�� ����������O FIM! MO�AMBIQUE ATIRADA, PRECIPITADAMENTE,

��������������������������� ����������������������PARA O "ABISMO"

Ela ir� sofrer o seu holocausto. Tra�da pelo pr�prio Portugal, por alguns dos seus pr�prios filhos, ser� entregue de uma maneira trai�oeira, miser�vel e cruel.

Minha querida Mo�ambique!

Eis que chega mesmo o seu Apocalipse. Passavam-se j� dez anos de guerra e o terrorismo j� pouco aparecia. Ele em nada afectava o seu andamento. O Comando Supremo anunciava que o terrorismo estava acabado.

De Lisboa come�aram a chegar not�cias de que Mo�ambique ia ser entregue a um dos movimentos empenhados na sua independ�ncia, a Frelimo. Mas a que prop�sito? Se havia outros movimentos empenhados no mesmo e que para isso tamb�m lutavam, porque s� � Frelimo iam ser entregues os destinos de Mo�ambique? As maquina��es para esse desfecho repentino tinham sido feitas na sombra e at� j� vinham de longe.

Um pequeno grupo que se apercebera da trai��o procura tomar medidas para alertar o povo mo�ambicano da trag�dia eminente e fazer ver isso ao Governo em Portugal. Em Louren�o Marques, toma de assalto o R�dio Clube e emana para toda a Prov�ncia um alerta que a electriza.

Como nos �ltimos anos os sal�rios foram sempre aumentando, uma percentagem enorme de negros j� possu�a os seus r�dios. Facilmente contrabandeados da Rod�sia e do Malawi, era-lhes fac�limo adquirirem-nos.

Calculava-se em perto de meio milh�o o n�mero de r�dios l� dentro. �vidos de not�cias e propagandas, juntavam-se aos magotes para as ouvir.

A n�o ser uns poucos traidores, m�seros tartufos e oportunistas internos, ningu�m, pode dizer-se, ningu�m, concordava que os seus destinos fossem entregues a esse partido, que j� se mostrava absolutamente comandado pela R�ssia. O acordo de Lusaca n�o estava ainda totalmente assinado. Estava, sim, por alguns que atrai�oaram Mo�ambique e que a seguir atrai�oariam quase todo o Ultramar Portugu�s. Quando se diz quase � porque faltou Macau que, de momento, n�o interessava � China, e os Arquip�lagos da Madeira e dos A�ores. Este �ltimo, como estava hipotecado aos Estados Unidos da Am�rica n�o seria entregue com tanta facilidade, pois na verdade qualquer destes dois arquip�lagos foram na mesma "colonizados�.

Apela-se ent�o angustiosamente para um General que, como chefe supremo da nossa P�tria, esteve nesse posto o tempo suficiente para que a trai��o se consumasse e, como � �bvio, foi pouco. Ele subscreveu o miser�vel Acordo de Lusaca. Acordo, rendi��o, tratado, venda, chamem-lhe o que quiserem: rigorosamente, o documento mais trai�oeiro e covarde de que os portugueses foram v�timas em toda a sua hist�ria. H� quem diga que esse movimento foi idiota, que, para ter efeito, devia ter sido feito mais cedo. � muito f�cil ser-se estratega de caf�. Ele falhou. Tinha que falhar. A trai��o, bem planeada, j� vinha de muito atr�s, teve uma virtude: alertou o Mundo, sobretudo este Mundo Ocidental cego sobre o futuro a que a �frica Austral se condenava.

Dava a impress�o de que o nosso ex�rcito tinha sido miseravelmente derrotado, quando isso n�o acontecera. Pelo que diz o Dr. Marcelo Caetano no seu livro, "O 25 de Abril e o Ultramar", v�-se que j� havia artistas para esta grande farsa.

Logo a seguir, o chefe da Frelimo, Samora Machel, badalava aos quatro ventos, que tinha derrotado o ex�rcito portugu�s. Meu Deus! Ao que chegaste, querido Portugal! Os teus pr�prios filhos a apunhalarem-te por todos os lados. Em Louren�o Marques aquele grito de ang�stia � calado.

Segue-se uma carnificina horrorosa. Milhares e milhares de portugueses, que o foram at� esse dia, s�o selvaticamente chacinados - portugueses de todas as ra�as. Mas o ex�rcito, esse ex�rcito ido da Metr�pole, j� virava costas. Deve-se a uns poucos militares dos comandos, p�ra-quedistas, grupos especiais, fuzileiros navais que agiram, por conta pr�pria e a muitos civis, a carnificina n�o ter sido maior. Come�ava a informa��o a ser controlada com todos os requintes para intro�duzir novas ideologias e, sobretudo, o �dio contra o portugu�s, o branco, que tinha de ser acusado como opressor, escravizador, colonialista e imperialista, para a seguir sofrer toda a casta de humilha��es a que o ser humano pode ser sujeito. De que resultou essa carnificina? H�beis agitadores tinham levado a ideia de que o R�dio Clube estava nas m�os dos "opressores" brancos. Era necess�rio toma-lo. A Frelimo era agora quem mandava. Abaixo os brancos! Morte aos brancos! Viva a Frelimo!

Mais de duzentos mil negros, habitavam � volta de Louren�o Marques. Ent�o um n�mero incalcul�vel, armado de catanas, facas, ferros e armas come�am a convergir de todos os lados e com um objectivo: chegar ao centro da cidade, ao R�dio Clube, matar todo o branco que lhe apare�a � frente. E foi a chacina. Eles n�o chegariam ao centro da cidade, mas o saque, os inc�ndios, os crimes atingiram propor��es terr�veis. Foram tr�s dias de horror naquela bela cidade.

