Sexta parte
O 25 DE ABRIL E O IN�CIO DO FIM
Da heran�a maligna ao golpe de Estado que n�o existiu
A 25 de Abril de
1974, uma brusca mudan�a no xadrez pol�tico portugu�s ditaria o futuro tanto de
Portugal, como das suas col�nias em �frica. Um grupo de oficiais do ex�rcito
reunido no que se denomi�nou de Movimento das For�as Armadas (MFA) tomaria o
poder, der�rubando, num estranho golpe de Estado, o ent�o regime salazarista de
Marcelo Caetano. Imediatamente ap�s o golpe, o MFA entregaria o poder a uma
Junta de Salva��o Nacional (JSN) liderada pelo General Ant�nio de Sp�nola.
Desde
princ�pios da d�cada de sessenta, pairava nos c�rculos pol�ticos do ent�o
regime portugu�s a controv�rsia quanto ao lugar de Portugal nas Rela��es
Internacionais contempor�neas. O debate gira�va � torno de pol�ticas que
permitissem a Portugal e aos portugueses sair de �frica com dignidade e
desfrutarem de boas rela��es com os novos Estados que da descoloniza��o
nasceriam, de modo a que, num ambiente de conc�rdia, consubstanciado no pluralismo
pol�tico, se ga�rantisse a continuidade do desenvolvimento econ�mico e social
desses Estados, salvaguardada que estaria tamb�m a defesa dos interesses dos
cidad�os de origem portuguesa nesses pa�ses. Era imperioso evitar-se a
repeti��o da vergonhosa derrota infligida �s for�as militares portu�guesas na
�ndia em 1961 e, acima de tudo, que Mo�ambique e outras col�nias portuguesas em
�frica ca�ssem na al�ada de Pequim ou de Moscovo. Homens como Humberto Delgado,
Baltazar Rebelo de Sousa, Adriano Moreira, Manuel Jos� H. Mello e muitos
outros, destacaram-se na defesa desse ponto de vista que, nos chav�es
comunistas, alguns apelidaram de "neocolonialismo" e "independ�ncias
de hino e ban�deira".
A
contestada vit�ria da direita conservadora nas elei��es presi�denciais de 1958
e a lend�ria frase "obviamente demito-o"400 proferido
por Humberto Delgado, foram, em si, alguns sinais dos tempos que a direita
conservadora portuguesa negou encarar de frente. Segundo di�ria um estudioso da
situa��o pol�tica portuguesa, a hist�ria do regime fascista portugu�s na
�ltima d�cada antes da sua queda assemelha-se a uma �rvore cujos frutos
amadurecem e apodrecem sem serem colhi�dos. Quando estas caem por si s�,
simplesmente se esborracham no ch�o e nada deles se aproveita para o consumo
humano. O regime portugu�s estava podre por dentro em consequ�ncia da senilidade
in�telectual do ditador Salazar e da falta de vis�o do seu sucessor, Dr.
Marcelo Caetano. Mas se Salazar foi m�ope, Caetano e os que lhe se�guiram at� a
descoloniza��o da "�frica portuguesa", foram, a todos os t�tulos,
cegos.
��������� A morte pol�tica de Ant�nio de
Oliveira Salazar em 1968 e a subsequente nomea��o, a 27 de Setembro, de Marcelo
Caetano para o cargo de presidente do Conselho de Ministros, trouxe um certo ar
de al�vio e uma certa esperan�a de reformas profundas na esfera pol�tica
portuguesa. � que entendia-se que o Professor Dr. Marcelo Caetano, figura
emblem�tica que na clandestinidade ter� apoiado os ideais da intentona de 1961,
liderado por Botelho Moniz401, finalmente, encontraria um espa�o que
permitisse uma sa�da airosa para a descoloniza��o de Mo�ambique, Angola, Guin�
Bissau, Cabo Verde e S�o Tom� e Pr�ncipe. Entendia-se tamb�m que havia chegado
a hora da democrati�za��o efectiva do Estado portugu�s. Segundo escreve Bruno
Oliveira Santos, desde o inicio da d�cada de sessenta,
Caetano era por mudan��as profundas na esfera pol�tica portuguesa. Provam-no as
suas alian��as com os reformistas do xadrez pol�tico daquele pa�s. Com efeito,
mal se viu investido no cargo de presidente do Conselho de Ministros, Caetano
tratou imediatamente de reabilitar o grupo dos conjurados da intentona de 1961402.
Todavia, a
despeito deste nobre gesto para com aqueles "cama�radas",
estranhamente, Caetano cuja simpatia em rela��o �s reformas defendidas por
Botelho Moniz era conhecida403, n�o tardou a encarnar na totalidade
o esp�rito pol�tico do velho ditador. Entre ser "aldrabado" por
generais como Ka�lza de Arriaga e outros da ultra-direita que lhe garantiam
limpar os terroristas comunistas em dois tempos em �frica (antes de
qualquer esp�cie de reformas) e imediatamente p�r em mar�cha uma sa�da airosa
do continente por via de processos democr�ticos, Caetano embarcou na cantiga
dos generais da direita conservadora. Deste modo, o tempo foi passando e a
fruta, j� amadurecida, apodrecia a olho nu sem ser colhida.
Em mat�ria
do evolucionismo pol�tico dos povos africanos o ultra direitismo portugu�s
continuava cego e, apoiando-se em ideais retr�gradas que foram sendo
ultrapassadas com o tempo, teimava em n�o querer despertar para um mundo real
que evolu�a a olho nu. Sem dar conta da sua miopia, nos meados da primeira
metade da d�cada de sessenta, Portugal tinha em �frica tr�s frentes de guerra
cujo desfecho era imprevis�vel. Embora no in�cio da d�cada de setenta, de certa
for�ma, ainda controlasse a situa��o militar em Mo�ambique e Angola, a situa��o
na Guin�-Bissau era catastr�fica e, uma derrota militar frente as for�as do
PAIGC era eminente. Contudo, n�o tardou que na col�nia portuguesa do �ndico a
situa��o evolu�sse igualmente para o pior. A descida da guerra para a zona
central do pa�s come�ou a preocupar algumas esferas sociais ent�o habituadas a
ouvir falar de "turras" apenas "l� no norte". Perante o
novo quadro que se apresentava, algumas vozes radicalizaram-se e outras optaram
por um "repensar" da estrat�gia a seguir. Em Janeiro de 1972
arrebenta na cidade da Beira o que aos olhos de alguns extremistas da direita
portuguesa se badalou de "es�c�ndalo de Mac�ti", envolvendo os
padres Joaquim Teles Sampaio e Fernando Marques Mendes404. Eram os
sinais dos tempos. Embora tar�dio, o alerta dos padres tamb�m n�o foi acatado. ����Nos fins de 1973 a ac��o dos combatentes da
Frelimo j� se fazia sentir na zona central do pa�s. A morte em Janeiro de 1974
de uma senhora de ra�a branca nos arredores de Vila Pery (Chimoio)
radicalizaria as posi��es de alguns colonos, sem contudo se pensar numa via
pac�fica para a solu��o duma guerra que n�o se conteve em embri�o. A dor da
perda daquela cidad� portuguesa culminaria brutalmente com manifesta��es de
rep�dio � incapacidade do ex�rcito de conter a guerrilha que j� amea�ava o cor�redor
da Beira. Com efeito, segundo escreveria David Martelo, numa reuni�o na cidade
de Vila Pery a 16 de Janeiro, perante os representan�tes do governo-geral e das
For�as Armadas, os porta-vozes dos colo�nos brancos naquela cidade declararam
arrogantemente que prescindi�am da presen�a das for�as militares. Exigindo que
lhes fosse fornecido armamento e meios de comunica��o, desejavam eles pr�prios
assumir a repress�o dos chamados turras que vinham do norte. Na manh� do
dia seguinte, j� na cidade da Beira, outras centenas de manifestantes
embrutecidas concentraram-se no edif�cio do Governo do Distrito em apoio �s
posi��es dos colonos de Vila Pery. Na tentativa de acalmar os �nimos, de
megafone em punho, o ent�o Governador seria imensamen�te vaiado p�los
manifestantes irados, acabando ele mesmo por se aliar a estes405. A
manifesta��o terminaria na Messe dos oficiais do ex�rcito no bairro de Mac�ti,
com pedradas e insultos � mistura. Mas nada se resolveu. O mundo dos teimosos
prenunciava assim o seu fim. Mas a press�o para que Portugal encarasse a
quest�o ultrama�rina como n�o tendo uma solu��o militar n�o vinha somente das
for�as internas. Igualmente, o ocidente liberal j� h� muito pressionava nesse
sentido, pois desenhava-se um perigo vermelho que era preciso evitar. Se
Portugal n�o ouvisse por bem, ouviria por mal. Segundo escreveria Barradas de
Oliveira406, foi na sequ�ncia da intransig�ncia das autori�dades
portuguesas que "a 25 de Abril de 1971, numa reuni�o do clube
Bilderberger, em Woodstook Inn, propriedade de Lawrence Rockfeller, no Vermont,
U.S.A, os magnates da plutocracia internacional teriam considerado por unanimidade
esgotado o tempo que o governo de Lis�boa tinha para aceitar a nova ordem que
eles queriam. Entre os signa�t�rios do capitalismo mundial ent�o presentes no
encontro de Vermont, figuravam o pr�ncipe Bernardo da Holanda, o bar�o de
Rothchild, David Rockfeller, ent�o presidente do Council on Foreign
Relations (CFR), Robert MacNanara, presidente de multinacionais como a ITT
e a Coca-Cola e Henry Kissinger". O encontro que pretendia decidir os
destinos da Nam�bia, Angola, Mo�ambique, Rod�sia e �frica do Sul, teve, se�gundo
Manuel Gomes dos Santos407, igualmente a participa��o do magnata
Openheimer, o homem que dominava o neg�cio dos diaman�tes em toda a zona da
�frica Austral.
Embora
igualmente atrasados na sua press�o contra as autori�dades portuguesas visando
salvar, nos moldes liberais, os interesses do ocidente frente � galopante
penetra��o ideol�gica do leste em �frica, n�o deixou de ser salutar que o
ocidente e os seus mandantes j� ga�nhassem consci�ncia do perigo que tinham
deixado arrastar-se por �frica adentro. Todavia, esta tentativa de ditar a
regra do jogo pol�tico e eco�n�mico em �frica encontraria o leste europeu e
Cuba j� atentos e com todas as condi��es de virar a mesa a seu favor. Apesar de
nas v�speras do "golpe de estado" em Portugal o mesmo clube de
Bilderberger se ter reunido de 19 a 21 de Abril de 1974, todo o esfor�o
empreendido no apoio aos golpistas em Portugal na perspectiva de conduzi-los
para a linha do liberalismo ocidental na condu��o dos destinos de Portugal e da
descoloniza��o da ent�o "�frica portuguesa", seria em v�o. Sp�nola, o
homem que herdara a miss�o de conduzir os destinos de Portugal no p�s-Caetano
nadaria em �guas turvas de dimens�es imensur�veis.
