O 25 de Abril...
25 De Abril
de 1974 mudou tudo.
� claro que se esperavam e desejavam mudan�as no pa�s. E Mo�ambique n�o
era excep��o. Alguns anos antes j� assistira ao movimento gerado pela candidatura
do general Humberto Delgado � Presid�ncia da Rep�blica, assisti ao grande
movimento de massas que a sua recep��o teve em Coimbra, onde ent�o eu era
estudante, tendo estado no meio de uma multid�o bastante consider�vel reunida
no Largo da Portagem, onde estava prevista a sua chegada vindo da estrada da
Beira, para o receber, recep��o que depois se gorou, e nomeadamente presenciei
� noite, um seu com�cio no Teatro Avenida, cheio a transbordar, no qual, al�m
do pr�prio Delgado, discursaram figuras consideradas eminentes como o Prof.
Vieira de Almeida, Jaime Cortes�o, Rol�o Preto, Vasco da Gama Fernandes e
outros cujos nomes j� n�o recordo, por vezes portadores de ideologias bastante
diferenciadas, de cujo conte�do geral ali�s n�o gostei. Todos, empolgados nas
suas palavras, conseguiam transmitir � plateia expectante um elevado
exponencial de entusiasmo. Vivia-se um ambiente electrizante, de alta tens�o. A
emo��o sobrelevava a raz�o. Eu, como at� ainda hoje � moda, podia declarar-me
convencido e totalmente aderente, conforme � linha geral propagandeada pela
esquerda. Eu, por�m, independente, sempre me guiei p�los meus crit�rios.
Fiquei impressionado, mas n�o convencido e por isso
n�o me empolguei como os presentes, e n�o ... n�o gostei.
E tamb�m muitos de n�s estudantes segu�amos diariamente as vicissitudes
da campanha p�los jornais. E coment�vamos. Toda a gente comentava. E nunca
esqueci a not�cia da c�lebre confer�ncia de imprensa no sal�o superior do Caf�
Chave d�Ouro, no Rossio, e a famosa frase do general, � pergunta sobre o que
faria a Salazar caso ganhasse as elei��es: - �Obviamente demito-o �. E
sem esquecer a proclama��o do general, e que era afinal uma esp�cie de programa
pol�tico, as linhas gerais dos seus prop�sitos pol�ticos nos v�rios sectores da
vida nacional, e o mesmo em rela��o ao ultramar, em rela��o ao qual estava
longe a ideia de independ�ncia e muito menos de uma guerra colonial. Programa
editado em caderno anexo p�los principais jornais, e que ali�s guardei por
v�rios anos.
E tudo isso, entre colegas e amigos
discut�amos, uns mais a favor da mudan�a, outros mais
reticentes... isto, apesar de a grande maioria ser
contra a situa��o e contra Salazar.
Mas sab�amos que as popula��es em geral,
principalmente as rurais, n�o davam acolhimento a mudan�as. Era um movimento
essencialmente urbano. Como quase sempre acontece na pol�tica nacional. E
bastante limitado.
Ora, de tudo isso havia que tirar duas conclus�es
imediatas: que uma parte do povo mais esclarecido, e os chamados intelectuais,
desejavam a mudan�a; mas que aqueles homens, a entourage do general,
bastante heterog�nea na sua qualidade, e sobretudo na sua ideologia
(socialistas, integralistas, comunistas.... e outros), a maior parte deles
sobrantes dos grupos da I Rep�blica, n�o eram as pessoas consideradas
confi�veis e capazes de realizar as necess�rias mudan�as a contento do pa�s em
geral. Eram mais te�ricos e ut�picos, que verdadeiros pol�ticos com sentido do
real. E por isso conclu�a-se que a candidatura valia mais pela coragem de enfrentar
o sistema do que pelo conte�do do seu projecto e pelas perspectivas de sucesso
que oferecia. Era assim um movimento assente mais no emocional que no real. E
portanto ut�pico e nada verdadeiramente pol�tico, assente na realidade do pa�s,
destinado a resolver os seus problemas reais.
