Incomati, mas tam�b�m nos pr�prios tra�os da sua fisionomia
fresca e asseada.
Estava
naturalmente em festa � enga�lanada para receber Sexa Ministro, trans�ladado
transitoriamente do Terreiro do Pa�o com a inten��o de se documentar sobre a
paisagem de Mo�ambique, e que se fazia acompanhar de outros Sexas �nomeadamente Sexa Governador Geral.
Havia
meses que a col�nia se vinha passando a ferro, disfar�ando, embonecando � para que Sexa
Ministro, que desejava conhecer de perto as suas virtudes e mazelas, ficasse
bem impres�sionado. A Manhi�a acompanhara o movi�mento geral. Estradas,
edif�cios e almas haviam sofrido, pelo menos, um m�s de intensiva e zelosa
prepara��o;� nas estradas tinham-se
alisado os pisos para que o f�sico quebradi�o, mas precioso, de Sexa, n�o tre�pidasse
nem conhecesse as afli��es da areia e as ciladas do matope; nos
edif�cios tinham-se alindado as fachadas e as casas de banho;� nas almas tinham-se incutido entusiasmos,
que deveriam explodir em vivas e palmas. Todas as coisas e lugares, que,
conforme o programa, deveriam rece�ber a honrosa visita de Sexa, procuravam
mostrar-se, nesse dia festivo, como os mais exigentes as desejariam ver sempre.
E
tudo para que Sexa se informasse, como bom estudioso que era, acerca do corpo e
alma da col�nia que se honrava com a sua presen�a.
Multid�es
de negros, amavelmente con�vidados pela autoridade local, tinham des�cido dos
seus povoados ao povoado dos brancos, para ver, cumprimentar e admirar Sexa�o Branco
Grande, quase M�ximo, que descendia em linha pol�tica dos brancos fortes
que tinham derrotado o Gungunhana. Envergavam panos novos e vestimentas
lavadas. Ao longo de uma esp�cie de ave�nida orlada de verduras, e atrav�s da
qual deveria
passar Sexa, alinhavam-se rapazes e raparigas, trazidos ao cui�dado de
mission�rios. E as suas faces negras, de risos brancos, luziam alegre�mente
entre a policromia garrida dos panos que vestiam.
Quando
Sexa Grande apareceu entre os Sexas menos grandes, a multid�o gentia,
respondendo, pronta e convictamente, aos sinais de comando das autoridades,
missio�n�rios e cipaios, explodiu em manifesta��o quente � e expont�nea,
demonstrando assim quanto aqueles cora��es selvagens se sentiam desvanecidos,
honrados e agrade�cidos.
De
princ�pio�e porque Sexa Grande era menos avantajado em corpo que os Sexas menos
grandes � os pretos n�o o dis�tinguiam entre os brancos solenes. Procura�vam,
em v�o, o representante imponente dos vencedores de Magul, e n�o compreendiam,
no seu besunto de b�rbaros, que esse fosse o homem franzino e macerado que se
adian�tava no desfile.
Mas
quando perceberam que era ele mesmo�o entusiasmo n�o teve limites.
Enquanto a multid�o de fundo, em movi�mentos de mar�, gritava vivas
prolongados, as crian�as e as raparigas lan�avam flores quentes dos tr�picos.
�s
vezes o entusiasmo descoordenava-se um pouco. A chuva de p�talas n�o coincidia
' com os vivas. Mas dez metros � frente do grupo ministerial, um mission�rio
zeloso, e encantador de entusiasmo, afinava o des�concerto com express�o
afogeada e muito significativa:
�V�,
d�em palmas!... Mais palmas, mais vivas!... Ent�o aquele!... V�!... N�o te
esque�as das flores!... Viva! Viva!...
E
tudo se recompunha.
Atingimos� a meta�
do almo�o, como n�o podia deixar de ser, pro�fundamente comovidos. E
distra�do assim de lembran�as dos tem�pos her�icos, em que se construiu a estru�tura
da col�nia moderna, encontrei-me a meditar acerca das vantagens destas digres�s�es
ministeriais pelas col�nias�e, infe�lizmente para mim, em desacordo com a
maioria que condenava, sen�o as visitas, pelo menos�como direi?�o estilo de
tais visitas.
