V
������������������������� O MONOMOTAPA -
SEGUNDO PER�ODO CHONA 1600-1700
Dividimos o
segundo per�odo da Hist�ria de Mo�ambique em dois grupos, o primeiro per�odo
que vai de 1325 at� 1600 e o segundo per�odo Chona ou Mambo que vai de 1600 a
1700.
Esta divis�o deve-se ao facto de que por
volta de 1600 duas civiliza��es conti�nuaram a existir no territ�rio que tinha
sido o do Imp�rio do Monomotapa. Vimos j� a divis�o em duas dinastias entre
Monomotapa e Changamire e como v�rios reinos se tinham separado do Monomotapa,
tais como os Quiteve, os B�ru�, os Butua e Manica, que se tinham libertado da
tutela do Monomotapa.
Essas duas
civiliza��es desenvolveram-se seguindo vias diferentes. O Monomo�tapa
no Norte entre os rios Umfuli e Zambeze, e Changamire ao sul do rio Umfuli at�
Limpopo.
O Monomotapa teve
que lutar constantemente contra os portugueses que tinham penetrado pelo
Zambeze at� Tete e dali at� Massapa. A preocupa��o constante de luta contra os
portugueses impediu que a sua civiliza��o se desenvolvesse a tal ponto que veio
a ser absorvida p�los Changamire.
Os Changamire no
interior n�o sofreram tanto dos ataques dos portugueses e a sua civiliza��o
progrediu tranquilamente e da qual temos hoje testemunhos nas ru�nas de
Dlo-Dlo, Khami e Mapungubwe.
No reino de Manica
desenvolveu-se tamb�m uma grande civiliza��o agr�cola e mineira pelo que nos
podem relatar as ru�nas de Inyanga.
Vamos por isso
estudar esta segunda etapa do segundo per�odo Chona, tamb�m chamado Mambo,
porque este era o t�tulo que se dava ao Monomotapa. Mambo quer dizer rei em
Chona. Veremos neste per�odo as rela��es do Monomotapa com os portugueses e o
que se passou na dinastia de Changamire.
1. O reino de Changamire
Em 1597 o Monomotapa era Gatsi Rusere, a quem
davam o t�tulo de Mambo. Gatsi Rusere mantinha rela��es comerciais com os
portugueses que tinham feitorias em Tete e Sena. Frequentavam tamb�m tr�s
feiras no territ�rio mesmo do Monomotapa. As tr�s feiras eram Massapa, Bokuto e
Luanze. A mais importante das tr�s era Massapa onde se faziam as trocas de
produtos minerais pelas mercadorias trazidas p�los portugueses.
Os
capit�es portugueses das feitorias de Tete deviam pagar ao Monomotapa um pesado
tributo em g�neros e em dinheiro. Os portugueses tinham permiss�o de
periodicamente ir negociar nas feiras de Monomotapa mas para atravessar o
territ�rio do Monomotapa tinham que pedir permiss�o especial ao rei e tinham
que ser escoltados por homens de Monomotapa.
2. Os reinos Barue, Quiteve, Manhi�a e
Sedanda
a) Os portugueses
tinham no reino B�ru� a feitoria de Sena. O capit�o desta feitoria era obrigado
a pagar tamb�m tributos ao rei B�ru�, mas n�o tinha direito de se afastar para
al�m de Sena.
A feitoria de Sena
era uma base de abastecimento para a grande feitoria de Tete donde os
portugueses tentavam conquistar o Monomotapa. As rela��es entre os B�ru� e os
portugueses n�o eram muito amicais, donde surgiram conflitos constantes.
b) A sul do reino
B�ru� ficava o reino Quiteve onde os portugueses tinham uma importante
feitoria, Sofala. Esta era uma base de abastecimento para os navios que iam
para a �ndia e tamb�m um ponto de partida para o com�rcio com o interior em
Manica. Os portugueses tamb�m pagavam tributos ao reino Quiteve para poderem
atravessar o seu territ�rio e ir at� Manica.
c) O reino
de Manica ficava para o interior de Sofala. Era muito rico em minerais que
frequentemente se comerciavam com os portugueses que vinham de Sofala. Os
mineiros de Manica tinham uma t�cnica de extrac��o dos metais t�o desen�volvida,
a escava��o de t�neis subterr�neos, que muito espantou os portugueses que nunca
tinham visto uma coisa igual.
d)
A sul de Manica ficava o reino de Sedanda que se estendia at� � foz do Limpopo.