Mas se uma certa camada,
talvez a mais intelectualizada, reconhecendo as restri��es aos direitos
pol�ticos desejava a mudan�a, a grande massa da popula��o, ainda ruralizada,
quase analfabeta e pouco esclarecida, preferia o estado de coisas em que se
vivia. Ou, de outro modo, quem n�o tinha que se preocupar com a subsist�ncia e
vivia na abund�ncia, queria mais, queria os direitos fundamentais, as
liberdades plenas para isto e para aquilo; mas o povo, a maioria, que
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caos, o povo s� desejava um governo honesto,
competente e de m�o firme para p�r ordem na sociedade, e na pol�tica, refazendo
a autoridade do Estado, cansada de tanto desgaste, para lhe dar seguran�a e
tranquilidade para poder trabalhar em sossego, governo que pudesse acabar com
os pretensos revolucion�rios arruaceiros e bombistas, e evitar que o pa�s
viesse a ser alvo de uma ac��o revolucion�ria mais ampla, brutal e feroz, como
a desencadeada na R�ssia em 1917 e da qual vinham chegando cada vez mais
not�cias dos horrores sofridos pela inocente popula��o daquele pa�s, e a que o
mundo livre chamava o terror vermelho Tanto bastaria para o grande
p�blico, cat�lico, abominar a ac��o das esquerdas em minoria, que eram ateias e
amorais, e combatiam abertamente a religi�o e todos os princ�pios crist�os.
Tudo isso raz�o suficiente para apoiar qualquer
governo que com m�o firme pusesse termo a tantos dislates.
Por isso um governo de autoridade firme era considerada uma b�n��o!
E mesmo ao longo dos anos, mais tarde, nesta mesma
linha, tamb�m foram vistos, tal como na R�ssia, os horrores praticados na
guerra civil da vizinha Espanha, aqui mesmo ao lado, em 1936/39. Em ambos os
casos uma guerra civil dram�tica e catastr�fica, causadora dos maiores
sofrimentos �s popula��es e das maiores depreda��es materiais.
O que s� veio
confirmar o que tanto se receava.
E muitas outras situa��es
que ocorreram, antes e depois, em v�rias partes do mundo. Pois como se sabe,
ocorreram, mais tarde e de forma n�o menos dram�tica, em momentos sucessivos
com o post segunda grande guerra
mundial, nos pa�ses vizinhos, e da Europa central, incluindo uma boa parte da
Alemanha, ditos sat�lites, da Uni�o Sovi�tica que, n�o lhes bastando o que
sofreram com a devasta��o geral resultante da guerra, tiveram ainda de suportar
as purgas ideol�gicas e todos os efeitos nefastos resultantes da instala��o
de regimes socialistas totalit�rios, dependentes da URSS, e a esta ligados e
submetidos pelo Pacto de Vars�via. Os campos de concentra��o na Sib�ria, em
crueldade, n�o ficaram atr�s dos campos de concentra��o nazis.
E veio depois a guerra da Coreia, a guerra do
Vietname, do Cambodja, de Cuba, e mais recentemente da Nicar�gua, e al�m de
muitos outros casos menores. Num extenso rol de casos cada um o mais gritante,
de barbaridades, causadoras de milh�es de mortos. Pois onde aparecia a tal
esquerda, o tal socialismo, aparecia a guerra subversiva, o terrorismo,
depreda��es, sofrimento e morte.
E o mesmo tamb�m aconteceu, de forma bem mais grave e mais profunda, na
China, em resultado dos actos de loucura desumana de Mao Tse
Tung, primeiro ao desencadear a guerra civil contra
os nacionalistas chefiados pelo general Schyang Kay Schek, que com grande
sacrif�cio do povo e grandes dificuldades militares acabavam de combater e
expulsar os invasores japoneses, e que perseguidos agora por Mao, acabaram por
terem de se refugiar na Ilha Formosa ou Taiwan. E em seguida, dominando toda
China continental, com toda a sua absurda e criminosa pol�tica radical de
esquerda, que culminou com a revolu��o cultural, movimento
fundamentalista levado a cabo pelo partido �nico e sobretudo p�los
jovens guardas vermelhos fanatizados, com epis�dios grotescos como a
grande marcha contra os pardais, matando milh�es, com o pretexto de que estas
pobres aves devastavam as searas, ou o grande programa da produ��o de a�o que
levou a fundir tudo quanto era metal, s� para aumentar as estat�sticas de
produ��o e depois de nada serviu por in�til, e muitos outros programas ou
epis�dios do mesmo jaez, que serviram para desmantelar toda a economia
tradicional, quer a rural, de subsist�ncia, ou mesmo a industrial; e ainda
todas as iniciativas ditas culturais que n�o passavam de purgas ideol�gicas e
que todas juntas e ao longo desses tr�gicos anos de revolu��o, levaram � morte
de cerca de quarenta e cinco milh�es de pessoas, umas passadas pelas armas, ou
em resultado da tortura, na maior parte dos casos praticada p�los jovens guardas
vermelhos, muitos deles crian�as, irrespons�veis, cru�is, �s vezes mesmo na
pessoa de elementos das pr�prias fam�lias, ou dos seus pr�prios professores,
quase sempre por "crimes ideol�gicos� e outras pessoas mortas
simplesmente de ... fome.
