Vila Pery: de vila a cidade...

Ao chegar � Beira, depois de mais de vinte dias de viagem no paquete "Infante D.Henrique", e ao ver a multid�o de trabalhadores de cais, na estiva, movimentando larga soma de mercadorias de e para barcos, provenientes de v�rias partes do mundo, de e para os comboios de mercadorias, que por milhares de quil�metros e durante v�rios dias ou semanas atravessavam savanas, montes e vales, desde o litoral at� bem ao cora��o do continente, servindo as economias dos diversos pa�ses do interior, senti a forte emo��o de estar realmente num novo mundo cheio de for�a e vitalidade. E nos precisos termos que eu o imaginava.

E foi com agrad�vel surpresa que por comboio percorri os duzentos quil�metros que separam a Beira, a segunda maior cidade de Mo�ambique, da risonha Vila Pery, e me desloquei da zona de litoral, ainda bastante quente e h�mida, para aquela �poca, meados de Mar�o, para a regi�o de planalto, arejada, fresca e sadia.

Vila Pery, ent�o pequena vila, sede do concelho de Chimoio e tamb�m sede da comarca que se chamava de Manica, dista cerca de cem quil�metros da fronteira com a Rod�sia, ligada por caminho-de-ferro e estrada asfaltada. Paralelamente corre, ou corria na �poca, tamb�m um pipe-line ligando um terminal mar�timo da Beira � Rod�sia e que abastecia este pa�s de crude.

A partir destas infra estruturas, dezenas ou at� mais de uma centena de quil�metros para cada lado, naturalmente pela vantagem que � a facilidade de comunica��o e transporte, instalaram-se v�rias povoa��es comerciais, m�ltiplas explora��es agr�colas e de pecu�ria, que tornaram esta faixa desde a Beira at� � fronteira da Rod�sia, na Machipanda, uma das mais desenvolvidas de Mo�ambique. � o agora designado por corredor da Beira, zona vital para este pa�s.

Por Mar�o j� a maior parte das ac�cias, jacarand�s e diversas outras �rvores ornamentais plantadas nas amplas pra�as e ao longo dos passeios das largas ruas e avenidas, est�o floridas. A pequena vila fica naturalmente enfeitada com um colorido vivo quase em arco-�ris. A minha impress�o ao chegar foi quase de deslumbramento e certamente de grande satisfa��o. Era um festival de cores.

Nos contactos sociais que se seguiram, � margem do servi�o ou mesmo por via dele, fui conhecendo o meio, o pensar e a mentalidade das pessoas. E gostei. Nos servi�os urbanos havia ainda muita falta a colmatar. Lembro-me que a �gua da torneira �s vezes sa�a um pouco castanha, da cor do barro, principalmente ap�s chuvadas intensas. Era tratada, mas nem sempre atingia o grau de qualidade conveniente. Mas por pouco tempo, pois decorridos alguns meses, o sistema foi radicalmente modificado e o abastecimento ficou nas melhores condi��es.

O tempo decorria rapidamente j� que vivia totalmente absorvido pelo trabalho. Assisto nos breves anos da minha presen�a a um aumento de desenvolvimento extraordin�rio. A popula��o, que ansiava ver a sua vila, entretanto aumentada de novos bairros e novas melhorias, elevada a cidade, escolhe uma comiss�o que se desloca a Lisboa solicitando uma nova divis�o administrativa, pelo menos da zona centro, e a cria��o de um novo Distrito com sede em Vila Pery, e eleva��o, desta simp�tica e engrandecida vila, � categoria de cidade, mais adequada � dignidade de capital de distrito.

Algumas pessoas mais pr�ximas muitas vezes me questionaram sobre qual o meu projecto quando deixasse as fun��es de juiz. E sugeriam que a cidade precisava de mais um advogado, que o meio era j� bastante desenvolvido e interessante, e que apreciariam ter um advogado de sua confian�a e competente, que era uma boa cidade para se viver, que se ficasse n�o me iria arrepender, etc.