Neste reino os portugueses n�o tinham nenhuma feitoria, mas l� iam frequente-�
mente negociar o marfim, as peles, os dentes de hipop�tamo e as p�rolas das
ilhas Bazaruto.��������������������������� :
e) Em todos estes
reinos, naturalmente, os portugueses n�o pagavam os tributos. Al�m do com�rcio
iam tamb�m buscar escravos que levavam para a �ndia onde os vendiam a altos
pre�os.
Os escravos eram
vendidos aos portugueses pelos pr�prios reis que os apanhavam entre
prisioneiros que faziam nas guerras contra outros reinos ou entre v�rias tribos.
f) As
estruturas pol�ticas em todos estes reinos eram de natureza tribal. N�o havia
classes sociais distintas mas era muito frequente que os chefes de tribo e os
chefes de cl�s de v�rias tribos que constitu�am o reino tivessem uma maior
parte na dis�tribui��o das riquezas e um poder pol�tico muito grande.
No reino de
Monomotapa essa diferen�a era mais acentuada do que nos restantes reinos devido
� autoridade que os reis de Monomotapa tinham e tamb�m devido ao facto de ser
neste reino que os portugueses tinham maiores contactos e onde, portanto,
podiam mais facilmente semear a sua influ�ncia divis�ria.
g) A vida n�o era
pac�fica entre estes reinos. As guerras entre eles eram muito frequentes.
Os portugueses tentaram
sempre aproveitar-se dessas divis�es para lan�arem uns contra os outros e para
assim poderem mais facilmente intrometer-se na vida pol�tica e econ�mica desses
reinos. Muitas vezes at� lan�avam umas tribos contra outras, inventando e
provocando quest�es e tentando desta ou daquela maneira ter mais influ�ncia
junto dos reis.
Foi esta pol�tica
divis�ria para dominar que permitiu aos portugueses permanecer em Mo�ambique. O
povo mo�ambicano era hostil � presen�a dos portugueses. Mas muitas vezes os chefes
tribais e os reis das federa��es de tribos necessitavam do auxilio
dos portugueses para atacarem outras tribos ou muitas vezes para se defenderem
do seu pr�prio povo. Por essa raz�o facilitavam muitas vezes a presen�a dos
portugueses em Mo�ambique.
3. Os outros reinos: Zimba, Chicoa e Macua
a) Os Zimbas
ficavam para o Nordeste de Tete, perto do rio Shire. Foram sempre hostis �
presen�a dos portugueses e impediram sempre qualquer avan�o destes para o norte
do Zambeze. Por isso os portugueses nunca conseguiram atingir o lago Niassa
durante os s�culos XVII e XVIII.
Os Zimbas eram um
povo muito aguerrido e v�rias vezes invadiram os territ�rios dos Macuas,
chegando a ir at� ao Rovuma.
b) Os Macuas
ficavam entre o Zambeze e o Rovuma e tiveram poucos contactos com os
portugueses, sobretudo nos pontos costeiros e ao longo do Zambeze. Por�m,
resistiram e impediram toda e qualquer penetra��o dos portugueses no seu
territ�rio.
c) O reino
de Chicoa ficava para o Nordeste de Tete. Era um reino muito rico em prata.
Veremos mais adiante as lutas que tiveram os povos desse reino contra os
portugueses no primeiro lustro (cinco anos) do s�culo XVII para defesa das suas
minas de prata, que no entanto vieram a perder.
d) Da hist�ria dos Zimbas e
Macuas pouco sabemos, porque tendo sido sempre hostis � penetra��o portuguesa,
temos poucos testemunhos da sua civiliza��o. O pequeno com�rcio que mantinham
com os portugueses era na base de marfim e de escravos.
4. A administra��o colonial portuguesa
Para melhor podermos
compreender toda a ac��o dos portugueses em Mo�am�bique, devemos saber como era
a administra��o colonial portuguesa nos princ�pios do s�culo XVII.