Al�m da destrui��o de bens materiais ou mesmo documentos, de interesse
hist�rico, sob o pretexto de romper� com todo o passado e em geral
pretendendo-se a aniquila��o de toda tradi��o e no final de toda a cultura dita
burguesa, ou no pior sentido pequeno-burguesa,
vigente na sociedade, cultura que � a final e com toda a certeza a identidade,
a alma, de cada povo.
E foi nessa linha, que vieram depois os pretensos
movimentos nacionalistas em �frica, nas nossas col�nias. Mas que de
nacionalistas n�o tinham nada. Por um lado n�o existia nacionalismo algum. Os
territ�rios, ou col�nias, eram ent�o e ser�o ainda por muito tempo, largos
espa�os habitados por popula��es distribu�das por diversas tribos, ra�as, ou
etnias, subdivis�es dentro da ra�a negra. Em� geral, e quando vizinhos, inimigos uns
dos outros, ou no m�nimo rivais. Com usos e costumes muitas vezes semelhantes,
mas diferentes. As fronteiras das col�nias, hoje pa�ses, tinham sido completamente
determinadas � dist�ncia, a r�gua e esquadro, sobre o mapa, a partir da Europa,
na partilha de zonas de influ�ncia, segundo a pol�tica e circunst�ncias de cada
momento na evolu��o hist�rica, resultando que certas tribos ou ra�as se
distribu�am por dois ou mais pa�ses, em virtude da televis�o geom�trica do seu
territ�rio. Tal como o caso t�pico da na��o dos curdos, na �sia Menor, que se
espalha por seis pa�ses. Mas na��o, no sentido culto do termo, era coisa que
n�o existia em �frica. Era pura fic��o. Mais inven��o interesseira que fic��o.
Tem sido invocado como prova de nacionalismo em Mo�ambique o incidente
com os v�tuas, no fim do s�culo XIX, os quais eram
chefiados ent�o pelo soba Gungunhana, mat�ria
objecto muita escrita, muita lenda e celebrada at� em filme. Mas nem sempre de
forma correcta. Pois n�o se tratou de movimento nacionalista, nem sequer
independentista. Que tais conceitos n�o estavam revelados na �poca, nem tinham
ent�o, face �s circunst�ncias e ao momento hist�rico, o menor cabimento. Acontece
apenas que a tribo v�tua de sua natureza violenta e
agressiva, e naquela �poca chefiada por esse soba n�o menos agressivo, fazia
constantes razias nas tribos vizinhas, massacrando popula��es, raptando
mulheres, e saqueando gados e outros bens, de que resultavam in�meras queixas
das tribos vizinhas ofendidas �s autoridades portuguesas, que durante muito
tempo n�o puderam p�r termo � sua impunidade por falta de for�as dispon�veis e
suficientes para uma ac��o de sucesso. Tendo sido necess�rio organizar a
expedi��o da Metr�pole, nos termos que se sabe. Por outro lado estes
territ�rios situavam-se na zona de fronteira de influ�ncia inglesa, que
ambicionava o dom�nio de tal zona, e que atrav�s da ac��o no terreno dos
mission�rios protestantes ingleses, ciosos da defesa dos interesses da Coroa
brit�nica, incitavam Gungunhana � revolta, e chegaram
a fornecer-lhe armas. Foi ent�o que se justificou a conhecida interven��o
militar portuguesa com a expedi��o comandada por Mouzinho de Albuquerque. E
para se mostrar que o tal interesse ingl�s p�los territ�rios dessa zona era
real, veja-se a quest�o que se arrastava e que se internacionalizou e durou por
largos anos, da chamada quest�o da � baia de Louren�o Marques� ba�a que
os ingleses reivindicavam, que se ligava como fronteira mar�tima � zona do
interior do territ�rio dos v�tuas, quest�o que
entretanto foi resolvida a favor de Portugal num processo de arbitragem
internacional.