No fim, em valas abertas por �bulldozers� seriam enterrados milhares de corpos horrivelmente mutilados, marcando a primeira consequ�ncia do Acordo de Lusaca. Nesse confronto, a maioria dos mortos seriam negros. Na caminhada para a cidade matavam os brancos que iam encontrando, incendiavam-lhes as casas, saqueando lojas e armaz�ns. Completamente embriagados, desvairados e desorganizados ainda chegaram bem dentro, mas foram violentamente sustidos.

Mas os agitadores, por�m, continuavam o seu trabalho. Tinham morrido muitos negros: � volta de dois mil. Agora tinha de ser dada uma li��o aos brancos, foi o 21 de Outubro! Na baixa da cidade um grupo de comandos responde a tiros aos insultos e vexames que elementos da Frelimo proferiram atingindo mesmo a Tropa. Estava lan�ado o rastilho! Milhares de negros bloqueiam todas as sa�das da cidade; d�-se novamente o assalto a lojas e casas. Come�am a chegar carros que levam e trazem quem trabalha na cidade: Come�ara a matan�a. Desprevenidos, carros e camionetas de passageiros v�m cair numa ratoeira que jamais previam. Obrigados a parar, n�o deixam que os passageiros saiam. S�o virados e incendiados.

Quando, num carro, ao longe, os ocupantes pressentiam a armadilha em que cairiam, paravam e sa�am numa tentativa v� de salva��o. Eram imediatamente perseguidos por uma multid�o em f�ria, e massacrados impiedosamente.

Um amigo meu, o velho Tom�s, a quem chamavam o Vov� Tom�s, dos Servi�os Meteorol�gicos, onde trabalhava, muito bom homem e muito querido por todo o pessoal, foi agarrado quando regressava do aeroporto, do servi�o, e depois de bem seguro por meia d�zia de fac�noras, outros meteram-lhe um ferro de constru��o, muito afiado, do �nus � garganta, tendo morrido aos gritos lancinantes, perguntando porque lhe faziam aquilo. "Porqu�? Porqu�?" No fim, meteram-no no pr�prio carro onde ficou carbonizado.

Mulheres de qualquer idade e raparigas, mesmo mi�das, eram levadas para o meio do capim e violentadas, algumas at� � morte, por feras humanas, que nelas despejavam o �dio selvagem e l�brico de que estavam possu�das. As poucas que sobreviveram, ficaram patetas para toda a vida.

Morreram assim com uma barbaridade diab�lica, portugueses, brancos, cujo n�mero � dif�cil de calcular. H� fam�lias que jamais saber�o dos seus entes queridos. Ainda �queles que conseguiram desmantelar a primeira grande investida contra a cidade, outra vez se deve a n�o ter ido mais longe esta nova carnificina. Quando milhares de negros se preparavam de novo para invadir a cidade, um punhado de portugueses, daqueles que n�o se fez hist�ria, mas provando a ra�a, reunidos e um tanto organizados � �ltima hora, fez-lhes frente e dispersou-os. Mas os habitantes da cidade s�o tomados de terror. Os que podem, come�am a dirigir-se para o cais, onde, navios, alguns portugueses, mas a maioria estrangeiros, s�o ocupados por indiv�duos desvairados. Estes, largam, superlotados e, muita daquela gente � evacuada para Durban, havendo quem tivesse seguido para a� �ndia. Ainda eram as consequ�ncias imediatas de Lusaca!

Mas antes, bastante antes deste sinistro acordo, uma companhia de infantaria, l� para o Norte, rende-se vergonhosamente a meia d�zia de Frelimos e � obrigada por essa meia d�zia a atravessar o Rio Rovuma, prisioneira, sendo logo a seguir visitada pelo chefe da Frelimo que lhe chama restos miser�veis de um ex�rcito imperialista, que ele tinha derrotado. Operadores habilmente manipulados, filmam esta vergonha que a seguir � projectada em todos os cinemas de Mo�ambique e do Mundo. Pelo Chire, na Zamb�zia, onde os terroristas nunca tinham conseguido p�r os p�s, entrava um grupo chefiado por Bonif�cio Gruveta, um dos bons guerrilheiros da Frelimo, uns vinte homens, d�o meia d�zia de tiros e instalam-se. Pronto! A Zamb�zia estava ocupada!

Do nosso ex�rcito, havia uma companhia em Milange e outra no Chire.

E quem escreve estas linhas, porque voava nessas regi�es, � uma testemunha desgra�ada e infeliz do que havia de acontecer.

Por detr�s de tudo j� havia trai��o.

Os altos comandos desviam para o Chire uma companhia de Fuzileiros navais que, � primeira vista, ir� dar �nimo � que l� estava e refor��-la. Qual!