Os
portugueses estendiam a sua influ�ncia na costa do Oceano Indico, desde o Cabo
da Boa Esperan�a at� ao Pr�ximo Oriente. Goa era o centro administrativo de
todo este extenso Imp�rio. A� se encontrava um Vice-Rei que tinha todos os
poderes. Todo o territ�rio que ele governava estava dividido em pequenas
capitanias. Na costa oriental da �frica existiam tr�s capitanias: Mo�ambique
(ilha), Sofala e Mombassa. Os governadores das capitanias ou capit�es recebiam
todas as suas ordens de Goa. As capitanias eram oferecidas aos nobres
portugueses por um per�odo de tr�s anos. Ao fim desses tr�s anos os capit�es tinham
que pagar uma elevada quantia ao Vice-Rei. Por�m, durante os tr�s anos eles
tinham poderes quase absolutos no campo militar e no campo econ�mico, isto �, o
monop�lio de todo o com�rcio.
Em
Mo�ambique havia assim duas capitanias. O capit�o de Mo�ambique comandava toda
a costa desde Cabo Delgado at� � foz do rio Zambeze e tamb�m todos os
territ�rios para o interior. O capit�o de Sofala comandava toda a zona para o
sul da foz do rio Zambeze mas tinha pouca influencia para o interior.
Os contactos entre
as capitanias de Sofala e Mo�ambique com Goa eram muito demorados por causa das
mon��es. Mon��es s�o ventos que sopram da costa para o mar e do mar para a
costa em cada metade do ano.
Cada uma das
capitanias possu�a v�rias feitorias. Vimos j� que as feitorias de Tete,
Quelimane e Sena pertenciam � capitania de Mo�ambique e que a feitoria de
Manica pertencia � capitania de Sofala.
Por sua
vez, os contactos entre as feitorias e as capitanias eram tamb�m
muito demorados, o que permitia que todos os capit�es e feitorias roubassem o
mais que podiam, porque eram quase senhores absolutos nos territ�rios que
governavam.
5. O Monomotapa
Nos fins
do s�culo XVI e nos princ�pios de XVII o Monomotapa era Gatse Rusere, a quem
davam o t�tulo de Mambo (Rei).
Gatse Rusere tinha
muito boas rela��es comerciais com os portugueses que iam comerciar em Massapa
e nas outras feiras que se efectuavam no territ�rio controlado por Monomotapa.
Nesta altura o
Monomotapa j� n�o tinha os mesmos poderes que os seus ante�passados tinham. Os
antepassados do Monomotapa eram grandes senhores feudais que dominavam outras
grandes tribos. Gatse Rusere era apenas um grande senhor tribal, isto �, era
chefe principal de um reino que agrupava um grande n�mero de tribos.
O Monomotapa continuava
a fazer a explora��o das minas mas j� n�o ficava com a parte de le�o. Havia uma
reparti��o mais justa dos produtos da terra. Mesmo assim, Gatse Rusere tentava
por todos os meios dominar o mais que podia. Dava grandes facilidades aos
portugueses de comerciarem no seu territ�rio e fechava os olhos a toda
explora��o que os portugueses faziam.
6. Revoltas contra o Monomotapa
Os
portugueses, al�m do com�rcio dos metais e do marfim, apanhavam tamb�m um
grande n�mero de escravos sem que Gatse Rusere se opusesse. � volta da
fortaleza e feitoria de Tete os portugueses come�aram a apoderar-se duma grande
quantidade de terras em que punham os �degredados�. Estes n�o obedeciam a
nenhuma lei e faziam toda a esp�cie de roubos e explora��o. Tudo isto criou um
grande descontentamento nas v�rias tribos do Monomotapa.
Em 1597 um chefe
Chunzo revolta-se contra o Monomotapa. Gatse Rusere pede
auxilio aos portugueses que enviaram de Tete uma for�a
armada que ajudou os guerreiros do Monomotapa a derrotar Chunzo. Este n�o desiste
e com a ajuda de um outro chefe descontente, Chicanda, volta em 1599 a atacar o
Monomotapa. De novo Gatse Rusere volta a pedir aux�lio aos portugueses e
consegue derrotar os dois chefes revoltosos. As revoltas de outros chefes
tiveram o mesmo fim.
Os B�ru�, que faziam a vida
muito dif�cil para os portugueses da feitoria de Sena, come�aram a preocupar-se
muito com a alian�a de Gatse Rusere com os portugueses. Sena interessava muito
aos portugueses e estes come�aram a instigar o Monomotapa a atacar os B�ru�.
Gatse Rusere, dominado pela ambi��o de recons�truir o antigo Imp�rio, come�a a
preparar-se para o ataque.