Por
outro lado�e uma vez que se admite que o cargo de Ministro das Col�nias � muito
acess�vel a pessoas da pol�tica que apenas conhecem o ultramar de leitura, ou
de viagens mais ou menos tur�sticas�parece-me de bom senso dar aos ministros a
instru��o que lhes falta. Instruir � uma mis�s�o de Estado que bem pode
abranger os pr�prios ministros. Por outro lado, estas visitas, salvos os
desfiles, discursos e recep���es que, na verdade, n�o aproveitam a nin�gu�m,
obrigam a reparar muitas estradas (aquelas por onde o ministro passar�); a
limpar e arranjar muitos edif�cios (aqueles onde o ministro entrar�) � e a
vestir de ponto em branco alguns esfarrapados. E acontece que, por vezes,
obrigam tamb�m a deslocar-se na col�nia alguns funcion�rios superiores que a
conhecem t�o pouco como o ministro, praticando-se assim a chamada instru��o em
classe.
�
certo que, em alguns sectores da admi�nistra��o, certas coisas padecem um
pouco; param, enervadas, � espera que o ministro se v�. Mas em compensa��o
movimentam-se extraordinariamente alfaiates e costurei�ras; pastelarias, hot�is
e restaurantes; o com�rcio em tintas e vernizes etc. H� rep�rteres que viajam
arrecadando suculentos an�ncios para os seus jornais; produzem-se, em orat�ria,
estreias auspiciosas
que decidem alguns destinos�enfim, estas visitas, encaradas de certos pontos de
vista muito reflectidos, al�m de deixarem no esp�rito dos ministros ideias
optimistas, que muito contribuem para excitar o seu zelo e acendrado patrio�tismo,
movimentam as actividades, animam o com�rcio � e lavam a col�nia.
Discordo
daqueles que as condenam, gri�tando que os ministros apenas v�m encher-se de
mais ideias falsas, que n�o aprofundam quest�es al�m do n�vel superficial que
as reveste, e que se dilata assim a dist�ncia j� consider�vel que existe entre
a col�nia e o Terreiro do Pa�o. Pura maledic�ncia! Os ministros ficam com
ideias muito precisas acerca da paisagem da esta��o seca, adqui�rem util�ssimos
conhecimentos pr�ticos de geografia�e at�, no prolongamento des�tas viagens,
indo a Vidago, Gerez e Pedras Salgadas, reparar as sa�des abaladas por t�o
fatigantes e arriscadas travessias, entram em contacto directo e util�ssimo com
muitos colonos, que tamb�m bebem �guas quando v�o � metr�pole.
�
sempre com infinito prazer que con�sidero as viagens ministeriais�e com
invej�vel conforto que me desloco nas estra�das que se honram com a passagem
prov�vel de Sexas. Se alguma coisa lamento, � que n�o se desloquem
anualmente �s col�nias tr�s ministros, ao mesmo tempo, e que os tr�s n�o
transitem por todas as estradas, n�o visitem todas as escolas e hospitais e n�o
recebam homenagens em todos os povoados europeus e ind�genas.
Recolhemos
a Louren�o Marques quando anoitecia e depois de uma reve�r�ncia oficial muito
r�pida�porque a
hora do jantar se aproximava naturalmente comovida, perante o monumento que, em
Marracuene, lem�bra� aos� homens�
distra�dos� de� hoje,�
os bravos que ontem morreram, para salvar a capital e assegurar �s gera��es
modernas a regularidade das refei��es.
Embu�ado
na noite ambiente, retomei com devo��o, o fio de lembran�as que, durante o dia,
levara at� Coolela.
A
campanha de 1895�e com ela a ocupa��o ou dom�nio do Sul do Save, tive�ram em
Coolela, como dissemos, os seus pontos de decis�o e culmin�ncia. A� se ganhou,
de facto, a guerra contra o gentio insubmisso e se conquistou praticamente o
Sul do Save.
No
entanto, nem tudo fora conclu�do.
T�o
bem e valorosamente se conduzira a campanha que bem merecia coroar-se com uma
ac��o apote�tica.
E a
apoteose consumou-se, no fim desse mesmo ano, em Chaimite.