Os componentes da companhia que j� l� estava, andavam pelo mato, com bandeiras brancas � procura de terroristas para pedirem, n�o sabia eu bem o qu�! Os da companhia de Milange faziam o mesmo. Eu contactava diariamente com todos. Levo, no meu avi�o, de Quelimane para o Chire, dois Capit�es que, a mando dos altos comandos, iam ver o que l� se passava, fazer um inqu�rito. L� aterr�mos e, chegados ao quartel, mesmo ao lado da pista, fomos recebidos por dois oficiais dos Fuzileiros Navais. Essa companhia, dada a desmoraliza��o, aparecia-me tamb�m como um espectro miser�vel do nosso Ex�rcito. Quase duzentos homens, a maioria desfardados, deambulavam por aquele grande quadrado, ap�ticos a tudo. Para reunir a companhia de infantaria, que era o objectivo, passaram-se horas. Ent�o, simples observador que tamb�m j� tinha sido soldado, come�o a suspeitar que algo de muito grave haveria por detr�s de tudo. No meu tempo um traidor era sumariamente fuzilado. Por fim, l� formou a companhia na parada do Quartel. Aquilo, de tropa n�o tinha nada. A maioria apresentava-se em cal��es e sem camisa. Era tempo quente. Cal�ados de sapatilhas desportivas, eram um esc�rnio ao ex�rcito. Mas l� formaram. Um dos tais Capit�es que eu levara, falou, mas de que maneira! Que tinha vindo ali para se inteirar do comportamento da companhia, pois havia not�cias de que ela se recusava a com�bater. Que estava ali a companhia de Fuzileiros Navais, chegada tr�s dias antes para a refor�ar, e que n�o havia qualquer justifica��o para a atitude que eles estavam a tomar, o que podia ter grav�ssimas consequ�ncias. O homem, que me parecia algarvio, falou, falou e eu, colocado meia d�zia de passos atr�s, s� notava na cara da rapaziada sorrisos ir�nicos, que ainda mais me baralhavam. At� que ponto chegaria a sinceridade daquele Capit�o? O que estava a acontecer ali n�o passava de uma farsa. O Alferes mais antigo, como aquilo j� durava h� muito, percebendo que a rapaziada se preparava para destro�ar, virar as costas ao Capit�o, falou tamb�m alto e em bom som: "Olhe,� meu Capit�o! Aqui a guerra acabou! N�o h� mais guerra, fa�am o que quiserem. Acabou!"

Julgava eu que dali resultaria uma reac��o en�rgica de quem tanto falara, mas fui logo surpreendido pela maneira suave como ele deu ordem para destro�ar. J� eram mais que horas para se comer qualquer coisa. E l� fomos, eu, os dois Capit�es e os Oficiais da companhia de Infantaria, todos Alferes. Eu notava que naquela fase final n�o havia Capit�es de carreira � frente das companhias. S� milicianos.

Depressa se comeu uma boa caldeirada daquele peixe "pende" do Rio Chire. No fim, sentados, o Capit�o puxa da sua pasta de inqu�rito e, um por um, foi questionando todos os oficiais. Fosse pelo caminho que fosse, no fim ele obtinha sempre uma resposta firme e concreta: �Acabou a guerra! N�o fazemos mais guerra!"

�nico civil no meio daquela tropa, comecei a sentir-me francamente mal disposto. Resolvi levantar-me e ir l� para o fundo da sala, onde havia um mapa, e disfar�ar, fingindo calcular rumos e dist�ncias, mas a minha cabe�a era um turbilh�o. L� para cima, em Milange, andava o Capit�o miliciano, claro, e os Oficiais, atr�s do Bonif�cio Gruveta, a pedir paz. Ali, era o que estava a ver. O que se passaria por detr�s de tudo isto? O Capit�o levanta-se e diz para os Oficiais: "Voc�s fizeram afirma��es muito graves, mas uma vez que as fizeram, eu aconselho-vos a que as mantenham sempre, sen�o ser� muito pior. T�m de manter o que disseram!" Ainda mais baralhado fiquei. Virou-se ent�o para o outro Capit�o, o que nos tinha acompanhado e disse: "O que diz o camarada a isto?" Este levanta-se e eu jamais poderei esquecer a resposta. Porque �ramos amigos, esperava que algo de concreto sa�sse dali e saiu: "Merda! Merda! Merda!" Foi esta a sua resposta!

Foi assim que para mim acabou o ex�rcito na minha querida Zamb�zia, foi assim que acabou o nosso ex�rcito ! Era o fim. Regressamos a Quelimane e, dali, os dois Capit�es seguiriam para a Beira, a dar contas, e eu, para o Guru�. No dia seguinte passaria por Milange. Vergonha das vergonhas! O Bonif�cio Gruveta tinha mandado colocar duas minas anti-carro na estrada Milange-Quelimane, que tem trezentos e oitenta quil�metros e avisaram: "N�o passa carro nenhum por essa estrada, nem pela de Milange/Guru�, duzentos quil�metros, nem Milange/Mopeia, outros duzentos quil�metros. Assim ficou toda aquela �rea isolada durante um m�s. S� eu, de avi�o, nunca deixaria de fazer as liga��es, sobretudo com Quelimane, onde estava a sede do Governo do Distrito da Zamb�zia, A resposta do nosso ex�rcito era deambular agora por toda a parte, com bandeiras brancas, pedinchando paz! Come�am ent�o a aparecer descaradamente Frelimos. Frelimos? Sim. Grupos de vadios que se diziam Frelimos, que assaltavam as lojas e exigiam roupas, botas, tudo o que fosse de vestir e de comer. A maioria das roupas, nas lojas, eram de caqui. Ent�o, com umas cal�as ou cal��es, qualquer daqueles vadios, a maioria criminosos, se dizia Frelimo. Come�a a desgra�a de todos os comerciantes. Deitavam m�o a qualquer carro, fosse de quem fosse. Saqueiam tudo. Em vez de fugirem de uma situa��o desgra�ada que lhes foi criada, sem o saberem, h� portugueses que fazem frente, procurando defender o que era seu, seguido de anos e anos de maiores sacrif�cios por aquele mato. Esses eram barbaramente abatidos - homens, mulheres e crian�as!

