�A PEQUENA COLUNA MILITAR COMANDADA PELO MO�O ALFERES ROBLES REALIZOU NOS DEMBOS UMA CAMINHADA HER�ICA QUE MERECE SER CONHECIDA PELO QUE TRADUZ DE DECIS�O E �NIMO RESOLUTO�

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O ALFERES� ROBLES

 

Manh�s de 15 e 16 de Mar�o de 1961, no Norte de Angola.

Duas manh�s quentes da zona t�rrida, talhadas a golpes de catana na carne de inocentes, em terras que h� mais de quatro s�culos s�o terras crist�s de Portugal.

Manh�s de feras � solta a�uladas de longe por outras feras maio�res, e ainda mais cru�is, e mais trai�oeiras, e mais cobardes! Manh�s da morte dos meninos por nascer...

Manh�s do homem selvagem, ao servi�o duma pol�tica do �dio. Manh�s ensanguentadas e malditas pelo massacre das crian�as, que s�o o sorriso de Deus neste mundo, das m�es que prolongam a vida no dilacerar das pr�prias entranhas, dos homens de m�os calejadas que tiram da terra o p�o de cada dia ...

Manh�s hediondas e tr�gicas do crime teledirigido p�los que falam de paz e fomentam a guerra: do crime que degolou meninos, depois de rasgar o ventre materno em que se ocultavam � do crime que foi apadrinhado por nove dos onze membros do chamado Conselho de Seguran�a. Nove! N�mero de cabala e apocalipse. Nove: noves fora, nada! Nada de justi�a, nem de lealdade, nem de bom senso ...

Em Nova Caipemba, era ainda cedo. Apesar de a gente do mato ser madrugadora, a maior parte dos brancos ainda se n�o levantara da cama. Homens, mulheres e crian�as dormiam tranquilamente, sem armas e sem medo, dentro dos h�bitos duma secular conviv�ncia euro-africana, nas suas cas�tas de um s� piso, constru�das sabe Deus com que sacrif�cios ... As portas, apenas encostadas no trinco. E as janelas que davam para a rua, a menos de um metro do ch�o, abertas de par em par, para os vizinhos amigos e o c�u estrelado.

Na luz suave do alvorecer, �geis e silenciosos como felinos, os assassinos entraram nos quartos onde homens, mulheres e crian�as dormiam ainda ...

Foi t�o simult�neo e trai�oeiro o assalto, que muito poucos tiveram tempo de soltar um grito. O sono de numerosos brancos, pretos e mesti�os de Nova Caipemba terminava num gorgolejo de sangue, sob o gume afiado de catanas ...

Naquela ro�a das proximidades do Quitexe, o patr�o tinha-se levantado antes do nascer do sol, para arrumar umas contas da lojeca em que abastecia o pessoal da sua fazenda e das vizinhas. Pouco depois, a mulher e um filho de 14 anos levantaram-se tam�b�m. As duas mocinhas, uma de 10 e outra de 12 anos, continua�vam a dormir, serenas e graciosas, no seu quartito que era o melhor e o mais enfeitado da casa.

Por volta das 6.30h, o branco abriu a porta da loja e ficou atr�s do balc�o, � espera dos habituais fregueses do copito matinal de vinho ou do c�lice da rija.

Minutos decorridos, chegaram cinco pretos grandalh�es, no jeito de quem vai para a tonga.

� Patr�o, um copo de vinho! � pediu um dos do grupo. � Um copo grande ...

O branco escolheu na prateleira um dos copos maiores, enxa�guou-o na �gua da celha e curvou-se para o barril do palhete.

E, neste acto de se curvar, ofereceu aos bandidos a posi��o que eles previam e esperavam. O golpe foi t�o fundo e certeiro no pes�co�o, que o breve e lancinante berro do assassinado esbarrou contra a l�mina fria da catana ...

Para al�m da porta de comunica��o com a parte familiar da casa, a mulher, apavorada por aquele grito, tinha tirado da mesa de cabeceira um velho rev�lver do marido e empunhava-o com m�o tr�mula, prestes a desmaiar.

� D�-me o rev�lver, m�e! � disse o filho de 14 anos. � E, por amor de Deus, n�o se deixe ir abaixo! Tenha coragem e v� acordar as minhas irm�s!

Contagiada pela decis�o do filho, a pobre mulher obedeceu ins�tintivamente. O mo�o dobrou a culatra do rev�lver e verificou que tinha as seis balas no tambor. Ent�o abriu sem ru�do a porta e, com uma sere�nidade terr�vel, abateu com cinco tiros seguidos, os cinco assassinos que, antes de prosseguir na chacina, n�o tinham resistido � tenta��o duma garrafa de aguardente ...

� Venha, m�e � chamou o mo�o para dentro, com os olhos rasos de �gua postos no cad�ver do pai. � N�o gritem! � acrescen�tou, quando a m�e e as irm�s acudiram e levaram as m�os � boca, horrorizadas. � N�o gritem, que pode ser perigoso! Ajudem-me a transportar o pai para a carrinha! ...

Mudamente, a vi�va e os �rf�os transportaram o corpo para o carro e cobriram-no com um len�ol. Depois, aquele rapazinho de 14 anos, a quem o pai deixava �s vezes guiar a carrinha, sen�tou-se virilmente ao volante e, meio cego pelas l�grimas que teima�vam em inundar-lhe os olhos, correu a avisar um tio que vivia noutra ro�a, a dezoito quil�metros de dist�ncia ...

S� no dia 16 � que a gente de Madimba soube que a vaga sangrenta come�ara a rolar e vinha j� perto.

Reuniram-se os homens e deliberaram correr a S. Salvador, a pedir aux�lio e armas. Para tanto, levaram para fora da povoa��o as mulheres e as crian�as e esconderam-nas entre o capim alto, con�tando que o des�gnio dos bandoleiros fosse, antes de tudo o mais, o saque das casas e lojas.

Mas n�o era.

Apercebendo-se de que os pais tinham partido para longe, as crian�as come�aram a chorar, atraindo aquelas hienas com apa�r�ncia humana. E, quando os homens de Madimba voltaram, as suas casas estavam intactas. Mas de suas mulheres e filhos s� encontra�ram os cad�veres selvaticamente mutilados ...

Numa fazenda agr�cola dos arredores de Carmona, os trabalha�dores estavam prontos a seguir para a faina di�ria.

De m�os nos bolsos, o patr�o e dois capatazes, na inspec��o matinal dos seus homens.

Ouviu-se, ent�o, um assobio forte e modulado, vindo da mata. E logo dezenas de catanas ca�ram de surpresa sobre os tr�s brancos, descuidados e sem armas.

Numa grande algazarra, depois de esquartejarem os mortos, os assassinos jogaram a bola, no terreiro, com as tr�s cabe�as dece�padas ...

E por todo o vasto Congo portugu�s se repetiram id�nticas cenas de morte e selvajaria, em pequenas e pac�ficas povoa��es comer�ciais ou nas fazendas agr�colas dispersas pelo sert�o.

As not�cias ca�ram simult�neas sobre Luanda, arrepiantes e tr�gicas como se fossem as gotas do sangue ainda quente de mais de um milhar de v�timas. Os nervos da popula��o da capital de Angola crisparam-se como num pesadelo de apocalipse.

Come�ou o vaiv�m dos avi�es da DTA, do Aero Clube de Angola, e da For�a A�rea Portuguesa, na tarefa de acudir aos feridos e de transportar os refugiados.

Pelas matas, alguns brancos fugiam, desvairados e sem rumo certo.

Na Fazenda X, da �rea de Nambuangongo, um preto fiel correu a avisar a senhora:

� Fuja, que os bandidos v�m j� a�!

E ela meteu-se � floresta, a p�, ladeada pelos dois filhos j� homens e levando ao colo a neta pequenina ...

Foram encontrados, quatro dias depois, pelo marido que partira de Luanda, acompanhado por outros civis, sob a protec��o duma patrulha militar.

A patrulha era comandada por um alferes de 22 anos.

Entre o grupo dos cafuzos, com barbas de v�rios dias, rostos duros e tr�gicos, fatigados pela ins�nia, os olhos febris duma obsti�na��o raivosa, sobressa�a um transmontano de meia idade, rijo e corpulento. Era o dono da Fazenda X, sita nas redondezas de Nambuangongo.

Tinha vindo a Luanda refazer o rancho, depois duma viagem ao Sul, donde trouxera oitenta trabalhadores bailundos. E toda a fam��lia ficara na ro�a: a mulher, os dois rapazes, a netinha cujos pais iniciavam outra fazenda, a poucos quil�metros de dist�ncia. Por isso n�o sossegava, desgrenhado, ansioso, batendo o asfalto do largo com os seus passos fortes de homem resoluto, clamando que era pre�ciso partir sem demora.

