PARA QU�?!...
� Tanto esfor�o na realiza��o do progresso dum vasto territ�rio africano:
� Tanta sinceridade no cont�nuo aperfei�oamento duma sociedade multirracial;
� Tanto entusiasmo na integra��o lus�ada da juventude angolana;
� Tanta f� no planeamento do futuro da maior prov�ncia ultramarina de Portugal;
� Tanta esperan�a nos olhos dos homens, mulheres e crian�as de todas as etnias;
� Tanta coragem e determina��o nas horas tr�gicas de Mar�o e Abril de 1961;
� Tanto hero�smo, tanta abnega��o e tanto sofrimento;
� Tantos mortos, feridos e mutilados;
PARA QU�?!...
����� Assim podem perguntar, com tristeza e frustra��o, muitos dos por�tugueses que leiam este livro, escrito em cima dos acontecimentos com inteiro respeito pela ess�ncia da sua verdade e uma grande preo�cupa��o de exprimir fielmente o seu real significado.
Mesmo os soldados, aviadores e marinheiros que valorosamente combateram em Angola, obedeceram apenas ao imperativo do cum�primento do dever, dentro daquele instinto vital de independ�ncia que � uma das constantes da alma milenar da GREI. E at� esses podem sentir-se hesitantes, perante a dolorosa interroga��o.
Na verdade, para qu�?!...
Mas a resposta existe, bem clara e pertinente. Durante treze anos, Portugal defendeu-se em �frica para:
� Cumprir o seu indeclin�vel dever de dar protec��o �s vidas e bens dos portugueses de todas as etnias;
� Escorra�ar os abutres que j� esvoa�avam sobre a valiosa heran�a de muitas gera��es de portugueses;
� Preservar a dignidade, a grandeza e a honra de uma Na��o quase milenar.
Barrando os passos de agressores comprovadamente vindos do exterior, instigados e armados por estrangeiros, as nossas For�as Armadas bateram-se nas prov�ncias africanas de Portugal, com a legitimidade com que se bateram em Ourique contra os mouros, em Aljubarrota contra os castelhanos ou no Bu�aco contra os fran�ceses. Defenderam uma P�tria grande na sua dimens�o geogr�fica, rica na abund�ncia e variedade dos seus recursos, respeit�vel e res�peitada na profunda originalidade da sua maneira de ser e estar no mundo.
������� Nomeadamente em Angola, esses treze anos de guerra defensiva constituem uma aut�ntica epopeia, escrita a sangue, suor e l�grimas por homens das mais diferentes ideologias, militares e civis, brancos, pretos o mesti�os, madeirenses, a�oreanos, algarvios, ango�lanos ou beir�es. Foi toda a Na��o plurirracial e multicontinental que se ergueu, em massa, contra uma tortuosa e fort�ssima cons�pira��o de grandes e pequenos monstros deste planeta.
A teimosa perman�ncia dos portugueses no Noroeste angolano, quando e onde o despedir-se dos amigos, dizendo �at� amanh�, constitu�a o c�mulo do optimismo; a temer�ria marcha do alferes Robles, com os 20 soldados do seu pelot�o, de Luanda a Carmona, logo ap�s os massacres de 15 de Mar�o de 1961; a formid�vel res�posta da popula��o de Carmona ao primeiro e �nico ataque do inimigo; a defesa de pequenas povoa��es isoladas, como a Damba, o Quitexe, Aldeia Vi�osa, Vista Alegre, Ucua ou Sanza Pombo; a espantosa actua��o dos guardas da PSP, dos agentes da DGS. dos volunt�rios do 3� escal�o e dos funcion�rios administrativos nos long�nquos postos da fronteira; o emocionante desfile dos primeiros batalh�es metropolitanos pela mais bela avenida da capital de Angola, com as vi�vas e �rf�os do Congo portugu�s todos de luto pesado, a oferecerem-lhes ramos de flores; a chegada dos Ministros Adriano Moreira e Ka�lza de Arriaga � cidade de Carmona, escoltados p�los homens da mil�cia, armados de velhas carabinas, espingardas ca�adeiras ou simples mocas eri�adas de pregos caibrais; a fulgurante reocupa��o de todas as povoa��es do Noroeste de Angola pelas tropas do general Freire; a cena �pica do I�ar da Bandeira na recon�quistada Nambuangongo p�los soldados do tenente-coronel Ma�anita; o magn�fico esfor�o da avia��o militar e civil, na evacua��o dos feridos, no abastecimento das popula��es do (�nterland)) e no municiamento das unidades da quadr�cula; as arremetidas impar�veis dos �comandos)), p�ra-quedistas e fuzileiros especiais;
����� Coisas espantosas como a decis�o da sentinela negra que, na manh� de 4 de Mar�o de 1961, com um lanho de catara num ombro, rompe com o seu �jeep� por entre os atacantes da Casa de Reclus�o e vai avisar o Quartel General; o clamor infatig�vel do Jornal do Congo, pela voz, repentinamente carism�tica, de Sousa Costa, cuja vitalidade consegue resistir mais tarde a um tiro de canhangulo na cabe�a; a nunca interrompida presen�a dos comerciantes brancos na vila fronteiri�a de Noqui, sob os olhos dos �turras� acam�pados na outra margem do rio Zaire; o salto espectacular realizado no progresso de Angola, precisamente quando os empres�rios do terror esperavam que sucumbir�amos ao colapso econ�mico;
���� Coisas incr�veis, como a coragem do sargento Jo�o Paula dos Santos ao lan�ar-se para cima de uma granada de m�o. para salvar, pelo pre�o da pr�pria vida, os homens da sua sec��o; como a salva��o de Mucaba no �ltimo minuto da resist�ncia dirigida pelo cabo-verdiano Sena, quando chegou o PV-2 do ent�o tenente-coronel Diogo Neto; a serena valentia de Jo�o Salgado durante o ataque de morteiros ao Ambriz; o gesto do velho cozinheiro, que se faz matar pelo patr�o, para n�o cumprir a ordem terrorista de o assassinar; a intrepidez de Correia Mendes e Rui Correia de Freitas que, avariando o trem de aterragem do seu pequeno avi�o, ao descolar da Base A�rea n.� 9, decidem pousar, mesmo assim, na rua central de Mucondo, para evacuar dois feridos graves; a quase loucura do administrador de Carmona, que sobe ao cume da serra do U�ge, acompanhado apenas por dois cipaios, para oferecer a paz a um soba rebelde; a morte gloriosa do alferes p�ra-quedista Manuel Jorge Mota da Costa e do pisteiro de ca�a Jo�o Pinto Comenta Caras Lindas que, cercados por milhares de �turras�, ficam a cobrir a retirada dos defensores do Bungo e, unindo costas com costas, aguentam durante tr�s horas, esgotando todas as suas muni��es e continuando na luta corpo a corpo, at� serem final�mente esmagados pela for�a desprez�vel do n�mero; o velho soldado negro de Jo�o de Almeida, que recolhe e guarda carinhosamente os peda�os da Bandeira Portuguesa, rasgada p�los assaltantes do posto do Luvo: o quotidiano desafio � morte, em Santa Cruz de Macocola, quando o hero�smo era �estar l� e a simples tarefa de ir buscar �gua podia custar a vida.