Outros fogem, levando o que t�m no corpo. Por toda a parte acontece o mesmo. Dada a propaganda incutida atrav�s de anos, chegava a altura em que eles impune�mente podiam actuar com o seu �dio selvagem. Os brancos, contra quem tinha sido assanhada toda a propaganda, estavam desgra�ados. O Ex�rcito, �nico sustent�culo que ainda podia evitar aquela situa��o, desaparecera. Nos pr�prios carros do ex�rcito, os v�ndalos iriam depois continuar toda a s�rie de tropelias. "Sai portu�gu�s de merda! Sai branco de merda! Vai para a tua terra!" E foi assim que a Zamb�zia praticamente se despovoou daqueles tantos portugueses que h� muit�ssimos anos para l� tinham ido trabalhar e n�o oprimir, nem escravizar, como a propaganda fazia crer.

Uns morreram, outros conseguiram sair, mas sempre ficariam alguns que ter�o de se sujeitar a viver miseravelmente em tais condi��es. Por toda a Mo�ambique acontecia o mesmo.

Mas � f�cil avaliar-se a raz�o da situa��o t�o repentina e tr�gica criada �quelas centenas de milhar de portugueses. Note-se sempre que, bem antes da assinatura do tal acordo, o ex�rcito se portava daquela maneira infame. Era tudo segredo!

O negro apercebeu-se e toma for�a, sabendo-se senhor absoluto de toda aquela Mo�ambique, onde, para oito milh�es que � o seu n�mero, somente trezentos mil brancos est�o a mais - os tais opressores com que � preciso acabar. �Atirem-nos aos tubar�es�!� Este incitamento at� vinha da Metr�pole. De frisar que muitos daqueles negros n�o concordavam com esta situa��o, mas n�o tinham outra alternativa, sen�o eram tamb�m eliminados.

A seguir, o Reverendo Uria Simango, chefe de outro partido pr�-independ�ncia, era trai�oeiramente preso no Malawi, levado para Milange e dali, infelizmente num avi�o nosso, da minha Companhia, pelo colega Marques, para Metwara, do lado de l� do Rio Rovuma, na Tanz�nia, onde algozes da Frelimo o esperavam e lhe deitaram a m�o! As �ltimas not�cias que tive da Joana Sime�o, outra chefe de movimento pr�-independ�ncia, que usava �culos com lentes fort�ssimas foi que, meia louca, sem �culos, porque lhos arrancaram, s� com uma tanga, porque a querem assim meia nua, por ali anda - ou andava - at� que a morte a liberte de mais sofrimentos, no campo de concentra��o da Gorongoza.

Mas foi sobretudo um triste e desgra�ado fim para esta gera��o de portugueses que, por infort�nio, o teve que sofrer.

Juntou-se tudo: a trai��o, a morte, a humilha��o, fam�lias desfeitas e mis�rias.

Quando acabar� isto?

Entretanto, da Metr�pole, os respons�veis por tudo bradavam para o Mundo que se estava a realizar uma descoloniza��o exemplar!

Ser� que esses homens esperam chegar at� ao fim da vida impunes? Ser� que s� o peso que sentem na consci�ncia, se � que a t�m, constituir� a pena a pagar?

Este Portugal, de hist�ria t�o maravilhosa que, por elevados ideais, se expandiu pelo mundo, marcando uma posi��o �mpar em toda a Hist�ria Universal, viu-se de repente reduzido �s dimens�es da sua funda��o, mas com uma popula��o imensamente superior. Para onde ir�o amanh� os portugueses com mais aptid�es para o trabalho? Para onde?

Estava eu entre os milh�es de portugueses que acreditavam que aquela Mo�ambique, em espantosa evolu��o em todos os dom�nios, se transformaria nas d�cadas seguintes num dos pa�ses mais felizes do Continente Africano. Dispunha de todas as condi��es para isso, todas as ra�as que a ocupavam se entendiam e cada vez melhor. Fora, de todos os territ�rios de �frica, da �frica Austral, aquele onde houvera menos racismo e esse pouco, com o tempo, acabaria. O Acordo de Lusaca incendiou o racismo! Logo a seguir a propaganda redobrou: "Acabar com os opressores portugueses, colonialistas, imperialistas!� Para o negro esse opressor era o branco, portugu�s. Existiu ent�o um governo de triste mem�ria, que mediou entre a data da assinatura e a entrega.

Roma ca�u entre orgias e bacanais!

Mo�ambique cairia, seria entregue, por um governo que parecia querer mostrar ao Mundo que todos os portugueses, mesmo os que l� estavam radicados, n�o passavam de uns covardes. Esse Governo desarmou todos os portugueses, que foram brutalmente obrigados a entregar qualquer arma que possu�ssem e ai do que fosse apanhado com alguma! Ficaram assim indefesos e sujeitos a tudo.

