�FOMOS ENGANADOS POR ESSES BANDIDOS CRIADOS DOS HOMENS DO LADO DE L��
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Fernando Farinha
O VELHO� CAFAIA
Naquele isolado posto administrativo do Norte de Angola, havia um
cozinheiro, j� entrado em anos, se bem que ainda rijo das pernas e �gil de
pensamento. N�o interessa revelar o seu verdadeiro nome. Podemos chamar-lhe
Cafaia.
Com 6 anos, tinha entrado ao servi�o do patr�o velho, como �criado
do menino�. Depois, o �Nequitas� crescera, casara, sucedera ao pai que se tinha
finado em Lisboa, com os anos cheios. E agora era o patr�o, o senhor Manuel, j�
quase t�o velho como ele, que tamb�m progredira at� � categoria de cozinheiro
da casa e um dos melhores cozinheiros daquelas redondezas.
Ora o Cafaia tinha dois filhos no Congo ex-belga. E do mais velho
deles acabava de receber longa carta, em m�o dum negro alto e trombudo, que n�o
era preto de Angola, n�o senhor.
Soletrou penosamente a prosa do filho, um rapag�o educado e bem
falante que at� liceu tinha, e ficou a olhar interrogativamente as antip�ticas
e arrogantes ventas do emiss�rio.
Ent�o o ferrabraz come�ou a falar...
Falava mal e porcamente a l�ngua da regi�o, de mistura com alguns termos de
portugu�s e com pron�ncia t�o ex�tica que ao experiente Cafaia bastava e
sobrava para denunciar o estrangeiro.
Naquele recanto escuro do quintal, sob a noite sem lua, em tom de
confid�ncia, pr�digo de gestos e argumentos, o recoveiro de L�opoldville falou,
falou, falou ...
Em seguida, entregou ao velho um papel dactilografado, infor�mando:
� Est� a�
tudo escrito.
O cozinheiro, que escutara o emiss�rio com espanto crescente,
ruminou lentamente os dizeres do papelucho e acabou por declarar, j� com
aut�ntico terror:
� N�o podi! ... Eu n�o podi fazer esses
malandrice que a� est� mandado!
� N�o pode?! � estranhou o rec�m-vindo na sua voz de tra�pos. �
At�o, se voc� est� mesmo do lado dos cangundo portugu�s, tem de morrer!
� N�o faz mal...�disse o cozinheiro. � Eu j� est� a ficar cacanha
...
� Mas os teus filhos que est� no L�o � novo � contestou o congol�s,
arreganhando a dentu�a feroz. � E voc� sabe o que vai-lhe acontecer?!...
Sucumbido, o Cafaia tapou os olhos cansados com as m�os nodosas,
como a fugir �quela vis�o horr�vel do que poderia aconte�cer aos seus rapazes,
em L�opoldville, quando o malvado trans�mitisse a sua recusa ao Grande Chefe e
ao Grande Feiticeiro ...
����� E, vendo-o assim amolecido e perplexo, o
tentador insistiu nos seus argumentos. Demonstrou que ia ser mais f�cil do que
fora no Congo ex-belga. E que eles ficariam com o dinheiro dos brancos, com as
casas dos brancos, com as mulheres bonitas dos brancos ... Contou-lhe as artes
formid�veis dos grandes feiticeiros do Congo, o seu milongo da coragem, que
tirava o medo e a dor, os pauzinhos que livravam das balas dos brancos.
Que, de resto, os portugueses n�o tinham armas a valer. Era tudo a fingir. As
metralhadoras s� mijavam �gua quente. As balas n�o entravam na carne. Ele
pr�prio tinha experimentado a virtude do pauzinho enfeiti�ado. O grande fei�ticeiro
metera-lhe o feiti�o entre os dentes e, a seguir, dera-lhe cinco tiros com uma
pistola de Lisboa, sem que ele tivesse sentido nada. Absolutamente nada! Era
mesmo feiti�o valente.
Falou-lhe, depois, dos filhos, dois gajos fixes, que eram da
Direc��o da U PA, que mais tarde haviam de ser ministros do Congo ex-portugu�s
...
Falou,
falou, falou ... At� que se cansou de falar e perguntou:
� E ent�o?
O velho esfregou os olhos, no jeito de quem n�o consegue
libertar-se dum pesadelo, e respondeu:
� T� bem ...