Os
portugueses prontificam-se a ajud�-lo mas sob pesadas condi��es. Em troca da
sua ajuda os portugueses exigem que o herdeiro do Monomotapa seja enviado a
estudar em Goa onde os Dominicanos fariam dele um instrumento na pacifica��o
e dom�nio dos povos africanos. Os
portugueses pedem tamb�m que lhes seja revelada a localiza��o das minas. Gatse
Rusere aceita e assina um tratado de paz com os portugueses em 1607.
Atacam os B�ru� em
1607. Estes, comandados por Matuzianhe, resistem heroicamente. O ex�rcito de
Gatse Rusere, ajudado p�los portugueses, � obrigado a recuar. Gatse Rusere,
furioso com a derrota, recusa indicar aos portugueses a localiza��o das minas.
Rompe a sua alian�a com os portugueses e estes voltam para Tete.
Na sua campanha
contra os B�ru� Gatse Rusere n�o tinha conseguido apoio de todos os chefes de
tribo do Monomotapa. Os chefes estavam descontentes com o acordo que Gatse
Rusere tinha assinado com os portugueses. Os chefes aliam-se com o Matuzianhe.
As for�as militares de Gatse Rusere ficaram assim muito enfra�quecidas.
No ano de
1608 Matuzianhe, ajudado por muitos chefes de tribo do Monomo�tapa,
ataca Gatse Rusere. Este sem soldados portugueses e
sem a maior parte dos seus guerreiros, � vencido e obrigado a fugir para
Chidima, no reino de Chicoa, onde foi pedir abrigo. Matuzianhe fica assim a
reinar no reino do Monomotapa. O povo do Monomotapa estava farto da pol�tica de
amizade que Gatse Rusere fazia com os portugueses.
Gatse
Rusere, refugiado em Chidima, resolve de novo ligar-se aos seus antigos
aliados, os portugueses. Com mais promessas consegue o seu aux�lio para depor
Matuzianhe.
Em 1610 os
portugueses mandam vir da Ilha de Mo�ambique e de Sofala um grande ex�rcito que
consegue derrotar Matuzianhe na Batalha de Magide Cochena. Este foge de
Zimbabwe onde se tinha instalado e volta para B�ru�.
Gatse Rusere volta
de novo a reinar no Monomotapa. Entrega todos os prisioneiros de guerra aos
portugueses que v�o vender na �ndia e permite que os portugueses con�struam
feitorias em Massapa, Bokuto e Luanza, onde tinham uma guarni��o militar.
Por�m, Gatse
Rusere vai meditar no que lhe acontecer�. Aconselhado por Ningomaxa, seu
ministro-conselheiro, ir� mudar de pol�tica. Gatse Rusere e Ningomaxa, tinha
verificado que o povo estava descontente e n�o aceitava as condi��es impostas
p�los portugueses.
Os portugueses
estavam instalados no interior do reino, mandavam como se fossem donos,
escravizavam e roubavam no com�rcio.
Ningomaxa
aconselhou o rei a expulsar os portugueses do seu territ�rio para assim poder
ter apoio do povo. Isso era dif�cil porque as for�as portuguesas estavam muito
bem armadas e seria dif�cil venc�-las.
Em 1613 apareceram
na costa de Mo�ambique barcos holandeses e ingleses que vinham disputar o
com�rcio dos portugueses. O capit�o de Mo�ambique ordenou que todas as for�as
em Mo�ambique se concentrassem na costa. Nas feitorias do Monomotapa ficaram
poucos homens.
Gatse
Rusere aproveitou essa ocasi�o e no ano de 1613 come�ou a expulsar os
portugueses de Mo�ambique. Os poucos portugueses que se encontravam em Massapa,
Luanza e Bokuto foram mortos e os de Tete fugiram para Sena.
Os
portugueses, vendo que o seu antigo aliado os come�ava a atacar, resolveram
incitar um chefe de tribo do Monomotapa a revoltar-se contra ele com a promessa
de lhe darem o t�tulo de Mambo (rei) e ficaria assim a reinar no Monomotapa.
Esse chefe de tribo era o da regi�o circunvizinha de Tete e dava pelo nome de
Marenga. Os portugueses voltaram de novo a ocupar Tete e derrotaram os
ex�rcitos que Gatse Rusere tinha enviado para combater com Marenga.