Depois desceriam os Chef�es da Frelimo, desde o Rovuma at� ao Maputo, entre festas, discursos e banquetes sempre bem servidos e melhores regados. Eles traziam a Ta�a de vencedores, oferecida de qualquer maneira, j� explicada. Cons�tatei, que de todos, o mais aberto, com quem conversei � vontade, ao contr�rio de outros, foi o Joaquim Chissano, mas nessa marcha por Mo�ambique abaixo, todos voariam comigo. Falei com todos. Tal como falava tempos atr�s com oficiais do nosso ex�rcito - alguns respons�veis pela trai��o - dentro do meu avi�o, falava agora com estes. Auscultei-os a todos. O �ltimo com quem voei, foi com o Samora Machel, que a seguir seria o 1�. Presidente da Rep�blica Popular de Mo�ambique. Mostrei-lhe t�o bem quanto pude, as belas terras, as belas planta��es de coco, sisal e ch� que sobrevoamos e faziam parte das riquezas da Zamb�zia. Mostrei-lhe, lembro-me bem e ele devia lembrar-se tamb�m, se vivesse, as terras do Ile e de Namarr�i que produziam a mandioca de mais fina qualidade de Mo�ambique e em quantidades fabulosas. O homem mostrava-se interessad�ssimo e �vido de saber. Contudo, esquivava-se � conversa.

Mas, desde Marrupa, l� bem ao norte, por onde entrara, que as suas frases predilectas, nos seus longos discursos, eram: Abaixo o opressor colonialista! Abaixo o Imperialismo! E aquela massa do povo delirava.

Num banquete, na Morrumbala, onde n�o faltava nada, daqueles banquetes � velha Zamb�zia, notei que, comendo galinha, peru e um ou outro doce, ele s� bebia �gua. S� no fim e porque uma senhora insistiu, bebeu um pequeno copo de vinho Clarete. O grande discurso seria a seguir no Campo de Futebol, com um enorme audit�rio e l� terminou, como todos os outros: "Abaixo! Abaixo! Abaixo!"

A uma conclus�o eu ia chegando: a minha posi��o passava agora para a de opressor colonialista ou imperialista e a dele para a de "O Novo Imperador de Mo�ambique". Depressa, como muitos outros, ver�amos e sentir�amos os efeitos de tais discursos, em que se baseava toda a propaganda da r�dio levada a todos os cantos. O povo, na maioria inculto, bebia daquilo e vomitava �dio contra os portugueses. Eles eram os opressores colonialistas. Completamente desarmados, a tropa a cavar, absolutamente desamparados, como seria a vida a seguir?

O Lu�s, esse belo companheiro de toda aquela avia��o, desistia de voar mais sobre Mo�ambique. Qualquer cretino se achava com sabedoria e poder para desfeitear profissionalmente fosse quem fosse, e tamb�m a ele, que tanto trabalhara. Mais de trinta mil horas ele tinha voado sobre Mo�ambique que tanto amava. Cansado e desiludido, voltou � Metr�pole onde, a princ�pio teve de cavar batatas, para sobreviver, numa pequena quinta que o pai lhe deixara. S� mais tarde lhe seria atribu�da uma reforma. As caminhadas que teve de fazer por esse labirinto burocr�tico, onde os que vieram de l� s� encontravam resist�ncia, ia dando com ele em doido. Em tempos tinha mandado de Portugal para Mo�ambique umas centenas de contos, heran�a do pai, e constru�ra na Matola, bem perto de Louren�o Marques, uma bel�ssima resid�ncia onde pensava acabar os seus dias. Essa casa foi-lhe roubada e nacionalizada pelo novo Governo.

O nosso �ltimo encontro, numa fugida que eu dei da Rod�sia a Portugal, teve muito de alegria e muito de tristeza, ao recordar tudo aquilo. E ele, sempre e sempre ligado aos avi�es e �s possibilidades que eles proporcionam, chamou-me a aten��o para esta juventude actual e para o muito que ela poderia fazer a favor deste povo infeliz, metendo avi�es, claro, e ent�o divagava: "Esta mocidade que estuda, sobretudo a que tem por finalidade a medicina ou o professorado tem uma oportunidade �nica de alcan�ar o objectivo de voar. A massa estudantil � hoje respeitada por qualquer destes governos, que queira subsistir. Que exijam desses Governos que o seu servi�o militar seja prestado na arma da avia��o. Em seis meses, faz-se um piloto. N�o se compreende que at� hoje os servi�os m�dicos n�o cheguem ao cantinho mais escondido deste Portugal pequen�ssimo, acontecendo o mesmo com os servi�os de alfabetiza��o. A gente s� ouve falar em milh�es e mais milh�es a gastar para suprir esse mal! Pois com umas dezenas de pequenos e segur�ssimos avi�es, como h� hoje, e s�o baratos e, n�o falemos j� em helic�pteros, amanh� os jovens m�dicos poderiam chegar a todos� esses cantinhos, juntando � alegria, que por for�a das circunst�ncias, lhes d� a profiss�o que abra�aram, a alegria tamb�m de voar. Depois, com uma d�zia de pequenos aer�dromos, umas faixas com umas centenas de metros, abertas ao longo de uma linha longitudinal deste pequeno rect�ngulo que se chama Portugal, puxando um pouco para o interior, pois o litoral sempre est� mais bem servido, resolver-se-ia o problema de uma maneira alegre, simples e barata, que os grandes pol�ticos querem resolver com os tais muitos milh�es, sempre em tristes imita��es de pa�ses que t�m tentado resolv�-lo tamb�m, acabando tudo em fracasso.

Juntem o agrad�vel ao �til! Voar e trabalhar!"