Quando a noticia dos massacres de 15 e 16 de Mar�o chegou ao long�nquo
posto administrativo, o senhor Manuel quis levar a mulher para Luanda. Mas ela
n�o concordou. Que n�o senhor! A sua obriga��o era ficar ao p� do seu marido.
Que n�o tinha medo nenhum!
E ficou.
Mas, embora o negasse, para n�o afligir o seu homem, l� medo
tinha, e muito!
Por isso, desabafou com o cozinheiro, t�o antigo na casa, que era
como se pertencesse � fam�lia.
� Mataram
tanta gente, Cafaia!
� � mesmo
...
� Tu sabes
por que � que aconteceu tudo isto?
� Eu n�o sabe, minha senhora. Ou preto est� mesmo maluco ou, at�o,
virou bandido ...
� Olha, Cafaia... � continuou a atribulada senhora. � Voc� � amigo
do patr�o e da senhora, n�o �?
� � mesmo na
verdade.
� Foste criado com o patr�o, andaste com ele ao colo, conhece-lo
de pequenino e n�s at� somos padrinhos de um dos teus filhos ...
� � verdade!
� confirmou o velho, abanando a cabe�a.
� Ent�o, se tu souberes de alguma coisa contra os brancos aqui da
povoa��o, vens avisar-nos?
� Eu n�o
sabe nada! � respondeu o preto, evasivamente.
� Ningu�m diz que sabes � condescendeu a senhora. � Mas podes vir
a saber. E, nesse caso, s� te pe�o que me avises, ao menos a mim,
para eu ir embora. Se quiseres, vais connosco. Se n�o quiseres ir, ficas, que
eu nunca direi a ningu�m que me avisaste. Est� bem?
� T� bem! Se eu souber de alguma confus�o, eu digo na senhora ...
Nessa noite, ao voltar do seu turno da ronda da mil�cia, o senhor
Manuel avistou um vulto que se esgueirava sorrateiramente dum recanto do
quintal de sua casa.
� Alto, ou estouro-te os miolos! �berrou, metendo a arma � cara.
� N�o atira, patr�o! Sou eu! � respondeu o cozinheiro, aflito,
erguendo as m�os ao ar.
� Que raio
andas tu a fazer aqui, a estas horas?!
� Acordou com barulho daquela banda e veio ver se era bandido. Mas
era s� gato nos brincadeira dele ...
A explica��o era aceit�vel, mas n�o agradou ao velho colono, que
os recentes acontecimentos haviam tornado nervoso e descon�fiado ... E, em todo
o resto da noite, rolou e rebolou na cama, trabalhado por estranhas suspeitas.
Que diabo teria ido fazer o Cafaia, at� ao fundo do quintal, �s 2 horas da
manh�?! ... O velho andava distra�do, amorrinhado,
esquisito ... T�o depressa punha �bispo� nos guisados como servia a �moamba�
mais ensossa e revida que uma solteirona de 70 anos ... N�o era o mesmo homem,
l� isso � que n�o era! Porqu�?
N�o que ele desconfiasse do cozinheiro. N�o senhor! Pelo velho
Cafaia, punha ele as m�os no fogo. Mas palpitava-lhe que andavam a querer
desencaminh�-lo, embora sem resultado ...
Amanheceu, sem poder conciliar o sono, de preocupado que esteve,
sempre a marralhar nestas ideias.
Mal se levantou, ainda antes do banho e do mata-bicho, deu por si
a caminhar para o recanto do quintal, donde, havia horas, vira sair o
cozinheiro.
Mesmo no �ngulo interior do muro da veda��o, junto duma laranjeira
em crescimento, a terra estava mexida de fresco.
O senhor Manuel foi buscar um sacho de jardinagem e cavou, j�
deveras intrigado, at� bater num monte de pedras, a cerca de meio metro de
profundidade ...
Retirou os calhaus, um a um, e, no meio deles, acabou por
encontrar uma garrafa, das de cerveja CUCA, rolhada e lacrada. Partiu-a contra
o muro e retirou de dentro dela um rolo de papel, que desdobrou e leu ... Leu e
custou-lhe a tomar consci�ncia do que lia ...