Mas quem
foi Sp�nola, o homem que se prop�s salvar o com�boio que virava ribanceira
abaixo? Nos fins da d�cada de 60 e princ�pi�os da d�cada de 70, o General
Ant�nio de Sp�nola estava � testa das opera��es militares portuguesas na
col�nia portuguesa da Guin� Bissau. Embora igualmente tamb�m atrasado, ter-se-�
apercebido de que a si�tua��o portuguesa em �frica exigia uma per�cia pol�tica
e diplom�tica, e n�o uma solu��o militar. Mesmo que essa per�cia encerrasse, em
si, uma ast�cia que permitisse um apaziguamento que passasse por um cosm�tico
compartilhar do Poder com os africanos, era prefer�vel a uma op��o de guerra
que tendia a evoluir e a cimentar, cada dia que passava, um despertar de
consci�ncia nacionalista que - segundo o seu ponto de
vista - perigosamente se dissociava de Portugal e do liberalis�mo
ocidental. Por consequ�ncia, inspirado nos ideais que remontavam da intentona
de 1961 e nos pontos de vista do deputado Manuel Jos� Homem de Mello408
sobejamente discutidos nos bastidores pol�ticos portugueses, Sp�nola esbo�ou um
plano visando uma solu��o negocia�da que passava pela autodetermina��o e
independ�ncia dos povos colonizados sob a bandeira de uma grande federa��o
portuguesa, que iria de Minho a Timor. Embora muito enganado, entendia
ent�o Sp�nola que apenas uma diplomacia nesse sentido amainaria os �nimos dos
na�cionalistas de armas em punho nos "territ�rios portugueses" em
�fri�ca. Assim se dirigiu v�rias vezes ao ent�o substituto de Salazar na es�peran�a
de demov�-lo da sua intransig�ncia.
Mas Portugal, de
facto, ia atrasado muitos anos. O apoio que os movimentos de liberta��o dos
povos de Angola, Mo�ambique e Guin�-Bissau recebiam do bloco socialista e do
radicalismo de esquer�da da URSS e da China Comunista, manifestava-se em duas
vertentes que se complementavam: Numa vertente material, consubstanciada no
equipamento militar para o combate no terreno contra as for�as de ocupa��o e,
numa vertente pol�tica, consubstanciada na prepara��o pol�tica e ideol�gica dos
combatentes nos des�gnios do totalitarismo de esquerda. Este monstro do
despotismo staliniano, encubado por lon�gos anos perante a miopia das pr�prias
autoridades portuguesas, che�garia no in�cio da d�cada de setenta j� com o
tamanho desejado para perturbar qualquer tentativa de consertar as coisas.
As
tentativas de Sp�nola em remendar os erros dos seus antecessores redundariam em
fracasso, pois o 25 de Abril encontraria as for�as adstritas ao imperialismo do
Leste, tanto em Portugal, como em �frica, muito atentas e dispostas a jogar
toda a cartada poss�vel e imagin�ria para assegurar a descoloniza��o nos
ditames idealizados nos manuais da Internacional Comunista.
Mas o que
aos olhos do senso comum aparentou ter sido um golpe de Estado no verdadeiro
sentido da palavra, em Portugal, n�o passou de uma tram�ia que a hist�ria ainda
vai registar. Toda uma an�lise cuidada daquele acontecimento, conclui que a
�nica pedra que de facto saiu tra�da no ent�o xadrez pol�tico portugu�s, ter�
sido apenas o homem da extrema-direita, o Almirante Am�rico Tom�s, que na �poca
ocupava o posto de Chefe de Estado no regime. De acordo com dados posteriores,
o ent�o chefe do governo derrubado, o Dr. Marcelo Cae�tano, desde a primeira
hora, estava ao par do enredo do golpe. Perante as incertezas e duvidas que
pairavam em si para p�r em marcha os ideais de Humberto Delgado, Botelho Moniz,
Adriano Moreira, Baltazar Rebelo de Sousa e outros, que, na ess�ncia, eram
igualmente apoiados pela administra��o norte americana e p�los magnatas do
mundo capi�talista como acima se referiu, frente ao levantamento militar de 25
de Abril, ardilosamente e com um atraso de 6 anos no poder, tentaria a todo o
vapor p�r nos carris um comboio que caia ribanceira
abaixo, entregando o poder a Sp�nola na esperan�a de este consertar o mal que
havia sido feito. Segundo ainda Bruno Santos, tanto Caetano como alguns oficiais
sonantes da ent�o pol�cia pol�tica do regime (a DGS), nomeadamente os
sub-inspectores Oscar Cardoso e Ab�lio Pires, sabi�am que na noite de 24 para
25 de Abril haveria um levantamento militar visando mudar o rumo da hist�ria
daquele pa�s. A uma pergunta sobre se o 25 de Abril os tinha apanhado de
surpresa, Pires afirma:
"N�o. J� sab�amos que, naquela noite,
ia dar-se qualquer coisa. � por isso que � meia-noite eu ainda estava na Ant�nio Maria Cardoso. Repare: na noite anterior, os
militares foram buscar os aparelhos de r�dio ao Quartel de Cascais. Se existiam
d�vidas sobre a possibilidade de eclodir uma nova revolta409, elas
ficariam logo dissipadas. Posso garantir-lhe que o presidente do Conselho de
Ministros esteve sempre perfeitamente informado, mas n�o enfrentou nem deixou
enfrentar a situa��o. E manteve essa posi��o at� � tarde do dia 25 de Abril de 1974, recusando-se
inclusivamente a sair do Quartel do Carmo com os carros que n�s estacionamos
perto do elevador de Santa Justa. A ideia era tir�-lo do Carmo e coloc�-lo
em s�tio mais seguro. N�o corria o m�nimo risco, tanto � que um dos inspectores
que o acompanharia entrou calmamente no Quartel e responsabili�zou-se pela sua
seguran�a. Mas ele n�o quis. (...) Marcelo Caetano estava feito com os
revoltosos.(...). Posso dizer-lhe que tinha havido contactos entre oficiais do
gabinete de Sp�nola na Guin� e o pr�prio Marcelo. Um desses oficiais � o
coronel Pereira da Costa, que ajudou o Sp�nola a escrever o Portugal e o
Futuro. O Almeida Bru�no foi portador de v�rias cartas" 41�.
Igualmente,
respondendo a uma pergunta semelhante, se a PIDE ou o governo sabiam que ia
ocorrer uma revolu��o a 25 de Abril, Oscar Cardoso por sua vez responde:
-"�
claro que sabiam. Principalmente depois do golpe das Caldas, a 16 de Mar�o,
control�vamos todos os movimentos dos mi�litares subversivos. S�o eles pr�prios
que hoje o dizem. Sabe o que nos enganou? Est�vamos convencidos de que Sp�nola
dominava a situa��o. � que Sp�nola ainda nos inspirava alguma confian�a, n�o
era comunista. Sab�amos que ia dar-se o 25 de Abril, o que n�o sab�amos � que o
25 de Abril teria o desfecho que teve..."411
�����������
Portanto, de entre os oficiais da seguran�a do Estado, leais ao regime
(que n�o eram poucos), ningu�m moveu uma palha porque se esperava que Sp�nola
acudisse com �xito a situa��o. A conjura havia sido esquematizada a partir dos
escal�es mais altos do regime, e n�o convinha a nenhum subalterno desobedecer
�s ordens. Era o render da guarda, numa tentativa de �ltima hora em se
consertar o mal encubado durante anos. E nem que para tal se ensaiasse algo
parecido com um golpe de Estado, o fim justificaria os meios. Segundo se
escreveria mais tarde, os "golpistas" andaram ent�o por Lisboa em
tanques milita�res sem uma �nica bala para disparar em caso de resist�ncia ao
golpe. Caetano, convencido de que o amigo Sp�nola tomaria conta do
recado depois de vezes sem conta, nas suas confid�ncias, n�o lhe ter dado
ouvidos, ordenou que n�o se resistisse � intentona, pois apesar de con�siderar
o acontecimento um "facto precipita��o" (pois queria ainda
desfazer-se dos terroristas de armas em punho em �frica), contava com os
"bons of�cios" de Sp�nola, pessoa a quem, de entre muitos, entendia
ser o homem capaz de conduzir o barco a bom porto.
Caetano
transmitiria pessoalmente o poder � Sp�nola no quartel do Carmo �s 19:30 horas
do dia 25, sob a garantia deste "n�o deixar o Poder cair na rua". S�
que o Poder cairia, de facto, na rua, porque o radicalismo de esquerda estava
atento, tanto em Portugal, Moscovo, Dar es-Salam e, at�, na Arg�lia onde ainda
se acoitavam alguns dos pontas de lan�a de Kremlin na zona austral de �frica.
Sp�nola viu-se incapaz de parar o vento com as m�os. O radicalismo da esquerda
en�contraria um campo f�rtil para a prossecu��o dos seus objectivos e, a
palha�ada, essa, teria no palco dos acontecimentos homens que se pro�punham defensores
da causa dos povos oprimidos do mundo inteiro. Contudo, j� era tarde
demais.
Ironicamente, a
nova pol�cia pol�tica - COPCON412 -
chefiada pelo ent�o major Otelo Saraiva de Carvalho, consolidado que foi o
suposto golpe, ficaria a prender, conduzindo para Caxias e outras ca�deias de
Portugal apenas o peixe mi�do do regime deposto, pois a Caetano, o tal
fascista que fez correr muito sangue, tanto em Portugal como em �frica,
nenhum dos novos dirigentes se lembrou de det�-lo no pa�s para responder p�los
crimes que cometeu. Os supostos golpistas tratariam, eles pr�prios, de
proteg�-lo e conduzi-lo, s�o e salvo, para o ex�lio no Brasil.