Alguns dos do grupo tinham vindo de l�, do meio do �dio gratuito, alucinado, selvagem e demon�aco. Esses s� queriam armas. Desde o meio-dia que as reclamavam, ali em frente do Pal�cio do Governo, respeitosos mas pertinazes, com uma insist�ncia irredut�vel, indiferentes � fome, � sede e � fadiga, sem arredar p�. Que lhes dessem armas, para poderem voltar �s suas fazendas. Armas e balas. N�o pediam mais nada. E nos seus olhos, cheios de ang�stia e furor, chispava ainda o desvairo da fuga atrav�s dos corpos mutila�dos de amigos ou familiares.

Na ansiosa expectativa da decis�o do governador, trocavam-se perguntas e respostas, em di�logos curtos, entrecruzados como o destino dos homens, definitivos como a morte.

� Mataram-lhe algu�m?

� Meu irm�o, o Miguel, com a mulher e o filhito ainda de peito. Deixaram-na aos peda�os, os grandes c�es! ...

� E na sua ro�a?

� Escavacaram tudo e pegaram fogo � resid�ncia. Mas h�o-de pagar as custas ...

� Vossemec� sabe do Bou�a?

� Resistiu. Dizem que matou dois malvados com os dois �nicos cartuchos que tinha. Acabou esquartejado pela canalha.

� E o Seixas, o Jo�o Seixas, de Mangualde?

� Degolaram-no e a todos os brancos da roca dele. N�o sobrou ningu�m vivo.

� Filhos da puta!

� H�o-de pag�-las todas, e com bons juros ...

� E vossemec�? � disse um dos faladores para um grandalh�o silencioso e taciturno. � Diga alguma coisa, homem!

� Para qu�? ...

� Para desabafar, com mil raios! Tamb�m veio do mato?

� Venho do� Inferno!

� Atacaram-lhe a ro�a?

� Que o diabo leve a ro�a!

� ?!

� ... Mataram-me a mulher e dois filhos ... Um deles ainda gati�nhava ... Quando nos d�o as armas?

� Quando partimos? � perguntava, pela vig�sima vez, o trans�montano rijo e corpulento.

Partiram ao alvorecer do dia seguinte, sob a protec��o duma es�colta militar. O comandante da escolta era, como j� se disse, um alferes de 22 anos.

Tinham-no�� ido�� buscar� ��� Universidade,� onde� cursava� �o�� 2.� ano de Direito. Quarenta e oito horas para malas e despedidas � e embarcara num dos Super-Constellations da TAP, requisitados para transportar ca�adores especiais, logo ap�s os acontecimentos de 4 de Fevereiro em Luanda.

Dissera adeus � fam�lia, com l�grimas, e � namorada com beijos.

J� no avi�o, furando a noite por cima de Lisboa iluminada, revira ainda, na imagina��o, o rosto confrangido dos pais e a figura chorosa da Lena. E viera-lhe uma esp�cie de raiva contra a dis�tante Angola, que lhe arranjara aquele sarilho todo ...

Com a saudade de amigos e parentes, do�a-lhe a interrup��o dos estudos, que se lhe afigurava irremedi�vel. Bastariam uns meses de campanha, dando tiros em vez de estudar as leis, para se lhe des�vanecer quanto tinha aprendido. E l� se iria o curso por �gua abaixo! Nunca mais poderia apanhar o fio � meada ... Tudo porque nos sert�es de Angola, umas centenas de pretos, armados de catanas, tinham atacado os brancos ...

Ainda ent�o n�o compreendia o verdadeiro sentido e import�n�cia dos acontecimentos. E, influenciado por certas pessoas �bem infor�madas� de Lisboa, imaginava os cafeicultores como patr�es muito duros para com o seu pessoal.

�Deviam tratar melhor os trabalhadores� � pensava confusamente. E, no seu foro �ntimo, atribu�a-lhes s�rias culpas nos acontecimentos que o tinham arrancado ao carinho dos pais, ao estudo das Pandectas e aos brancos e roli�os bra�os da Lena ...

Decorrera quase um m�s sobre essa imprevista partida de Lisboa para Luanda. E agora ali estava ele, mais reconciliado com Angola que j� o come�ava a prender, mas ainda desconfiado daqueles rudes sertanejos, de m�os crispadas nas carabinas, olhos muito abertos dos horrores testemunhados, aconselhando pressa, exigindo ac��o.

� O meu �jeep� abre a marcha � declarou ele para o grupo concentrado junto da porta de armas do Quartel dos Drag�es. � Pre�ciso dum homem que conhe�a bem a regi�o ...

� Eu ! � ofereceram-se, ao mesmo tempo, todos os agricultores.

O alferes escolheu o que lhe ficava mais perto, que era o dono da Fazenda X, e prosseguiu:

� A seguir ao meu �jeep�, vai um jip�o; depois as carrinhas dos civis e, na retaguarda, o outro jip�o. Todos os carros � vista uns dos outros! Nada de se distanciarem mais de cinquenta metros! Vamos!

Todos ocuparam as viaturas. A pequenos intervalos, os motores arrancaram. E a pequena coluna come�ou a rodar, na estrada para Nambuangongo ...

Tudo foi f�cil at� Caxito, onde fizeram uma pequena paragem.

A popula��o, reduzida aos homens, pois as mulheres e as crian��as estavam para Luanda, compareceu em peso, a saber not�cias, no alvoro�o que a todos causava a presen�a dos ca�adores especiais, os �jacareus que veste os farda de capim�, como lhes chamavam os nativos.

� Para onde v�o? � perguntavam os homens de Caxito aos amigos ou conhecidos, integrados na coluna.

� Por a� fora, a ver o que resta das ro�as de caf� ...

� Para que lado?

� Nambuangongo.

� T�m por l� fam�lia ?

� Alguns de n�s, sim � informou o dono da Fazenda X. � A minha, por exemplo, est� por l� toda ... E por aqui?

� C� estamos � fez o outro singelamente. � Mas precisamos de armas e muni��es. Estamos fartos de as pedir para Luanda. Respondem-nos que n�o h� ... Que raio de brincadeira � esta?

O agricultor teve um encolher de ombros, a significar a sua igno�r�ncia, e com um gesto para o alferes, que falava ao sargento e aos dois cabos, aconselhou:

� Talvez ele saiba ... Pergunte-lhe!

Sem se fazer rogado, o homem do Caxito, co�ando a barba de alguns dias, dirigiu-se ao oficial:

� O meu alferes � capaz de me explicar como � isso das armas l� em Luanda, que n�o h� meio de um crist�o arranjar umas balitas para defender o canastro ...

� Creio que � um neg�cio a tratar com os armeiros � respondeu o militar, desinteressado.

� D�-me licen�a! � interveio outro civil, do grupo que rapida�mente aflu�ra, curioso das respostas do alferes. � N�s agora n�o pedi�mos armas para ir � ca�a. Precisamos delas para defender a nossa vida, os nossos bens e esta terra, que tamb�m � nossa. Ora, para isto, e com sua licen�a, acho que a tropa nos devia distribuir armas ... O meu alferes n�o sabe nada a respeito?

� Nada! � disse o mo�o militar, no seu jeito grave e nos�t�lgico.� A mim n�o me deram informa��es: deram-me ordens ... Al�m disso, ainda n�o h� um m�s que cheguei de Lisboa ...

� E que dizem, l� por Lisboa, do terrorismo em Angola? � quis saber um sujeito baixote, j� entrado em anos, de grande bigode grisalho a ensombrar-lhe a boca firme e o queixo voluntarioso. � Bacoreja-se que, ainda por cima, tornam as culpas aos cafeicul�tores ... � verdade?

Talvez melindrado com o tom ir�nico do civil, o alferes brindou-o com um olhar duro e contra-atacou vivamente:

� E n�o ser� um pouco verdade, meu caro senhor? Ter�o os homens do caf� dado sempre ao seu pessoal aquele tratamento humano e aquela remunera��o suficiente que se deve a quem trabalha ?

� O qu�?! ...�fez o velhote, erguendo para o mo�o oficial uns olhos arregalados de puro espanto.

Mas o alferes, visivelmente aborrecido, n�o lhe prestou mais aten��o.

� Vamos embora! � disse para o sargento, que imediatamente transmitiu a ordem a civis e militares.

Ultrapassado o velho cemit�rio do Sassa, depois de virar � es�querda, rodando j� na lama da estrada secund�ria, atrav�s da mata verdejante, o dono da Fazenda X, na sua voz baixa e calma, per�guntava:

� Posso falar-lhe com franqueza, meu alferes?

� Claro que pode.

� Pois ent�o, a� vai: no que h� pouco disse dos homens do caf�, o meu alferes n�o tem raz�o ...

� ?!