7. Os portugueses em Sena
Os portugueses vencidos
p�los guerreiros do Monomotapa abandonaram por algum tempo as suas ambi��es de
conquista das minas do Monomotapa. Estavam muito ocupados na costa a combater
os holandeses e ingleses que lhes queriam tirar o monop�lio do com�rcio na
costa de Mo�ambique,
Os B�ru�, chefiados por
Matuzianhe, foram sempre hostis aos portugueses e nunca tinham permitido que
eles passassem alguns quil�metros al�m de Sena. Mas por volta dos fins do ano
de 1613 Matusianhe morre e um conflito surge pela sucess�o entre dois candidatos.
Os portugueses aproveitam essa luta para instigar um dos candidatos com
promessas de grandes presentes. O candidato dos por�tugueses � derrotado e quem
sobe ao trono � Chombe, que era contra os por�tugueses.
Mal toma conta do
poder, a primeira coisa que Chombe faz � enviar os seus guerreiros para ocupar
o estreito de Lupata no Zambeze, por onde os portugueses obrigatoriamente
tinham que passar para ir at� Sena e Tete. Os portugueses sem passar por Lupata
ficavam como se tivessem pernas cortadas. Tete n�o poderia ser abastecida nem
com muni��es nem com mercadorias para o com�rcio de trocas. Todo o ouro que
vinha do Monomotapa ficaria sem poder ser negociado. O estreito de Lupata era
um ponto vital para a economia e com�rcio dos por�tugueses. Por isso tiveram
que pagar pesados direitos de passagem por cada navio.
Chombe come�ou a
exigir grandes tributos aos portugueses para poderem passar. Estes viram-se
obrigados a pagar mas com grande descontentamento.
Resolveram,
por isso, atacar Chombe com o auxilio de dois chefes da tribo B�ru�, Quitambo e
Samanca.
Os
portugueses atacam Chombe em Lupata mas s�o redondamente vencidos. T�m que
fazer pedidos de refor�os para Quelimane e Sofala. Trava-se -uma grande batalha
que durou cerca de dois meses. Ao fim desse tempo Chombe � vencido e 8.000 dos
seus homens s�o feitos escravos. A batalha de Lupata foi uma das grandes
batalhas que os mo�ambicanos travaram contra os portugueses e em que s� foram
vencidos pela superioridade de armas dos portugueses.
Mesmo vencidos, os
mo�ambicanos n�o quiseram mostrar a localiza��o das minas aos portugueses.
Queriam ser eles a explor�-las e vender a prata aos portugueses.
Foi nesta altura, em
1615, que chegou da �ndia o filho mais velho de Gatse Rusere, que linha
estudado em Goa e a quem os portugueses tinham baptizado e dado o nome de D.
Filipe. Este vai servir de espi�o para os portugueses. Devido � sua linhagem
real D. Filipe consegue saber da localiza��o das minas e revela-as aos
portugueses. Estes imediatamente se dirigem para o local onde na verdade
encontram terras ricas em prata que come�am imediatamente a explorar.
Em 1618 os
portugueses mudaram o seu sistema administrativo. Mo�ambique passa a ter um
governador que, no entanto, continuava a depender do Vice-Rei de Goa. Tinha
poderes mais vastos do que os antigos capit�es. Passou a usar o t�tulo de
capit�o dos rios de Cuama, porque assim chamavam ao rio Zambeze.
A raz�o desta
mudan�a de administra��o foi devida ao facto de que as comuni�ca��es entre Goa
e Mo�ambique eram muito demoradas e tamb�m porque Portugal queria intensificar
a explora��o das minas de Chicoa.
Por volta de 1623 Gatse Rusere morre. Nos
�ltimos anos do seu reinado tinha voltado pouco a pouco a ajudar os portugueses
em Chicoa e permitido que de novo os mercadores portugueses penetrassem no
interior do seu reino para se dedicarem ao com�rcio de trocas.
Seguiu-se uma
longa luta pela sucess�o entre os filhos de Gatse Rusere. D. Filipe, que era
amigo dos portugueses, e Capranzine, que era hostil aos portugueses.
Os portugueses
deram o seu auxilio a D. Filipe mas Capranzine venceu-o e tomou lugar no trono
do Monomotapa. Foi auxiliado nesta luta p�los reis de B�ru� e Manica. Capranzine
expulsa de novo os portugueses do interior, Massapa, Bokuto, Luanza e Chicoa.
Todos os planos
dos portugueses sobre minas estavam a desfazer-se. Os portugueses come�am ent�o
a fazer uma pol�tica de intrigas, conseguindo subor�nar o tio de Capranzine,
Mavura, que tinha sido educado p�los mission�rios dominicanos. Este presta-se a
lutar contra Capranzine com a ajuda dos portugueses e com a promessa de ficar
no trono do Monomotapa.