Depois
de Coolela, as tropas expedicio�n�rias, cobertas de gl�ria mas muito expe�rimentadas
e combalidas, regressaram � metr�pole. As terras de Gaza � do Senhor de Gaza! �
passaram a constituir um dis�trito, cujo governo foi confiado ao coman�dante da
cavalaria de Coolela e Manjacaze, capit�o Joaquim Mousinho de Albuquer�que. O
Comiss�rio R�gio embarcava para Lisboa a dar contas da sua miss�o.
Parecia
um ponto final, decerto preci�pitado.
A
fadiga sofrida em opera��es dur�ssi�mas � e tamb�m o optimismo resultante das
gl�rias alcan�adas, explicavam a pre�cipita��o.
Na
verdade, havia que recear, enquanto o Gungunhana e os seus mais aguerridos
cabos de guerra n�o fossem reduzidos a zero � e apesar do clar�o decisivo da
vit�ria�uma ten�tativa desesperada de ressurrei��o do poderio v�tua. Todos
compreendiam que n�o se realizaria pacifica��o completa e dom�nio absoluto
sobre povos e territ�rios, enquanto o Gungunhana e os seus generais � mas
especialmente o Gungunhana � andassem a monte.
Todos
o compreendiam�e Mousinho de Albuquerque melhor do que ningu�m... porque o compreendia
activamente.
Todos
o compreendiam, receando, no entanto, comprometer o �xito alcan�ado, com
empreendimentos complementares arriscados � e Mousinho com a clarivid�n�cia e
decis�o dos homens de ac��o perante a sugest�o das oportunidades.
Os
pol�ticos, contentavam-se com o que tinham, adiando a conquista do que lhes
faltava, conforme uma indecis�o tradicio�nal dos pol�ticos, a que estes chamam
Pru�d�ncia. O Homem, pretendia concluir a tarefa, pensando, decerto, que, mesmo
em pol�tica, se arrisca menos intervindo a tempo do que deixando engordar as
difi�culdades em c�modos adiamentos.
E
assim, ao mesmo tempo que os coman�dos superiores davam a campanha por con�clu�da
� o Governador do distrito de Gaza pensava em conclui-la de facto, prendendo o
Gungunhana e liquidando com ele todas as veleidades de ressurrei��o do poderio
v�tua.
Enquanto
Mousinho procurava infor�mar-se acerca do paradeiro do r�gulo batido, teve o Governo
conhecimento dos seus planos � e logo o proibiu de lev�-los por diante. A
Prud�ncia dos chefes entendia dever refrear os impulsos do her�i.
Demais,� sempre�
assim� fora.�� E�
se assim n�o fosse haveria muitos mais her�is� e� seria,�� por�
consequ�ncia, muito mais dif�cil�a pol�tica. A esta interessa sempre
festejar os� her�is mortos, e os vivos
quando n�o pode deixar de ser - mas n�o lhe conv�m, em geral, fabricar her�is
de pura �gua. Pre�fere fabric�-los, entre os seus apaniguados�her�is c�modos, sint�ticos.
Entretanto
Sanches de Miranda, encar�regado pelo Governador de Gaza de des�cobrir o
ref�gio do Gungunhana, dava boa conta dos seus esfor�os: o r�gulo refugia�ra-se
em Chaimite, a povoa��o onde seu av� Manikusso fora enterrado, e a� procurava,
mediante pr�ticas de feiti�aria, reconquis�tar os favores da Fortuna.
Mousinho
encontrava-se, portanto, quando o Governo pretendeu cortar-lhe as asas, muito
mais perto do Gungunhana, que excitava poderosamente as suas intui��es e
imagina��o de her�i�do que dos chefes que pretendiam segur�-lo.
Em
tais circunst�ncias os her�is liber�tam-se sempre, jogam o seu destino e o des�tino
da sua causa numa cartada. Se perdem, perdem tudo � e a Hist�ria, ou n�o os
recebe, ou os guarda como traidores ou loucos. A Prud�ncia dos pol�ticos exulta
ent�o com estas modestas vit�rias. Se ganham�e geralmente ganham, porque as
intui��es dos puros her�is raras vezes falham�os pol�ticos, for�ados a degluti�rem
a desobedi�ncia, apressam-se a partici�par nas suas gl�rias festejando-os, para
os liquidarem logo que podem � e consagr�-los definitivamente no primeiro cente�n�rio
do seu nascimento. E s� a Hist�ria, mais tarde, far� justi�a completa, esque�cendo
os pol�ticos e arrecadando sob luzes eternas as figuras dos her�is.