O golpe de estado que a mem�ria hist�rica
n�o registou
Ainda que a
hist�ria considere o acontecimento militar do dia 25 de Abril como tendo sido
um Golpe de Estado, na ess�ncia, n�o passou de uma conspira��o que saiu
pela culatra, pois o verdadeiro golpe, esse, a despeito de n�o ter entrado nos
anais da hist�ria como tal, viria a tomar lugar cinco meses mais tarde, desta
feita conduzido por pol�ticos adstritos ao extremismo
de esquerda e com o denodado apoio dos militares afectos � Comiss�o
Coordenadora do MFA. A vi�t�ria do verdadeiro golpe seria, ent�o, celebrada a
30 de Setembro de 1974 com a apresenta��o da demiss�o de Ant�nio de Sp�nola do
cargo de Presidente da Rep�blica Portuguesa e com a imediata nomea��o do
General Costa Gomes para o cargo. Era o culminar da luta de consoli�da��o de
posi��es entre duas for�as (JSN e MFA) em confronta��o no xadrez pol�tico e
militar portugu�s.
Mas como � que se chegou a isso?
A par das derrotas militares
no terreno das opera��es em �fri�ca, o moral combativo do ex�rcito portugu�s,
que desde o in�cio da d�cada de 70 se via abalado pela incapacidade de conter
as incurs�es guerrilheiras dos nacionalistas em �frica, viu-se, em Julho de
1973 mais abalado ainda pela promulga��o do Decreto-Lei 353/73 de 13 de Julho,
da autoria do ent�o Ministro do Ex�rcito, general S� Viana Re�belo. Com efeito,
aquele Decreto-Lei feriu a consci�ncia da maioria dos Quadros Permanentes do
ex�rcito, alicer�ando nos mais esclareci�dos a ideia de uma revolta que
culminaria com a revolu��o de 25 de Abril. A medida ent�o legislada visava
refor�ar o n�mero de quadros ao n�vel dos capit�es e subalternos. Segundo
escreveriam Ant�nio Duarte e Jo�o Serafim, para resolver o problema, "o decreto-lei admi�tia a passagem
para quadro permanente de oficiais do quadro espe�cial de oficiais (os oficiais
milicianos) atrav�s da frequ�ncia de um curso intensivo na Academia militar. As
facilidades eram grandes: bastava aos capit�es milicianos com o 7� ano de
escolaridade e me�nos de 31 anos de idade obterem boas classifica��es e
frequentarem um curso acelerado de dois semestres em escola pr�tica para poda�rem
passar ao quadro, alguns deles inclusivamente a major. Preteri�am-se assim os
oficiais do quadro, com carreiras de esfor�o e anti�guidade, que se viam
ultrapassados pelas facilidades concedidas aos �mais novos. No corpo militar, a revolta
causada por este legisla��o foi grande. Processos individuais foram enviados ao
ministro do Ex�rcito para que este avaliasse cada uma das situa��es dos que se
consideravam injusti�ados. Come�aram simultaneamente a circu�lar dois
panfletos, chamados "Dos esp�rios aos puros" e "Estagna���o ou
progresso", com textos que remetiam para uma divis�o entre oficiais do
quadro e milicianos e cuja autoria ningu�m nunca apa�receu a reclamar. Perante
a contesta��o generalizada, S� Viana Rebelo tentou emendar a m�o com outro
decreto-lei, o 409/73, mas acabou por s� atenuar o anterior no que diz respeito
aos majores, deixando os capit�es em lit�gio"413.
Seriam ent�o estes
militares, a maioria dos quais capit�es, que teriam a miss�o de fazer frente �
norma estabelecida pela legisla��o 353/73 culminando com o 25 de Abril. Na
sequ�ncia desse Decreto, diversas reuni�es de car�cter conspirat�rio foram
sendo promovidos pelos militares. Mas segundo declara Mariz Fernandes, um dos
oficiais ligado � g�nese do 25 de Abril de 1974"414, embora se
tenha descambado numa revolu��o, para a maioria dos oficiais do ex�rcito estava
fora da inten��o o derrube do governo nos moldes em que veio a acontecer. O que
existia era uma reivindica��o visando repor a justi�a, e unia-os apenas uma
indigna��o corporativa.
���������� Contudo, perante uma catalisadora
situa��o como aquela, era natural que as for�as pol�ticas opostas ao ent�o
regime se embrenhassem na procura de vias de tirar o m�ximo aproveitamento
poss�vel da situ�a��o para fins pol�ticos. Melo Antunes, um dos expoentes
m�ximos do golpe de 25 de Abril, diria mesmo que "a maioria dos
oficiais partici�pou num golpe militar, num pronunciamento militar, sem saber
que estava a desencadear uma revolu��o"415. Vista
a quest�o neste pris�ma, �, de certa forma, leg�timo conferir raz�o a homens
como Mariz Fernandes e a todos aqueles que olham o problema corporativo como
tendo sido a raz�o do levantamento militar, pois n�o se pode atribuir o
protagonismo de uma revolu��o a indiv�duos que n�o t�m consci�ncia de estarem a
fazer uma revolu��o. Que se saiba, no Portugal colonial, as revolu��es estavam
sendo feitos em �frica, com povos armados que sabiam que estavam fazendo uma
revolu��o. Na ess�ncia, a maioria dos oficiais do ex�rcito portugu�s referidos
por Melo Antunes, ter� sido apenas um bando de idiotas �teis416 ao
servi�o daqueles que esta�vam, de facto, a fazer uma revolu��o no Portugal
continental. De modo que, na esperan�a de resolver um problema corporativo que
os afligia, a maioria desses oficiais viu-se apenas embrulhada numa situa��o
pol��tica de dif�cil controlo, visto que � frente das reivindica��es estavam
Melo Antunes, Otelo Saraiva de Carvalho e outros homens, que esta�vam, de
facto, fazendo uma revolu��o. E como "na guerra o moral est� para o
f�sico como tr�s para um"417,
estes senhores (os verdadei�ros mentores da revolu��o), cedo tratariam de
destruir o pouco que restava do moral combativo dos militares, antes de
vislumbrarem uma sa�da justa para a causa da descoloniza��o que pretendiam
enfrentar. Tanto Sp�nola como a sua JSN seriam ultrapassados p�los aconteci�mentos,
pois que a coberto das for�as da esquerda pol�tica portuguesa, e numa estreita
colabora��o com a Comiss�o Coordenadora do MFA, a Frelimo e outras for�as
nacionalistas de tend�ncia da esquerda radi�cal na "�frica
portuguesa", jogariam, legitimamente, uma cartada que visava conduzi-los
ao Poder sem mais delongas.
������� Longe de ser "verdade
absoluta" o propalado protagonismo de Sp�nola no derrube de Marcelo
Caetano e do seu regime, os dados indicam que a apari��o daquele general �
testa da Junta de Salva��o Nacional encerrava em si uma estrat�gia bem pensada
por parte da maioria dos oficiais marxistas radicais do MFA. � que na �poca,
Sp�nola era dos poucos generais que reunia condi��es capazes de dar
credibilidade a um golpe na esfera interna do pa�s. Longe de propalar as suas
ideias pol�ticas sobre o futuro do imp�rio portugu�s apenas nos bastidores,
corajosamente, contra a vontade de Caetano (que, repita-se, queria primeiro
desembara�ar-se dos comunistas de armas em pu�nho na "�frica
portuguesa") acabou publicando-as no seu livro - Por�tugal
e o Futuro. A despeito dos ultra-direitistas o terem rotulado de "cobarde"
e "vende-p�tria", o livro proporcionou ao general enorme prest�gio na
esfera militar e na maioria da opini�o p�blica portuguesa. Portugal e o
Futuro, que saiu � rua a 22 de Fevereiro de 1974, exacta�mente no auge do
reboli�o provocado pelo Decreto-Lei 353/73, foi reimpresso cinco vezes
seguidas, com um total de vendas que atingiu os 250.000 exemplares. Nele,
Sp�nola procurava abertamente confron�tar os dogmas do regime e lan�ava o seu
apelo para um repensar na estrat�gia da manuten��o da honra portuguesa
no que se denominava "Portugal Ultramarino". Embora Caetano
concordasse com as opini��es do general, entendia que a publica��o desses
ideais fora precipita�da. Teimava em desfazer-se primeiro dos terroristas em
�frica para posteriormente introduzir reformas. Por consequ�ncia, a 14 de
Mar�o, demiti-lo-ia, na companhia de Costa Gomes dos cargos de Vice-Chefe e
Chefe do Estado Maior General das For�as Armadas, respectivamen�te, alegando,
como pretexto, a aus�ncia de ambos na cerim�nia de so�lidariedade para com o
regime, levado a cabo pelos tr�s ramos das For�as Armadas a 5 de Mar�o. Os dois
homens passariam ent�o a "sus�peitos pol�ticos". Doze anos mais
tarde, Aquino de Bragan�a, dava o seu ponto de vista
em torno do livro de Sp�nola nos seguintes termos:
-"A
posi��o de Sp�nola, tal como foi definida no seu livro, era parte de um
projecto coerente e bem elaborado; em s�ntese, Sp�nola acreditava que era
necess�rio democratizar Portugal para descolonizar, e ele conseguiu
ganhar o apoio dos maiores partidos antifascistas para esta pol�tica porque, na
realidade, tomou algumas medidas efectivas no sentido de uma ordem
democr�tica"418.
�������
Cientes do prest�gio de Sp�nola, alguns oficiais do exercito � testa das
reivindica��es despoletadas pelo Decreto/Lei 353/73, ent�o surpreendidos com a
medida da sua destitui��o, procurariam, j� aber�tamente419 , usar a
sua figura como trampolim para prossecu��o dos seus objectivos. Todavia, estava
claro que no MFA havia duas linhas distintas em confronta��o, uma linha virada
para a esquerda radical e outra linha que nutria simpatia pela moderada social
democracia. Era preciso conduzir uns � fossa para o pleno controlo do
movimento. A tentativa de golpe de estado falhado a 16 de Mar�o, trataria ent�o
de criar as condi��es para o almejado controlo do movimento, pois,
estranhamente, dessa intentona cairiam nas malhas da PIDE/DGS ape�nas os
oficiais moderados que comungavam os ideais de Sp�nola. Otelo Saraiva de
Carvalho, Melo Antunes, Pinto Soares e outros ligados a extrema esquerda no
movimento, astutamente, escapariam e tomariam por completo o controlo da
direc��o do movimento. E a fruta podre, finalmente, se desprenderia �s zero
horas de 25 de Abril, j� com esses senhores a testa do movimento.