Ser� isto uma quimera?...

Eu continuei a voar. A minha mulher ficava l� para tr�s, em casa e, embora n�o mo dissesse, notava, ao fim da tarde, quando voltava, que ela vivia cheia de temor. Possu�amos no campo da avia��o uma Pousada com restaurante que, de repente, come�ou a ser frequentada por toda a casta de malandros, que queriam comer e beber de borla. O encarregado avisou-nos logo que era imposs�vel aquilo continuar. Fechei-a imediatamente, alegando que era um encerramento provis�rio, para obras.

Aparecia-me � tarde o pr�prio comandante da Frelimo a exigir que abrisse, acompanhado pelo seu grupo, armado de pistolas metralhadoras e baionetas, para me intimidar. At� ali eu tinha sido, dada a minha vida e at� porque era amigo de todos, das pessoas mais respeitadas da regi�o.

Mas aquilo era gente que tinha vindo de toda a parte, inclusive da Tanz�nia, e que n�o respeitava ningu�m. Valeu-me ter conhecido o guerrilheiro que entrara pelo Chire, Bonif�cio Gruveta, que j� ent�o governava a Zamb�zia e que deu ordens para n�o me aborrecerem, pois ele reconhecia-me como elemento �til, que n�o interessava sacudir. Continuei a sair todas as madrugadas para os meus voos. Puseram um grupo de dez frelimos de guarda ao campo da avia��o, que grosseiramente revistavam as bagagens dos passageiros que partiam ou chegavam, � procura de armas.

Transformaram em quartel uma casa minha, que ocuparam sem qualquer cerim�nia. Colegas meus, da minha Companhia A�rea, eram presos e vexados por toda a parte, onde aterravam. Mas eu j� arranjara outro conhecido da Frelimo, l� em Quelimane, que era o bra�o direito do Bonif�cio Gruveta e chefe militar da Zamb�zia, "comandante" Maquival. Procurava defender-me com mais esse conhecimento. Este seria mais tarde irradiado da Frelimo e metido num campo de reeduca��o. Quando planeei a minha fuga, ele, sem o saber, abriria as portas. Contact�vamos muito e ele ganhou confian�a absoluta em mim.

Numa tarde, quando cheguei, depois de todas as revistas, dirigia-me para casa quando fui abordado pelo chefe daquela guarda, naturalmente analfabeto, que me disse: "N�o entras em casa, n�o. Est� aqui uma bala que foi encontrada � tua porta. Tens l� armas com certeza. Vamos passar revista � tua casa". Eles distribu�am assim balas para comprometerem qualquer um. N�o concordei. Vinha cansado e adoentado, queria descansar. Que passassem revista no outro dia, pois at� iria trazer o Comandante Maquival e ent�o todos podiam revistar tudo. O que eu fui dizer! Falar no Comandante Maquival! "Aqui n�o h� comandantes. Comandantes somos todos n�s. Quem manda agora � o povo. Vais abrir j� a porta. Tens l� armas. Tamb�m �s um colonialista". Esta conversa passava-se comigo cercado por dez homens irrespons�veis, com nove baionetas apontadas ao corpo, por todos os lados , j� todos a berrar, apodando-me de reaccion�rio.

Era o primeiro passo, se n�o me acontecesse pior, para me levarem para o Quartel, onde estavam j� v�rios amigos e porem-me com eles a cavar de manh� � noite, nos campos em volta. A minha mulher que, de perto, assistia a tudo sem nada poder fazer, aconselhou-me a que deixasse mesmo revistar a casa. "Quando acabar a revista a gente quer tamb�m falar contigo" - dizia-lhe o comandante. Mais de uma hora a revistar minuciosamente tudo e, como nada encontraram, largaram a casa e viraram as aten��es para ela.

� volta da casa havia limpeza mas, l� para tr�s, como o terreno era grande, apareciam naturalmente ervas, capim, at� um riozito que passava abaixo. Este chefezito era o prot�tipo de todos os que eu via ao passar em Milange, Tacuane, Chire, Mopeia, Morrumbala, Mocuba, Luabo, Chinde e por tantas outras terras que visitava constantemente - ele, com uma pistola, e os nove companheiros com pistolas metralhadoras russas, com baionetas. Todos, de uma maneira geral, analfabetos, mas com "slogans" metidos na cabe�a, que tinham como finalidade, sempre, amedrontar e afugentar os poucos portugueses que teimavam em ficar na terra a que do cora��o se agarravam e n�o queriam deixar. N�s fomos desses. Tivemos depois que abandonar tudo, ap�s trinta e dois anos passados s� naquele maravilhoso Guru�!

"Mam�! (era dessa maneira que ele a tratava). Tens que pegar na enxada e capinar ali atr�s, onde tem capim. Mam� tamb�m � povo e todo o povo faz a mesma coisa. Tamb�m tem que fazer latrina". Isto foi na altura em que houve uma ordem para se fazerem latrinas por toda a parte, um simples buraco bastante fundo no ch�o, com uma t�bua em cima para se fazerem as necessidades e onde muitas crian�as viriam a morrer afogadas no tempo das chuvas, pois aquilo n�o passava de aut�nticas ratoeiras onde elas ca�am. Mas a arenga continuou e ele foi mesmo buscar uma enxada nossa que estava sempre � m�o, e entregou-lha. "Compreendeu mam�? De amanh� em diante toca a capinar!� "Est� bem, oh! Comandante !- dizia-lhe ela. "Est� bem!" Da� para a frente, ou me acompanhava no avi�o ou se metia no carro mesmo antes de eu sair e ia para casa de amigos, l� na Vila, regressando a casa s� quando eu chegava. Mas ele ficou furioso com essa atitude. As revistas aos avi�es passaram a ser muito mais morosas e contundentes.