E um dia foi nomeado um juiz de carreira para a comarca e assumiu fun��es. Aproveitei para pedir exonera��o da fun��o p�blica, e montei escrit�rio de advogado. E n�o me arrependi. Livre da fun��o p�blica, a par do trabalho de advogado, fui logo solicitado para dar aulas na Escola de Regentes Agr�colas, instalada havia j� alguns anos, e na Escola Comercial entretanto criada. Naturalmente com sentido provis�rio e apenas enquanto a direc��o das escolas n�o conseguissem a colabora��o efectiva de um professor profissional.

Foi uma das experi�ncias mais interessantes que tive. � dif�cil encontrar uma tal mistura de ra�as no conjunto dos alunos: - havia brancos, pretos, chineses, indianos, e os mesti�os de todas estas ra�as. E, coisa interessante, n�o se vislumbrava qualquer manifesta��o racista. Nas aulas n�o haveriam certamente oportunidade de manifesta��es racistas mesmo nos tempos livres jogavam e brincavam entre eles sem qualquer preconceito.

Nem o aproveitamento escolar tinha qualquer rela��o com a ra�a, ou ra�as, no caso dos mesti�os. Uns e outros poderiam ser bons ou ser maus alunos. Tudo era encarado da forma mais natural. Na minha mem�ria j� n�o aparecem todas as caras, mas aparecem algumas delas por alguma raz�o espec�fica, geralmente por ser melhor aluno, mais cumpridor, mais interessado em aprender, ou mais inteligente, fosse branco ou preto ou outra ra�a, ou misto.

E recordo alguns desses alunos, bons alunos, inteligentes e aplicados, a maior parte deles pretos, os mais trabalhadores e os mais interessados, a quem dava gosto ensinar, que bebiam atentos as nossas palavras, e alguns dos quais mais tarde encontrei j� empregados a trabalhar na empresa Text�frica, onde eu tamb�m trabalhei, e com quem sempre tive um muito bom relacionamento.

Sentia-me realmente t�o bem, t�o realizado, por t�o ocupado a fazer coisas que gostava de fazer, que, incitado pelos novos amigos da cidade entretanto surgidos, a juntar-me a eles, j� n�o pensava em sair dali. E por tal forma que, quando um propriet�rio resolveu dividir uma parte da sua propriedade em pequena quintas, ou mini-quintas, ou mini-farms, designa��o � inglesa, para vender, eu fui convidado a comprar, e comprei. Na planta. Cerca de cinco hectares. Tornei-me mini-propriet�rio.

E um dia vou ver o local, que n�o conhecia. Depara-se-me dentro da minha �rea rec�m-adquirida um conjunto de palhotas, em redor de uma nascente, habitadas por numerosas pessoas, uma fam�lia. Dirijo-me ao �nico homem presente, prov�vel chefe de fam�lia e prov�vel dono das palhotas, o Tausene, assim se chamava. Perguntei quais eram os seus planos. Disse que j� estava resolvido a Deslocar-se dali para outro local, pois j� cultivava aquele ch�o h� tanto tempo que a terra j� n�o produzia nada. Que ia desmontar as 3 palhotas das mulheres - tinha v�rias mulheres - e dos filhos, as menores, para as montar no novo local. Mas a grande, a maior, de seu uso, ele n�o ia desmontar. Ficava. Surgiu-me a ideia ins�lita de comprar aquela palhota. E propus-lhe ent�o comprar a palhota. Pediu Quinhentos escudos. Paguei logo. A palhota era minha. Assim me tomei dono de uma palhota.

Alguns dias mais tarde, vou visitar o terreno. A minha palhota estava ocupada. Era um anci�o, passando da meia-idade, carapinha branca, rugas profundas no rosto. Olhou-me envergonhado, esfregando e torcendo as m�os de afli��o. Atr�s dele a mulher resmungava, os tr�s filhos pequenos estavam mudos de espanto olhando o meu filho na altura de cerca de 3 anos, que me acompanhava e fazia mil e umas momices, na brincadeira. Perguntei-lhe se n�o sabia que eu tinha comprado aquela palhota. Sabia. O Tausene era seu irm�o. Ent�o agora estava a viver na minha casa, na minha palhota (eu brincava com o caso) sem autoriza��o? Disse n�o ter para onde ir. Mas era falso. Para mim era uma forma de ele tentar conseguir tirar algum proveito da situa��o. Uma pequena habilidade. Sabendo que o irm�o j� ganhara quinhentos escudos talvez ele tamb�m ganhasse alguma coisa.