Mas se o
golpe de 25 de Abril n�o colheu de surpresa a nata esclarecida tanto em
Portugal como nas col�nias, o mesmo n�o se pode dizer da maioria das pessoas
menos esclarecidas. Para muitos, de re�pente, Portugal assim como as suas
col�nias em �frica, entravam numa nova era. Politicamente, uma luz no fundo do
t�nel se vislumbrava. Todavia, para a solu��o dos conflitos nas col�nias
portuguesas em �fri�ca, Sp�nola advogaria o "evangelho" consagrado no
seu livro Portugal e o Futuro. Apesar da ambiguidade do discurso de
Sp�nola, algo de novo e salutar surgia na pol�tica portuguesa. Pela primeira
vez na hist�ria daquele pa�s estava aberto o caminho para um di�logo
democr�tico na medida em que tanto o programa do MFA, (que o pr�prio Sp�nola
ajudou a elaborar) como o da JSN, garantiam para "todo o povo Por�tugu�s
na Metr�pole e no Ultramar"420 liberdades c�vicas e
pol�ticas que outrora eram negadas pelo regime deposto.
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Entretanto, a posi��o da JSN liderada pelo General Ant�nio de Sp�nola
era uma clara demonstra��o da inten��o do novo regime man�ter o imp�rio por via
de novas formas de governar os povos coloniza�dos - o
neocolonialismo. Perante a press�o que se exerceu contra isso, n�o tardou que
Sp�nola e seus seguidores se vissem na obriga��o de mudar de discurso,
aceitando sem delongas a ideia de independ�ncia total e completa das
col�nias, mas, desta feita, atrav�s de processos democr�ticos que garantissem
instalar regimes multipartid�rios tanto em Portugal, como nas col�nias, porque
de contr�rio fechar-se-ia a porta da coloniza��o ocidental para, por tr�s, se abrir
a do radicalismo de esquerda com a b�n��o de Moscovo e Pequim. Era imperioso fe�char
as portas ao radicalismo de esquerda. Sp�nola e seus seguidores esfor�ar-se-iam
ent�o por apoiar a ideia de emerg�ncia na "�frica por�tuguesa" de
partidos pol�ticos para contestarem elei��es democr�ticas. Era tarde demais.
A inten��o de
conduzir as col�nias � independ�ncia por pro�cessos democr�ticos de regimes
multipartid�rios, cedo seria descober�ta pelas for�as do imp�rio do leste
europeu e, usar-se-ia o PCP do Dr. �lvaro Cunhal e o MDP/CDE do Dr. Pereira de
Moura para contrariar o processo. Com efeito, a casta comunista radical
portuguesa, ardilo�samente, usaria algumas figuras de proa na ent�o Comiss�o
Coordena�dora do MFA para impor os des�gnios da Internacional Comunista na
descoloniza��o portuguesa em �frica.
�������� N�o � nossa inten��o debru�armo-nos a
fundo sobre as convul�s�es pol�ticas portuguesas imediatamente ap�s o 25 de
Abril, por se tratar de mat�ria para uma obra volumosa. Mas � importante anotar
que o que � primeira vista aparentava ser coes�o de princ�pios e objec�tivos
entre o MFA (dono do bem conquistado) e a JSN (gestor do bem conquistado), em
poucos dias, depois do golpe, demonstrou ser dois poderes com fins
completamente diferentes que, cedo, trariam � luz do dia as suas inten��es
diametralmente contr�rias. Anos mais tarde, S�r�gio Vieira, um homem ligado ao
poder em Mo�ambique, confirmaria esta ila��o numa entrevista televisiva a TVM
em Mo�ambique421. Segundo Vieira, ap�s o golpe de Estado em Portugal,
a Frelimo aperce�beu-se de que havia dois poderes em Lisboa. Era necess�rio
descobrir qual dos dois poderes controlava a situa��o. A confirma��o do facto
de que a casta comunista portuguesa havia movido os cordelinhos na ent�o
Comiss�o Coordenadora do MFA, agradou sobremaneira os fu�turos dirigentes de
Mo�ambique que, imediatamente, iniciaram con�versa��es secretas com esse grupo,
passando por cima de Sp�nola. A insubordina��o atingia assim raias que bradavam
os c�us. Dias ap�s o golpe, formado que foi, a 16 de Maio, o novo e primeiro
governo pro�vis�rio que conduziria os destinos de Portugal para as elei��es
gerais, a anarquia atingiria n�veis insustent�veis a ponto de n�o se saber quem
mandava em quem em Portugal. Isso for�aria, a 9 de Junho, a demiss�o desse
governo liderado pelo Professor Dr. Adelino da Palma Carlos. Praticamente, o
poder estava na rua e, Sp�nola, gradualmente, ia vendo as suas inten��es sendo
energicamente contrariadas pela casta estalinista do MFA que, at�, acabou
impondo a nomea��o de Vasco Gon�alves para o cargo de Primeiro Ministro,
formando-se, deste modo, o segun�do governo provis�rio. Vasco Gon�alves,
elemento do MFA, estava fortemente ligado � estrat�gia do Partido Comunista
Portugu�s - PCP - e a sua nomea��o veio animar as
aspira��es das for�as do imp�rio do leste, pois catalisava os processos de
descoloniza��o nos c�nones da Internacional Comunista.
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Com efeito, a despeito de o inicial programa do MFA tamb�m consagrar
liberdades c�vicas e pol�ticas a todos os cidad�os portugue�ses "do
Minho a Timor", n�o tardou que a falta de vergonha se apos�sasse dos
comunistas portugueses. Tal como acontecia nas disputas pol�ticas na Europa do
leste de ent�o, onde o consagrado nos papeis se
pontapeava ao sabor das ditaduras nos c�nones do radicalismo de es�querda, as
garantias de liberdades invocadas pelos progressistas por�tugueses cedo
se revelariam cosm�ticas. Transformar-se-ia o dito por n�o dito e o escrito por
n�o escrito. Os comunistas afectos � Comiss�o Coordenadora do MFA n�o
cumpririam com o plano inicialmente ela�borado que, em abono da verdade, fora a
raz�o catalisadora dos massivos regressos dos exilados pol�ticos tanto a
Portugal como �s suas col�nias em �frica422. N�o cumpririam com o
programa inicialmente elaborado que, na ess�ncia, fora a raz�o do banimento da
DGS - pol�cia pol�tica de Marcelo Caetano que
substitu�ra a PIDE de Ant�nio de Oliveira Salazar - e a catalisadora da
liberta��o da maioria dos prisioneiros pol�ticos, tanto em Portugal como nas
suas col�nias em �frica.
Das
garantias de liberdades c�vicas propaladas ap�s o 25 de Abril, resultou ent�o
que surgissem novas inten��es pol�ticas em todo o imp�rio portugu�s, que se
manifestava por via de constitui��o de associa��es de car�cter pol�tico por
todos os lados. No Portugal conti�nental, por exemplo, os que se mantiveram no
pa�s, optando pela clan�destinidade na era salazarista, emergiam da
clandestinidade imposta pelo anterior regime e, � luz do dia, procuravam fazer
valer os seus pontos de vista e ideais pol�ticos. Em Mo�ambique, como
cogumelos, surgiram num espa�o de dois meses cerca de uma dezena de forma��es
pol�ticas, uns aceitando a autodetermina��o defendida por Sp�nola e seus
seguidores, outros advogando uma independ�ncia total e com�pleta que
passasse por um di�logo profundo entre as novas autorida�des e todas as
tend�ncias pol�ticas existentes em Mo�ambique.
Para alcan�ar uma independ�ncia
total e completa - entendiam alguns - era necess�rio fazer uso das
liberdades invocadas pelas novas autoridades e encontrar espa�o para um di�logo
que conduzisse ao objectivo pretendido sem mais delongas. '��
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Do ex�lio, Uria Simango acompanha o desenrolar dos aconteci�mentos tanto
em Portugal como em Mo�ambique. Entende que tem uma palavra a dizer para a
descoloniza��o do seu Pa�s. Sabe que as novas autoridades Portuguesas, cedo
seriam for�adas pelas circunst�n�cias do momento a ter que negociar um
cessar-fogo e a independ�ncia do pa�s. O surgimento de novas for�as pol�ticas
no interior do pa�s que clamavam por uma independ�ncia que passasse por um
processo de�mocr�tico multipartid�rio, encorajaram-no, a ele, e aos seus
correligi�on�rios do Coremo, a pensar num regresso a Mo�ambique para contri�buir
no processo de descoloniza��o e ascens�o do pa�s a independ�n�cia. Havia duas
imperativas tarefas a executar - disse Simango: -'Uma,
era for�ar por viu de di�logo as novas autoridades a garantir uma independ�ncia
total e completa do pa�s por via de um processo de�mocr�tico. Alcan�ado que
fosse este primeiro objectivo, de seguida, Portugal devia encetar negocia��es
com vista a um cessar-fogo com a Frelimo, pois apenas a Frelimo � que empunhava
armas no terre�no"423 . Segundo entendia o
Reverendo Simango, enquanto que o ces�sar fogo era assunto e mat�ria de discuss�o
entre os dois beligerantes no terreno - a Frelimo e o
Governo Portugu�s - a quest�o das modali�dades de ascens�o do pa�s �
independ�ncia dizia respeito a todos os mo�ambicanos. Para tal, todas as for�as
pol�ticas existentes no pa�s tinham uma palavra a dizer, pois "o
facto de um movimento lutar durante v�rios anos para a independ�ncia dum
determinado pa�s, n�o implica que todos os filhos desse pa�s sejam a favor
desse movi�mento, em termos ideol�gicos e na mat�ria de governa��o. � natu�ral
que existam outras opini�es nesse pa�s; mesmo que sejam mino�rias, merecem o
seu devido respeito"- dizia Simango424.
������������ Uma vez mais, Uria Tim�teo Simango
seria tra�do pelo desti�no. A Frelimo n�o aceitaria qualquer outra for�a
pol�tica no pa�s. Invo�caria uma legitimidade exclusiva na representa��o do
povo mo�ambicano, decorrente da luta armada de liberta��o nacional, e "con�tada
n�o por votos, mas por mortos"425 tanto em combate como
na sua lend�ria saga de assassinatos. Homens como Marcelino dos San�tos, que
ontem se entregaram � luta pela liberdade dos povos de forma denodada, hoje,
seriam os que negariam as liberdades que sempre in�vocavam426 .
