O golpe de teatro
Mo�ambique, Vila Pery, 24 de Outubro de 1975.
� a �poca das queimadas. A savana de
altos capins e matos ressequidos est� pronta para o milagre da renova��o.
Anualmente, por Setembro e Outubro, os fogos que duram longos dias e noites,
num espect�culo impressionante de beleza, mas terr�fico, com frentes de dezenas
de quil�metros, consomem milhares de hectares de ervas e de matos, antes da
chegada das chuvas de Ver�o. O c�u cobre-se de fuma�a e o ar fica irrespir�vel.
Melhora com o cacimbo da noite, mas logo de manh� o ar est� de novo pesado e o
ambiente abafado. Pairam no ar algumas fagulhas apagadas dos inc�ndios
ocorridos nos dias anteriores que os ventos transportam de longas dist�ncias,
numa dan�a e num rodopio loucos, �s vezes por cima das nossas cabe�as. As
chuvas chegar�o em breve. � o an�ncio da chegada do Ver�o no hemisf�rio sul, da
�poca da mon��o subtropical, de planalto, caracterizada por chuvas intensas e
frequentes, mas n�o t�o intensas como nas regi�es tropicais. Que fazem reverdecer
de novo os capins e d�o nova vida aos animais e �s plantas, enfim a toda a
natureza.
Era pouco antes da oito da manh� e o
sol, rompendo a bruma, estava j� bastante acima da "Cabe�a do Velho",
o grosso, alto e largo morro situado a nascente da cidade e que de longe parece
o perfil de um rosto de velho, deitado. O calor j� se fazia sentir, inc�modo,
pela transpira��o que colava ao corpo as roupas leves.
Era um dia igual aos outros. Pelo menos era o que eu
pensava. E como habitualmente dirijo-me para os escrit�rios da f�brica da
grande empresa, a Textafrica, nos arredores da cidade e onde eu trabalhava
havia cerca de um ano. Tomo a estrada principal, conduzindo devagar, como
sempre, e ao voltar para a estrada particular da f�brica cruzo com o colega
de Direc��o, o dr. Flores (1), que vinha em sentido contr�rio em direc��o ao
centro da cidade. Sem pararmos, fizemos uma sauda��o num gesto breve e seguimos
os nossos destinos.
Tudo estava normal, excepto que o dr.
Flor levava no seu carro uns quatro ou cinco pretos. Mas fardados e, ao que
parecia, armados O que aparentemente naqueles tempos n�o era muito de
estranhar.
Chegado ao escrit�rio da empresa
encontrei o pessoal em grande excita��o, circulando pelas salas e corredores e
interpelando-me se sabia o que acontecera ao dr. Flores. Contei o que vi. - Mas
n�o, diziam aflitos, o dr. Flores foi preso pela Frelimo, e os pretos que
seguiam no seu carro eram camaradas da Frelimo, e levavam-no certamente para o
pal�cio do Governo.
(1)
N�o � o nome correcto da pessoa. Por respeito por quem j�
n�o est� entre n�s, foi usado um nome fict�cio, mas a pessoa � facilmente
identific�vel. Noutros casos se procedeu do mesmo modo.
Contam ainda que corria o rumor que durante
toda a noite a sua casa, uma vivenda no bairro da empresa, tinha estado
completamente cercada por tropas da Frelimo num aparato b�lico de estarrecer,
mas totalmente despropositado, e antes das oito da manh� quando sa�a de casa prenderam-no e levaram-no. N�o se sabe para
onde.
O dr. Flores, pessoa acima da
meia-idade, era doente card�aco que j� tivera antes algumas crises e receava-se
que uma situa��o de grande press�o causasse danos piores ou mesmo fatais.
Era uma pessoa muito estimada por todo o pessoal da
empresa, de todos os n�veis hier�rquicos, brancos ou pretos e de todos os
n�veis sociais e o mesmo na cidade, em virtude da sua bondade e correc��o no
trato, com todos, e por isso compreendia o motivo de preocupa��o dos presentes.
Rodearam-me
apreensivos. Lia nos seus rostos a ansiedade e a muda indica��o de que eu, como
colega, e sendo naquele momento �nico representante presente da Direc��o da
empresa, era meu dever, urgente, fazer alguma coisa por ele. A minha mente
fazia tamb�m essa leitura.