Para acabar com a quest�o perguntei se queria ficar de guarda ao terreno, e a viver ali na minha palhota. Aceitou, com um largo sorriso desdentado. Foi ali e daquele modo que eu ganhei um grande amigo.

Ajustamos o pre�o mensal do servi�o: pediu trezentos escudos. Aquilo era algo de irreal. Aceitei. Mas acabei por dar-lhe toda a alimenta��o necess�ria, a do seu agrado e de uso habitual, farinha de milho e peixe seco, e �leo alimentar, fardas e outras roupas, e tabaco. Al�m da fruta e hortali�as que se produziam no terreno, � vontade, � descri��o.

Xavier de seu nome. � claro que o seu nome original seria um qualquer que n�s n�o saber�amos sequer pronunciar. Pois era coisa corrente, quando vindo do interior se aproximavam de n�s brancos, ou m� zungos, escolhiam um nome europeu, a seu gosto, e passavam a us�-lo, isto �, a declar�-lo a n�s, m�zungos. Mas entre a fam�lia e amigos, o seu verdadeiro nome original, de fam�lia, e do local de origem, � que valia.

Coisa interessante � que a sua organiza��o tribal existia subjacente e oculta, � organiza��o oficial de administradores e chefes de povoa��o ou regedores, nomeados pelas autoridades oficiais. Assim, continuavam a existir entre eles os verdadeiros r�gulos ou sobas, conforme as regi�es, e os chefes de povoa��o subordinados ao r�gulo, e que eram chamados fumo, e a que todos obedeciam, espontaneamente, por serem as autoridades naturais. Pois bem, o Xavier era um fumo. O que soube s� muito mais tarde.

Com ele aprendi muitas coisas interessantes.

O Xavier era casado, segundo os usos, com a mulher que ali se encontrava. Ali�s de muito mau feitio. E tinha os tr�s filhos, a mais velhinha� de�� cerca� de�� dez�� anos,�� a� Peruminha,�� s��� ali�� estava ocasionalmente. Mas o Vit� com cerca de seis anos e a L�cia dei quatro, eram permanentes e viviam com os pais e dormiam todos na palhota que teria uma �rea de cerca de seis metros quadrados e uma �nica portinhola por onde s� de joelhos, de gatas, se podia entrar.

Muitas vezes, depois de terminar o servi�o no escrit�rio, pela cinco e meia da tarde, e se ficava dispon�vel, passava por casa para apanhar os meus filhos, com o cestinho do seu lanche e a cadelinha

que n�o os largava, e deslocava-me com eles � mini-farm, a cerca de quatro quil�metros do centro da cidade.

E algum tempo mais tarde, depois de ter constru�do um abrigo adequado no centro do terreno, em que j� havia cria��o de coelhos, de patos e de pintos, ainda pequeninos, era v�-los, derretidos de tanta felicidade, pegando nos bichinhos que o Xavier lhes passava para as suas pequeninas m�os, segurando-os com a maior ternura e grande satisfa��o. Satisfa��o extensiva a todos, ao Xavier, ou outros empregados presentes, mas principalmente a mim, e todos assist�amos enlevados e emocionados com tal cena ternurenta.

Outras vezes o Fausto dava o seu lanche ao Vit� em troca de Uma fisga, uma armadilha ou outra coisa igualmente interessante com que ficava fascinado. E divertiam-se em correrias, inventavam jogos, e outras brincadeiras, no espa�o do terreno. O meu �nico receio era o deparar-se-lhes alguma cobra venenosa, n�o prov�vel no terreno cultivado, mas nunca se sabia ... e felizmente nunca aconteceu. Mas valia a pena correr o risco, pois ficavam felizes com tais brincadeiras. E perguntava-me se quando crescessem continuariam amigos dos seus amigos nativos... Eu pelo menos tinha a inten��o de fazer com que eles, pelo menos, os estimassem e respeitassem.