Segundo escreveria um dos defensores do regime pol�tico que meses depois se instalaria em Mo�ambique, a posi��o da Frelimo "baseava-se numa an�lise
sistem�tica, n�o apenas sobre Mo�ambique e sobre o contexto da �frica Austral,
mas tamb�m so�bre lutas e transfer�ncias do poder como as que se verificaram no
Vietname e na Arg�lia"421.
Mas tanto Simango como outros mo�ambicanos haviam igual�mente feito uma
an�lise comparativa do que se passara com outros processos de descoloniza��o no
mundo. Era contra o totalitarismo ins�talado nesses pa�ses que se visava
desenhar uma solu��o que garantisse uma paz efectiva em Mo�ambique. De forma
nenhuma se devia seguir maus exemplos apenas porque decorreram de lutas
armadas. Era impe�rativo lutar contra a ambiguidade dos discursos populistas.
E, para essa direc��o, Simango e seus companheiros procuraram ent�o dirigir as
suas ac��es, numa clara demonstra��o de que se acreditava na imperatividade de
democratizar para descolonizar. De contr�rio, cor�ria-se o risco de atirar para
a fossa milhares de almas em Mo�ambique. Como que corroborando com o pensamento de Simango e outros, em
Portugal, Sp�nola e os seus mais pr�ximos colaboradores na JSN afi�nam pelo
mesmo diapas�o.
Perante o
novo quadro que se lhe apresentava, a Frelimo vira a mesa. Numa posi��o pouco
clara na esfera dos procedimentos demo�cr�ticos, ilustrando a inten��o
totalit�ria subjacente nos seus dirigen�tes, a Frelimo assume publicamente que "a
descoloniza��o era uma necess�ria condi��o pr�via � democratiza��o e n�o o
contr�rio"42*. Estranhamente, o abusivo uso que
o movimento faz do conceito de democratiza��o passa despercebido em
Portugal. Na ess�ncia, a Frelimo falava da independ�ncia, o que de certa forma
era legitimo. Mas, de que independ�ncia se falava na
aus�ncia de uma assembleia constituin�te democraticamente eleita por sufr�gio
universal, ningu�m da nova autoridade portuguesa se dignou a perguntar.
Conquistado o poder por via da exclus�o de outras tend�ncias pol�ticas no pa�s,
o que garan�tia que a Frelimo proclamasse a independ�ncia e, imediatamente, con�vocasse
elei��es livres para uma assembleia constituinte a quem cou�besse a miss�o de
elaborar uma constitui��o democr�tica para, posteri�ormente, formar o governo e
convocar elei��es presidenciais? Nada. Estava claramente expl�cita a nega��o da
democracia que se invocava em Nachingweia. E ter� sido a coberto de um maquiav�lico
pacto com algumas figuras sonantes da ent�o pol�tica portuguesa, que S amora
Machel e seus companheiros passearam a sua classe, atirando areia aos olhos dos
demais, numa clara demonstra��o de prepot�ncia e da nega���o da liberdade
democr�tica. Discursando a 3 de Maio de 1974 por ocasi�o de uma sess�o especial
do Comit� Central destinada a discutir a nova situa��o em Portugal, de entre
v�rias coisas que gorgolejou, o ent�o presidente da Frelimo voltou a falar da democracia
como se esta se compadecesse com o totalitarismo pol�tico. Afirmou ent�o o
presi�dente da Frelimo:
"(...) da mesma
maneira que o povo portugu�s tem o direito incontest�vel � independ�ncia e �
democracia, estes mesmos direi�tos n�o podem ser negados ao povo
mo�ambicano. N�s lutamos por estes direitos essenciais e elementares (�)429.
Todavia, na
pr�tica, a Frelimo n�o se esfor�ava por criar as bases pelas quais se
assentaria a democracia que invocava ser incontes�t�vel defensora. Perante a
incongru�ncia entre os discursos e os actos, n�o deixou de ser estranho que
homens esclarecidos tais como, Melo Antunes, Costa Gomes e outros, pactuassem
com o rid�culo. Numa situa��o em que se falava de democracia, aqueles
senhores abstiveram-se de denunciar a ambiguidade subjacente nos discursos da Frelimo
que, a olho nu, prenunciavam a cat�strofe para os povos do pa�s que arvoravam
muito amar e querer ver livre da opress�o. Todos sabiam que a "independ�ncia
� um direito inalien�vel dos povos coloniza�dos", mas, igualmente,
como homens esclarecidos que eram, sabiam que a democracia pol�tica fundava-se em bases pluralistas, consubstanciada na
institucionaliza��o dos porta-vozes do povo, atra�v�s de associa��es de
car�cter pol�tico. "De que democracia ent�o se falava se na pr�tica
negava-se a exist�ncia de outras for�as pol�ti�cas no pa�s? " - pergunta uma das nossas fontes que acrescenta: "To�dos
sabiam que as associa��es de massas existentes noutros quadrantes do mundo do
radicalismo de esquerda, nada eram se�n�o departamentos do partido reinante.
M�rio Soares, Melo Antunes, e todos aqueles que estavam no poder em Portugal
sabiam disso mas fecharam os olhos "43�.
Com efeito, o
desenrolar dos acontecimentos tanto em Portu�gal como nas suas col�nias em
�frica, ilustraria a per�cia de alguns comunistas e "democratas"
portugueses. � que, igualmente, os centros de gravita��o dos ideais do
radicalismo de esquerda tanto em Moscovo como na terra de Marti na Am�rica
latina, estavam atentos. Nada devia impedir a
prossecu��o de um objectivo esperado a longos anos: "pene�trar em
�frica e estender as zonas de influ�ncia da ditadura do pro�letariado no
mundo". De forma nenhuma se deitaria "�gua-abaixo" todo
o apoio dispensado aos comunistas portugueses durante os anos dif�ceis da sua
clandestinidade na era salazarista. Era preciso ditar as regras do jogo, se n�o
na Pen�nsula Ib�rica, onde a Espanha certamen�te n�o o permitiria, ao menos na
�frica Austral.
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Deste modo, com os dados bem estudados, a casta marxista que dirigia o
MFA, com o apoio de Costa Gomes na JSN, gradualmen�te, foi-se impondo a todo o
terreno � JSN. Sp�nola, sem controlo da situa��o, v� o seu poder a
desmoronar-se em apenas tr�s semanas ap�s o golpe. O primeiro de Maio de 1974
seria comemorado pela primeira vez em Portugal com pompa e circunst�ncia, com
os pol�ticos da MDP/ CDE, do Partido Comunista Portugu�s e do Partido
Socialista a invo�carem os "feitos gloriosos dos trabalhadores oper�rios
e camponeses portugueses� no derrube do regime salazarista. Pela
primeira vez na hist�ria de Portugal, os slogans marcadamente do leste europeu
ecoa�vam de viva voz, do Minho ao Algarve, e, apelava-se a "consciencializa��o
das massas trabalhadoras ", etc., etc. A principal arma
para p�r o oper�rio na rua - nos ditames comunistas do
marxismo-leninismo - era o incitamento � greve. "� necess�rio
combater a burguesia e impor a ditadura do proletariado!..." - apelavam os radi�cais da esquerda pol�tica
portuguesa. Toda a fun��o p�blica se escan�galhava a olho nu, tanto em
Portugal, como em Mo�ambique, dando espa�o aos "progressistas". A
situa��o, redundava numa tremenda con�fus�o. Um
analista estrangeiro, que na circunst�ncia acompanhava com vivo interesse todos
os acontecimentos, apelidaria Portugal e suas co�l�nias de manic�mios em
autogest�o. Em Mo�ambique, os �rg�os de informa��o iniciavam, por via de
instru��es bem dadas, a purga contra os "contra-revolucion�rios"
e "reaccion�rios". A revista TEMPO, en�t�o j�
assaltada por falsos democratas escondidos no que se denomina�va de Movimento
dos Democratas de Mo�ambique431, abria cada edi���o semanal com
reportagens enaltecendo a Frelimo de Samora Machel e Marcelino dos Santos,
hostilizando as demais for�as emergentes, de�nominando-os de fantoches e
vende-p�trias. A miss�o era assegurar espa�o para se escangalhar tudo;
desorganizar para se dar a ideia de que tudo estava estragado. Era a dor do
parto do "messias redentor", cujo processo de gesta��o - que durou mais de 10 anos - havia ferido a consci�ncia e a
moral de muitos do lado de l�. Mal sabiam os "paro�quianos" que uma
vez salvos das trevas em que Salazar os havia mer�gulhado, cedo os esperavam
outras profundezas. E as hossanas se can�taram. Anos mais tarde, as
vozes a quem coube a miss�o de preparar o terreno para a ocupa��o do trono
almejado longe de plebiscitos, con�firmam a natureza do seu envolvimento na
causa da "liberdade" do povo mo�ambicano:
"(...),
quando chegou o momento da pr�-independ�ncia, 1974, no per�odo de transi��o,
a Frelimo pediu-me para que eu, como se dizia, na altura, me infiltrasse. Havia
uma campanha de infiltra��o nos �rg�os de informa��o, que estavam nas m�os dos
portugueses. E eu fui destacado para essa tarefa. Gostei muito de fazer isso,
por�que tinha ideia de que estava fazendo qualquer coisa �tica, em nome
dopais"432.
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Abner Sans�o Muthemba433 afirma que o Dr. Ant�nio Almeida
Santos, ent�o titular da pasta de Coordena��o Inter-territorial, nomeou-o, sem
seu conhecimento, director da R�dio Psico-Social. Muthemba ficou apavorado,
receoso por n�o saber como a not�cia seria encarada pela Frelimo em Dar
es-Salam. Todavia, poucos dias depois estava na Tanz�nia no seio da nata da
Frelimo e recebe desta a tarefa de ocupar a R�dio, mas com a miss�o de - segundo suas pr�prias palavras - "escan�galhar".
Quarenta e oito horas antes de expirar o prazo da apresenta���o, Muthemba tomou
posse. Franquear as portas da r�dio Voz de Mo�ambique, foi o passo a seguir434.
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Enquanto isso, o "democrata" Rui Baltazar assegurava a revista
TEMPO. Os democratas filiados tanto no movimento Portugu�s, como no
Movimento dos Democratas de Mo�ambique, viravam a casaca e pontapeavam todos os
princ�pios democr�ticos que norteavam seus movimentos. Os ideais que os mo�veram
a apoiar a candidatura do general Humberto Delgado e a traba�lhar para a
vit�ria deste nas elei��es de 1958 em Mo�ambique, eram ent�o postos de lado.