� N�o tem, n�o, senhor! Nem migalha!... Tomaram os cava�dores do Minho ou os ceifeiros do Alentejo que lhes dessem a paga e o tratamento que n�s aqui damos aos pretos. Os trabalhadores das ro�as de caf� trabalham muito menos e ganham muito mais. Enquanto o lavrador do Minho ou das Beiras labuta de sol a sol, pela magra c�dea de centeio com presigo de toucinho, quando n�o de cebola crua, os trabalhadores da tonga, em Angola, acabam as suas tarefas pela uma hora da tarde. � o patr�o quem os vai buscar ao Sul e quem para l� os volta a levar, no fim do ano. E, al�m do sal�rio (maior que a jeira seca dos cavadores de Tr�s-os-Montes), recebem vestu�rio, casa, alimenta��o e assist�ncia m�dica. Quantos dos nossos trabalhadores da Metr�pole podem gabar-se de tais regalias? ...

� N�o � o que se diz em Lisboa ... � objectou vagamente o alferes.

� Em Lisboa, sempre se disse muita asneira sobre a vida angolana � explicou convictamente o cafuzo. � Mas a verdade � que, salvo rar�ssimas excep��es, n�o foi o trabalhador das ro�as quem se deixou envenenar pelas cantigas dos agitadores vindos do Gana ou do Congo ex-belga. Foram precisamente os dembos e ambu�las, que desde h� muito n�o trabalham, nem para o branco nem para si pr�prios ...

� Ent�o de que vivem ?

� Vivem do trabalho das mulheres, como toda a gente de Angola est� farta de saber. Nas ro�as de caf�, trabalham os bailundos. E os bailundos continuam exemplarmente leais a Portugal ... � diabo! Cautela! ...

Buzinando tr�s vezes seguidas, que era o sinal convencional para paragem e alerta geral, o �jeep� estacou, numa travagem brusca, ao dobrar duma curva, j� quase encostado ao grosso tronco duma amoreira atravessada na estrada.

Todos se apearam. �s vozes de comando do mo�o alferes, secas e breves, a escolta militar criou rapidamente um dis�positivo defensivo. E ouviu-se o ru�do met�lico das corredi�as a puxar a bala ao cano das armas, enquanto os civis afastavam a �rvore do caminho.

A opera��o, que n�o demorou mais de quinze minutos, decorreu sem incidentes. Do capim alto n�o veio rumor de criatura viva nem tiro de canhahgulo.

Mas aquilo era apenas o princ�pio da cega-rega. De a� em diante, j� nas vizinhan�as de Quicabo, sob a chuva que tinha come�ado a cair, o trabalho de remover os impecilhos colocados na bruta picada lamacenta foi cont�nuo, cansativo e enervante.

Nele acabaram por se empenhar todos os homens da coluna, civis e militares, com a excep��o dos que ficavam de vigia.

� Raios os partam, mais � est�pida brincadeira que inventaram l � vociferava um cabo, todo alagado em suor, enquanto ajudava a arre�dar mais um tronco tombado no caminho.

� Na minha terra � que eu os queria ver, a rachar lenha! � aven�tava um soldado, natural de Amarante.

� Qual rachar lenha! � protestava outro, de Nine. � A cabe�a lhes rachava eu, se os topasse a jeito. Mas ningu�m lhes p�e a vista em cima! ...

Com efeito, durante todo esse dia, os terroristas n�o atacaram a coluna. E, pelo tombar da tardinha, j� com o c�u limpo depois duma chuvada mais forte, a pequena caravana autom�vel chegou � primeira fazenda. Soldados e civis, apeados dos carros, entraram na resid�ncia, de armas apontadas e dedo no gatilho. N�o viram ningu�m. Mas no terreiro da secagem do caf�, situado uns cem metros para al�m da casa, depararam com um quadro horr�vel ...

Eram quatro corpos trucidados e abandonados ao acaso do �ltimo gesto ag�nico, no vasto quadrado do terreiro. Uma fam�lia completa: o pai, com o cr�neo aberto e o peito retalhado; a m�e, sem olhos e com duas rodelas sangrentas no lugar dos seios; uma garotinha de alguns 10 anos, despida e esventrada; e, mais longe, ca�do da sua branca alcofa rendada, o pobrezinho dum beb�, de bru�os em cima duma n�doa de sangue seco, com as m�os e os p�s decepados ...

Soldados e civis, agrupados em c�rculo, fitavam o quadro alu�cinante, tomados dum horror indiz�vel. E, por longos segundos, nin�gu�m proferiu palavra ... Depois, com o rosto endurecido e os olhos secos, mas estranhamente brilhantes, o alferes disse numa voz surda e tensa:

� � preciso dar sepultura a esta pobre gente l

Em sil�ncio, quatro soldados, a um gesto do sargento, come�a�ram a abrir quatro covas, lado a lado, ao p� duma frondosa mulemba, na terra empapada pela chuva recente. Algu�m foi � carrinha buscar um cobertor e cobriu com ele o cad�ver nu da mocinha.

Terminado o trabalho dos soldados, os corpos mutilados foram descidos �s covas h�midas. Calado e taciturno, o alferes lan�ou a primeira m�o cheia de terra em cada uma das sepulturas. Ent�o, recuando dois passos, perfilou-se em contin�ncia. E, logo a seguir, devotadamente, fez o Sinal da Cruz ...

Todos imitaram o piedoso gesto do oficial. Um dos civis foi buscar dois sarrafos de madeira e pregou-os em cruz contra o tronco da mu�lemba. E o sargento � um rapag�o de Vila Real, que parecia talhado em granito do Mar�o � virou a cara de aspecto feroz e, afastan�do-se um pouco, levou o len�o aos olhos, assoando-se depois ruido�samente ...

� Seguimos, meu alferes? � perguntou, a disfar�ar a como���o.

� Seguimos � confirmou singelamente o mo�o.

� Deve haver terroristas nas redondezas ... � opinou um cabo.

� Oxal� os encontremos! � rugiu um soldado beir�o.

O alferes fitou-o demoradamente. Uma crispa��o nervosa agitou--lhe as comissuras dos l�bios, no que parecia ser um sorriso de tigre.� E declarou:

� Havemos de os encontrar ...

� A que dist�ncia fica a ro�a mais pr�xima? � perguntou ao dono da Fazenda X.

� A uns sete quil�metros � respondeu o homem, estremecendo, como quem desperta dum pesadelo.

� Preocupado?

� E n�o o hei-de estar, meu alferes? Depois do que vimos, e com a fam�lia a� para diante, dentro destas matas, no meio destas feras ?!

� N�o � preciso pensar no pior... � aconselhou o oficial, con�do�do da ang�stia do civil.

Chegaram � segunda ro�a, j� com o Sol posto. Tamb�m n�o encontraram alma viva. Mas � entrada da resid�ncia, junto dos tr�s degraus que subiam para a varanda, havia uma d�zia de pretos mortos, vestidos com os cal��es azuis da U PA e ca�dos em monte, uns sobre os outros. E em cima, no ch�o de cimento, tombado de costas, com um grande lanho na testa, o cad�ver dum branco ainda novo, com os olhos v�treos, arregalados para a morte, e a m�o direita fechada sobre a coronha duma �Walter� 7,65.

� � o Quim Sabino! � informou um dos agricultores da coluna.

� Ainda n�o h� quinze dias que eu o encontrei no Quitexe ...

� Vendeu bem cara a vida! � comentou o sargento.

Enterraram mais aquele branco, pernoitaram nas modestas ins�tala��es da ro�a e, ao outro dia, com a primeira luz do alvorecer, a coluna retomou a marcha.

� Temos de chegar hoje � sua planta��o! � anunciou o alfe�res ao dono da Fazenda X, quando come�aram a rodar.

� Muito obrigado, meu alferes!

� N�o tem nada que agradecer. Foi por causa de si que mete�mos para o norte da estrada Luanda-Carmona. As ro�as dos outros agricultores que nos acompanham ficam todas a sul da estrada. Ainda � longe, a sua fazenda?

� Uns trinta quil�metros. E de l� podemos seguir por uma picada que leva a Vista Alegre.

Continuavam a n�o encontrar os terroristas. Mas a sua proximi�dade era claramente denunciada pelas ratoeiras da estrada, consti�tu�das quase sempre por grandes valas recobertas de ramos e capim, pont�es destru�dos ou grandes �rvores derrubadas. E tamb�m n�o faltava o rasto sangrento dos torpes assassinos, nas fazendas que iam atravessando. Por toda a parte, abandono, desola��o e morte!

Com a pressa de chegar � Fazenda X, davam uma volta r�pida pelas casas das planta��es, enterravam os mortos e prosseguiam. Numa das ro�as atravessadas, j� com o Sol a pino, depararam com uma vara de porcos que fossavam na carne esfrangalhada de brancos assassinados. Raivosamente, o alferes varreu os bichos imundos com rajadas de pistola-metralhadora. E foram esses os primeiros tiros disparados pela pequena coluna militar.