E entretanto eu aproveitava para conversar com o Xavier sobre os trabalhos da machamba e o que ir�amos fazer e como fazer, e principalmente sobre o seu pensar, os seus costumes, a sua fam�lia, a sua vida antes de ter chegado ali, e sobre todas as coisas que eu achavam interessantes e que ambicionava conhecer, oferecendo-lhe uns ma�os de tabaco para ele e os demais, que constantemente apareciam l� na machamba, sem serem contratados, s� pela comida que ali sabiam poder encontrar, toler�ncia do Xavier e a que eu fazia vista grossa, pois sabia que nesses casos � porque tinham fome e n�o tinham outros recursos.

Pelo menos uma vez por semana a visita era de abastecimento, levando a farinha, o �leo e o peixe seco, base da sua dieta alimentar e das suas prefer�ncias. Por vezes carne ou outros artigos, e tamb�m sab�o e o mais que era habitual usarem. O resto da alimenta��o j� era em boa parte colheita da machamba.

Muitas vezes depois das conversas sobre a nossa mini explora��o agr�ria, sent�vamo-nos cada um em seu tijolo e fum�vamos (eu nessa altura ainda era fumador) um cigarro e convers�vamos sobre tudo e principalmente sobre os usos e costumes africanos, do pensar, das ambi��es, do relacionamento entre os elementos da fam�lia, dos amigos. A principio foi dif�cil quebrar o gelo e ganhar a confian�a. Mas depois de sentir como era tratado, o Xavier abriu o livro e respondia �s minhas numerosas perguntas e passou a confiar totalmente. E creio que a sua reputa��o e considera��o face ao seu povo aumentou muito, ante o tratamento que tinha do seu patr�o, o dr. Juiz, uma autoridade, pois sei que as pessoas que moravam por aquela zona sabiam quem eu era.

Soube ent�o que o Xavier tinha a mulher grande noutro local, da qual tinha filhos e filhas, j� adultos e j� casados e por sua vez com filhos. Mulher grande era a primeira mulher, a principal. Mas j� estava muito velha. E al�m destas duas estava pensando ainda em casar com uma terceira, que morava nas redondezas do terreno, mais nova necessariamente. Mas havia dificuldades. A fam�lia, para conceder a filha, exigia mais do que ele podia pagar. E mais perto da cidade o pre�o aumentava. E como j� estava bastante idoso o interesse pelo casamento n�o era tanto que o levasse a tentar superar tais dificuldades. E por ali se ficou.

O caso Xavier � apenas um exemplo da poligamia natural, instalada desde tempos imemoriais nos usos e costumes, na cultura, desta etnia, e afinal da maior parte delas, em quase toda a �frica. O que ser� desconhecido de muitos portugueses, que nem imaginariam que em territ�rio portugu�s se praticasse tal sistema no casamento. Mas era isso mesmo. Tal situa��o e muitas outras formas de vida social que venho descrevendo eram algo bem diferente da nossa cultura tradicional europeia.

O Xavier assentou arraiais ali no terreno e n�o mais quis dali sair. � que, provavelmente, nunca na sua vida viveu t�o bem, t�o tranquilo e com tanta fartura, pois como j� disse, fornecia-lhe alimenta��o e vestimenta, para toda a fam�lia, e p�los padr�es deles que mais precisava?

Da machamba, que dispunha agora de �gua abundante, e de boa qualidade, extra�da de um furo artesiano de v�rias dezenas de metros de profundidade, com bomba el�ctrica, que ali mandei instalar, colh�amos as hortali�as frescas, morangos, abacaxis, e das planta��es colh�amos bananas, papaias e em breve colher�amos lim�es, tangerinas e laranjas, em planta��o nova que estava j� em floresc�ncia.

Al�m disso t�nhamos galinhas poedeiras, frangos, patos e coelhos. Era a abund�ncia verdadeira e pr�pria, desejada por quem nasceu e se criou num meio rural transmontano, onde n�o abundava o dinheiro, mas a fam�lia possu�a a dispensa e as tulhas a abarrotar durante a roda do ano.