Iniciava-se, assim, uma prostitui��o mental sem precedentes, numa
descompostura em que as benesses a receber do pacto com o aguardado
"messias" superavam a firmeza da moral e dos ideais ontem defendidos.
Da autoria de indiv�duos que se prezavam democratas em Mo�ambique, sucediam-se
artigos nos �rg�os de co�munica��o social, de apoio � Frelimo como o �nico e
leg�timo repre�sentante das aspira��es do povo mo�ambicano. Ditavam-se
assim as regras do jogo usando como arma principal o "quarto poder".
Sp�nola foi
perdendo gradualmente o poder. As suas opini�es e instru��es come�aram a ser
deliberada e estrategicamente contraria�das pela ala marxista no seio da MFA.
Na pr�tica, havia um outro go�verno, invis�vel, liderado pelo General Costa
Gomes e Vasco Gon�al�ves (os pontas de lan�a marxista-leninista na JSN e no
MFA). Homem oportunista, Costa Gomes fora, ali�s desde sempre, a pessoa a quem
� maioria dos oficiais de Abril pretendera confiar a lideran�a do golpe. Este, recusou-se a colaborar e a dar a cara, com receio dum
poss�vel fracasso da intentona. Gomes desapareceu da circula��o no momento
crucial e s� sairia da sua toca e chegaria ao Quartel da Pontinha para
colher os louros, apenas depois de se certificar do �xito do levanta�mento
militar de 25 de Abril.
Nos
derradeiros momentos de concerta��o de posi��es, visan�do criar um clima de paz
que assegurasse uma transi��o pac�fica em Mo�ambique, a tentativa de Sp�nola
nomear o general Silv�rio Mar�ques para Alto-comiss�rio de Mo�ambique seria
energicamente con�trariada por Gomes e seus pares marxistas na Comiss�o
Coordenado�ra, que acabaram por impor outro marxista (Victor Crespo) para o
cargo. No meio da anarquia instalada tanto em Portugal como em Mo�ambique,
Sp�nola, saturado da deliberada insubordina��o da ala marxista no MFA, para
alegria do Partido Comunista Portugu�s, de Moscovo, de Havana e, naturalmente,
de Machel e dos Santos, acaba�ria cedendo o seu cargo ao general Costa Gomes a
30 de Setembro. Estava feito o verdadeiro golpe.
Segundo
escreveria um analista da convuls�o pol�tica da �po�ca, dentre os pol�ticos
portugueses de ent�o, M�rio Soares ter� sido um dos poucos que n�o embarcou nos
des�gnios de Moscovo. As suas posi��es, tanto em Lusaka (como ver-se-� mais
adiante) como em Lis�boa, indicam que era por uma solu��o democr�tica no
processo da descoloniza��o. S� que Soares n�o permaneceria por muito tempo na
sua linha de pensamento, a despeito de ter tido "um papel importante
na travagem da expans�o de Moscovo atrav�s do PCP em Portu�gal, a ponto de
recorrer ao apoio americano, como ele confirma numa s�rie televisiva da SIC "435.
Para o analista em refer�ncia, "o problema � que o caos estava
instalado em Portugal, e M�rio Soares n�o teve outra alternativa sen�o seguir o
rumo dos destinos. Foi ultrapassado pelo Saraiva e por Melo Antunes, pois nas
negocia��es de Junho em Lusaka defendia elei��es em vez duma entrega incon�dicional
das col�nias. Mas, perante um facto consumado -
referin�do-se �s press�es do Saraiva e do Melo Antunes - Soares, tal
como outros no primeiro governo provis�rio, pouco tinha a fazer para n�o perder
o comboio"�. Contudo, - acrescenta
aquele analista - frente aquela situa��o, dignamente, alguns acabaram pedindo
demiss�o. "S� Carneiro,
por exemplo, fez isso. M�rio Soares, esse, permaneceu porque o problema
colonial era para ele secund�rio. O alvo dele era o poder em Lisboa437.
E n�o tardou a consegu�-lo.
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De facto, analisado M�rio Soares numa perspectiva racional do fen�meno
pol�tico, a pseudo-tese do vale um cobarde vivo do que um her�i morto vingou.
Soares ter� desempenhado com arg�cia o seu pa�pel a ponto de cedo se ver
for�ado a entrar, com todo o seu ser, na linha dos defensores da causa da independ�ncia
de Mo�ambique nos c�nones do radicalismo de esquerda. Curiosamente, Soares
� citado por S�rgio Vieira como tendo estado presente em Dar es-Salam numa
miss�o se�creta da qual faziam parte Melo Antunes e Almeida Santos. Os tr�s
haviam-se deslocado secretamente em Agosto de 1974 � Dar es-Salam para, com a
Frelimo, acordar os termos finais dos textos a assinar em Lusaka. A desloca��o
secreta dos referidos dignit�rios portugueses a capital tanzaniana efectuara-se
exactamente numa altura em que uma delega��o de alto n�vel da Uni�o Sovi�tica
igualmente se encontrava em Dar es-Salam para conversa��es com os dirigentes da
Frelimo438.
De notar
que a 10 de Maio de 1975, o jornal portugu�s Expres�so publicava uma
extensa entrevista do jornalista Augusto de Carvalho � Aquino de Bragan�a.
Nele, Bragan�a � citado como tendo afirmado que Melo Antunes e Almeida Costa se
haviam deslocado, secretamente, a Dar es-Salam, de 30 de Julho a 2 de Agosto,
para entabular conver�sa��es com a Frelimo que culminaram com o reconhecimento
da ex�clusiva legitimidade do MFA e da Frelimo de representar os interesses dos
povos portugu�s e mo�ambicano, respectivamente. A nota saliente dessa
desloca��o, segundo tudo indica, � que fora feita sem pr�vio conhecimento do
ent�o chefe do Estado portugu�s, o general Ant�nio de Sp�nola.
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A menos que tenha havido dois encontros secretos entre os representantes
das novas autoridades portuguesas e a Frelimo, durante os meses de Julho e a
primeira semana de Agosto daquele ano, tudo indica que, deliberadamente, ou
S�rgio Vieira mente, ou Aquino de Bragan�a ocultou os nomes de M�rio Soares e
Almeida Santos por inten��o (aquando da entrevista com Augusto de Carvalho),
pois n�o faz sentido que Bragan�a n�o se lembrasse, em 1975, que Melo Antunes e
Almeida Costa estavam em Dar es-Salam na companhia daqueles dois senhores. A
ser verdadeira a informa��o de Vieira, isto �, um con�tacto entre o Ministro
dos Neg�cios Estrangeiros portugu�s e a Frelimo, a margem de qualquer pol�tica
concertada com a Presid�ncia da Rep��blica, ent�o, tudo fica esclarecido:
Sp�nola estava de facto numa posi���o inc�moda. Perante uma cabala de dimens�es
imensur�veis como aquela, nada restava sen�o entregar o comando dos destinos
dos povos portugu�s e mo�ambicano aos que se arvoravam donos da causa. E tudo
indica que f�-lo de cabe�a erguida, depois de se ter dado conta do rumo dos
acontecimentos, e provavelmente da trai��o de Soares e Almeida Santos, pois
Sp�nola tinha apenas conhecimento de que aqueles dois dignit�rios do seu elenco
governamental, na companhia do Ministro sem Pasta major Melo Antunes, haviam se
sentado em Dar es-Salam com os dirigentes da Frelimo em 15 e 16 de Agosto, e
n�o antes, ou numa desloca��o secreta de que n�o tivesse tido
conhecimento. Do conhecimento de Sp�nola se regista apenas um contacto secreto
de Melo Antunes com a Frelimo, e n�o M�rio Soares. Segundo o pr�prio Sp�nola,
Antunes viria at� a constranger os seus companheiros imediatamente ap�s a sua
chegada a Dar es-Salam para o encontro de 15 e 16 daquele m�s, pois sem que os
outros componentes da delega��o portuguesa tivessem disso conhecimento, viria a
saber-se que Antunes, a despeito de ter sido chamado aten��o para n�o fazer
contactos fora do �mbito do consertado superiormente pela nova administra��o
portuguesa, as�sim que desembarcou em Dar es-Salam, tratou de entrar em
contacto com o Presidente Nyerere e os dirigentes da Frelimo para, com estes,
concertar posi��es sem o conhecimento do chefe da delega��o, o Dr. M�rio
Soares. E longe de dignificar o seu papel de negociador, segun�do ainda
Sp�nola, Antunes viria a comportar-se como um membro da Frelimo durante os dois
dias de debate (15 e 16 de Agosto).
Desfiando a teia
Sp�nola foi apenas uma arma que o
radicalismo da esquerda portuguesa usou visando dar credibilidade ao golpe de
25 de Abril. Era o homem do dia naqueles momentos turbulentos nas esferas
pol�tica e militar em Portugal. Nunca foi, no verdadeiro sentido da palavra, o
c�rebro do golpe de 25 de Abril apesar de o seu nome ter soado mais do que
nenhum outro na �poca. Consolidado que fosse o derrube do regime de Marcelo
Caetano, a cartada de conduzir os processos da descoloniza��o a seu favor - certamente calcularam os comunistas portugueses
-jogar-se-ia no terreno. E foi o que se fez. Melo Antunes, por exemplo, sacudiria
o capote da forma mais inteligent�ssima poss��vel, como se apenas houvesse
conhecido Sp�nola e seus ideais s� de�pois do 25 de Abril. Para ele, foi "um
grave erro convidar Sp�nola para a direc��o do novo regime, principalmente
porque os seus pro�jectos para a descoloniza��o nada tinham a ver com as raz�es
do 25 de Abril dos capit�es que, apesar das suas limita��es,
nunca tencionariam recolonizar Angola, Mo�ambique ou Guin�. A nossa esco�lha
era o general Costa Gomes com o qual o MFA poderia sempre trabalhar sem trair
os seus princ�pios"439 .
Com efeito, o General Sp�nola demorou a perceber o papel de bombo da festa
a que estava reduzido. Quando deu por ela, de Bel�m apenas tinha o nome de
presi�dente e n�o o poder. Para ilustrar a ila��o destes factos, vamo-nos
socorrer de um dos principais c�rebros do 25 de Abril -
o Major Otelo Saraiva de Carvalho (O.S.C.).
Vinte e
cinco anos mais tarde, Otelo Saraiva de Carvalho reve�laria factos in�ditos da
dimens�o conspirat�ria exercida p�los radicais de esquerda ap�s o 25 de Abril.