Como se mostra, era assim muito mais que uma quest�o
tribal, e nada nacionalista... era o interesse oculto
da "p�rfida Albion�, como ent�o muitas
vezes era designada a Coroa brit�nica.
Deve dizer-se ainda que a baia de Louren�o Marques
era t�o apetecida que at� os holandeses j� tinham tentado ali instalar-se em
tempos mais recuados e custou bastante desaloj�-los.
A hist�ria � a ci�ncia dos factos. N�o das mentiras
fabricadas com fins interesseiros de propaganda.
Mas � claro e perfeitamente
intelig�vel: era conveniente criar aqui pela esquerda, para fins de propaganda,
um �nacionalismo�oprimido, uma situa��o de coitadinhos
sofredores que justificasse os factos subsequentes, ou seja a luta de
terrorismo a favor de tal "nacionalismo� com vista � pretensa "liberta��o�
dos povos sofridos "oprimidos e explorados".
E foi ainda necess�rio, para toda a esquerda, para alcan�ar os seus
perversos objectivos pol�ticos, e que fundamentalmente eram estender tamb�m at�
esses territ�rios a influ�ncia e o dom�nio socialista totalit�rio sovi�tico,
criar uma sem�ntica pr�pria para certas palavras-chave, tipo slogan, ou
estribilho, para repetir, repetir, insistentemente, para entrar nas cabe�as de
todos, palavras como colonialismo, nacionalismo, e outras, e enquadrar tal
sentido, pejorativo, no pior sentido, num contexto geral, inventado para fins
de propaganda, e relacionando-os com conceitos base chocantes, como explora��o,
opress�o, escravatura, etc, e que era servido como
produto de informa��o, e que deveria minar toda a opini�o p�blica
internacional, principalmente europeia, chocando as sensibilidades, porque tais
conceitos s�o de facto chocantes e sensibilizam as pessoas. E minou.
E era aqui que entrava a ac��o da esquerda
portuguesa, ac��o j� exercida, como hoje e sempre, por verdadeiros
profissionais da revolu��o, apoiada e tutelada por Moscovo. Pois como se sabe,
a partir de Hitler que criou, para divulgar as ideias oficiais do nazismo, o
minist�rio da propaganda chefiado e segundo uma certa filosofia elaborada pelo
monstruoso dr. Goebels,
tamb�m os sovi�ticos tinham uma colossal organiza��o da propaganda comunista,
mas neste caso de alcance muito mais amplo, pois abrangia o mundo todo, com
raras excep��es.
Os supostos nacionalistas africanos eram alguns estudantes em escolas
da Metr�pole ou mesmo at� universit�rios (em geral com bolsas de estudo pagas
pelo Estado, curiosamente atrav�s da organiza��o da Mocidade Portuguesa, t�o
vilipendiada pelos ingratos benefici�rios), ou aventureiros com algum traquejo
internacional, portanto j� com alguma cultura, com forma��o � europeia, alguns
bastante intelectualizados, com mais ou menos ambi��o, quer material e de
poder, quer de pura ideologia, e portanto ut�picos, como todo o intelectual, ou
ambas, que se ligaram �s esquerdas, a depois aos pa�ses de tutela, por sua
pr�pria iniciativa ou seduzidos e aliciados p�los agentes socialistas em ac��o
por toda a parte, portugueses ou n�o, e que depois de instru�dos na doutrina
marxista, � sovi�tica, e nas t�cnicas da guerra subversiva e do terrorismo,
principalmente no uso das minas e armadilhas e prepara��o de emboscadas, se
deslocaram para os respectivos territ�rios de origem� e a� organizaram pequenos grupos de
elementos, em geral bo�ais, recrutados nos locais, de prefer�ncia e quase
sempre, entre os mais jovens, quase crian�as, portanto muitas vezes junto das
escolas do mato, e at� das miss�es, portanto jovens ainda irrespons�veis e
imaturos, pouco conscientes dos efeitos mal�ficos da guerra, mas sempre
dominados, orientados, apoiados logisticamente e
armados pelo comunismo internacional. Basta dizer que a arma t�pica e comum
destes terroristas era quase sempre a Kalashnikov, a
arma russa individual mais usada e comerciada de sempre, em numero de milh�es,
e que se encontra em todos as guerras em qualquer parte do mundo. E mesmo
algumas armas colectivas tamb�m de origem russa, checa ou chinesa...