Agora, como elemento da sociedade industrial, sempre pensando segundo a l�gica da rentabilidade das coisas, estava tentando industriar o Xavier para aumentar a produ��o de modo que os excedentes do nosso consumo pudessem ser vendidos no mercado local, deste modo realizando alguns ganhos para ambos. � claro que era uma brincadeira para mim, pois n�o esperava dali tirar ganhos, mas seria algo de importante para o Xavier e os seus amigos e conhecidos, como exemplo ou modelo de actividade a seguir. Talvez com o efeito negativo tantas vezes apontado ao sistema capitalista de tomar os homens gananciosos, gan�ncia que por sua vez leva a actos il�citos extremos. Mas por outro lado, como se sabe, tal ambi��o, desde que moderada e balizada por regras e princ�pios correctos, � a mola real que impele os homens para a tomada de iniciativas que levam ao desenvolvimento e ao progresso.

Esse objectivo, por�m, j� n�o conseguimos alcan�ar.

Acho que o Xavier tamb�m aprendeu alguma coisa comigo. Pelo menos aprendeu a ter confian�a no branco. E a compreender que tinha o meu apoio e podia contar comigo. Principalmente depois de, quando um dia cheguei � mini-farm e o encontrei prostrado, ardendo em febre, atacado por mal�ria, dei meia volta e fui a casa, - todos t�nhamos fornecimento de resoquina (quinino) em casa - e voltei para lhe dar dois comprimidos, com um ch� que entretanto mandei preparar a outros empregados que ali se encontravam. E no dia seguinte j� ria da aventura. Estava completamente sarado e recuperado. Os corpos limpos de qu�micas, reagiam rapidamente aos f�rmacos.

O Xavier era um homem de sentimentos. E inteligente. E sendo analfabeto e talvez por isso n�o ter mudado em muitas coisas, em outras teve uma mudan�a profunda, resultante deste nosso conv�vio. Pois ele achou que eu era um tanto diferente dos demais brancos que ele antes conheceu. Ou se calhar n�o conheceu t�o bem esses brancos como me conheceu a mim. E das suas atitudes percebi que tinha por mim um grande respeito e afei��o. Por mim e pelos meus filhos. E estava de tal modo diferente que, sendo normal o pessoal em festas ou fins-de-semana de cabanga exceder-se na bebida, e muitas vezes tornarem-se viciados no �lcool, s� uma vez � que vi o Xavier bastante embriagado. Mas n�o tanto que n�o se apercebesse da minha presen�a, e ficasse de tal modo envergonhado que nem queria que eu o visse naquele estado. E nunca mais bebeu. E quanto a afei��o, para al�m do carinho com que tratava os meus filhos, bastou o facto de o ver chorar como uma crian�a por me ver preso nos calabou�os da pol�cia, aonde me foi visitar quando teve conhecimento da minha situa��o. E de que falarei mais tarde.

A prop�sito da bebida, era corrente e manifesto existir uma forte tend�ncia dos nativos para a bebida, embora alguns deles n�o bebessem, o que era praticamente excep��o. E por isso, muitas vezes, receando que a posse de dinheiro os levasse a beberem, muitos de n�s europeus, em vez de pagar em dinheiro, prefer�amos pagar com bens de utilidade, para o pr�prio ou para a fam�lia. Eu pr�prio tive empregados que depois de pagar o sal�rio da semana ou do m�s, no dia seguinte apareciam embriagados, ou nem apareciam ao servi�o. Essa preocupa��o existia muitas vezes. Eu n�o gostava de bebedores. E quase sempre consegui evitar esse g�nero de empregados. E creio que todos os empregadores pensavam o mesmo.

Esse problema do alcoolismo era de tal modo grave, e n�o era recente mas antigo, que a comunidade internacional produziu v�rias Conven��es Internacionais, que Portugal subscreveu, de proibi��o de venda de bebidas alco�licas em certas condi��es. O que nem sempre era levado ao rigor. E tamb�m havia grande dificuldade de fiscalizar o seu cumprimento. Mas n�s est�vamos alertados, e conhec�amos muito bem o assunto da pr�tica corrente. E procur�vamos proceder em conformidade, com as devidas cautelas.

V�rias outras pessoas residentes na cidade, experimentaram tamb�m esta agrad�vel sensa��o de ter a sua pequena machamba (quintinha), colher os seus frutos e at� de construir a sua casa, a seu gosto, na sua propriedade, ali nos arredores da cidade, e habit�-la. E tamb�m eu pensava faz�-lo um dia. Que j� n�o chegou.