Mousinho
tinha de correr a sorte dos her�is.
Entre
a proibi��o de tentar qualquer ofensiva contra o Gungunhana e o impera�tivo das
suas intui��es de portugu�s e her�i, sentiu, poss�velmente, pela primeira vez,
o amargor, a revolta e o desd�m que mais tarde ressaltariam, consider�velmente
dila�tados, da carta que, como Comiss�rio R�gio, escreveria ao ingl�rio
ministro que ent�o o comandava... e que s� atrav�s deste documento passou �
Hist�ria.
Tamb�m
o Gungunhana � perfeita�mente de acordo com o Governo portugu�s�n�o desejava
ser incomodado. E � falta de for�a e capacidade hier�rquica para se impor ao
Governador de Gaza�deson�rou-se, mandando entregar o Matibejana e enodoando
assim a p�gina de nobreza e dignidade reais, que escrevera para a sua hist�ria,
antes de Coolela.
Em
resumo: Mousinho encontrou-se sitiado, por um lado pela proibi��o termi�nante
do seu governo; por outro lado pela rendi��o moral do Gungunhana, que tra�duzia
uma s�plica desesperada de paz. Se o Governo n�o queria e o Gungunhana supli�cava
at� � desonra � como prosseguir?
E
Mousinho prosseguiu � rompeu o cerco.
E a
sua decis�o de prosseguir foi a pri�meira atitude moral de hero�smo do cava�leiro,
que sabia o que queria e aonde ia, e o primeiro passo da investida a Chaimite.
Seguro
de si, certo de que a sua desobe�di�ncia seria um alto servi�o prestado ao
pa�s�deslocou-se ao posto de Languene, e da� arrancou na madrugada de 26 de
Dezembro, a encontrar-se na foz do Chengane, com Sanches de Miranda, o des�cobridor
do r�gulo fugitivo. Logo vie�ram ao seu encontro emiss�rios do Gungunhana,
pedindo que n�o avan��asse mais, pois o seu chefe viria pes�soalmente prestar
vassalagem.
Adiante!
Em
27, antes de romper a manh�, Mousinho, acompanhado apenas por Sanches de
Miranda, o tenente Couto, quatro dezenas de pra�as europeias volunt�rias,
tentadas pelos riscos da empresa, e alguns auxiliares, abalou como bala
disparada.
Chovia
como chove em �frica � quando chove. Do terreno encharcado rompiam, j� altos e
densos, os capins quesilentos desta quadra do ano. O matagal hirsuto e
arrevezado da regi�o tornava a marcha ainda mais dura. Mas ningu�m dava pela
chuva nem pelas dificuldades, vontade e entusiasmos superiores reduziam os
m�sculos a pe�as de m�quinas. A resist�ncia moral torna�va-se contudo ainda
mais necess�ria do que a resist�ncia f�sica. A chuva, a lama, as bravezas do
mato, eram dificuldades de ontem e de hoje � mas n�o era a mesma a seguran�a do
territ�rio que trilhavam. O Gungunhana encontrava-se na situa��o de fera
acossada e dispunha ainda de for�as que chegavam para esmagar meio cento de
europeus atrevidos. Uma reac��o brusca e desesperada era mais do que prov�vel.
E
Mousinho, com a sua gente, a sua alma, a sua ideia, contra os rigores do
mato dezembr�o, contra a chuva teimosa, contra as incertezas mortais � caminhava,
cami�nhava sempre...
O
�nico receio que angustiava aquele punhado de her�is era o de n�o chegarem a
tempo e encontrarem o covil vazio. E ent�o aceleravam o passo, exigindo dos
m�sculos o que os m�sculos s� d�o em horas supre�mas de excita��o nervosa.
�s
oito horas, cerca de uma povoa��o que dava pelo nome de Vuiana aco-dem
novos� emiss�rios� do�
Gungunhana a pedirem que se detivesse. O r�gulo parecia excelentemente
informado acerca do itiner�rio e des�gnios do Gover�nador de Gaza.
Adiante!