As suas palavras ilustram o qu�o algu�mas figuras portuguesas, deliberadamente,
maquinaram o dram�tico destino que se abateria sobre Mo�ambique. No decurso
duma entrevis�ta, Saraiva de Carvalho falou dos primeiros contactos mantidos
com M�rio Soares e �lvaro Cunhal. N�o oculta o enredo em que se envol�veu na
trama contra a liberdade dos povos que dizia amar.
O. S.
C. - Acabei por n�o ter muitos contactos com l�deres pol��ticos, porque estava
mais ligado � quest�o militar. Quem assumiu de facto essas fun��es de contacto
com as figuras pol�ticas, em represen�ta��o do MFA, foi mais a Comiss�o
Coordenadora, com Melo Antunes, regressado dos A�ores, V�tor Alves, o Vasco
Louren�o, o Charais, o V�tor Crespo. Mais tarde, durante o PREC440,
� que venho a ter con�tacto com essa gente. Fui solicitado para encontros com
figuras pol��ticas. Curiosamente, o meu afastamento da vida pol�tico-partid�ria
da clandestinidade era t�o grande que eu nunca tinha ouvido falar de �lvaro
Cunhal. Do M�rio Soares tinha ouvido falar, at� por causa da CEUD441
em 1969, e o primeiro contacto que tenho com ele � em Junho, princ�pios de
Julho de 1974, quando sou chamado a Bel�m pelo Sp�nola, j� Presidente da
Rep�blica. Pediu-me para acompanhar em delega��o M�rio Soares ent�o Ministro
dos Neg�cios Estrangei�ros, �s conversa��es preliminares com a Frelimo. Chamou-me
a Bel�m as 9 horas da noite j� na v�spera da partida, para me dar especifica�mente
a miss�o, como representante do MFA. de vigiar M�rio
Soares, que levava ordens de Sp�nola para obter a
todo o custo o cessar-fogo em Lusaka.
P. - Vigiar como?
O.S.C. - Sp�nola queria que a
Frelimo assinasse o cessar-fogo connosco para, a partir da�, estabelecer
mecanismos de conversa��o e ver como seria poss�vel encaminhar o pa�s para uma autodetermi�na��o
ou para elei��es. Ele tinha ainda a perspectiva de que se deviam criar partidos
em Mo�ambique. Angola. Guin�, etc.. tornando poss�vel
uma elei��o parlamentarista. E eu levei essa miss�o de vigi�ar M�rio
Soares, para saber se ele se batia por trazer o cessar-fogo a todo o custo nas
conversa��es preliminares com a Frelimo.
P. - Como decorreram as conversa��es em
Lusaka?
O.S.C. - Eu cumpri
rigorosamente a miss�o de vigil�ncia a M�rio Soares. E o M�rio Soares cumpriu
exactamente a miss�o de que tinha sido incumbido pelo general Sp�nola. Nessas
conversa��es, a nossa delega��o era mixiruca - o
ministro dos Neg�cios Estrangei�ros, eu, como elemento do MFA, e um elemento do
gabinete do M�rio Soares, que era o Manuel S� Machado, primo directo do V�tor
S� Machado - enquanto a delega��o da Frelimo tinha nove elementos, todos eles
futuros ministros, e era chefiada pelo pr�prio Samora Machel. Era uma delega��o
muito forte e ia ali preparada para con�versa��es s�rias. M�rio Soares bateu-se
denodadamente pela obten���o do cessar-fogo. O problema � que os argumentos da
Frelimo eram extremamente s�lidos, queriam a transfer�ncia do poder, e Samora
Machel apontou claramente a fragilidade enorme das For�as Arma�das portuguesas
no terreno: "voc�s sabem que, neste momento, estamos a ocupar os vossos
quart�is e que o vosso Ex�rcito j� n�o est� disposto a continuar o combate.
" Eu. logo � partida coloquei-me
deliberadamente ao lado da Frelimo, porque aquela perspectiva era exactamente a
do MFA.
P. - Afinal, M�rio Soares � que tinha de o
vigiar a si...
O.S.C. - Eu n�o levava miss�o
nenhuma do presidente, a n�o ser vigiar o M�rio Soares. E tive oportunidade de
dizer: "aquilo que eu vou dizer aqui � em representa��o do MFA e, para
mim, o representante do povo mo�ambicano
em luta pela liberta��o e pela inde�pend�ncia � a Frelimo ". O M�rio
Soares ficou extremamente inco�modado com esta posi��o. Pediu uma interrup��o
das conversa��es, para eu me deslocar com ele a outra sala, e disse-me: "estou aqui numa posi��o extremamente
dif�cil. Concordo consigo e com a Frelimo mas, como Ministro dos Neg�cios
Estrangeiros, trago como miss�o do Presidente da Rep�blica: Lutar aqui para
levar para Lis�boa a garantia do cessar-fogo antes de qualquer outra coisa.
"Foi isso que o presidente me disse para fazer". Respondi-lhe:
"Eu sei isso perfeitamente. E
garanto que est� a cumprir a sua miss�o. Ago�ra, eu �
que n�o tenho obriga��o nenhuma de afazer. Estou aqui a representar o MFA, quem
est� a representar o Presidente � o se�nhor". Ent�o o M�rio Soares
avisou-me: "O senhor major tenha
paci�ncia, mas quando chegarmos a Lisboa vai assumir essa posi���o perante o
presidente." Tranquilizei-o: "�
evidente que vou. Fi�que descansad�ssimo que eu vou ". E pronto, a
coisa decorreu assim, est� claro que n�o foi obtido o cessar-fogo. Entretanto,
o MPLA sa�bia que um elemento do MFA se encontrava na delega��o portuguesa e
foi encontrar-se comigo no hotel de Lusaka. Essa delega��o do MPLA era chefiada
pelo Iko Carreira, e eu garanti-lhes que o MFA estava, de facto, com o MPLA,
que era, para n�s, o movimento de liberta��o fundamental em Angola.
P.
- Preferiram f
alar consigo do que com Soares.
O.S.C.- Sim, sim. E de tal
forma que, quando vim, o Melo Antunes pediu para falar comigo e perguntou-me:
"Ent�o, como � que foi aquilo? Como
� que correu l� a confus�o?" Eu estive a dizer-lhe como � que tinha
corrido, o M�rio Soares e tal, o que eu tinha dito...
P.- E eles concordaram?
O.S.C. - O Melo Antunes disse-me: "Fizeste muito bem. OK. Foi �ptimo
dizeres-me isso, porque agora vai ser a nossa base de tratamento quando formos
para as conversa��es, com vista, j� a de�finir a data da independ�ncia ".
P. - Tamb�m
lhe disse que se tinha antecipado aos acordos do Alvor e que j� tinha dado ao
MPLA a legitimidade revolucion�ria?
������������������.
400���
Numa confer�ncia de imprensa a 10 de Maio de 1958, respondendo a uma
pergunta de um jornalista da France Press sobre o destino que daria a
Salazar se sa�sse vencedor nas elei��es presidenciais daquele ano, Humberto
Delgado, ent�o candidato indepen�dente a pedido da oposi��o democr�tica,
respondeu: "Obviamente que demito-o". A frase seria ent�o o
mote da campanha eleitoral de Humberto Delgado. Uma fraude generalizada ditaria
a manuten��o da direita conservadora no poder em Portugal. Mas Delgado ganhou
as elei��es em Mo�ambique.
401���
Com o deflagrar dos acontecimentos de Angola em Mar�o de 1961 (com a UPA
a pro�tagonizar a primeira viol�ncia armada de grande envergadura), prevendo os
horrores da guerra, um grupo de militares liberais sob lideran�a do ent�o
Ministro da Defesa Nacional general Botelho Moniz, tentaria destituir � for�a o
ent�o presidente do Conse�lho de Ministros, Dr. Ant�nio de Oliveira Salazar.
Alertado pelo ent�o Chefe do Esta�do, Almirante Am�rico Tom�s, por Ka�lza de
Arriaga e outros da ala ultra-direitista sobre a emin�ncia de um golpe de
Estado, Salazar viraria a mesa a seu favor nos derra�deiros momentos do
preparativo da intentona. Para surpresa de Moniz e de muitos, Salazar far-se-ia
presente na reuni�o final dos preparativos do golpe, desmascarando todos e, por
via de um decreto destituiria Moniz e alguns generais dos seus postos na esfera
militar portuguesa. (Almeida Fernandes, citado por Jos� Freire Antunes. In "A
Guerra de �frica (1961-1974)", pp. 180,181).
402����������� SANTOS, B. O., Hist�rias Secretas da
PIDE/DGS, p. 130
403���
Caetano � citado
como tendo, a 2 de Fevereiro de 1962, "preconizado uma modifica��o
constitucional com vista a transformar o Estado Unit�rio em Estado
Federal". (In SAVIMB1, Vida e Morte, p.271).
404� ����Contrariando as normas da rela��o entre o regime e a Igreja
Cat�lica, a 9 de Janeiro, durante uma cerim�nia religiosa na par�quia de
Mac�ti, os dois padres proibiram a entrada na Igreja da bandeira portuguesa
quando o agrupamento n� 252 do Corpo Naci�onal de
Escutas (CNE) se preparava para fazer a promessa solene de "lobitos",
"avezinhas" e "guias". Ambos foram encarcerados nas
masmorras da PIDE e, durante o julgamento pelo Tribunal Militar, denunciaram
veementemente o colonialismo portu�gu�s.
405����
MARTELO, D. , 1974
Cessar-Fogo em �frica, p. 43. Nota: Rebelo de Sousa, ent�o Ministro do
Ultramar, diz que o ent�o governador Sousa Teles, de megafone em punho se aliou
aos manifestantes, vaiando tamb�m as for�as armadas, o que levou a sua des�titui��o.
(Depoimento do pr�prio Rebelo de Sousa a Jos� Freire Antunes, op. cit., p.
872).
406���
OLIVEIRA, Barradas, Quando os Cravos Murcham, meio milh�o de mortos, pp.
35, 36.
407��� Manuel G. dos
Santos, correspond�ncia para o autor, Abril de 2002.
408����
Em 1962, Manuel
Mello, ent�o deputado pela Uni�o Nacional, publicou um livro sob o t�tulo Portugal,
o Ultramar e o Futuro. Nele, Mello toma uma posi��o de afronta aos dogmas
do regime e preconiza uma solu��o autonomista para o Ultramar. (MARTELO, D. , 1974, p.51).
409���� Nota do autor: Houve uma tentativa de
golpe a 16 de Mar�o. Na sequ�ncia, muitos oficiais do ex�rcito foram presos.