 

* * *

Vila Pery cresceu e valorizou-se principalmente em virtude de terem sido ali instaladas duas empresas de dimens�o consider�vel. A Sociedade Hidroel�ctrica do Revu�, conhecida por SHER, construiu perto de Vila Pery duas barragens para produ��o de energia el�ctrica, no rio Revu�, afluente do Pungu� que desaguava no mar perto da Beira, e abastecia de energia toda aquela zona conhecida por corredor da Beira e a pr�pria cidade da Beira. E a Soalpo, ou mais tarde com outro nome a Text�frica, uma grande f�brica t�xtil de algod�o, que produzia diariamente cerca de oitenta mil metros de pano. Era auto-abastecida, em grande parte, da mat�ria-prima, o algod�o, que produzia em terrenos pr�prios e com meios pr�prios, em largas e diversas �reas e locais. Embora comprasse ainda uma boa parte a terceiros, sendo os agricultores ind�genas a fornecer em quantidade razo�vel o produto, contribuindo deste modo para incentivar a actividade econ�mica na regi�o, e com benef�cio directo para as popula��es nativas, al�m do mais, claro.

A esta empresa estavam associadas uma empresa de produ��o de malhas, uma empresa de transporte a�reo com tr�s pequenos avi�es bimotores, e uma outra empresa destinada ao tratamento e desinfesta��o das planta��es de algod�o, por meios a�reos, com dezasseis monos motores de pulveriza��o. Empregava mais de quatro mil pessoas, entre qualificados e n�o qualificados, tinha dois bairros de moradias para algum do seu pessoal, e o parque industrial ocupava uma �rea imensa, quatro a cinco campos de futebol, com m�quinas para as mais diversas opera��es produtivas de transforma��o, sendo mais de mil e quinhentos teares, entrando o algod�o, em rama, em enormes fardos, por um lado e saindo o pano, o tecido, produto final, por outro, num processamento continuo e completo, de fia��o, tecelagem, branqueamento, estamparia e acabamentos. E ainda o aproveitamento de subprodutos, designadamente a produ��o de cobertores a partir dos desperd�cios.

Ora estas duas grandes empresas, com outras menores, emprestavam uma enorme vitalidade a Vila Pery. E n�o s� do ponto de vista econ�mico. Tamb�m nos aspecto social, contribuindo com os seus quadros, portugueses e tamb�m muitos estrangeiros, de forma��o m�dia ou mesmo superior, para construir um ambiente de elevado n�vel cultural, numa conviv�ncia interessante e gerando-se um ambiente local muito not�vel. Donde resultou o ter sido criada uma sec��o do Lions Club, na verdade um tanto elitista, ou pretendendo s�-lo, na atitude de algumas pessoas, mas acabando por levar a cabo realiza��es de benemer�ncia bem relevantes e efectivas, designadamente oferecendo algum equipamento ao hospital ou a escolas, ou outros fins sociais, tudo resultante de d�divas dos associados ou do produto de festas promovidas pelo Clube. Clube de que vim a fazer parte depois de ter sido convidado, e proposto, pelo menos umas tr�s vezes por amigos j� associados, mas para o qual n�o sentia grande apet�ncia.

Al�m de tudo isso podemos acrescentar que em redor da cidade, num raio de centena e meia de quil�metros se tinham instalado mais de duzentos agricultores europeus, praticando em geral uma agricultura ou pecu�ria de elevado n�vel t�cnico, complementada por explora��es menores de bastantes nativos j� evolu�dos e em admir�vel progresso. Merecendo destaque especial o amplo colonato do Sussundenga promovido pelo Estado, a poucas dezenas de quil�metros de Vila Pery, com dezenas de pequemos e m�dios agricultores, muitos deles esses tais africanos evolu�dos.

E toda esta actividade agr�cola muito significativa no contexto do territ�rio, era apoiada tecnicamente por um servi�o do Estado, constitu�do por um corpo de engenheiros agr�nomos, veterin�rios e outros t�cnicos e funcion�rios administrativos dispondo de instala��es adequadas e diverso equipamento, al�m do equipamento pesado para desmata��o e destronca, destinado � adapta��o das terras bravias � pr�tica f�cil da agricultura, servi�o que se achava sediado tamb�m em Vila Pery.

