8� ESTUDO

������ Voltemos a Inharrime. Esta vila, que � o que se pode chamar uma p�rola engastada num colar de ver�dura, fica num planalto, altiva como uma senti�nela africana e � uma das mais bonitas do distrito. Faz-nos esquecer, por vezes, que estamos no mato. Os pretos, habi�tantes desta regi�o Muchope, dotados duma alma de artista, chegam a fazer caminhadas de 70 e 100 quil�metros, para responderem ao chamamento doutros m�sicos, e assim po�derem fazer parte das v�rias orquestras. Quem viajar de noite por essas estradas africanas, encontra com muita fre�qu�ncia indiv�duos, �s vezes acompanhados de toda a fa�m�lia, palmilhando terreno, de Mbila �s costas, apenas com o fim de se deliciarem com a sua m�sica em conjunto � a arte que mais entranhada est� no seu esp�rito.

O preto faz todos os sacrif�cios e atira-se �s mais �rduas tarefas, sempre resignado. Por�m, se se trata de m�sica, redo�bra de esfor�os e n�o sente a fadiga.

Nesta regi�o, do Regulado de Mucumbi, que fica a 55 quil�metros para o interior, conta-se a seguinte hist�ria: Este r�gulo, desejava para cabo principal, um homem chamado Cangatela. Havia, por�m, outro partido que, chefiado por outro cabo chamado Dodi, provocou Cangatela, dando em resultado envolverem-se numa luta que durou dois meses, findos os quais a vit�ria coube a Cangatela.

Esta demanda passou-se em 1938 dando origem a v�rias cantigas que vamos expor e que a-pesar-de serem de curta data n�o t�m influ�ncia alguma do branco.

 

 

 

A letra deste trecho � a seguinte:

Venham reunir todos os r�gulos

Para ouvirem o que cantamos.

A gente de Vaba�ne que tem mau cora��o;

Abriu um Dong�� (gafanhoto)

Para irem acampar nas terras de Chimizane.

A gente de Vaba�ne quere provocar o nosso r�gulo

Que sabe e tem fama de organizar belos batuques.

A cantiga, que segue, saiu dum lugarejo cujo senhor se chamava Aumido-Vac�-Nha�calo que quere dizer mesmo que ralhes n�o faz mal


A letra deste trecho � alusiva � mesma quest�o.

Voc� Madinhane.

Sabe crescer mas n�o tem ju�zo,

Porque foi dormir com o seu pr�prio filho Mazalambe.

O rabo do Manbatele � uma loja.

Porque a gente de Vaba�ne n�o morre

E nas suas terras n�o entra a tempestade.

O pai desta gente ainda n�o morreu

Para se poder esquecer...

Outro trecho:

 


Este trecho foi cantado por um grupo de mulheres. � qu�si um hino de revolta contra o trabalho, o que se pode ver pela letra:

 

O cabo Ja� anda constantemente a prender a gente

Para carregarmos o Fuo�u (Hipop�tamo).

N�o sabemos para onde fugir

� �Porque choras Mandinbane?���������������������������������
� Estou a chorar porque o Dong��
Estragou a minha palhota que me deu trabalho.

 

Pelo conceito de que os extremos se tocam, poder�amos chegar a esta conclus�o: a m�sica moderna n�o existe, mas sim uma aproxima��o de sensibilidades, ou seja por con�tacto ou por simpatia. Na m�sica negra n�o se pode fixar uma tonalidade � clave. Apenas h� imprevistos ocorrentes que finalmente n�o s�o mais do que, a nova forma musical aplicada p�los compositores modernos.

A m�sica de todo o mundo, baseia-se como se sabe, nos seguintes acordes: acorde da t�nica, acorde da dominante, e o acorde do quarto grau. A estes acordes chama o povo numa intui��o acertada: a primeira, a segunda e a terceira. Sabemos por este motivo que todas as altera��es sugeridas por cada parte da harmonia, foram classificadas dentro da sua ordem, e embora por vezes com certos impre�vistos, n�o deixa esta harmonia de assentar no mesmo prin�c�pio: t�nica, dominante e quarto grau.