�s
dez horas da manh� j� alguns solda�dos dificilmente acompanham o Chefe. As
febres reacendidas pelo esfor�o minam os menos fortes. Mas arrastam-se; nenhum
pensaria em desistir enquanto lhe restasse um sopro de energia.
�s onze
horas parece imposs�vel supor�tar mais a teimosa velocidade da marcha. Mas
caminham ainda, como aut�matos, gas�tando em cada passada as �ltimas energias
do impulso inicial. Deixaram de sentir os tormentos da incerteza e as sedes de
gl�ria. Caminham � e � tudo!
Ao
meio dia caem alguns estropiados.
�
uma hora torna-se absolutamente indispens�vel conceder um descanso.
Al�m
do m�ximo que humanamente se lhes pode�ria exigir todos tinham dado o m�ximo
que s� Deus concede em momentos raros. Acam�pam � e Mousinho, enervado, tem de
supor�tar mais essa fadiga � a de descansar.
Em
certa altura surge, perante o pequeno quadrado, uma malta de gentio armado, que
faz fugir os auxiliares espavoridamente. Os europeus mal o pressen�tem. Uns
dormem como brutos e sonham gl�rias, outros deliram de febre e sonham
acordados. Mas os do bando n�o v�m em ar de guerra. � Godide, um filho do
Gungunhana, acompanhado por alguns guerreiros, que vem reeditar a s�plica dos
emiss�rios ante�riores. O Governador que n�o avance mais.
Seu
pai�o famoso, o tem�vel Gungu�nhana! - vir�, vir� mesmo, em pessoa,
submeter-se. N�o quer mais guerras; implora a paz.
E o
Godide n�o consegue deter o cavaleiro como n�o conseguiria deter, na sua
traject�ria, a bala disparada.
Adiante!
�s
tr�s horas da madrugada Mousinho n�o suporta mais o enervamento do des�canso.
Uma voz de comando disperta a hoste adormecida sob o aguaceiro. Uma palavra de
encorajamento anima a boa fibra dos seus companheiros: �V� rapazes, j� falta
pouco! Mais um salto e estamos l�!�
E a
caminhada her�ica recome�a.
N�o
tarda por�m que tudo pare�a per�dido. De repente, e quando menos o espera�vam,
surgem pela frente da pequena coluna negros armados em multid�o � nada menos
que tr�s mangas de guerra, das mesmas que durante anos fizeram tremer o
sert�o.
Era
uma imagem de esmagamento ful�minante...
Mas
n�o. O moral dos v�tuas ainda n�o se refizera do desastre de Coolela. Os guer�reiros
n�o compreendiam a sua superiori�dade. Vinham apenas entregar-se � pagar p�
� render-se � hoste estropiada de Mou�sinho.
Adiante!
O
incidente ressuscitou energias que pareciam mortas pela como��o e pela fadiga.
A marcha reganhou o ritmo das pri�meiras horas e a jornada her�ica refez-se por
algum tempo na sua express�o de entu�siasmo e vontade.
E
�s seis horas e meia, pisando terras arenosas, empapadas de �gua, p�lidas e
sujas, eri�adas de verrugas de muchem � avistavam a pali�ada de
Chaimite, o antro do Gungunhana!
Os
que ainda puderam deitaram a correr atr�s de Mousinho. Os que mais n�o puderam
foram caindo extenuados pelo caminho. Uma ordem breve, terminante, gritada em
corrida: os auxiliares cercariam a povoa��o; s� aos brancos seria concedida a
honra de transpor a pali�ada.
Aproximava-se
o grande momento!
Dificilmente
se acreditaria que o Gungunhana, o fraticida que assaltara um trono, durante
largos anos chefe incontes�tado e temido de aguerridas gentes v�tuas, que fora pap�o
de conquistadores europeus e trunfo de diplomacias civilizadas � e que
apesar de copiosamente batido reunia ainda em volta de si for�as consider�veis
� difi�cilmente se acreditaria que se deixasse prender na sua casa, entre os
seus, por um capit�o de cavalaria, dois oficiais subalternos e quarenta
soldados estro�piados.
A
pondera��o � uma bela e respeit�vel qualidade burguesa... mas com ela ningu�m
conseguiria entrar em Chaimite...