E se acrescentarmos as muitas outras actividades produtivas ou comerciais, complementares, que a partir da� foram criadas, pode-se imaginar j� o potencial econ�mico que da� decorria.

Ao realizar-se anualmente a chamada Exposi��o-Feira do Chimoio, com interven��o importante do Gr�mio da Lavoura, que centralizava a ac��o de todos os agricultores, esta feira dava uma amostra bem significativa do progresso daquela regi�o, sendo sem d�vida o mais interessante, al�m da exposi��o de muitos produtos agr�colas de qualidade, a exposi��o de gado com as mais variadas ra�as de diversas origens e em produ��o naquela regi�o. N�o sou grande conhecedor da mat�ria, mas gostei de ver os exemplares de hereford, de afrikander, de zeb�s indianos, de nelore, de aberdeen angus, de swiss brown, de charaleses, e outros que n�o sei nomear.

Era um trabalho j� muito s�rio, que revelava uma gente atirada para a frente, de vanguarda, de iniciativa, que n�o olhava a meios para contribuir para o progresso daquelas terras. Na verdade a primeira vez que assisti a esta feira tive uma grande mas agrad�vel surpresa, pois n�o esperava encontrar ali, bem no cora��o da selva, uma tal obra de tal envergadura. E fiquei subjugado. Esta terra estava a conquistar-me. E conquistou-me.

Esta terra tinha ainda outros equipamentos, sociais, desportivos e culturais. Havia dois clubes desportivos, o Sports Clube e o Text�frica, com v�rias modalidades desportivas, e em especial cada um com uma equipa de futebol das melhores, sendo uma delas habitual na primeira divis�o e at� campe� de Mo�ambique por diversas vezes. Havia um pequeno Aeroclube que dispunha de 2 ou 3 teco-tecos, como eram designados os mono motores, pequenos avi�es de instru��o. Tamb�m era not�vel o Centro H�pico, uma associa��o dos amantes do hipismo, apoiado p�los numerosos agricultores, incluindo estrangeiros instalados na regi�o, com praticantes de bastante n�vel, e onde militares portugueses de passagem, em comiss�o, davam grande colabora��o, e que organizava v�rias provas da modalidade em especial durante o per�odo da feira do Chimoio. Do qual eu era s�cio sem saber. S� disso tive conhecimento quando um certo elemento foi cobrar a minha ignorada divida de quotas. Paguei e com muito gosto. E fiz logo planos para comprar cavalo para os meus filhos se exercitarem quando crescessem.

Era este o ambiente geral naquela cidade!

A cidade dispunha de uma boa casa de espect�culos que dava habitualmente cinema, mas onde ali actuava algumas vezes um grupo local de teatro amador. E onde algumas vezes recebeu companhias de Lisboa em digress�o por Mo�ambique. Recordo a ultima, pouco antes do 25 de Abril, com o TEC, de Cascais, dirigido ent�o por Carlos Avilez, com a pe�a � Fuenteovejuna �.

N�o posso deixar de referir de passagem, que existia uma livraria bastante grande e bem recheada, muito actualizada, que recebia as mais recentes obras liter�rias publicadas em Portugal, e muitas revistas, directamente de editoras de Lisboa ou de editoras estrangeiras, sendo eu cliente ass�duo, com reserva expressa e por iniciativa do amigo livreiro, que era tamb�m um grande leitor, com quem frequentemente trocava ideias em longas conversas, de revistas como a Vida Mundial, Seara Nova, e outras, e quando saiu o Expresso, fui cliente desde o segundo n�mero, e sem esquecer todas as novidades liter�rias. Que se ele achava interessantes guardava um exemplar para mim. O que me permitia, nas horas de descanso, depois de saturado de processos e da inevit�vel burocracia, viajar intelectualmente por outros mundos, no prazer inef�vel da leitura.