8. O reino de Mavura
Em 1628 Mavura ataca
Capranzine e consegue ocupar as feiras de Massapa, Luanza e Bokuto e ainda
Zimbabwe. Capranzine � obrigado a recuar, ficando no entanto a dominar sobre a
maioria do reino Karanga.
A primeira coisa
que Mavura fez foi prestar acto de vassalagem ao rei de Portugal, declarando
dar em homenagem ao rei portugu�s todas as minas de prata, ouro, cobre, estanho
e ferro do seu reino.
A maior parte das
minas, por�m, encontravam-se nas m�os de Capranzine. Por esta raz�o houve
guerras constantes entre tio e sobrinho, ou seja, entre Mavura e Capranzine.
Mavura consente
que v�rias fam�lias de portugueses e de indianos vindos de Goa se instalem nas
melhores terras do seu pequeno reino, assim como permite que os mission�rios
fa�am a catequiza��o do seu povo.
O pr�prio Mavura
� baptizado com toda a sua fam�lia e o irm�o de Capranzine � enviado para Goa
para ser educado p�los dominicanos. Todavia, os portugueses n�o estavam
satisfeitos com os resultados que obtinham, porquanto as minas, que eram o seu
principal interesse, continuavam nas m�os de Capranzine. Decidem atacar
Capranzine com um grande ex�rcito.
Capranzine
pede auxilio ao reino de Manica e consegue derrotar os portugueses em 1631.
Mais de 400 portugueses foram mortos. Capranzine prepara-se para atacar Mavura
em Zimbabwe.
Por�m, em
1632 os portugueses tinham conseguido atacar o rei de Manica e substitu�-lo por
um dos seus aliados. Capranzine sem apoio de Manica ataca Mavura mas � vencido.
Obrigado a recuar para o sul do reino, Capranzine deixa nas m�os de Mavura algumas
minas que os portugueses imediatamente come�am a explorar.
9. In�cio do sistema dos prazos
No reinado
de Mavura come�aram a chegar a Mo�ambique fam�lias pobres portuguesas e tamb�m fam�lias
indianas que vinham de Goa e Cochim. Cada uma destas fam�lias recebia uma
por��o de terra na qual tinha todos os direitos.
Esta por��o de terra, ou
prazo, era cultivada p�los escravos que os portugueses faziam nas suas guerras
contra os povos de Mo�ambique. Com o tempo, os prazeiros come�aram tamb�m a
fazer as suas pequenas guerras de conquista e captura de escravos que
clandestinamente comerciavam ora com os �rabes ora com os outros mercadores
portugueses. O sistema dos prazos iniciou a coloniza��o de Mo�am�bique.
A situa��o
ao longo do rio Zambeze era muito desordeira porque os prazeiros n�o obedeciam
�s ordens dos capit�es e feitorias e punham em perigo as rela��es que os
portugueses tinham com os reis e chefes de tribo. Roubavam as colheitas, prendiam
pessoas e com o tempo tornaram-se muito ricos e a sua riqueza atra�a mais gente que vinha em busca de prazos.
Juntamente
com os prazeiros vinham os mission�rios que em nome da religi�o crist� vinham
preparar o povo de Mo�ambique para a explora��o.
Mavura com
a sua pol�tica de colabora��o com os portugueses, permitiu que os portugueses
constru�ssem algumas igrejas, uma das quais em Zimbabwe. O povo estava muito
descontente e com o tempo Mavura foi obrigado a pedir aos portu�gueses que
controlassem as actividades dos prazeiros e mission�rios. Mas a situa��o
continuava a piorar de ano para ano.
Em 1652 Mavura
morreu depois de ter reinado cerca de 22 anos em que sempre serviu os
interesses dos portugueses. O filho de Mavura, de nome Siti Kazuruku-musapa, tinha
sido baptizado e adoptara o nome de D. Domingos. Tal como o pai, continuou a
servir fielmente os portugueses, a dar-lhes todas as facilidades e
permitir-lhes todo o roubo.
O povo, por�m,
continuava descontente com os seus chefes e em 1655 faz uma revolta contra D.
Domingos na qual este � morto. O irm�o de Mavura, que comandava a revolta, sobe
ao trono. N�o sabemos qual era o verdadeiro nome do irm�o de Mavura e, por
isso, chamar-lhe-emos Mambo que, como devemos lembrarmo-nos era o t�tulo dos
reis Monomotapa.