Ora este pessoal era recrutado em geral por meio de
promessas de qualquer natureza, de benef�cios diversos, por vezes usando a
influ�ncia dos curandeiros, cuxe-cuxe, ou feiticeiros, conforme as
regi�es. E convencendo-os para o combate contra o inimigo branco, o opressor,
porque � bala de branco � �gua, n�o mata, � ou embriagando-os ou
drogando-os.
Organiza��es apoiadas tamb�m por essas democracias
liberais, principalmente do norte europeu, at� algumas vezes e mais tarde pela
democracia americana do partido democr�tico, na �poca chefiadas por lideres
mais progressistas e menos sensatos e menos respons�veis, como os Kennedy, e
com pouca vis�o das coisas e menos previs�o do futuro, como se exige a um
verdadeiro estadista, e como j� antes se escreveu.
Mas estava em voga a esquerda, ou muitas ideias
consideradas de esquerda. Era moda. E bem se sabe quanto pode a moda.. at� nas ideias. At� na
asneira.
* * *
Pelos anos sessenta, a
Europa estava j� em vias de consolida��o das suas economias do p�s-guerra,
decorridos mais de quinze anos do seu termo, no dealbar de uma nova gera��o,
vivia-se j� na abund�ncia, reconstru�ram-se as cidades em ru�nas, sararam-se as
feridas da guerra, o n�vel de vida era j� muito bom, mas todos
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metalurgia, do a�o, da inven��o de m�quinas, como a m�quina a vapor, os
teares, e outras, apareceram as grandes unidades mineiras do carv�o e
industriais com milhares de empregados a trabalhar apenas pelo valor da sua
subsist�ncia, por vezes em condi��es consideradas desumanas, que causou uma
certa reac��o e agita��o.
Mas tais situa��es j� n�o existiam no nosso tempo.
Cerca de um s�culo depois, estava tal situa��o ultrapassada. A teoria marxista,
al�m de mais ou menos ut�pica, era j� obsoleta. As coisas tinham mudado. N�o
passava agora de um marco, ali�s bastante importante, na cultura universal
moderna, e nessa medida uma interessante curiosidade intelectual.
A tese do materialismo dial�ctico da hist�ria, de
inspira��o hegeliana, e depois as teorias do valor das coisas, da explora��o,
da acumula��o e concentra��o das riquezas, da luta de classes, da mis�ria e das
crises, aproximando-se do catastrofismo de Malthus, e a conclus�o final do dom�nio do mundo, por um
sindicato de trabalhadores, ou antes de prolet�rios, o seu termo
favorito, e a obten��o a final de uma sociedade, sem classes, comunista, a
�ltima sociedade, enfim a utopia da sociedade perfeita (o que at� era uma
contradi��o com a dial�ctica, pois nesse caso o processo dial�ctico parava ali,
e portanto quebrando a sua l�gica, negava-se a si pr�prio) era j� um campo mais
de fic��o do que real, s�rio e objectivo. Era ut�pico. Mas tamb�m se gosta, por
vezes, de utopia, de fic��o, enquanto tal.
Ora, vistas as coisas
segundo este prisma, para mim os comunistas enquanto marxistas, idealistas,
eram merecedores do nosso respeito, como quaisquer outras pessoas com outras
convic��es. Comunista poderia ser qualquer um, um amigo, um colega, que
porventura estava ali ao meu lado, podia ser eu pr�prio, se eu pensasse desse
modo aderindo a tais ideias. Era uma quest�o de ideal, do dom�nio das ideias,
de gosto ou prefer�ncia, quest�o te�rica, puramente intelectual, portanto algo
de te�rico e subjectivo. E que em qualquer caso, naturalmente se presumia estar
a pessoa intelectualmente de boa-f�. Era o idealismo da juventude. E assim,
segundo creio, deveria ser sempre.