Meia d�zia de traidores chegaram para abrir a russos e cubanos as portas duma terra, que j� era portuguesa mais de quatro s�culos antes de Cuba existir como estado independente e de os comunistas terem conseguido escravizar os nobres povos da velha R�ssia. Mas nunca esse pequeno bando de criminosos, sem coragem e sem vergonha, poder� chegar para apagar da Hist�ria os nomes dos nossos her�is. S�o pequenos demais para que lhes seja poss�vel tapar, com a sombra vil dos seus corpos sem alma, os fulgores de uma epopeia que � das mais belas da nossa hist�ria multissecular.
O Povo Portugu�s � nomeadamente a juventude que sente na sua alma generosa o amargo pungir da pergunta �para qu�?�, n�o pode tolerar que os defensores da Guin�, Angola e Mo�ambique conti�nuem a ser insultados por cretinos, j� definitivamente marcados pela inf�mia da trai��o e com o lab�u da cobardia. � inadmiss�vel que a bravura daqueles que ao longo de treze anos eficazmente defen�deram tr�s frentes separadas por milhares de quil�metros, seja cons�purcada pela baba dos que tra�ram, ou envolvida no mau cheiro dos que desertaram, borrados de medo.
� preciso que o Povo Portugu�s n�o esque�a o que realmente aconteceu nas nossas antigas prov�ncias ultramarinas � especial�mente em Angola � durante os anos de 1961 a 1974. A ningu�m temos de pedir licen�a para nos orgulharmos do comportamento da nossa juventude combatente!
Sei de boa fonte, que a meio da d�cada de sessenta acorriam ao gabinete do Comandante-Chefe das For�as Armadas Portuguesas, na fortaleza de S. Miguel, em Luanda, altas patentes do Pent�gono, que ali iam estudar como � que um ex�rcito cl�ssico conseguia neu�tralizar vitoriosamente a guerrilha.
E a verdade � que, utilizando armas muito superiores � tanques, teleguiados e Migs do arsenal sovi�tico �, os cubanos n�o conseguem o pleno dom�nio da terra, mar e ar, que tornou poss�vel o assom�broso progresso realizado em Angola durante a luta contra o terrorismo.
A nossa vitoriosa resist�ncia, que apenas parou por trai��o, foi uma gesta her�ica, com verdadeiros lances de epopeia. E nessas horas altas da Na��o Portuguesa, por cada gigante que tombava, dobravam os sinos da hist�ria, feitos de um bronze insens�vel �s solicita��es vaidosas dos pigmeus.
Tudo foi inutilizado em troca de nada ...Na sequ�ncia da revo�lu��o dos cravos, n�o se deu qualquer esp�cie de independ�ncia, verificou-se apenas uma torpe entrega das terras e gentes de Angola ao mais cruel despotismo do nosso tempo.
Decorridos cinco anos sobre o arriar da nossa bandeira no Pal�cio dos Governadores-gerais, a prometida independ�ncia de Angola est� muito longe de se concretizar, a guerra civil continua, a ditadura comunista instalou-se e as crian�as j� se parecem com as do Biafra, nas ang�stias da morte pela fome. Tudo isto se tornou t�o claro, que j� deixaram de se ouviras mentiras e cal�nias, constan-temente repetidas durante a loucura do gon�alvismo, quando se che�gou at� a chamar �infame� ao Infante D. Henrique e substituir Cam�es por Samora Machel, nas selectas liter�rias das escolas.
Os respons�veis pela horr�vel mutila��o de uma Grande P�tria, pela aviltada mis�ria do que resta de Portugal e pela tr�gica desgra�a de quinze milh�es de africanos, j� come�am a sentir o perigo de desafiar a justa c�lera dos verdadeiros portugueses, vangloriando-se dos seus crimes e caluniando todos aqueles que souberam cumprir o seu dever. E, � cautela, v�o-se calando ...
Bom � que se calem de uma vez para sempre. Porque a paci�n�cia do Povo Portugu�s tem limites ...
Reis Ventura
Maio 1981