J� o Sol desca�a para as bandas de Luanda, quando chegaram � Fazenda X.

Estacionados os carros no terreiro, o agricultor, arrastando con�sigo o alferes, percorreu ansiosamente o armaz�m, a cantina, a casa da resid�ncia, os quintais e o acampamento dos bailundos.

Nem mortos nem vivos! Ningu�m!

Depois duma �ltima volta pelas cinco divis�es da casita erguida com tantos sacrif�cios, mobilada com tanto carinho e agora completamente pilhada p�los bandidos, que tinham arrombado portas, partido as lou�as, levado a roupa das camas e entornado vinho por toda a parte � aquele rude e rijo transmontano deixou-se cair desalenta�damente num cadeir�o da Damba e, cobrindo o rosto com as m�os grandes e calejadas, rompeu num choro convulso e solu�ante.

� Ai, os meus pobres filhos! Ai, a minha querida mulher! ...

Soldados e civis afastaram-se discretamente, no respeito que sempre infundem as l�grimas dum homem. Mas o alferes ficou.

������ Calado, encolhido a um canto da varanda. E deixou que o cafuzo desabafasse, aliviando a sua dor na explos�o dos solu�os incentiveis. Depois, quando o viu mais recomposto, j� a limpar ao len�o os olhos vermelhos e o rosto congestionado, aproximou-se comovidamente e disse-lhe, sereno, reflectido e confiante:

� N�o sei se reparou que n�o encontr�mos aqui sinais de luta ou rasto de sangue ... A sua gente est� viva l Bem sei que sou caloiro nestas coisas de Angola; mas, de ontem para hoje, j� aprendi bas�tante sobre os processos destes fac�noras. Por isso lhe repito: a sua gente est� viva! Vamos procur�-la! ...

O homem ergueu para o mo�o uma face angustiada, na atitude de quem tenta compreender algo parecido com um inesperado milagre. De repente, alcan�ando o racioc�nio do oficial, nos seus olhos brilhou um rel�mpago de esperan�a.

E, erguendo-se bruscamente, disse apenas:

� Vamos depressa!

Depois foi, durante dois dias, a tr�gica e paciente busca, em alternativas de esperan�a e desespero, pelas picadas incr�veis ou caminhos de p� posto, atrav�s da selva portentosa.

� Se a minha gente fugiu a tempo � raciocinava o dono da Fazenda X�, s� pode ter seguido tr�s caminhos: a estrada por onde viemos, a que vai dar ao Quitexe ou a picada que atalha caminho para Vista Alegre. Pela primeira n�o foi, que n�o os encontr�mos; pela segunda, era arriscado, pois deve andar in�ada de bandidos; logo, devem ter metido � picada, que � menos frequentada e os meus rapazes conhecem bem.

� Vamos por essa! � concluiu o alferes.

Continuava a chover. N�o a chuva grossa do dia anterior, que desabara em b�tegas furiosas, alagando tudo, mas uma poalha miudinha e pregui�osa, tombando molemente dum c�u baixo e pardacento.

� Chi�a pr� chuvinha de molha-tolos! � protestou um soldado minhoto. �At� parece que estamos em Braga, ao findar do Outono!

� S� com a diferen�a que, nestas �fricas, nem a chuva refresca uma alma de Deus!�acrescentou outro. � Parece caldo. Vai um homem molhado por fora e a suar por dentro. Como � que se n�o h�-de ser selvagem numa terra destas?!

� Cala a boca, terrorista!�invectivou galhofeiramente um dos cabos, que ia no jip�o. � Um tipo que teve a desgra�a de nascer em Boticas n�o deve atacar seja que terra for, ainda que seja o inferno. Eh, rapazes! voc�s sabem que, em Boticas, a maior parte das casas � coberta a colmo?

Mas o de Boticas refilou. Que n�o era terra de espantar, n�o senhores, l� nisso tinha o nosso cabo raz�o. Mas era uma terra crist�, em que se n�o davam cem passos sem topar alma viva. Muito diferente daqueles sert�es, onde se n�o topava um crist�o.

� E quanto a chamar-me terrorista, meu cabo, mais a modo, se faz favor! Se os terroristas fossem da minha t�mpera, apareciam agora � gente, em vez de terem andado para a� a chacinar inocentes.

� C�es do diabo! � rugiu o cabo, cuspinhando para o lado, num reflexo de nojo.

E todos se calaram, na alucinante evoca��o dos horrores j� presenciados.

Entretanto, no �jeep� do alferes, que abria a marcha, o velho cafuzo, com os olhos ansiosos e febris, vasculhava ambos os lados da sinuosa vereda.

� Mande parar um bocadinho, meu alferes. Fa�a-me esse favor! Parece-me que vi bulir a folhagem ali atr�s ...

Com infatig�vel paci�ncia, o mo�o fazia-lhe a vontade. De arma pronta a disparar, ele mesmo acompanhava o aflito agricultor que sa�a da picada, afastava os galhos das espinheiras, trai�oeiros como falsos amigos, gritava �Eh Zeca! Eh Candinha!�. Mas ningu�m respondia. N�o havia ali ningu�m. E ambos voltaram ao �jeep�, para repetirem a cena mais adiante, numa nova esperan�a, logo morta por nova decep��o ...

Ao grupo inicial dos fugitivos da Fazenda X, haviam-se juntado mais cinco brancos, duma ro�a por onde passaram e que avisaram da onda assassina. Ao todo, eram agora onze pessoas � duas senho�ras, tr�s homens, quatro crian�as e dois pretos fi�is � caminhando, a corta-mato, numa linha paralela � picada para Vista Alegre.

Arrastavam-se penosamente, havia tr�s dias, primeiro acossados p�los bandidos, depois sofrendo a fome e a sede, e por fim quase mortos de cansa�o e j� possessos do dem�nio infame do deses�pero.

Durante o primeiro dia, sofreram a persegui��o cont�nua dos fac�noras. � certo que os tr�s homens obraram prod�gios na defesa daquelas inocentes vidas de mulheres e crian�as. No transe do maior perigo, quando os fac�noras ululavam muito pr�ximos e sedentos de sangue, os dois irm�os da Fazenda X, rapag�es morenos de 18 e 20 anos, ambos armados de carabinas, ambos cheios de ternura pela pobre m�e velhinha que t�o doloridamente se arrastava na infin�d�vel caminhada, tinham congeminado uma boa estrat�gia defensiva. Trepavam �s esgalgadas eritrines ou �s frondosas mulembas, um � frente e o outro atr�s do pequeno grupo miserando. A t�ctica consis�tia em cobrir, � retaguarda, a marcha dos fugitivos, repelindo algum fac�nora mais atrevido com tiros certeiros, descer da �rvore e correr a ocupar outra, cem metros � frente do atirador da vanguarda, alter�nando ambos sucessivamente as suas posi��es em rela��o aos que em baixo se iam arrastando, cheios de fome, de sede, de suor e de terror.

N�o obstante os que tombavam, escabujando no ch�o, abatidos pelas balas certeiras dos dois irm�os, bem treinados no tiro ao veado e � paca�a, os terroristas, certos do seu festim de carni�a, pareciam divertirem-se em prolongar o tr�gico desporto daquela per�segui��o. Porque tanto avan�avam velozmente at� � vista dos bran�cos, em gritaria medonha e com esgares horr�veis, brandindo as catanas, saltando, urrando, amea�ando, como logo se deixavam ficar para tr�s, escondidos nos recessos do arvoredo, agrupados em c�r�culo, murmurando em concili�bulos misteriosos.

Durante uma dessas tempor�rias tr�guas concedidas pelos ferozes perseguidores, os brancos encontraram pela frente um pequeno riacho que as chuvas tinham guindado � categoria dum verdadeiro rio.

� Vamos passar para a outra margem � decidiu o irm�o mais velho.

� E se h� jacar�s? � lembrou a m�e.

� Mais sanguin�rios do que as feras que nos perseguem, n�o h�o-de ser... � respondeu o mo�o. � Vamos l�!

Depois de passarem todos � a velha senhora amparada aos filhos j� homens e as crian�as ao colo dos adultos � o irm�o mais velho explicou o seu plano para despistar os bandidos:

� Ficam aqui todos, em sil�ncio e quietinhos. Eu volto para o lado de l�. Est�o a ver aquela amoreira, cujos ramos se entrela�am com os da mulemba desta margem? Pois � nessa amoreira que eu me vou empoleirar, como um galaroz que se diverte. Logo que os ban�didos apare�am, mando-lhes uns tiros de presente e passo para o lado de c�, de maneira que os tipos n�o percebam. E v�o ver como os pa�lermas seguem por ali adiante, convencidos de que nos continuam no encal�o. Entendidos?

Fez-se como o valente rapaz aconselhava. E o ardil surtiu efeito.

Viram-se livres dos bandidos. Mas foi ent�o que come�aram a lutar com a fadiga, com a fome e, sobretudo, com uma terr�vel e enlouquecedora sede.