Mambo foi
come�ando a atacar os prazeiros e a recuperar e distribuir ao povo as terras
que estes tinham roubado. Impediu tamb�m que os mission�rios pregassem a
religi�o crist�, porque tinham sido eles que aconselharam Mavura e D. Domingos
a obedecer aos portugueses com a amea�a de que se assim n�o o fizessem seriam
excomungados.
Os portugueses foram obrigados a abandonar
as terras que tinham usurpado (levado pela for�a) e foram fixar-se ao longo do
rio Zambeze e nos arredores de Tete e Sena.
Resta-nos agora
saber por que jqs portugueses n�o
atacaram Mambo. Pela simples raz�o de que n�o tinham tropas nem em Mo�ambique
nem na �ndia. Na verdade a maior parte das col�nias portuguesas na �ndia
tinham-lhes sido conquistadas p�los ingleses, franceses e holandeses. Os
portugueses por volta dos meados do s�culo XVII estavam a intensificar a
coloniza��o do Brasil e dedicavam nisso todos os seus homens e barcos.
Assim, com. o tempo, as terras que tinham sido roubadas p�los prazeiros
voltaram para os seus antigos possuidores. O n�mero de portugueses come�ou a
diminuir consider�velmente, at� que por volta de 1675 havia s� cerca de 50
prazeiros em Mo�ambique.
Os reinos
africanos de Mo�ambique puderam viver alguns anos sem a inter�fer�ncia dos
portugueses. Isso, por�m, n�o lhes trouxe a paz. Um novo chefe guerreiro vai
invadir o Monomotapa e substitu�-lo. As dinastias do Monomotapaj� estavam
demasiadamente comprometidas com os portugueses e com os mission�rios para
poderem inspirar confian�a ao povo. Por isso quando uma nova for�a surgiu, o
povo facilmente a seguiu.
10. Changamire: a invas�o dos Rozwi
No ano de 1680 os
Rozwi, comandados pelo seu chefe Changamire, invadem o territ�rio dos Butua e
apoderam-se do trono.
No ano de 1684
Changamire ataca o Monomotapa que � vencido na batalha de Maungo. O Monomotapa
� morto na batalha e todos os seus filhos fogem para Tete onde existia ainda
uma pequena feitoria, todavia sem o esplendor de alguns anos atr�s.
Ao dominar o reino
de Monomotapa na batalha de Maungo, Changamire toma conta do poder.. Durante
alguns anos o antigo Imp�rio do Monomotapa dos tempos de Matope, Mutota e do
Changamire seu antepassado, vai ressurgir das ru�nas em que o tinham lan�ado os
portugueses.
Depois de ter
dominado os Butua e o Monomotapa, Changamire vai atacar os B�ru� que tamb�m se
submetem � sua autoridade. Por volta de 1688 Changamire reinava sobre um imenso
territ�rio.
Para mais
facilmente o administrar cedeu o reino Butua � dinastia Torwa e o trono de seu
pai ao filho do antigo Monomotapa. O novo Monomotapa era Nyacunimbire. Os B�ru�
ficaram tamb�m sob a dinastia Chombe.
Tal como
antigamente, todos estes reis tinham que pagar tributo e prestar vassalagem ao
Changamire. O com�rcio com o exterior que tinha sido a base da riqueza nos anos
de 1325 - 1500, tinha quase desaparecido com o
afastamento gradual dos portugueses de Mo�ambique. O trabalho das minas tamb�m
atrasou-se.
����
Havia j� muito poucos comerciantes portugueses que se aventuravam a ir
�s feiras de Massapa e outras.
Changamire
percebera que os portugueses s� podiam trazer a destrui��o ao seu imp�rio e por
isso impediu que os poucos prazos que ainda existiam pudessem alargar-se.
Em 1690 consegue
fazer com que o reino de Manica e o de Quiteve se juntem ao Imp�rio.
Estava
finalmente reconstru�do o antigo Imp�rio. Vai por�m durar muito pouco tempo. Os
la�os econ�micos que uniam esses reinos eram muito fr�geis. A economia tinha retrocedido
para uma pura e simples troca de artigos alimentares. Tinha-se tornado uma
economia fechada, num ciclo de trocas que n�o trazia vantagens a ningu�m.