Eu nunca me tinha vergado �
press�o dos elementos da Frelimo nem calava factos ou situa��es que eu
considerasse erros ou ilegalidades, �s vezes gritantes, ou casos ins�litos que
com eles aconteciam, nem deixava passar ocasi�o para criticar em geral os
rotundos disparates, que eram os seus constantes erros grosseiros ou mesmo
actos mal intencionados, em qualquer caso inaceit�veis. Face � situa��o n�o
podia ficar indiferente. Por isso decidi-me ir saber o que se passava e tentar
resolver a situa��o, que no modo de ver de todos os presentes s� podia
tratar-se de um grosseiro equ�voco.
Saio dos escrit�rios e volto � cidade,
dirigindo-me ao pal�cio do Governo, mas � entrada da cidade cruzo de novo com
ele, de volta. Par�mos. E conta-me que fora preso por engano e que o assunto,
afinal, era comigo.
Compreendo imediatamente qual era a
minha situa��o, e mais claro ficou logo que o �nico �frelimo� que agora
o acompanhava, se mudou, rapidamente do seu carro para
o meu.
Muitas vezes us�vamos na linguagem
corrente, � falta de palavras mais adequadas ou melhor designa��o, por �frelimos�
ou "camaradas� os elementos da Frelimo e por isso as usaremos
muitas vezes.
Decido, como vinha antes acontecendo,
enfrentar o problema e a Frelimo. Vou em frente. Chegado ao pal�cio do governo,
com o frelimo sempre � ilharga ou nos calcanhares, logo encontro na escada, o
ent�o Administrador do Chimoio, o Alfredo Muchanga, preto, que provinha dos
quadros da administra��o colonial, um simples escritur�rio, agora aderente �
Frelimo, e promovido a administrador de concelho, que me cumprimenta
efusivamente. Digo-lhe que vou falar com o governador e que entretanto j�
indiquei o seu nome ao Presidente do Tribunal da Rela��o para ser nomeado juiz
substituto da comarca. No que se abriu num amplo sorriso alvar, envaidecido.
E que em breve ser� publicada a sua
nomea��o no Boletim Oficial. O sorriso alargou-se ainda mais.
O pal�cio do governo, assim se convencionou chamar-se, n�o tinha nada de
pal�cio, pelo menos no sentido tradicional europeu, que nos sugere sempre algo
de art�stico, de belo. Era apenas um edif�cio volumoso, feio, mal acabado, de
constru��o recente, a que eu assisti quase pedra a pedra, desde os alicerces,
pois morava logo em frente, do outro lado da avenida, num vulgar edif�cio de
apartamentos, e tendo suportado de perto os inc�modos da constru��o, como
poeiras, ru�dos e o mais.
E
tamb�m n�o tinha nada de governo, como adiante se ver�.
Subo a escadaria
principal e � porta do gabinete do governador encontro o secret�rio Bastos.
Digo-lhe que quero falar com o governador. Responde-me que aguarde. Algum tempo
depois sai do seu gabinete o governador Jos� Moiane. Dirijo-me imediatamente a
ele, solicitando-lhe que me receba. Todo sorrisos, como sempre o conheci, mas
diz-me para aguardar uns momentos. Todos me conhecem, todos me falam muito bem,
com boas maneiras, que eu sabia ser pura hipocrisia, mas agora mostram-se algo
enigm�ticos, sorrindo para dentro, o que n�o prenunciava coisa boa. E n�o era..
Espero. Passam para c� e para l�,
num corrupio, abrem e fecham portas e parecem cochichar p�los gabinetes. E o
tempo passa. Adivinho o cozinhado que me est�o a preparar. Penso que devo ser
uma presa de bastante import�ncia para eles. Gera-se uma situa��o de suspense.
Talvez pretendam com esta espera fazer com que eu me tome nervoso para mais
facilmente me driblarem e confundirem.
Cerca
de uma hora mais tarde, finalmente, mandam-me entrar para o grande sal�o de
sess�es ou de simples reuni�es, que deveria ser tamb�m considerado o sal�o
nobre, mas que de nobre nada tinha, e que eu bem conhecia, onde j�
anteriormente, assistira ou mesmo participara, em v�rias dessas reuni�es.
Entro. A sala � ocupada por duas filas paralelas de mesas colocadas topo a topo
e com outra transversal ao fundo formando assim um longo U, sentando-se a� o
Negr�o, a presidir, tendo � direita o Cunhaliua, o comandante da Policia e �
sua esquerda o Alfredo Muchanga, o administrador, com quem tinha conversado
pouco tempo antes � entrada do pal�cio. E de cada lado quatro ou cinco pretos,
que eu desconhecia, e que eram tamb�m certamente elementos da Frelimo.