Daquele
passo com que Mousinho trans�p�s a pali�ada que cercava a povoa��o do
Gungunhana � depois do facto, j� de si espantoso, de ter conseguido alcan��-la
ape�nas com a for�a da sua aud�cia � era mais previs�vel, na verdade, o
massacre em massa daquele punhado de europeus, do que o �xito e a gl�ria.
Mousinho
lan�ou-se, � frente dos seus homens, em p� de vento, decidido, r�pido e
inexor�vel, levando consigo todas as fatali�dades her�icas do seu temperamento
� inclusivamente a suicida. De espada desem�bainhada correu sobre alguns negros
arma�dos de espingarda, que davam ares de querer defender-se � e a sua ofensiva
pronta e fulminante, bastou para esfran�galhar as �ltimas e hesitantes
veleidades de resist�ncia daquela guarda real. Guer�reiros e outras gentes que
se encontravam na povoa��o reduziram-se num momento a simples espectadores
at�nitos da aventura do her�i. Gungunhana! Gungunhana!
Logo
lhe indicaram a palhota onde o Gungunhana se escondia.
�Deitem
fogo � palhota!
Ent�o
o Gungunhana apareceu.
N�o
se desprendera dele, apesar da der�rota e da desonra, toda a dignidade real.
Apareceu�mas ainda de fronte erguida, ar arrogante, como se houvera determinado
viver esse �ltimo minuto magest�tico da sua exist�ncia de grande chefe v�tua,
como quem f�ra.
Mas
n�o durou, poss�velmente, os ses�senta segundos precisos, esse minuto de
coragem e dignidade reais. Mal apareceu, Mousinho ordenou que lhe amarrassem as
m�os e o obrigassem a sentar-se no ch�o, a seus p�s.
O
momento apote�tico da campanha de 1895 produziu-se ent�o. A prostra��o humi�lhada
do famigerado chefe v�tua, rendido aos p�s de Mousinho, do qual se despren�diam
todos os poderosos e transcendentes feiti�os dos her�is em ac��o culminante,
tinha o valor de um s�mbolo.
O
her�i e o vencido encontravam-se, finalmente, na mesma p�gina vibrante de
Hist�ria�o primeiro no momento culmi�nante da sua gl�ria, o segundo nas profun�dezas
mais amargas da sua derrota.
Era
a derrota irremedi�vel e definitiva do Gungunhana � e, com ele, independen�temente
de futuras erup��es, desse j� ca�do imp�rio v�tua, que as suas manhas de pol��tico
e a sua exist�ncia de soberano-vivo, ainda mantinham, no covil de Chaimite.
Ainda
n�o p�de dignamente fixar-se em�
Arte�e� decerto� porque�
a� velha escola� de pintura hist�rica,� que as artes modernas condenaram, encontra
cumprindo pena de ex�lio � este momento sublime da nossa hist�ria militar nas
col�nias: o momento preciso em que o Gungunhana verga, manietado e demolido,
perante o capi�t�o de cavalaria, desgrenhado como uma chama, a ressumar suor e
gl�ria. Em volta, sobrepondo-se aos elementos f�sicos de fundo que completam a
express�o pl�stica do quadro � gentes assombradas, palhotas friorentas num
ambiente de cores �midas e desmaiadas, plumas de fumo sobre as fogueiras
cansadas�pairaria, como per�sonagem viva e material, o assombro hipn�tico dos
v�tuas, paralisados e transmuda�dos em espectadores da inacredit�vel cena.
Teria
eclodido um segundo angustioso e supremo de sil�ncio...
Logo
a seguir, por insustent�vel, o qua�dro esbandalha-se em cenas mais vizinhas do
humano-comum. O assombro dos v�tuas deflagra em alarido. Batem com as aza�gaias
nos escudos de coiro, aplaudindo. � a sujei��o moral, a rendi��o deslumbrada ao
her�i�mas � tamb�m a explos�o de um conjunto de sentimentos transcendentes e
recalcados de desforra, contra o d�spota sanguin�rio que fora seu chefe.
Parecia-lhes agora insignificante, rid�culo�e j� n�o compreendiam a raz�o dos
temores que antes lhes inspirava.
Sic
transit gloria mundi... �para os d�s�potas.
O
acto her�ico caminhou ent�o rapida�mente para o seu desenlace.
Era
indispens�vel manter e refor�ar, sem solu��es de continuidade, esta press�o
violenta da aud�cia sobre o esp�rito dos vencidos � ainda, materialmente, muito
mais numerosos e fortes.