Se na cultura havia j� alguma coisa a assinalar, tamb�m no lazer disp�nhamos, nas proximidades, em G�ndola, a cerca de 25 km e boa estrada, uma excelente piscina, pertencente a uma organiza��o do pessoal dos Caminhos-de-ferro da Beira, num belo local, com acesso geral do p�blico, e ainda, um pouco mais distante, do lado oposto, na Vila de Manica, na encosta da serra do Vumba, perto da fronteira com a Rod�sia, com uma excelente vista panor�mica, outra piscina com esplanada e restaurante, em ambos os casos onde a nossa crian�ada se divertia, e n�s tamb�m. E sem esquecer os locais apraz�veis como o da Penhalonga, uma antiga quinta muito bela e ordenada, com variadas esp�cies, que pertencera a um bot�nico ingl�s, e outros espa�os ainda mais bonitos, junto � fronteira, mas j� no territ�rio da vizinha Rod�sia, hoje, como se sabe chamada de Zimbabu�, locais como os montes Inianga e Chipamanini.

Tamb�m no que toca a solidariedade social, vim a conhecer a exist�ncia de uma associa��o de benefic�ncia, que todos os s�bados distribu�a por uma popula��o, em geral negra e da mais necessitada, como velhos, cegos, ou doentes, um pacote de bens alimentares e rem�dios. Que o sentimento de caridade crist� ou mesmo simplesmente de solidariedade, dos �pioneiros" chimoienses se mantinha sempre vivo, e manifestado pelas m�os das piedosas senhoras residentes.

Na sa�de, apesar de ter um hospital novo, amplo, com muitas camas, e bastante bem apetrechado, com m�ltiplas val�ncias, acolhendo j� grande n�mero de doentes, ainda n�o estava � altura das nossas exig�ncias de europeus. Muitas vezes, e sem ofensa e desprimor para os nossos m�dicos, prefer�amos deslocar-nos � vizinha Rod�sia, � capital Salisbury, ou mesmo apenas � cidade fronteiri�a de Unt�li, onde os portugueses davam prefer�ncia ao Dr. Kay, que de tanta clientela portuguesa j� falava portugu�s, e em quem se tinha total confian�a, e era considerado o m�dico dos portugueses residentes n�o s� naquela zona como at� na cidade da Beira, aonde chegava a sua fama.

Para uma cidade, pequena, no cora��o da �frica, n�o seria justo exigir mais. E tudo isso eu admirava. Mas o que mais me seduziu foi o esp�rito, que se surpreendia naquelas pessoas europeias que ali viviam muitas delas h� v�rias d�cadas ou j� ali nasceram, de desejo de progresso, constante, e que trabalhavam com ardor n�o apenas na prossecu��o dos seus leg�timos interesses pessoais, mas de uma forma exaltante, com extraordin�rio interesse pelo progresso geral e pelo bem comum. Esp�rito que materializaram simbolicamente num belo monumento que eles designaram de "aos pioneiros" e implantado � entrada da cidade. Como testemunho do seu empenho para o progresso referido. E aos quais eu presto a minha singela homenagem.

Alguns desses velhos pioneiros ainda conheci. Mas a maior parte j� n�o era deste mundo quando se deu a tr�gica derrocada de tudo o que com tanto carinho, esfor�o e entusiasmo constru�ram.

Afinal de contas... para nada!

Para uns b�rbaros e tacanhos terroristas se divertirem a destruir!

E comparando aquele esp�rito aberto e progressista, no melhor sentido, com o esp�rito mesquinho, preconceituoso, tacanho, med�ocre e invejoso que aqui em Portugal existia, a op��o para mim era s� uma e estava tomada. Na verdade aquela gente conquistou-me. Aquela terra era a terra de todos, onde todos trabalhavam e conviviam conforme sua condi��o e sem exclus�o de ningu�m. Era a nossa terra. E porque n�o haveria de ser? E quem teria mais ou menos direitos a ela do que n�s? Todos n�s. E seria o lugar, como mais tarde v�rias vezes afirmei, onde ficariam os meus ossos. Era com aquela gente que eu queria trabalhar. Era ali que me sentia realizado, era ali que sentia estar a fazer algo de �til, era ali que se mediam resultados positivos do nosso trabalho. Era ali que a minha fam�lia se dava bem e era feliz. Era ali que estava a ganhar muitos e bons amigos. Que mais eu podia desejar?

VOLTAR