O Negr�o, que apesar do nome era branco,
era um rapazola alto e magro, dos seus vinte e poucos anos, que fora ao que
parece estudante e frequentara o primeiro ano de Direito na Universidade de
Louren�o Marques, com ares muito pretensiosos, muito intelectual, sobranceiro e
fazendo crer ser portador de supostas convic��es profundas. Era a figura acabada
do jovem revolucion�rio comunista, aparentemente na linha pura e radical do
Mao�smo. O que n�o surpreendia, pois se estava no auge da revolu��o cultural
na China, e tais atitudes entre certa juventude estavam em voga. Atitude
que lhe granjeou um certo estatuto pol�tico nos quadros da Frelimo e por isso
funcionava como uma esp�cie de conselheiro comiss�rio pol�tico junto do
governador, que era mais ou menos analfabeto, Mas na pr�tica, sendo o mais
letrado e sendo tamb�m a maior autoridade intelectual, passava por modelo de
revolucion�rio, e por isso parecia ser o maior detentor do poder efectivo da
Frelimo ali na cidade.
Como jovem
comportava-se no dia a dia impulsivamente, autorit�rio e categ�rico. E no plano
intelectual aparecia como se fosse o detentor da verdade absoluta. E procurava
exibir a cada passo os seus aparentemente parcos conhecimentos doutrinais e
ideol�gicos. Como era ali�s normal com essa gente. E provavelmente pretendia
desse modo compensar as suas car�ncias culturais, os seus fracassos e porventura
os seus complexos, com o entusiasmo das cita��es marxistas, extra�das do
�Livrinho Vermelho" dos pensamentos de Mao, o grande timoneiro, - a b�blia marxista mais radical e revolucion�ria
da �poca, talvez de sempre - tentando brilhantes de ret�rica perante aquela
massa amorfa de analfabetos que era a Frelimo. Era e ainda �. E que tendo
sofrido ou n�o a lavagem ideol�gica ao c�rebro, l� por Praga ou Moscovo, ou
outras capitais do comunismo, nunca foram capazes de entender patavina de nada.
E as amostras que j� ent�o eram evidentes est�o hoje fartamente comprovadas.
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Pediram-me para me sentar. Mas n�o havia cadeira para mim. Fiquei de p�,
como um r�u, � espera de interrogat�rio, no topo de uma mesa. Estava
a uma dist�ncia consider�vel dos ju�zes. Digo ju�zes porque aquilo mostrava-se
como uma esp�cie de tribunal, os ditos tribunais populares de que j� ouvira
falar, mas nunca tinha visto funcionar. Ao que julgo saber os tribunais
populares funcionariam em lugares p�blicos, como est�dios de futebol e pra�as
p�blicas, para que a justi�a dita revolucion�ria tivesse a maior divulga��o
popular poss�vel. E onde muitas vezes as senten�as eram logo executadas: quer fossem castigos corporais,
como umas tantas chicotadas, como as senten�as de pena capital. O que faria
lembrar um pouco os espect�culos de circo na Roma antiga.
Mas este tribunal era decerto especial, mais recolhido, sem a assist�ncia e a interven��o das grandes massas,� do p�blico an�nimo.
O
Negr�o come�a ent�o a falar:
� - Face � opress�o
fascista e colonialista, o nosso povo, n�o podendo suportar por mais tempo a
explora��o, a humilha��o e os desmandos dos opressores, pegou em armas e lutou
durante mais de dez anos at� atingir a vit�ria final, at� se libertar da
opress�o e explora��o... �
� - Muitas
pessoas que vivem no nosso pa�s, ainda dominadas pelo esp�rito colonialista,
recusam-se a compreender a nova situa��o, as novas ideias, a linha da Frelimo,
o ideal de uma sociedade sem classes, sem explora��o do homem pelo homem,
aut�nticos reaccion�rios e elementos perturbadores da nova ordem
social..."
�- Fazem boicote e sabotagem �
nossa economia, n�o respeitam a autoridade constitu�da, tornando. Se portanto
elementos indesej�veis e at� mesmo autores de factos que merecem castigo.�
� - Considerando pois
..." etc, etc, ... mil chav�es
desta natureza, mil vezes ouvidos, os velhos slogans de propaganda
revolucion�ria comunista, de todos conhecidos, l� como c�, e em toda a parte.