Ao terceiro dia, a senhora mais idosa, que era a dona da Fazenda X, ia toda ensanguentada do arranhar das espinheiras e levava os p�s inchados como trambolhos, envolvidos em peda�os da camisa de um dos seus filhos. As crian�as j� nem for�a tinham para chorar.

� Eu quero a Macainha � rabujava debilmente a mais pequena delas.

A Macainha era uma boneca francesa, vestida de alsaciana, que o av� lhe tinha trazido de Luanda como prenda do seu segundo anivers�rio. Ningu�m sabia por que misteriosas raz�es dera-lhe aquele nome esquisito, corruptela do nome duma criada preta da casa, chamada Maria Candimba. E agora, tr�s dias depois de a av� a ter ido buscar � sua caminha de grades para a fuga precipitada, voltava a lembrar-se da boneca preferida:

� Vov� eu quero a Macainha ...

� A Macainha ficou em casa, minha filha.

� Ent�o voltamos para casa.

� Pois sim: vamos voltar para a nossa casinha.

� Vov�, eu tenho muita fome! �tornava a pequenita.

� E eu tamb�m � acrescentava um pirralho de alguns 5 anos.

� Tamb�m eu!

� E eu tenho muita sede ... Quero aguinha!

Cortava o cora��o ver penar, em t�o duro transe, aquelas quatro criancinhas, a mais velha das quais ainda n�o completara 7 anos.

A sede era, para todos, a tortura maior. A fome, iam-na iludindo com os frutos silvestres que topavam pelo caminho. Algumas goia�bas que encontraram foram consideradas manjar de luxo, porque eram saborosas e enganavam simultaneamente a fome e a sede. Reservaram-nas para a petizada, a quem distribu�am uma por cabe�a e por refei��o.

Na passagem p�los riachos, os adultos dessedentavam-se abun�dantemente, bebendo por uma bota de cano alto. E assim iam pal�milhando a penosa caminhada, famintos, sujos, inseguros da vida e sentindo j� no pesco�o o ro�ar cruel do gume das catanas ...

Quando alvoreceu o quarto dia, desembocaram na estrada prin�cipal.

� Agora j� estamos perto � disse o mais velho dos rapazes. � Daqui a Vista Alegre � um pulo.

� Gra�as a Deus! � exclamou a m�e. � Mas eu j� n�o aguento mais.

E deixou-se cair desamparadamente na valeta lamacenta.

Correram a levant�-la e docemente a sentaram � beira da estrada, decidindo que todos deviam descansar um pouco, antes de pros�seguir viagem.

� Vov�, quando chegamos � nossa casinha? � perguntou outra vez a pequenina. � Eu tenho muita fome ...

� Se calhar, meteram-se � estrada do Quitexe ... � aventou o dono da Fazenda X, num acesso de pessimismo, come�ando a ceder � diab�lica vertigem do desespero.

� O seu primeiro racioc�nio parece-me o mais sensato � disse o alferes. � Ou acontece alguma coisa que o leve a mudar de ideia?

� Acontece que h� dois dias que andamos nesta busca e ainda n�o descobrimos rasto dos fugitivos. Nem uma pegada de p� cal��ado, nem qualquer resto de comida, nem uma ponta de cigarro. Nada!

� Quem lhe diz que n�o seguiram por fora da estrada, justamente para n�o marcar o rumo a poss�veis perseguidores?

� � justamente isso que me assusta � respondeu o agricultor. � Se eles caminharam a corta-mato, talvez tenham preferido o rumo de Luanda, cruzando-se connosco sem ningu�m dar f�. Est� o meu alferes a ver que pouca sorte?!

� N�o foi nesta picada que o meu amigo pensou, logo de come�o?

� � verdade que foi.

� Pois eu acredito em palpites. Vamos para a frente!

E a coluna continuou a sua marcha, lenta, interrompida dezenas de vezes para dar ajuda �s carrinhas que se atolavam na lama at� aos eixos, mas persistente e sempre picada pelo indestrut�vel bom humor dos soldados.

� Eh Manei! � dizia um transmontano do �ltimo jip�o � Est�s a ver como fomos vigarizados?

� Homessa! Vigarizados em qu�?!

� Ent�o n�o � uma vigarice esta coisa duma guerra em que o inimigo n�o aparece? J� agora sempre gostava de ver um terrorista ...

����� � Lagarto, lagarto, lagarto! � exclamou o Manuel compenetradamente. � N�o fales nesses diabos, que at� j� me d�i o pesco�o. E passava a m�o em gume contra a garganta.

� N�o me digas agora que tens medo duns tipos de catana! � tornou o outro, escarninho. � Eu c�, falando com toda a franqueza, preferia que eles se mostrassem.

� Tamb�m eu, desde que me apare�am de frente. Mas os safar�danas preferem atacar pelas costas. E duma trai��o ningu�m se livra!

� T� bem! � concordou um terceiro. � Mas isto assim � que n�o tem piada nenhuma! � como quem vai � ca�a e volta de bornal vazio ...

� Deixa l�, que ainda a prociss�o vai no adro e at� ao lavar dos cestos � vindima � declarou o cabo que tinha a mania dos ad�gios. � Palpita-me que ainda nos havemos de fartar de ver esses patifes ...

Mas o carro que ia � frente estacou, enquanto o condutor dava para tr�s sinal que parassem tamb�m. Do seu �jeep�, sempre na vanguarda, o alferes tinha avistado, l� adiante, numa clareira, um tipo empoleirado entre as ramarias altas duma frondosa amoreira.

� Eu vou l�! � ofereceu-se o sargento, puxando uma bala ao cano da pistola-metralhadora.

� Deixe-me ir tamb�m! � pediu o dono da Fazenda X.

� Vamos os tr�s!�decidiu o alferes, saltando do �jeep�.

Mal, por�m, tinham percorrido meia centena de metros, deslizando cautelosamente sob a protec��o do arvoredo, o velho agricultor largou a correr a peito descoberto, gritando:

� � o� meu Zeca,� bendito� Deus!�� � a� minha� gente!

Era, efectivamente, o mais velho dos dois irm�os que, de cima da �rvore, montava sentinela, enquanto o grupo de fugitivos des�cansava, alguns metros mais al�m, na berma da estrada para Carmona.

Descrever o que foi a alegria daquele encontro, � imposs�vel.

Mas um soldado de Amarante, depois de ficar embargado durante minutos, teve apenas o seguinte coment�rio:

� Irra! que uma coisa assim at� chateia a alma duma pessoa! Pois n�o � verdade, � Manei?

Em r�pido �conselho de guerra� com o sargento e os dois cabos, o alferes deliberou que seguiriam todos at� ao Quitexe, donde o grupo de fugitivos seria transportado � cidade de Carmona, a fim de tomar o avi�o de Luanda, enquanto a coluna iniciaria o caminho do regresso por Quibaxe e Pango Aluquem.

Mais uma hora, gasta principalmente a remover as �rvores derru�badas sobre a estrada, e entraram em vista Alegre, que foram encon�trar ao avesso do nome: abandonada e triste, com as casas vazias, as portas arrombadas, todos os vidros partidos, as prateleiras das lojas escavacadas e, aqui e al�m, alguns cad�veres a testemunhar a passagem selv�tica das catanas ...

Depois duma boa refei��o quente, confeccionada com mercearia das lojas desertas e cria��o abandonada, ali passaram a noite, mal dormida n�o tanto pela sensa��o do perigo como pelo nauseabundo fedor a cad�ver que vinha das matas envolventes.

No dia seguinte, retomavam a marcha, com a primeira luz do alvorecer, quando da espessura da mata saltou um negro esgalgado, agitando um trapo amarelo preso num pau � guisa de bandeira, e gritando:

� Mussi�!� Mussi�!

Soou outra vez o ru�do inconfund�vel das corredi�as das armas, empurrando as balas ao cano. Um dos soldados que iam no �jeep� do alferes meteu rapidamente a carabina � cara ...

� Quietos e em sil�ncio! � intimou o alferes, estendendo os bra�os paralelos ao ch�o, num gesto expressivo. E ao sargento, que rapidamente saltara do seu carro e acudira a receber ordens, segredou algumas breves e claras instru��es. O subalterno correu seguidamente a coluna, falando aos soldados, em voz baixa e misteriosa.

Entretanto, o negro da bandeira, vendo parar os carros e abaixar as armas que o visavam, avan�ou mais confiadamente, desdobrando ostensivamente contra o peito o pano, onde se liam, enormes e debruadas a negro, as letras UPA.

� Mussi� l � tornou o emiss�rio.

� Venez, mon ami! � convidou o alferes, com uma seriedade de raj� das �ndias.

O preto abriu um largo riso triunfante, mostrando os dentes, limados em tri�ngulo, � maneira dos canibais. Logo a seguir, soltou um assobio estridente, estranhamente modulado em tr�s tons ...