Tudo � diferente hoje. Da teoria � pr�tica vai um
abismo. Depois de ter conhecido os comunistas reais, em pessoa, os seus
m�todos, a sua cegueira paran�ica e o seu fanatismo, significando com isto a
estreiteza de vistas, a n�o disponibilidade para encarar outras perspectivas
das coisas, a falta de sentimento e humanidade, de respeito pelo ser humano, e
tudo isso conhecido de perto por ter sido vitima das suas ac��es, suportando na
pele a sua desumanidade, ou sendo testemunha do que se passou com terceiros,
por vezes num enorme sofrimento, sem causa, tive de rever a minha opini�o
acerca dos comunistas em concreto. E tive de concluir pelo dever fazer
correctamente a distin��o entre marxismo e comunistas, que s�o duas realidades
diferentes. Hoje posso declarar que me tornei um �anticomunista
prim�rio", isto �, radical, n�o pelo marxismo, como teoria, mas pela
pr�tica efectiva dos comunistas-pessoas, agindo a
coberto de uma teoria que se pode dizer em si mesmo in�cua. E sem receio de o
declarar. Pois se em alguma mat�ria sou radical, sou-o nessa mesma.
*
* *
O movimento pro-Delgado
tinha tamb�m chegado a �frica. Dizia-se mesmo que se a contagem dos votos nas
elei��es presidenciais n�o estivesse viciada, o general Delgado teria mais
votos, teria ganho as elei��es de 58. Talvez.
As pessoas
que em Mo�ambique, e tamb�m ao que se sabe em Angola, labutavam, gostavam de
ver o produto do seu trabalho garantido, e que fossem eliminados os entraves ao
desenvolvimento geral, pois como se sabe, naquela �poca, de acordo com o regime
de condicionamento industrial do pa�s, para se conseguir legalizar uma empresa
ou obter licen�a ou alvar� para qualquer actividade, para um empreendimento,
era preciso vir a Lisboa, andar de reparti��o para servi�o, de direc��o para
sec��o, de Herodes para Pilatos, meter cunhas, pagar almo�os e jantares e por
vezes oferecer um envelope bem recheado, para obter uma assinatura ou agilizar
um despacho. A corrup��o n�o era um faz de conta. Mas assim mesmo n�o t�o
generalizada e escandalosa como hoje. Pois bem sabemos o que se passa ainda por
a� em algumas reparti��es...
Os portugueses de Mo�ambique, brancos,
imigrados e residentes, sem desejarem desligar-se de Portugal, que patriotas
sempre foram, queriam mais liberdade, talvez autonomia, talvez mesmo
independ�ncia. E porque n�o? Interessando menos a formula pol�tica, do que o
resultado. Talvez por isso mesmo tenha agradado tanto a tese do livro do
general Sp�nola, ainda que n�o inovadora, pois j� era h� muito ventilada por
a�, a bondade de uma reforma constitucional, estatuindo uma na��o com v�rios
estados, pluricontinental, uma federa��o ou uni�o, das col�nias, conforme a
f�rmula que se achasse mais adequada e vantajosa para uma boa administra��o e a
contento e no interesse dos diversos povos. Solu��o de que o Brasil era o
exemplo a seguir, embora for�osamente com a introdu��o das correc��es
indispens�veis.
Mas tal tese
chegou demasiado tarde.
E sem apoios
relevantes.
Ao contr�rio, tal tese ou outras semelhantes, para a
esquerda activa e dominante, n�o se enquadrava nos seus objectivos. Logo, era
apriori rejeitada.
* * *
Ora, o 25 de Abril, nos primeiros dias, ainda sem
defini��o do que fosse, e do que viria a ser, gerou uma expectativa, um receio e
uma esperan�a. Mas os acontecimentos que vieram a seguir fizeram perder toda a
esperan�a a quase todos os residentes, europeus ou n�o, e at� nativos
evolu�dos. S� os receios se confirmaram.