��������� E
terminava: � - Pois o dr. Camilo Caveiro, juiz no tribunal desta comarca,
que pelas suas habilita��es deveria compreender mais facilmente que qualquer
outra pessoa a nova realidade pol�tica, a linha da Frelimo, tem-se recusado a
compreender e acatar a nova ordem revolucion�ria, persistindo em manter uma
atitude colonialista, e reaccion�ria, servindo-se da sua fun��o para oprimir o
povo, estabelecendo penas pesadas, fixando cau��es exageradas a quem as n�o
pode prestar, actuando como racista, e serviu-se das leis colonialistas para
facilitar a fuga de perigosos reaccion�rios que fugiram de Mo�ambique
...
� - Por esse motivo o povo
representado pela Frelimo resolveu deter o dr. Camilo Caveiro
at� esses reaccion�rios regressarem a Mo�ambique para serem condenados�.
Fez-se
sil�ncio.
O
juiz estava a ser julgado. E condenado. Sem mais.
A teatral situa��o era uma farsa t�o
ins�lita que me deixou estupefacto.
Reagi. Passados uns momentos perguntei:
- Posso fazer uma observa��o?
Olharam-se confundidos. O di�logo
era o que menos lhes interessava. Momentos depois o Negr�o, enfrentando-me,
hesitante, disse: - Pode.
- Gostaria de
pedir esclarecimento sobre em que consiste a deten��o.
- Bem, deten��o toda a gente sabe
o que � ... � pris�o! Diz o Negr�o.
- Gostaria de observar ainda que,
se a manuten��o da minha pris�o depende do regresso a Mo�ambique das pessoas
que fugiram, e como � de esperar que n�o voltem para me serem agrad�veis, pois
nem eu as conhe�o, nem elas me conhecem, devo concluir que se trata de uma condena��o
a pris�o perp�tua?
-
Conclua como quiser, responde j� agastado o Negr�o.
��������� - Gostaria
ainda de observar mais. Que al�m de este grupo de pessoas n�o poder ser
considerado pela lei um tribunal, portanto sem legitimidade ou compet�ncia
legal para julgar ou condenar, ainda que o fosse, mesmo nas sociedades com
sistemas judiciais mais primitivos, � elementar dever moral o conceder aos
acusados a faculdade de defesa, no m�nimo a possibilidade de serem ouvidos
sobre os factos de que os acusam e p�los quais s�o condenados. Ora, eu estou a
ser condenado sem ser julgado sem a exist�ncia de um processo, sem indica��o de
factos concretos pun�veis por lei, sem ser ouvido, sem defesa
...
- Isso s�o
princ�pios colonialistas e burgueses. Os milhares de nossos irm�os presos no
Ibo e na Machava, etc. Tamb�m n�o foram ouvidos... Sabia isso!
- Replicou o Negr�o j� explosivo.
- Sem pretender
fazer compara��es, nem falar de coisas que eu desconhe�o, desejava acrescentar
que nos termos do art� 35� da Constitui��o da Rep�blica Popular de Mo�ambique,
redigida pelos comit�s Central e Executivo da Frelimo, ningu�m pode ser preso
nem submetido a julgamento sem ser em conformidade com a lei em vigor. E a lei
em vigor � a lei penal e a de processo penal dita "colonial" mas v�lida
por for�a do art� 71� da Constitui��o. E por tal motivo esta conduta �
contr�ria � linha da Frelimo, � ilegal e reaccion�ria...
Cale-se, gritou o
Negr�o furioso, apopl�ctico, de rosto vermelho e congestionado, dando um murro na
mesa, e terminando o di�logo.
Era o argumento �ltimo da autoridade
real da Frelimo, arbitr�ria, desp�tica, prim�ria, terrorista. Calei-me. Nada
mais havia a acrescentar. Nada havia a fazer ou dizer naquele lugar e �quelas
pessoas.
Tamb�m eu, como muitos outros iria
pagar, e com altos juros, a satisfa��o de gostar de Mo�ambique e o ter sonhado
poder ter contribu�do para fazer alguma coisa por sua gente. O comandante
Cunhaliua chamou um guarda que me entregou a uma escolta armada que me levou
para os calabou�os da pol�cia e da qual ele era o comandante naquela cidade.
Eram
cerca de nove e meia da manh�.
Foi um dia �nico
na minha vida, que me marcou para sempre.