E, ent�o, todos viram surgir da selva um negro enorme, vestindo o t�pico capote dos chefes dembos, no meio duma d�zia de homens armados de catanas e canhangulos.

O oficial, observando o pitoresco bando, concluiu no seu �ntimo que a sua ideia inicial estava certa. Era efectivamente, como ele pen�sava, um dembo aliciado pela UPA, que os confundira com alguma esperada gente de al�m-fronteira e se apressava a vir prestar obedi�n�cia aos �comandantes� que chegavam.

� Mussi�! � saudou o dembo, curvando-se para o alferes, logo imitado p�los sobas � macotas que o acompanhavam. E, talvez por n�o saber dizer mais nada na l�ngua dos �comandantes�, tirou a bandeira ao emiss�rio e estendeu-a, tamb�m ele, em frente do peito, apontando as letras UPA.

� J� sei que �s da UPA, bandido! � berrou de repente o oficial. E, apontando-lhe a pistola-metralhadora, intimou:

� M�os ao ar! Ou ficas como um crivo, traidor!

Arregalando os olhos de puro espanto, o dembo olhou em redor. E em redor olharam os doze malandrins que o acompanhavam, j� com as pernas retesadas para a fuga. Mas os soldados tinham cumprido discretamente as ordens transmitidas pelo sargento. � volta dos ter�roristas fechara-se, de repente, um c�rculo de baionetas ...

Sem uma palavra, aceitando a situa��o com o antigo respeito da sua ra�a p�los fortes, o dembo baixou a carranca feroz e atou as m�os por cima da cabe�a, logo imitado por todos os do seu s�quito.

� Revistem-nos, desarmem-nos e amarrem-nos!�foram as ordens secas do alferes.

Um cabo, a coberto das baionetas de dois soldados, cumpriu.

O dembo era portador de pap�is que n�o deixavam d�vidas quanto � sua filia��o na UPA. Entre eles, foi-lhe apanhada uma carta recentemente escrita de L�opoldville, com todo um plano de proce�dimento e a promessa de lhe enviarem, por aqueles dias, refor�os comandados �por gente do nosso grande comandante de l� muito longe�. Fora essa carta que levara o cabecilha a confundir os ca�a�dores especiais com o aux�lio prometido p�los chefes de al�m-fronteira ...

Dois dos meliantes ainda traziam as catanas ensanguentadas ...

� Est� a ver, meu alferes?! � exclamou o cabo ao notar a tr�gica circunst�ncia. � Este filho duma vaca andou a matar brancos! ...

E logo um grande alarido se levantou entre os civis. Aquele safar�dana vinha talvez de retalhar crian�as. N�o merecia viver nem mais um minuto.

� Mata-se j�! � bradaram alguns.

� N�o se mata um inimigo amarrado! � interveio duramente o alferes. � Todos esses homens s�o prisioneiros do Ex�rcito. V�o numa das camionetas at� ao Quitexe. L� se decidir� o seu destino.

� S�o criminosos da pior esp�cie!�teimou ainda um civil.� O meu alferes j� se esqueceu do que todos vimos nas ro�as que atravess�mos?

� N�o esqueci, n�o senhor! � respondeu serenamente o mo�o. � Nem nunca mais me esquecerei ...

� E deixa viver um patife destes, que ainda traz a catana quente do sangue dos inocentes?!

� N�o sou carrasco � disse o oficial �, sou soldado! Vamos!

E, levando num carro os fugitivos da Fazenda X e noutro os prisioneiros com as m�os amarradas atr�s das costas, a coluna retomou a marcha, ultrapassou Aldeia Vi�osa, e prosseguiu para o Quitexe.

No Quitexe � duas d�zias de casas arrimadas � estrada, erguida � categoria de rua principal e �nica � foram logo cercados p�los homens da vila, armados de ca�adeiras, carabinas ou velhos rev�l�veres. Usando roupas que desde h� muito n�o viam ferro nem sab�o, barbudos e cabeludos, olhos febris da vig�lia constante, falas eri�a�das de pragas, almas saturadas de horror � aqueles homens impa�cientes, indom�veis, violentos e fren�ticos crivaram a pequena coluna de exclama��es, alvitres, coment�rios e perguntas.

� Ainda bem que chegou a tropa!

� Talvez eu agora tenha uma lasquinha de tempo para tomar um banho!

� Mostrem a esses bandidos quantas p�ras s�o por um pataco!

� Quando chega o resto da coluna?

� N�o h� resto ... � p�de finalmente responder o alferes. � Isto � apenas uma pequena escolta militar.

Uma sombra de des�nimo percorreu aqueles rostos resolutos. Ent�o, era s� aquilo, o aux�lio que lhe enviavam? Duas d�zias de soldados, sob o comando dum alferes quase imberbe ...

� Gaita! � segredou, para um dos civis da coluna, um dos ho�mens do Quitexe. � Que pode fazer, num vespeiro destes, um moci�nho assim?

� A quem � que o amigo chama �mocinho assim�? � disse o interpelado, tamb�m em voz baixa.

 

� Ao alferes � esclareceu o outro. � Ainda mal saiu debaixo das saias da m�e!

� Pois fique sabendo que � um tipo danado, aquele �mocinho assim!�. Valente e decidido como os que mais o s�o!

Enquanto este curto di�logo se travava em surdina, a curta dist�ncia do comandante da coluna, mais perto dele outro civil per�guntava que malta era aquela que vinha num dos carros, de m�os atadas atr�s das costas.

� Prisioneiros � declarou o oficial.

� Prisioneiros?! � exclamaram, trespassadas de espanto, v�rias vozes ao mesmo tempo.

� � verdade.

� Prisioneiros! � chasqueou um grandalh�o, de cabelo j� gri�salho. � Ora viva o luxo!

E novamente, agora os residentes do Quitexe, os civis opinavam que os assassinos de mulheres e crian�as n�o mereciam o trata�mento reservado aos soldados inimigos. Tratava-se de criminosos comuns, e dos mais repugnantes. Conhecia o senhor alferes as abo�mina��es por eles praticadas? Sabia que na Fazenda S. Carlos tinham cortado em postas o mesti�o Tainha, com a mulher e duas filhinhas g�meas de 3 meses? Que tinham retalhado o fazendeiro Raposo, depois de o castrarem? Que na Fazenda S. Jos� tinham vio�lado at� � morte uma pequenina de 6 anos? Que para as bandas de Caipemba haviam morto brancos amarrados, batendo-lhes na cara com os membros decepados dos seus filhos? Que tinham chegado a comer, grelhados, os f�gados das suas v�timas? Bandidos assim podiam ser considerados �o inimigo�, no sentido militar do termo? Ou eram apenas fac�noras da pior esp�cie, menos humanos que as hienas, absolutamente indignos de viver?

Assim argumentavam os do Quitexe. Mas o alferes varreu tudo com duas palavras. Ele se encarregaria de decidir a sorte dos prisioneiros. Que o ajudassem antes naquilo em que o podiam ajudar: os seus homens estavam necessitados duma refei��o quente e de umas camas onde dormir um pouco ...

E logo a boa e brava gente do Quitexe franqueou as suas casas, os seus escassos v�veres, tudo o que tinha.

� tarde, o alferes chamou o chefe do posto e comunicou-lhe que doze dos seus soldados, sob o comando do sargento, escol�tariam at� Carmona os fugitivos encontrados perto de Vista Alegre e voltariam para o Quitexe, onde ficariam para refor�o da defesa da vila. Ele, com o resto dos seus homens e os civis vindos de Luanda, iniciaria no dia seguinte a viagem de regresso. Entretanto, tinham de arrumar a quest�o dos prisioneiros, com excep��o do dembo traidor, que seria transportado para Luanda.

Perante os olhares ir�nicos dos civis, agarrados � sua ideia de que �n�o valia a pena gastar boa cera com ruins defuntos�, constituiu-se uma esp�cie de tribunal ao ar livre, no terreno fronteiro ao posto. Em cadeiras trazidas de dentro do edif�cio, sentou-se o alferes, ladeado pelo chefe do posto e pelo sargento. Dois soldados empurraram para a frente do j�ri um dos negros apanhados com as catanas ainda ensan�guentadas.

� Mataste brancos? � interrogou bruscamente o alferes.

� Matou, sim si�! � respondeu arrogantemente o bandido.� E tamb�m os mulatos e os bailundo do contrato cos brancos.

� Quantos mataste?

� Matou muitos! � disse o r�u, num arreganho de orgulho feroz.

� E porque � que os mataste?

� Grande feiticeiro mandou...

� Os brancos que mataste tinham-te feito algum mal?

� N�o, si�!

� Os mesti�os que mataste tinham-te feito algum mal?

� N�o, si�!

� Os bailundos que mataste tinham-te feito algum mal?