Quem penetrar um pouco na m�sica negra, � obrigado a abstrair-se deste princ�pio porque depara com um mundo absolutamente novo e conceitos inesperados.

A �Sinfonia do Novo Mundo� de Dvorak, embora de inexced�vel beleza, tem pouco de verdadeiro no que respeita � toada negra. Foram aproveitados, � certo, alguns motivos mel�dicos selvagens, por�m, desprezada em absoluto a parte harm�nica, � qual o compositor deu muito da sua sensibili�dade, mas esta formada dentro dos princ�pios europeus. O tema do quarto andamento �, de facto, um tema negro, mas a harmonia que o ampara carece absolutamente de verdade.

Mais alguma coisa nesse sentido t�m feito os composi�tores modernos americanos; mas ainda se nota que estes mesmos tateiam em busca duma base s�lida, com a qual possam trabalhar mais amplamente para o futuro. O sin�copado, apenas, n�o resolve o assunto, e nada � perante o que h� para fazer. � claro que, em boa raz�o, encontraremos classifica��o para toda essa marcha harm�nica negra, ser�vindo-nos ainda dos mesmos princ�pios que regem a harmo�nia europeia. Por�m, a m�sica africana depara-se-nos ao nosso sentir com tal desconcerto que muito e muito tere�mos que trabalhar nesse sentido.

 

H� uma esp�cie de ligadura dum som para o outro, ou seja num intervalo ascendente ou descendente, que � inter�rompida pelo meio, duma forma que bastante nos custa a classificar. Esta ligadura, se os mestres est�o de acordo, ser� escrita e colocada da seguinte forma:



Essa esp�cie de mordente a meio da ligadura, que nos parece como que uma ondula��o r�pida, apresenta-nos �s vezes, tamb�m, uma interrup��o bastante interessante. Nela se observa o quarto de tom, tanto na forma ascendente como descendente, numa esp�cie de grupeto que se poderia escre�ver da seguinte forma:


 

Em poucas palavras: s�o necess�rias a constru��o e a introdu��o de novos sinais, de novas figuras musicais e tal�vez at� de notas. Por exemplo: o aumento de linhas � pauta musical, ou acidentes novos?

����� Sabe-se que, entre os m�sicos modernos, j� neste sentido se tem feito alguma coisa, e at� j� se t�m constru�do novos instrumentos e novas escalas, mas at� hoje em nada se assentou ainda de definitivo. Para isso dever�o realizar-se novos congressos de m�sicos autorizados a-fim-de se marcar o caminho a seguir.

Neste pequeno trabalho apresenta-se, ainda que modes�tamente e com todas as reservas, um mapa que foi ditado simplesmente pela vontade de contribuir, embora em pe�quena parte, para o progresso musical.

Assim como, para as impress�es fortes, muitos poetas se queixam da pobreza do verbo, muitos m�sicos, hoje, come��am a achar a escala musical infinitamente pobre. Sabemos, por�m, que h� muitas composi��es que nos encantam, tanto dos cl�ssicos como dos rom�nticos e ainda dos modernos; mas n�o h� m�sico algum que, a-pesar disso, n�o sinta den�tro de si a �nsia ou a necessidade de mais...

A alma do artista � uma coisa insaci�vel que busca, nos mais pequenos detalhes da vida, qualquer coisa de mais belo, mais sugestivo e mais verdadeiro.

As grandes transforma��es sociais, que se sucedem numa rapidez desnorteante, a par da evolu��o cient�fica parece terem provocado um certo estacionamento nas artes; por�m, n�o hesitamos em dizer que estamos � beira duma grande revolu��o musical. Os per�odos em que a humani�dade se agita politicamente, produzem qu�si sempre uma certa perturba��o no mundo art�stico e quedam-se os ho�mens, olhando o v�cuo, em busca do caminho a seguir, � espera do sintetisador. Mas, n�o esque�amos que este, quando surge, n�o � mais que uma resultante do sentido colectivo anteriormente preparado e que reunindo, num ponto �nico a sua �nsia do novo e do belo, criou o g�nio. Logo, a arte n�o estaciona nunca, mas sim, procura cami�nhos.

 

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