410���
Ab�lio Pires. In SANTOS, B. O., Hist�rias Secretas da PIDE / DGS, pp.
145, 146 (o sublinhado � do autor).
411��� Oscar Cardoso. In
SANTOS, B. O., p. 151.
412�� O
COPCON (Comando Operacional do Continente) era a designa��o da pol�cia pol�tica
que substitu�ra a PIDE / DGS ap�s o 25 de Abril em Portugal.
413�� DUARTE, A. S. et
ai, In Confiss�es do 25 de Abril. Lisboa, Editora Ancora, 1999, p. 80.
414�� Idem, p. 78
415���� �Melo Antunes, citado por David Martelo, in 1974
Cessar Fogo em �frica, p. 77.
416��
Segundo V. I. Lenine, para a vit�ria da revolu��o da Internacional
Comunista se alcan��ar, era preciso "contar com o apoio das camadas
politicamente n�o esclarecidos, os prolet�rios e semi-prolet�rios".
417��� Napole�o
Bonaparte, citado por David Martelo. Ibid, p. 19.
418�����
Aquino de
Bragan�a. In Estudos Mo�ambicanos 5/6, CEA, 1986, p. 8. (O sublinhado �
do autor).
419�����
De notar que
Sp�nola, j� desde Julho de 1973, mantinha clandestinamente contactos com o MFA.
Ter� contribu�do no esbo�o do programa pol�tico do movimento e sido indicado
(na sua aus�ncia na reuni�o de Cascais de 5 de Mar�o) co-chefe do movimento
reivindicativo. (SP�NOLA, Ant�nio.- Pa�s sem rumo, pp. 94 -109).
420���
A cidadania
portuguesa para todos os povos do imp�rio portugu�s foi consagrada em
legisla��o especial de 6 de Setembro de 1961, abolindo-se cosmeticamente o estatuto
do indigenato que at� ent�o prevalecia.
421"Em Portugal a situa��o estava confusa. Existiam l� a JSN� e o MFA. Samora mandou Aquino de
Bragan�a para identificar onde estava o Poder. Concluiu que este estava no MFA. Iniciamos ent�o conversa��es secretas
com o MFA!...".
(S�rgioVieira, In TVM. Especial
programa alusivo as bodas de prata da independ�ncia nacional. 22. 06. 2000.
20h:45) Nota: De facto, � revelia de Sp�nola, a Comiss�o de Coordena��o
do Programa (CCP) do MFA, goradas que foram as primeiras conversa���es de
Lusaka de Junho de 1974, viria mais tarde a nomear o major Ernesto Melo Antunes
e o senhor Almeida Costa para imediatamente iniciarem conversa��es parale�las
com a Frelimo. Ambos desempenhariam com zelo a miss�o a eles incumbida, deslo�cando-se
secretamente � Tanz�nia onde confraternizaram com os dirigentes da Frelimo por
um per�odo de 2 dias, de 30 de Julho a 2 de Agosto de 1974. Meses mais tarde, a
desloca��o secreta de Antunes e Costa � Dar es-Salam ser� tida por Aquino de
Bragan�a como que tendo sido o marco decisivo da descoloniza��o, pois nele
ficou assente que apenas a Frelimo e o MFA eram os movimentos que legitimamente
representavam as aspira��es dos dois povos, mo�ambicano e portugu�s,
respectivamente. (Aquino de Bragan�a em entrevista conduzida por Augusto de
Carvalho. Jornal EXPRESSO, 10. 05. 1975, p. 18).
422 Nota do autor: M�rio Soares regressou
a Portugal no dia 29 de
Abril e
�lvaro Cunhal no dia 30. Muitos outros exilados foram
gradualmente
regressando a Portugal e �s col�nias. Seriam ent�o
alguns
destes regressados, sobretudo os que estavam fortemente liga
dos a
extrema esquerda na Europa, que moveriam (uns
conscientemente,
outros incons�cientemente) os cordelinhos a favor
dos
ideais do radicalismo de esquerda na ent�o Comiss�o
Coordenadora
do MFA, pondo Sp�nola em confronta��o com os
quadros
mais salientes daquela Comiss�o.
423���
Castigo Lucas
Ncomo, Beira, 20 de Novembro de 1998. Extractos de conversa entre Simango e
alguns anci�es�� da�� I.C.R.M.S , entrevista�� com��
o� �autor.
|
424 |
Idem
425��� SANTOS, A. A. p. 5
426�� Enquanto que alguns na Frelimo podiam ser
considerados imaturos na mat�ria de rei-vindica��es
pol�ticas, Marcelino era um homem que sabia mais do que muitos. Quando membro
do MAC em Paris, Marcelino escreveu para L�cio Lara uma interessant�ssima carta
onde ilustra o quilate de homem pol�tico que j� era na d�cada de cinquenta. Em
nome dos que com ele reuniram numa data imprecisa de Maio de 1959, sugere a
imperatividade da clareza nas reivindica��es � apresentar nas inst�ncias
internacio�nais, e escreve: "(...)
Foi pensando assim, que
conversamos sobre reivindica��es a apresentar. O nosso objectivo � a
Independ�ncia Nacional. Mas para isso podemos:
- Reivindicar a Independ�ncia imediata
- Ou
propor etapas tais que a tutela das Na��es Unidas, ou simplesmente a
reivindica��o de uma s�rie de direitos democr�ticos e o envio de observado�res
da ONU como garantia.
Procurando
ser claro, consideramos que:
-
a situa��o colonial hoje � absurda;
-
a independ�ncia � a condi��o necess�ria do progresso
dos nossos pa�ses;
-
� necess�rio impor o respeito da Carta dos
Direitos do Homem
-
o envio de colonos para os nossos pa�ses tem o fim de
manter o colonialismo;
- nos nossos pa�ses j� independentes os
estrangeiros poder�o viver na condi c�o de
respeitarem as leis em vigor.
E
propomos o seguinte:
- Reconhecimento do direito dos povos das col�nias portuguesas a
disporem de si mesmos, incluindo o direito a independ�ncia;
- Aboli��o do estatuto do ind�gena (Coment�rio de Viriato da cruz, .� margem: Por requerimento?);
- Direito de voto para todos sem discrimina��o;
- Cria��o de Assembleias pr�prias para cada pa�s com
representantes africa nos eleitos pelo sufr�gio universal
- Acesso aos africanos aos cargos de administra��o e de direc��o
dos interesses do pa�s;
- Liberdade de cria��o de organiza��es pol�ticas, liberdade de
reuni�o, liber- dade de imprensa;
- Revis�o das leis que permitiram a instala��o de colonatos
europeus nas me-Ihores terras;
-
Cessa��o do envio de colonos para os nossos pa�ses.
(...)". (Marcelino dos Santos em carta � L�cio Lara. In
LARA, L�cio., Um Amplo Movimento Vol. I, pp. 55, 56. O sublinhado � do
autor).
427��� Aquino de Bragan�a,
Ibid.
428�� Idem. O sublinhado � do autor
429�� Idem, p. 14. O sublinhado � do autor.
430��� MR, Maputo, 6 de Abril de 1999, entrevista com o autor. Nota:
MR foi dos comandos no ex�rcito portugu�s. Na altura do 25 de Abril estava
em Montepuez em Cabo Delga�do. Foi um de entre centenas de indiv�duos
apelidados de comprometidos que veria a sua fotografia estampada nos
populares "jornais do povo" (apenas por ter pertencido ao ex�rcito
portugu�s) pouco depois da independ�ncia nacional.
431��� Nota importante: O Movimento dos Democratas de
Mo�ambique reunia um grupo de advogados mo�ambicanos e uma pequena franja
de citadinos (funcion�rios p�blicos) e alguns chamados assimilados, ao
tempo, todos, oposicionistas ao regime de Salazar. Dele faziam parte os Drs.
Almeida Santos e Soares de Melo, saneados ap�s o 25 de Abril. Semanas depois do
25 de Abril o movimento passou a ser dirigido por outros elementos, de entre os
quais se destacavam os Drs. Afonso dos Santos, Pereira Leite, Rui Baltazar,
Carlos Alberto Raposo Pereira, M�rio da Gra�a Machungo, Jos� Lu�s Caba�o e
Fernando Jorge. Apercebendo-se de que o poder real estava � porta, e imagi�nando
a Frelimo as dificuldades que enfrentaria na administra��o do pa�s com os pou�cos
quadros t�cnicos que possu�a, cedo tratou de procurar aliados capazes e
conhecedo�res do terreno. A alian�a com os Democratas de Mo�ambique (que
culminou com o sacrif�cio em Mo�ambique dos simpatizantes locais do PCP) e a
imediata promo��o p�blica de alguns deles ao estatuto de "combatentes
na clandestinidade ", viria ent�o a criar as condi��es para o assalto
ao poder sem grandes dificuldades. Seria atrav�s dos Democratas de Mo�ambique
que Costa Gomes (ent�o membro da JSN) procuraria esta�belecer os seus primeiros
contactos paralelos com a Frelimo, � revelia do ent�o chefe do Estado
Portugu�s. Na sua visita a Mo�ambique depois do 25 de Abril, e em coordena���o
com os Democratas de Mo�ambique, Gomes mandou constituir uma comiss�o para se
deslocar a Dar es-Salam para contactos preliminares com a Frelimo. Dessa comis�s�o,
fizeram parte Malangatana Valente Ngoenha, Jos� Craveirinha, Abner Sans�o
Muthemba e Rog�rio Daniel Jauana.
432���
Ant�nio Em�lio Leite Couto (Mia Couto). Trechos de entrevista � Marilene
Felinto. Sec��o "Tr�pico" da UOL:
http:77www.uol.com.br/topico/palavra 10 1393 l.shl
433��� Abner Sans�o
Muthemba � irm�o do falecido Mateus Sans�o Muthemba.
434��� Jornal DOMINGO,
07. 02. 1999, p. .30.
435� Carlos Esteves, correspond�ncia para o
autor, 24 de Fevereiro de 2003
436� Idem.
437� Idem.
438�����
De notar que
esse encontro fora precedido de um outro tido algures na Europa, entre Oscar
Monteiro e Melo Antunes. (S�rgio Vieira, in carta a muitos amigos, Jornal
DO�MINGO, 7 de Setembro de 2003, p. 8).
439 Estudos Mo�ambicanos 5/6, CEA, Maputo,
1986, p. 24
440 PREC (Processo Revolucion�rio em Curso)
441 CEUD (Centro de Esquerda da Unidade
Democr�tica)