A alian�a
militar e vassalagem j� n�o se justificavam, porque nenhuma amea�a existia. No
plano exterior, os portugueses tinham quase abandonado Mo�ambique, mantendo
apenas algumas feitorias, tais como Sena, Tete, Quelimane. No plano interno, a
volta ao sistema de produ��o tribal tinha impedido a forma��o de classes e
portanto nenhum perigo existia de revolta popular.
Por isso
com o tempo alguns chefes tribais e alguns reis, como por exemplo o rei B�ru�,
tinham deixado de prestar vassalagem e de pagar tributos. O Imp�rio come�ava a dar
sinais de divis�o e Changamire resolve em 1695 fazer uma expedi��o punitiva
contra Chombe, o rei de B�ru� na regi�o de Tete. Changamire ataca Chombe na
batalha de Nyampaza, mas por azar � morto na luta.
Nenhum dos reis
vassalos quis continuar a prestar vassalagem ao sucessor de Changamire e este
tamb�m n�o se sentia suficientemente forte para a poder impor pela for�a.
Com a morte do
Changamire o Imp�rio desmembra-se de novo e para nunca mais se voltar a unir.
Como resultado desse ressurgimento ficaram como testemunhos as magn�ficas
constru��es de Mapungubwe, Dlo-Dlo, Khami, Inyanga, etc.
O sucessor de
Changamire foi Dombo. Este n�o conseguiu manter a sua autoridade no Imp�rio que
Changamire reconstituiu e assim, por volta dos fins do s�culo XVII o Imp�rio
fracassou.
O reino de
Karanga, ou Monomotapa, continua nas m�os de Nyacunimbire. Este morre tamb�m
nos fins de 1695 e o seu sucessor, Chirimbi, manifesta tend�ncias de negociar
com os portugueses que o tinham educado em Goa e que fizeram dele seu fiel instrumento.
Dombo, que
continuava a seguir a pol�tica de seu pai, evita contactos com os portugueses,
ataca Chirimbi que � obrigado a fugir e refugiar-se no norte de Tete. Nunca
mais conseguir� retornar ao reino Karanga. Este reino fica, pois, nas m�os de Dombo.
Este reinava num territ�rio que ia desde o Limpopo at� ao Zambeze.
Os reinos de
Butua, B�ru�, Manica e Quiteve deixam no entanto de fazer parte do Imp�rio. Os
seus reis deixaram de pagar vassalagem ao rei central. O Imp�rio nunca mais se
reconstituiria.
Com o tempo, os
poucos portugueses que estavam em Tete e nos arredores foram obrigados a
reconhecer a autoridade de Dombo.
Conclus�o
O sucessor de
Changamire, Dombo, continuara a dominar no territ�rio que ia do Limpopo at� ao
Zambeze e que compreendia os reinos Rozwi e Karanga.
Embora n�o tivesse
tomado o t�tulo de Monomotapa e continuasse a usar o t�tulo de Changamire,
Dombo era na verdade o sucessor dos antigos Monomotapas na autoridade que soube
manter.
Com o tempo, mais
portugueses foram chegando e pouco a pouco o com�rcio recome�ou. A feira que
mais se desenvolveu foi a de Zumbo onde os portugueses iam buscar o cobre nas
terras de Kazembe.
O dom�nio dos
Changamires durou at� o ano de 1830 aproximadamente, data em que os guerreiros
zulus destru�ram as cidades no momento das suas c�lebres invas�es que mais
tarde estudaremos.
Com o in�cio do
s�culo XVIII vamos assistir a uma tentativa organizada da parte dos portugueses
de iniciar a coloniza��o. Nessa altura o sistema de prazos que tinha deca�do foi
oficialmente institu�do. Faremos o estudo dessa tentativa de coloniza��o no
pr�ximo cap�tulo.
PERGUNTAS
1. O que � um prazo?
2. Donde vieram os primeiros prazeiros?
Donde veio a m�o de obra que trabalhava
nos prazos?
3. Discuta a ac��o dos mission�rios na
coloniza��o de Mo�ambique.
4. Em que ano os Rozwi tornaram-se
senhores do Imp�rio do Monomotapa?
5. Diga o nome de algumas
constru��es que nos provam o ressurgimento do Imp�rio no s�culo XVII?
6. Em que anos os zulus destru�ram
os restos das cidades do Imp�rio de Monomotapa?
7. Quando � que os portugueses iniciaram a
coloniza��o de Mo�ambique?
8. Que minerais interessavam aos
portugueses na costa oriental da �frica?