As not�cias que chegavam de
Lisboa deixavam os residentes altamente preocupados e confusos. Com efeito, as
constantes, as di�rias manifesta��es de rua, principalmente em Lisboa, e
eventualmente em outros lugares do sul, a confus�o geral que se instalou na
mente das pessoas, a virada pol�tica e ideol�gica � esquerda como rumo
obrigat�rio; a radicaliza��o das atitudes e ideias, a
perda de bom senso natural, a liberdade libertina, sem limites, a perda de
respeito por tudo e todos, as imoralidades, a devassid�o, a amostra do poder de
rua, a desinforma��o geral, com noticias e contra noticias, e tudo o mais que �
conhecido, mas e
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������ Em Mo�ambique, com a liberdade de express�o e
reuni�o, antes inexistentes, esbo�am-se organiza��es de grupos, base de futuros
partidos, discutem-se princ�pios, sedimentam-se ideias, enquadram-se
ideologias, inicia-se um trabalho de divulga��o com escritos e com�cios, as
pessoas fazem suas op��es. Surgem pessoas que foram de lideran�a conhecida na
Frelimo mas agora afastadas, com mais ou menos prestigio local, como Joana Sime�o, Uria Simango,
L�zaro Kavandame. Outras pessoas que nunca
pertenceram � Frelimo pretendem iniciar a organiza��o de um partido. Os
partidos come�am a desenhar-se, muitas vezes por impulsos de l�deres
incipientes, um pouco ao acaso, mas que poderiam alguns deles vir a evoluir e
engrossar suas fileiras. Eram tentativas ainda sem consequ�ncias relevantes,
talvez frustradas, talvez com sucesso. A Coremo, a
Fumo, a Gumo, etc s�o disso
exemplos conhecidos.
Era normal. Esperava-se ver instalada uma democracia
- n�o se falava noutra coisa - onde a todos fosse
permitida a liberdade pol�tica total. Os com�cios e reuni�es promovidas por
grupos de pretensos democratas sucediam-se por todo o lado. E nessa linha
recordo uma reuni�o-com�cio a que assisti, em Vila Pery, promovida por algumas
pessoas conhecidas, auto designadas democratas, e que me deixou perplexo: as
pessoas que constitu�am a mesa, todas elas tentando cada uma ser mais democrata
que as outras, tratava os assistentes como se estes fossem todos n�o democratas
aconselhando comportamentos e atitudes, colocando-se eles pr�prios acima da
linha d'�gua do n�vel geral, da vida corrente, como senhores e donos da t�o
famigerada verdade, essa tal ideia de democracia. Era a revela��o de l�deres
pol�ticos com ambi��o de poder.
E a meu ver, e para mim, pouco democr�ticos. Era o oportunismo. A
verdadeira democracia tinha de ser amadurecida e sedimentada na cabe�a das
pessoas. Tinha antes de mais de ser assimilada culturalmente por cada um,
atrav�s da educa��o, dos h�bitos correntes, dos comportamentos do dia a dia, do
respeito, que deve ser rec�proco, pelas pessoas, quaisquer que fossem, e pelas
ideias. Embora estas devessem ser combatidas se n�o se concordar com elas. A
democracia, para al�m da organiza��o do estado, vive-se, pratica-se, exerce-se.
� como aprender e acostumar todos os dias a lavar os dentes... Ia levar seu
tempo.
De resto, como toda a gente percebe, n�o h� palavra
mais enganadora do que esta: - democracia. Tanto servia para sovi�ticos
como para americanos. E todos os interm�dios.
Ora, a Frelimo, comunista que era, que agora tinha
os seus amigos c� deste lado, em Lisboa, e passou a ter desde logo o apoio do
novo governo tropeiro do MFA, agora pro-Moscovo, e de que a Frelimo tamb�m
dependia em grande parte, tentou, e conseguiu, por todos os meios, evitar a
forma��o de novos partidos, que tal n�o estava nos seus planos - pretendia instituir, como instituiu, um governo de partido
�nico, comunista. Por isso perseguiu todos os l�deres mais capazes e alguns ao
que se sabe, mais cedo ou mais tarde acabaram por ser eliminados fisicamente. E
at� um deles, n�o h� muitos anos, foi assassinado em Portugal por pol�cias ou
elementos mais ou menos mafiosos �s suas ordens que vieram expressamente de
Mo�ambique para o efeito. Facto que a meu ver constitui uma n�doa - entre tantas - do nosso governo por n�o ter sido mais
categ�rico na censura ao governo de Chissano e por n�o terem sido os criminosos
castigados exemplarmente.