� N�o, si�!

� Ent�o, porque os mataste?

� Nosso chefe dembo mandou ... Grande feiticeiro mandou ...

O alferes calou-se. Toda a assist�ncia emudecera, no espanto das c�nicas declara��es ...

E foi quando chegou uma carrinha, vinda dos lados de Car�mona. Desceram dois brancos e um velho preto, com ares de cozi�nheiro ou criado antigo. Um dos brancos tamb�m era j� velho e vinha todo esfarrapado, mostrando verg�es sangrentos, por entre os ras�g�es da camisa enxovalhada, no peito magro. Trazia � cinta, num coldre de couro de cerdo, um grande rev�lver �Colt�. E os cabelos em desalinho. E uns olhos de alucinado ...

� Que � isto aqui? � perguntou, acercando-se do ajunta�mento.

� Est�o a julgar um terrorista � respondeu algu�m.������������������� '

� E � mesmo um terrorista? � insistiu o anci�o, franzindo a testa, como se lhe custasse a compreender.

� Dos aut�nticos. J� confessou ter matado muitos brancos. Ent�o o velho avan�ou resolutamente para o fac�nora, rompendo atrav�s da assist�ncia, bradando:

� Com licen�a!

... E desfechou o rev�lver na testa do bandido.

� O senhor est� preso ! � berrou o alferes, indignado, cor�rendo a agarrar o velho por um bra�o.

� � um favor que me faz, meu alferes � disse o homem calma�mente. � J� n�o tenho casa, nem fam�lia, nem p�o ...

� Porque matou o prisioneiro? � tornou o oficial, j� mais brando.

� Porque � dos que me queimaram a fazenda e cortaram �s postas a minha mulher, o meu filho, a minha nora e os meus tr�s netinhos ... Venho de enterrar os bocados que sobraram da fome dos porcos ... Prenda-me meu alferes, por favor! ...

E� rompeu�� a�� chorar,�� num� choro� alto,� sacudido� de� solu�os, quase infantil.

Durante momentos, o mo�o oficial curvou a cabe�a, em �ntima e penosa medita��o.

Depois, erguendo os olhos para o velho, disse: � V�-se embora, homem! V�-se embora! ...

J� no caminho de regresso, os soldados galhofavam ...

Tinham passado pelas fazendas da �rea do Quibaxe e Pango Aluguem. Por l� havia ficado a maior parte dos civis vindos de Luanda que, para aquelas bandas, encontraram as ro�as intactas, sob a guarda dos bravos e leais bailundos.

Seguiam agora de Pango Aluquem em direc��o ao Ucua, no entroncamento com a estrada principal. E ap�s todos aqueles dias por estradas do diabo e picadas do seu filho mais velho, sem topar mais terroristas al�m do p�caro bando do dembo que levavam preso, os soldados, de carro para carro, galhofavam ...

� Eh! Manuel I � gritava o soldado de Amarante. � Eu n�o te dizia que esta guerra era uma vigarice?! Afinal, onde est�o os terro�ristas ?

� At�o n�o levamos a� um cabecilha amarrado? � fez o outro.

� Valha-nos ao menos isso! � interveio o cabo. � Sempre � uma amostra ...

� E se o resto � da mesma fazenda, n�o est�o mal servidos de carrancas! � comentou aquele a quem chamavam Manuel. � Voc�s j� atentaram nas trombas do gajo? Safa, que para espantalho dos milhos, nem de encomenda!

� Eu ainda lhe n�o vi os dentes, a essa feia besta � acrescentou um de Nine. � Amorrinhou, logo que entendeu ter-se enganado na porta, e nunca mais comeu nem disse palavra. � de for�a!

Mas o soldado de Amarante teimava que, sim senhores, sempre levavam uma boa amostra de terrorista, mas apanhada numa arma�dilha, como ratinho inocente. E ele n�o estava satisfeito. Para ele, encontrar os terroristas, o que se chama �encontrar os terroristas�, era apanh�-los na porca fun��o, a brandir a catana ou de canhangulo aperrado ...

� E ainda vos digo mais � acrescentou entusiasmado com o som da pr�pria voz. � � por via disto que eu lhes ganhei uma raiva maior! Sempre pensei que fossem homens, c'os diabos! Que aparecessem a cortar-nos o caminho. Mas n�o: pelo visto, s� se atrevem a cortar velhos, mulheres e criancinhas inocentes. Bastam duas d�zias de soldados para lhes amainar a sanha do ataque. Ora gaita!

� Gaita mas � pr� conversa! � opinou o Manuel. � Meu pai costumava dizer �falai no mau, aparelhai o pau�! E acho que n�o � bom lan�ar os foguetes antes da prociss�o sair do adro. N�o v� o diabo tec�-las e acabarmos todos por nos fartarmos de ver terroristas ao natural, de canhangulo, catana e tudo. Irra! Falemos de outra coisa!

� Eu bem sei do que me apetecia falar, meus filhos... � insinuou um de Ermesinde, em voz derrancada.

� De qu�, infeliz? � perguntou outro, imitando-lhe o tom.

� Das terroristas! Dumas terroristazinhas jeitosas... para as passar pelas armas ... Ai ...

� Cala a boca, porco! � intimaram todos, por entre risadas mali�ciosas. � N�o v�s que est�s a minar o moral das tropas?! ...

Mas o �jeep� do alferes, como sempre na dianteira, mais uma vez estacou, junto duma grande �rvore derrubada.

� � tu, que desejas ver os terroristas! � convidou sarcasticamente o Manuel. � � falta de melhor, toca a tomar o peso da �lembran�a� que eles te deixaram no caminho! Anda, meu menino! Alomba, que � a tua vez. Eu fico de vigia �s catanas ...

O alvejado, mais alguns soldados de outras viaturas lan�aram-se ao trabalho de remover o pesado tronco. Era o primeiro que encon�travam, desde Pango Aluquem. Sinal evidente da presen�a dos ban�doleiros na densa floresta envolvente. Mas j� ningu�m esperava que atacassem. Desde a sa�da de Luanda, por centenas se contavam as �rvores que tinham arredado do caminho. E nunca os terroristas se haviam atrevido a aproveitar aquelas boas oportunidades de ataque. Matadores de mulheres e crian�as; mais nada!

Assim pensava o Manuel, embora tivesse puxado uma bala ao cano da arma e permanecesse atento ao emaranhado da selva.

E foi quando, de repente, soou um tiro de canhangulo. Depois outro, e mais outro, e uma s�rie deles seguidos ...

Rapidamente, os soldados formaram o seu dispositivo de defesa. As pistolas-metralhadoras come�aram a crepitar, logo refor�adas pelo forte ladrar da �Madsen� e p�los estampidos secos das carabinas.

Mas n�o viam ningu�m. Disparados uns quinze tiros de canhangulo, um dos quais atingiu um soldado, de rasp�o num ombro, os terroristas n�o davam mais sinal de si. E, depois dumas rajadas � toa, em redondo, o alferes fez sinal de cessar fogo e aguardar.

Longos minutos se passaram naquela tens�o horr�vel. At� que, do recesso da mata, se ouviu o soar trinado dum apito, daqueles usados p�los �rbitros, nos desafios de futebol. E recome�ou o tiroteio dos canhangulos.

� Atira para ali! � veio dizer o alferes ao cabo que manejava a �Madsen�, indicando-lhe determinado ponto.

O metralhador varejou raivosamente a zona apontada pelo oficial. � novamente os canhangulos se calaram. Um novo e enervante sil�n�cio caiu sobre aqueles poucos soldados, cosidos com a lama da picada, isolados no meio do vasto sert�o e dos inimigos invis�veis.

E outra vez o diab�lico apito: trri ... rrr... rriu!

Os dedos dos vinte ca�adores especiais acariciaram o gatilho das armas, olhando em volta com os olhos ansiosos, na esperan�a de avistar os pr�ximos fogachos dos canhangulos ... E, naquela ter�r�vel expectativa, o apito repetiu:

� Trri ... rrr... rriu!

� Fora o �rbitro! � berrou, ent�o o soldado de Amarante.

E uma incentivei gargalhada de toda a coluna encheu o incomo�dativo sil�ncio(1).

Logo a seguir, estoiraram mais descargas de canhangulos.

� � dali! � bradou o alferes, estendendo a m�o para um recanto da mata. � A eles!

E, seguindo o seu mo�o comandante, dez dos soldados lan�a�ram-se ao ataque, enquanto os restantes montavam guarda �s via�turas.

Acossados no seu esconderijo por aquele pequeno grupo de bravos, os fac�noras, largando catanas e canhangulos, debandaram. N�o, por�m, sem deixar alguns mortos e assinalar o s�tio da torpe emboscada ...

� Est�s satisfeito, agora que j� viste os terroristas ao natural? � disse o Manuel para o soldado de Amarante.