Era o plano trai�oeiro e minucioso da chacina de todos os bran�cos
do posto e da pequena povoa��o comercial. O chefe da opera��o, j� nomeado pela
U PA �administrador� daquela terra, seria o Cafaia, que come�aria por
assassinar o patr�o, ao levar-lhe o mata-bicho, em dia que oportunamente lhe seria
comunicado por novo emiss�rio dos comandantes de L�o ...
Aturdido, cambaleando como sob os efeitos duma tremenda marretada
na cabe�a, o branco meteu o papel ao bolso, voltou a casa, foi buscar a pistola
� gaveta da mesa de cabeceira, meteu uma bala no cano, sentou-se � mesa da sala
de jantar e mandou chamar o cozinheiro.
O velho compareceu segundos depois e ficou em p� diante do patr�o,
a limpar as m�os ao avental branco, calado e com aquele seu ar abstracto dos
�ltimos tempos.
� Sabes o que � isto? � perguntou-lhe, de repente, o senhor
Manuel, tirando o papel da algibeira e desdobrando-lho em frente dos olhos ...
���� �O
preto inteiri�ou-se, numa brusca sacudidela, arregalando os olhos, como no
pavor duma apari��o diab�lica. Mas logo recaiu numa esp�cie de torpor ap�tico,
em que a sua moment�nea tens�o se esvaziou como o vento dum bal�o que
cede � press�o excessiva ...
� Sabes o que � isto? � repetiu o patr�o, num berro de raiva
terr�vel.
� Eu sabe...
� confessou o preto, indiferente e conciso.
Nervosamente, a m�o do branco apertou, dentro do bolso, a coronha
da pistola ... Mas dominou-se e come�ou a dizer, numa voz baixa, surda, tensa,
amargurada:
� Com que
ent�o, Cafaia, eras tu que me ias matar?! O velho
curvou a cabe�a, num sil�ncio confirmador...
� ... Tu, que foste criado comigo, a quem
meu pai ensinou a ler e a escrever... Fui eu quem te pagou os estudos dos teus
filhos no liceu de Luanda ... Sou at� padrinho dum deles ...
� � verdade,
patr�o l
� E tu ias
mesmo matar-me?!
� Ia mesmo.
� Quando?
� Quando viesse
a ordem...
� Mas
porqu�, malvado?! � gritou o branco, erguendo-se.
� Eu n�o � marvado, patr�o! Mas eu tinha de cumprir a ordem ...
� E tamb�m
matavas a senhora?
� N�o! ... A senhora n�o! A senhora falou
para eu lhe avisar, se soubesse da �confus�o�. E eu havia de avisar, sim
senhor, para ela fugir. Mas agora o patr�o j� descobriu tudo; vai matar Cafaia;
e acabou-se. Assim fica tudo mais melhor...
O branco sentou-se outra vez, tapou o rosto com as m�os; e esteve
assim durante mais dum longo minuto, preso na vertigem daquela situa��o
incr�vel. Depois, com um murro na mesa, disse para o preto:
� Desaparece
da minha vista!
� Eu n�o sai
daqui! Patr�o tem de me matar...
� Foge, besta do inferno! Eu n�o te quero matar;
mas foge,
est�pido animal!
O preto, fingindo obedecer, deu meia volta e saiu da sala. Mas
voltou quase logo, brandindo uma catana, desengon�ando-se em cabriolas
grotescas, partindo lou�as e escavacando cadeiras.
� P�ra,
maldito! � vociferou o branco, empunhando a pistola.
� N�o p�ra nada ! O patr�o tem de matar a mim, ou eu tem de matar
o patr�o ...
E avan�ou,
de catana erguida ...
Dois tiros partiram, quase simult�neos. O velho Cafaia largou a
catana, dobrou-se com ambas as m�os contra a barriga e tombou para o ch�o,
enrodilhado e miser�vel como um trapo ...
Mas quando o senhor Manuel, que arremessara a pistola para longe,
correu a curvar-se sobre ele, j� arrependido, j� tomado duma enorme piedade,
numa tumultuosa confus�o de sentimentos contradit�rios, o velho rosto do negro
agonizante abriu-se num doloroso sorriso. E daquela boca torcida donde come�ava
a escorrer uma baba san�guinolenta, sa�ram, sumidas e sincopadas, as seguintes
palavras:
� Obrigado,
patr�o! Assim foi mais melhor...