O
Gungunhana estava ali, liquidado para sempre como chefe� sem os seus Grandes,
os seus conselheiros, o seu Estado Maior? O pr�prio r�gulo, esvasiado j� de
toda a dignidade real, regressado � pele do Mardungaz, apontou dois�o Quito,
irm�o de Muzila, e o Manhuno. � Fusilem-nos!
O
Manhuno morreu como um v�tua, sor�rindo � como teria morrido o Gungunhana, se
fora na verdade o melhor, o mais forte e o mais digno dos v�tuas.
Entretanto
a m�e do r�gulo prostrado, rogava pelas vidas do filho e do neto.
Depois,
tudo mais � o regresso, a deporta��o do Gungunhana, a consagra��o dos her�is,
etc. � s�o meras ondula��es destes minutos sublimes...
Anotemos
apenas que Mousinho teve raz�o � e n�o s� porque venceu. Continua�ria a ter
raz�o se houvera fracassado. Ape�sar de preso e reduzido � impot�ncia, o Gun�gunhana
� por consequ�ncia, apesar de esfrangalhado at� ao �mago o imp�rio v�tua � n�o
eram as suas gentes, honra lhes seja feita, daquelas que se submetem
facilmente.
E
os acontecimentos futuros iam demonstr�-lo.
Dois
anos mais tarde, Mousinho, guin�dado j� �s culmin�ncias do Governo Geral da
col�nia, teria que haver-se, embora tendo aprisionado o Gungunhana, com a
�ltima erup��o do esp�rito de independ�ncia v�tua, que liquidaria
definitivamente em Macontene, com o desaparecimento do �ltimo Grande.
Nem
todos os chefes do Gungunhana tinham sido apanhados.
Escapara o mais not�vel�aquele que havia de
encerrar, para os vencidos, com uma p�gina de bravura her�ica digna das gentes da sua� ra�a,� a� hist�ria�
do� imp�rio v�tua.
Chamava-se� Maguiguana,� gozava de enorme prest�gio e era, al�m de
guerreiro audaz, agitador habil�ssimo. Conseguiu reacender a chama v�tua, orga�nizou
a revolta em terras do Chibuto e Bilene, e consumou-a aparatosamente, ata�cando
e massacrando uma pequena for�a portuguesa do comando do alferes Cha�musca.
A
aventura veio a naufragar quatro meses mais tarde, contra nova coluna do
comando de Mousinho, em Macontene.
O
her�i de Chaimite fechou a vit�ria e o ciclo de oiro das suas fa�anhas de guer�reiro,
com a mais audaciosa e not�vel carga de cavalaria despedida em sert�es afri�canos.
O
Maguiguana conseguiu escapar depois do combate.
Mousinho,
naturalmente, resolve pren�d�-lo. Depois de Coolela f�ra a sua intui��o que lhe
comunicara a necessidade de pren�der o Gungunhana para liquidar de vez a
inquieta��o b�lica dos v�tuas. Agora era a pr�pria experi�ncia e a li��o dos
aconteci�mentos que o comandavam.
Repete-se,
embora com outras propor��es, o fossado de Chaimite: uma corrida violenta e comovente em perse�gui��o
do guerreiro e, por fim, a des�coberta do seu covil em Mapulanguene, onde o
vencido se refugiara. Cerca-se a povoa���o,�
mas ao contr�rio do que fizera o Gungunhana, que se deixara surpreender
na sua palhota, sem galhardia nem �nimo, o Maguiguana n�o se entrega. Procura
esca�pulir-se � mas o cerco que o aperta n�o lho consente. V�-se acossado por
todos os lados. E para n�o ser preso, com a decis�o dos bravos que n�o admitem
humilha��es, lan��a-se, disposto a morrer ou a fender a mura�lha armada que o
sitiava. E morre combatendo, heroicamente e cumprindo assim a palavra que dera
aos seus quando os levara para a revolta:
�
Se os brancos me apanharem hei-de saber morrer!
Nunca
mais os v�tuas se insurgiram nem a guerra voltou a ensanguentar estas terras de
Gaza.
Louren�o
Marques podia, enfim, respi�rar e demandar tranquilamente o seu des�tino de
cidade e capital.