� Nem por isso... � respondeu o interpelado. � Eram t�o poucos ...

� N�o ser� melhor dar um tiro neste maluco, meu alferes? � gra�cejou o Manuel para o oficial, que passava e tinha ouvido a conversa.

� Temos de poupar as muni��es ... � respondeu o alferes no mesmo tom. E, ap�s a excita��o do combate, o seu rosto grave e s�rio abriu-se num sorriso de bom camarada ...

At� ao Ucua foram atacados mais duas vezes. E uma terceira, j� a poucos quil�metros da ponte do Sassa. Em todas o mesmo g�nero de emboscada: uma vala profunda, dissimulada com grade de ramaria recoberta de capim e areia, ou um tronco atravessado no caminho. E, for�ada com este ardil a paragem da coluna, come�avam a chover os tiros de canhangulo de cima das mulembas frondosas ou do meio do capim mais alto do que um homem alto.

No segundo ataque, houve uma desgra�a. O soldado de Ama�rante, quando se lan�ava ao assalto, rompendo bravamente por entre o emaranhado da selva, apanhou em pleno peito a carga dum canhangulo.

Ainda p�de balbuciar, apontando para a frente:

� Est�o acol�! ...

Mas, correndo a ampar�-lo, o alferes viu logo como se escoava rapidamente a vida daquele valente com o sangue que lhe golfava do peito esfrangalhado. Quando o sentiu cad�ver, cerrou-lhe piedosamente os olhos, encarregou dois camaradas de o guardarem e, a chorar de raiva e de pena, bradou aos restantes:

� A eles! ...

Meteram-se a corta-mato, num �mpeto terr�vel, com um furor concentrado e vingativo. Bateram a floresta e o capim em todas as direc��es. E, por onde eles passaram, foi como se passasse a jus�ti�a de Deus ...

Ao cabo de tantos dias tormentosos, a pequena coluna estava de novo em Caxito. Voltavam com tr�s feridos (que uma ambul�ncia imediatamente transportou para o Hospital da Tentativa) e com a saudade do camarada a quem tinham dado sepultura crist� no pe�queno cemit�rio do Ucua.

Tinham partido, decididos e bem treinados, mas bisonhos. Vol�tavam veteranos nesta guerra insidiosa de catana e canhangulo. Vol�tavam mais homens, inteiramente c�nscios de que se batiam pela raz�o e pela justi�a. Voltavam diferentes.

������� Sentado confortavelmente na varanda da resid�ncia do adminis�trador, enquanto aguardava o almo�o com que a gente de Caxito quisera brindar aquela d�zia de bravos, o alferes, j� depois dum banho reparador, ficara por momentos sozinho. E uma estranha modorra o tomara, como se, finda a enorme tens�o em que se aguentara, na cont�nua vig�lia e excessivo esfor�o, reflu�ssem agora sobre si todas as fadigas, perigos, brutalidades e horrores daqueles dias ...

Tamb�m ele voltava mudado. Diferente. Sabia agora que ing�nuos eram os que supunham os terroristas movidos por ideais de emanci�pa��o pol�tica. Na verdade, nenhum outro sentimento os impelia, sen�o uma porca e animalesca �nsia de sangue, de pilhagem e de estupro. Agiam como bestas-feras, levados pela for�a diab�lica do �dio racial, dos instintos desenfreados e do medo ancestral aos feiticeiros. Avan�avam sob o efeito alucinante da liamba, massa�crando, violando, queimando, destruindo, tripudiando sobre cad�veres estripados, dan�ando entre o choro lancinante das crian�as torturadas e o estertor de velhas e meninas violentadas at� a morte.

Depois da tremenda peregrina��o pelo calv�rio do Congo portugu�s, seguindo o rasto sangrento dos fac�noras a quem na ONU chamavam �patriotas�, o mo�o oficial compreendia agora o bramir de le�o ferido, que haviam soltado os homens do Quitexe, do Negage, da Damba e de Carmona. O terrorismo em Angola era, efectivamente, um duplo crime. Crime repugnante dos que retalha�vam � catana as carnes de pobres criancinhas que traziam ao colo, porque os pais lhas haviam confiado. E crime igualmente repugnante daqueles que, de longe, excitavam os piores instintos de homens pri�mitivos, seduzindo-os com as mais grosseiras mentiras, para os lan��arem depois, embrutecidos pelas drogas, contra as balas implac�veis das metralhadoras.

Recordava os cad�veres mutilados, ca�dos p�los terreiros das ro�as de Nambuangongo; e aquele pobrezinho beb�, degolado ao p� da sua branca alcofa; e aquele mo�o tombado com um lanho de catana na testa, � entrada da varanda da sua casa, por detr�s dum monte de terroristas abatidos enquanto lhe n�o faltaram as muni��es; e o dembo traidor que confundira os �ca�adores especiais� com o pro�metido aux�lio dos chefes de al�m-fronteira; e o velho colono, meio louco de dor, que desfechara o seu velho rev�lver na cabe�a dum terrorista em julgamento; e o peito aberto e sangrento do soldado de Amarante; e, nos �ltimos combates, a raivosa arremetida contra os fac�noras, por entre o capim verde e ondulante como o manto real da morte ...

� Sono? � perguntou, de repente, o administrador que voltava.

� N�o � contestou o alferes. � Cismava ...

� Nalguma bonita mo�a deixada em Lisboa? ...

� Antes fosse...� Mas trago o pensamento cheio do que vi por esses matos ...

� E que pensa de tudo isto?

� Que andam feras � solta ... � preciso abat�-las!

� Nem todos assim julgam.

� � porque n�o viram o que eu vi ...

� Deixemo-nos agora de coisas tristes! Vamos almo�ar!

O almo�o n�o decorreu com a alegria que seria de esperar em soldados regressados da �frente�. Na lembran�a de todos estavam ainda muito vivas as imagens do camarada morto e os gemidos dos feridos que j� deviam ter chegado � Tentativa ...

Por isso eram breves e concisas as respostas dadas � compreen�s�vel curiosidade dos homens do Caxito.

� Encontraram terroristas?

� Bastantes.

� Mataram muitos?

� Alguns.

� H� sobreviventes em Nambuangongo?

� S� vimos cad�veres.

� E a gente do Quitexe, do Ucua e do Quibaxe?

� Aguentam-se.

E a conversa n�o passava deste cruzar de perguntas e respos�tas, curtas e secas, sem calor e sem verve. Faltava ali � todos o sentiam � a alegria comunicativa de algu�m que jazia agora, sob a terra h�mida dum cemit�rio sertanejo, com o peito esburacado pela ferralha dum canhangulo disparado da sombra ...

O prato de subst�ncia era leit�o assado.

Quando o bicho apareceu, bem alourado e apetitoso, entre picles e raminhos de salsa, com a tradicional batata entalada na boca, o alferes mal ouviu o administrador que o convidava a servir-se. � que no seu c�rebro imediatamente surgira, n�tida e horr�vel, a cena do terreiro daquela ro�a, onde uma vara de porcos, incluindo uma leitoa enorme acompanhada dos seus bacorinhos, chafurdava nas v�sceras dos brancos assassinados ...

� Sirva-se, meu alferes! � repetiu o administrador.

� Muito obrigado!� N�o me apetece mais nada ...

O cabo limitou-se a fazer para o criado que trazia a travessa um gesto negativo. E todos os soldados recusaram o pit�u, alguns sem conseguirem esconder um trejeito de nojo.

� Mas ent�o?! � estranhou um sujeito baixote, j� entrado em anos, de grande bigode grisalho a ensombrar-lhe a boca firme e o queixo voluntarioso. � A tropa n�o gosta de leit�o assado?!

� Gostamos, sim, senhor! � declarou o cabo. � Mas, nesta altura, lembra-nos c� uma certa coisa ...

O homem de Caxito ia a investigar que coisa era essa que lhes lembrava o leit�o, quando o alferes o interrompeu:

� Se n�o estou a confundir caras, quando por aqui pass�mos a caminho de Nambuangongo, foi o senhor que me perguntou o que tinha eu ouvido dizer em Lisboa sobre os acontecimentos de Angola; lembra-se?

� Lembro-me muito bem! � confirmou o homem. � Pergun�tei-lhe se era verdade que, em Lisboa, havia quem responsabilizasse os cafeicultores pelo terrorismo. Por sinal que o meu alferes n�o gostou da pergunta. Nem me respondeu ...

� Eu tamb�m tinha as minhas ilus�es, meu amigo ...

� E agora ?

� Agora conhe�o a realidade ...

E, voltando-se para o administrador, passou a falar doutra coisa ...

(1) Reproduzo aqui, pelo seu alto poder expressivo, a exclama��o aut�n�tica dum dos nossos soldados, durante o combate de Mucondo, na arrancada para Nambuangongo, segundo o testemunho presencial de Rui de Correia de Freitas.

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