Os m�todos criminosos comunistas, como se v�, n�o se
confinavam � KGB de Moscovo, t�o evidenciados, at� pelas fantasias quer da
literatura quer do cinema, caso, entre muitos outros, dos famosos filmes de
007.
As maldades da nossa
PIDE, (sempre t�o vilipendiada), para com os revolucion�rios de esquerda
remanescendo da antiga Carbon�ria, ou outros de igual
estirpe (pois s� estes � que dela se queixam) eram, em compara��o com as "car�cias
� da KGB, na URSS, da Stasi, na
Alemanha Oriental, ou de outras equivalentes nas demais republicas comunistas,
brincadeiras inocentes.
E n�o apenas a KGB, mas a sua antecessora a NKVD, a
GPU, ou outros �rg�os policiais especializados em v�rios sectores da criminalidade
pol�tica, famosos pelas pris�es arbitr�rias, pelas mais cruentas pr�ticas de
tortura, pelo desprezo absoluto pela vida Humana...
* * *
Entretanto as nossas tropas numa retirada, antes num
abandono, de posi��es no terreno, deixam o campo livre � Frelimo, que avan�ou e
come�ou a aparecer por todo o lado. N�o tanto em actos de guerra, mas em actos
de puro terrorismo, de barb�rie, como o ataque no Inchope,
a pouco mais de 50 quil�metros de Vila Pery, na estrada para a Beira, a um
autocarro de passageiros, que metralharam e incendiaram, matando dezenas de
pessoas, todas africanas, e ferindo outras tantas, ou o ataque a uma serra��o,
com morte dos trabalhadores, tamb�m africanos, e destrui��o de m�quinas e
madeiras, como a pretender demonstrar quem mandava ali. E para mais facilmente
tomar e ocupar o terreno. Para s� referir incidentes naquela zona. Os piores
horrores da Frelimo tiveram justamente lugar ap�s o 25 de Abril, quando, mudado
o regime e o governo de Lisboa, se vislumbrou a
possibilidade de acabar a guerra num ben�fico acordo de paz. O que n�o
pretendia a Frelimo era um acordo qualquer...
E deve dizer-se que todas essas vitimas da Frelimo
eram pretas, nativas de Mo�ambique, eram o seu suposto povo que supostamente
dizia defender e proteger e pelo qual, segundo dizia, teria lutado...
Os carpinteiros que restam n�o t�m m�os a medir. At�
ent�o trabalhavam quase s� para os tropas que aproveitavam para trazer as suas
mob�lias de madeira ex�tica, geralmente panga-panga, nos barcos de
regresso no fim das comiss�es. Al�m de outras coisas, claro. Mas agora, como s�
fosse permitido aos residentes, por vezes de l� naturais, tirar de Mo�ambique
as mob�lias e o recheio, ou parte dele, da casa de morada de fam�lia, todos
desejam ao menos salvar alguma coisa dos, em geral muitos, anos de trabalho
naquela parcela de Portugal por quase quinhentos anos.
Os contentores acumulavam-se
no cais da Beira sobrepostos em enormes volumes, quais montanhas, � espera de
transporte mar�timo. A procura de moeda estrangeira era doentia. O dinheiro do
Banco Nacional Ultramarino, de Mo�ambique valia cada vez menos.
A infla��o era galopante. Parava a constru��o civil, paravam todas as
actividades a montante. Fechavam f�bricas, oficinas, estabelecimentos
comerciais, escrit�rios, servi�os. O tecido empresarial, e econ�mico em geral,
estava cada vez mais delido. Rompia por todo o lado. Desemprego. Confus�o.
Problemas sociais em progress�o avassaladora.
Entretanto estabelecem-se
negocia��es entre o governo de Lisboa e a Frelimo. Desenha-se o acordo de
Lusaka. Ningu�m � ouvido nem achado, nem o povo portugu�s, na Metr�pole, nem os
residentes na col�nia, nativos ou n�o. Os comunistas de Lisboa negoceiam com os
comunistas da Frelimo. Por sobre as nossas cabe�as. Sem o menor respeito pelas nossas
vontades. "Democraticamente", � comunista.