T�nhamos dois c�es de grande estima��o e, uma tarde quando cheg�mos, vimos que tinham vazado um olho a cada um, com as baionetas. Tornava-se imposs�vel continuar assim. E ent�o, decidi e planeei ir-me embora. Deixaria Mo�ambique, a Minha Zamb�zia, o meu Guru�, os meus amigos e iria. Bem! Para onde, eu n�o sabia ainda.

Eu tinha de salvar a pr�pria pele, a da fam�lia e a de colegas que me quisessem acompanhar. Sabia que muitos, por circunst�ncias diversas, n�o o poderiam fazer. Mas aos muitos que acreditavam naquilo, nos que batiam palmas por aquilo, que no �ntimo pensavam vir a ser "gente grande", como por l� se dizia, para o que bastava colaborar, mesmo que tivessem de ser esbofeteados, ningu�m se podia aventurar a dar um conselho.

Infelizmente, logo a seguir, alguns colegas, voando, seriam trai�oeira e miseravelmente abatidos nas regi�es de Cabora Bassa e do Chimoio (Vila Pery), sofrendo mortes horrorosas, o que nada me surpreendeu, pois a esses eu tinha pessoalmente avisado que, pela for�a das circunst�ncias, chegara a hora de abandonar a terra que todos n�s am�vamos.

Retirando tr�s de uma frota que possu�a mais de uma d�zia de avi�es, que eram quantos voavam por aquele Norte de Mo�ambique, sob a bandeira da T.A.Z., que possu�a tamb�m v�rios hangares e Oficinas de manuten��o, cujo valor era alt�ssimo, a minha consci�ncia estava tranquila, pois n�o roubava nada a Mo�ambique nem aos meus s�cios.

Retirava o que era meu e para benef�cio, se isso viesse a ser poss�vel, para quem a vida se tornara dific�lima.

Por um ent�o, o M�rio Ramos, que fugira para a �frica do Sul, onde conseguira um emprego e viria a morrer logo a seguir num tr�gico desastre no avi�o que pilotava, a uns escassos quinze quil�metros do aeroporto de Durban, tendo l� deixado a vi�va e dois filhos de dois e quatro anos numa situa��o desesperada, era necess�rio que algu�m olhasse.

Tinha um filho, piloto como eu, que n�o podia ficar para tr�s. Por vontade dele, j� t�nhamos sa�do h� mais tempo. Havia tamb�m um outro motivo forte: constava que no discurso de 7 de Abril de 1976, Samora Machel iria comunicar a nacionaliza��o das crian�as, e ele tinha j� um filhito. A cria��o e educa��o foi tamb�m uma das grandes causas de muitas fugas que se verificariam em Mo�ambique.

Acert�mos a largada para 6 de Abril, v�spera do tal discurso.

Ter�amos de resolver problemas de �ltima hora, que foram resolvidos. Sairiam dois avi�es �Islander�, de dez lugares cada um, na madrugada desse dia, rumo a Salisbury, na Rod�sia, em beleza, sem que ningu�m se tivesse apercebido disso. T�nhamos de afastar ou destruir aquele maldito grupo que n�o largava. Eles mesmo iriam dar o flanco.

Mas eu, que j� expliquei v�rios desastres que tive na minha vida de piloto, omitindo mesmo outros de menor import�ncia, n�o posso terminar, sem mostrar tamb�m como se ia dando o �ltimo que, n�o sendo eu um crente absoluto, quase sou levado a acreditar num milagre, pois tecnicamente ainda n�o consegui saber como me safei. Era um "dia� da Frelimo�, e o Administrador fez uma convoca��o obrigat�ria para uma capina��o "hist�rica" no Guru�. Tinha de ir toda a gente! Resolvi n�o ir. Nunca tinha ido a nenhum com�cio, nem a uma capina��o: a que prop�sito havia de ir naquele dia? Se ficasse em casa iam-nos buscar. Disse para a minha mulher: "Amanh� vamos para Quelimane. N�o ficamos aqui". Pela manh� levantei voo num bimotor �Piper Aztec�. Fomos sobrevoar o local de capina��o - e at� era interessante. Estavam l� uns largos milhares de habitantes, tudo a capinar. Tinham come�ado �s cinco horas da manh�. Segui normalmente para Quelimane, onde deparei com uma nevoeirada tremenda.

O controlador avisou-me que o nevoeiro era muito denso mas, eu, batido como estava com aquele aeroporto, pedi para tentar aterrar pelo sul, e fui autorizado, �minha responsabilidade. Fazia tantas vezes assim! Era mais uma. Fiz a primeira tentativa, que abortou. Fui fazer a segunda e ent�o aconteceu-me o pior. N�o muito longe da cabeceira da pista, passava o Rio dos Bons Sinais. A uma velocidade de cento e quarenta milhas, bato com o avi�o na �gua. Foi como que uma pedra que a gente atira a rasar a �gua e, ela bate, levanta, s� indo mergulhar bem l� � frente. O alt�metro e. nessa altura, n�o t�nhamos mec�nicos para verificar instrumentos, j� quase todos tinham abandonado Mo�ambique - em vez de zero, marcava quinhentos p�s. Eu ia com toda a aten��o no rumo do r�dio farol e � altitude, quando a minha mulher grita de repente e apavorada: "�gua!" Instantaneamente puxei o manche, remeti motores e instantaneamente tamb�m, um grande estrondo e um grande estreme��o. Ouvi os sinos de S. Bento a tocarem alegremente. Felizmente que eu ainda n�o tinha arreado o trem de aterragem. O avi�o batera na �gua! Fora para o ar, porque eu o puxara no tal ponto milagroso, e l� vamos n�s atrav�s do nevoeiro, experimentando os comandos, que obedeciam, at� ver o sol radioso l� por cima. Rumei para a direita, onde estava o mar, e dirigi-me para a praia do Farol da Olinda, onde atrav�s de tantos e tantos anos, tantas vezes aterrara, e l� fui, pela �ltima vez, dizer adeus a areias onde penso nunca mais poder voltar. Com preocupa��o fiz descer o trem, que actuou bem. Deslizei cautelosamente por aquela praia fora. Sa� do avi�o para ver o que lhe tinha acontecido. Apetecia-me afag�-lo, como fazia noutros tempos ao querido �Tiger�. O que tinha ele sofrido? Ao pux�-lo, devo ter-lhe dado uma pequena inclina��o para o lado direito e, assim, desse lado, o h�lice tinha entrado na �gua e estava levemente torto. Parte da blindagem, onde est� uma boca que d� para a entrada de ar para o sistema de carbura��o, tinha desapa�recido, e da� para tr�s, o material, feito de uma esp�cie de fibra comprimida que parecia metal, estava todo esga�ado. A patilha, onde se p�e o p� para subir � asa, desaparecera. Por baixo, o �aileron� e uma parte da barriga do avi�o, tudo esga�ado. A pancada tinha sido ali. De bicicleta, aparece-me um negro com um bocado de blindagem que se soltara no momento da aterragem. Ainda hoje me arrepio quando penso neste caso, pois n�o encontro explica��o para ele. Dada a posi��o em que o avi�o bateu na �gua, apesar de eu o puxar, o embate, por pequeno que tenha sido, devia obrig�-lo a mergulhar, o que n�o aconteceu. Teria ele batido somente numa onda? Mas mesmo assim!...

No �ntimo acredito que teria sido um fim digno para uma vida alegre dedicada aos avi�es, que em breve teria de deixar para sempre.

Em an�lise, para mim era mais uma consequ�ncia do acordo de Lusaca.

N�o concordei com tal trai��o e nunca me submeteria, mesmo que tivesse de pagar com a vida. Dali para a frente a solu��o era fugir.

Um belo dia � tarde, chego do meu voo, e a guarda do campo forma para me entregar uma carta. Era uma carta solene e reparei nos sorrisos de toda aquela malandragem. Era simples, muito mal escrita, mas compreendia-se o que eles queriam: "Patr�o comandante Faria. Ouve bem isto. N�s precisamos de camas e colch�es e tu tens muitos ali naquela casa. D� a chave da casa, porque ela � nossa, � do povo. N�o chateia, ouviste?" Depois vinha uma assinatura ileg�vel do tal chefe do Grupo. Disse-lhes que no dia seguinte daria resposta. Queriam a resposta imediatamente. Convenci-os que tinha de tirar de l� umas pequenas coisas e, depois, sim. Usei um processo que me foi sempre odioso. Mandei-lhes fornecer cerveja � vontade para eles adormecerem as ideias. O que eu queria era ganhar tempo.

No dia seguinte, cedo, segui para Quelimane, mas desta vez com o prop�sito firme de me encontrar com o Maquival, a quem dei a carta a ler e fui esclarecendo: "A continuar assim tenho que abandonar o Guru�. Pelo menos o avi�o passa para Quelimane e assim j� n�o servir� t�o bem aquela gente. Parece que � isso que eles querem!�...

O Maquival seguiu nessa mesma tarde comigo e a esse, eles tinham mesmo medo. � que ele, com a sua pistola, abatia logo quem o desrespeitasse. N�o seria o primeiro a quem j� o tinha feito, e eles sabiam-no. Mais: o Maquival deu ordens para que abandonassem imediatamente o campo de avia��o, pois n�o havia necessidade de tal vigil�ncia.

Tinha confian�a em mim e nessa noite mesmo, eles recolheram ao Quartel! Estavam abertas as minhas portas!

Desconfiando de fugas de avi�es, o governo obrigava o piloto que se deslocasse de um distrito para o outro, em voos fora das carreiras autorizadas, a munir-se de uma autoriza��o emanada somente pelo Minist�rio que abarcava a avia��o, em Louren�o Marques. O meu filho, mandou, de Quelimane, um pedido para fazer um voo na 2a. feira, dia 5, para o Guru�, onde ia buscar uns passageiros convidados para um casamento a realizar no Namialo, Distrito de Mo�ambique, perto do Lumbo, l� para o Norte, donde s� regressaria na 4a. feira. E veio a autoriza��o absolutamente legal, por mensagem aeron�utica. O resto foi simples e f�cil. O objectivo seguinte era a Rod�sia. Como ser�amos l� recebidos, n�o sab�amos! Mas ir�amos alegremente entregar-nos ao Destino.

Pior do que aquele Inferno que transformaram Mo�ambique, n�o podia haver.

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