Na pol�tica n�o h� vergonha...
O meu pa�s n�o era este. Em Lisboa, n�o dava para
trabalhar. Tive um convite para trabalhar na auditoria do ent�o Minist�rio dos
Transportes e Comunica��es. Sondei o ambiente. Ser retornado era desde
logo um estigma. Vinham logo � baila os slogans revolucion�rios, os
r�tulos do colonialista, do explorador, porventura do negreiro, enfim, o pior.
Quase todo o pessoal, nos diversos n�veis, raciocinava segundo a, e nos termos da,
propaganda comunista/socialista, duma esquerda bacoca, est�pida, de vis�o
estreita, redutora, convencida que era detentora de (pseudo) verdades
marxistas, quer sopradas do lado sovi�tico quer aportadas do lado chin�s, numa
atitude pretensamente revolucion�ria, pretensamente capaz de mudar a humanidade
e resolver todos os seus problemas. As utopias estafadas do costume. Uma
l�stima.
Outras
fun��es oficiais se desenhavam como poss�veis.
N�o, obrigado, trabalho em servi�os de minist�rios,
n�o! Trabalhar na fun��o p�blica, na promiscuidade com socialistas e
comunistas, nunca!
�������� Entretanto, como muitos
outros, sem p�tria, ferido profundamente na alma, resolvi viajar at� ao Brasil,
visitando amigos e parentes. E conhecer este novo ambiente, de um outro novo
mundo. Foi um lenitivo. Recebido aqui a ali, por toda a parte, com o maior
carinho. Viajei por cerca de um m�s. Aliviei a tens�o. A
minha aten��o foi dirigida para m�ltiplos outros centros de interesse. Tive propostas, ainda que vagas, de
trabalho na profiss�o. Mas n�o estava preparado. Nem tinha viajado para ficar.
Embora em certa medida me agradasse. Mas tinha muitos problemas pendentes a
resolver. Pelo menos na minha mente. E os filhos estavam em Portugal, ainda que
em seguran�a, no norte, na quietude e tranquilidade da aldeia distante e �
guarda dos av�s. E fora do bul�cio revolucion�rio e dos perigos. A revolu��o
era limitada no espa�o, era coisa da capital, e arredores, das lumin�rias pol�ticas nacionais, dos pol�ticos de segunda
linha, dos tropeiros, dos partidos, dos sindicatos,
dos intelectuais, dos desocupados, dos inst�veis, dos parasitas, dos que nada
produzem, nada fazem. A prov�ncia sentia vagamente a revolu��o distante, mais
os seus vagos efeitos, que lhe chegavam mais ou menos dilu�dos. E as pessoas da
prov�ncia n�o tinham mudado nada com a revolu��o. Nem iam mudar. E ainda bem.
Trabalhavam. Como sempre.
Mas os meus amigos continuavam, pelo menos alguns
deles, ainda presos. N�o, ficar no Brasil tamb�m n�o. Quem sabe se n�o estaria
correndo para nova aventura.
Em Mo�ambique o �xodo de brancos, ou o que deles
restava, continua, para Portugal, para a Rod�sia ou para a �frica do Sul. Nesta
altura em que os pa�ses vizinhos ainda estavam com governos de brancos. E
tamb�m �xodo de pretos, de nativos. Muitos foram os que fizeram parte do
ex�rcito dito colonial, e abandonados � sua sorte pelo ex�rcito portugu�s, por
Portugal, e intolerados ou mesmo ferozmente
perseguidos pela Frelimo, que os considerava inimigos, a fuga era a �nica
solu��o para escapar com vida; e muitas popula��es, principalmente
fronteiri�as, que nunca aceitaram a Frelimo, nem mostravam vontade de vir a
aceitar, refugiavam-se tamb�m do outro lado da fronteira. E tamb�m alguns, da pr�pria Frelimo, que se iam desgostando e decepcionando
pouco a pouco com os procedimentos oficiais do seu partido, e frustrados por
verem as coisas a correr em sentido contr�rio ao que tinham imaginado
(estes estariam de boa-f�).
E para ver que todo o procedimento da Frelimo
estava a correr mal e que o resultado ia dar num grande buraco, n�o era preciso
ser nem vidente nem profeta. Bastava prestar um pouco de aten��o ao que se
passava e dispor de um m�nimo de bom senso.
�������� Quanto a emigra��es for�adas de popula��es para pa�ses vizinhos n�o se pode esquecer, entre outros casos, as centenas de milhares que se refugiaram principalmente no Malawi e por largos anos, instalados junto ao lago Niassa, foram alimentados pela ajuda internacional, s� regressando �s suas terras de origem, e nas piores condi��es, famintos e doentes, muito recentemente, ap�s o acordo de paz entre a Renamo e Frelimo.
Machel continuava ent�o com
os seus discursos disparatados e arrogantes, estabelecendo ou tentando
estabelecer uma organiza��o de um grupo de pa�ses de pol�ticas �progressistas"
a que chamava os "pa�ses da linha da frente � de combate a um
pretenso capitalismo ou colonialismo, (sempre as mesmas ideias tolas tiradas
dos alfarr�bios de Mao ou de Marx, ou do resultado da sua elabora��o mais
actualizada) o que n�o passava de uma fic��o, pois como se sabe, progressismo
em �frica � coisa que n�o existe. Tudo ali � conservantismo. E obscurantismo.
E os pretensos aderentes poderiam talvez dizer amen,
mas s� na sua frente, a fingir, no faz de conta. Talvez at� tivessem medo
dele. De t�o arrogante, disparatado e inconsequente, que tal como Hitler ou
Stalin, poderia arrastar a todos para caminhos que n�o tem volta. Por isso se
admite que teria mais inimigos do que ele imaginava. Por isso muitos pensam que
o acidente de avia��o em que morreu, pode n�o o ter
sido.
O seu discurso � radical. Bem na linha da revolu��o
cultural chinesa. Todo o passado deveria ser apagado. Muda os nomes �s coisas,
�s cidades, destr�i ou manda apear monumentos, destr�i documentos e o mais que lhe
seja poss�vel. N�o admira por isso que se queira ver livre dos europeus e
outros imigrados, e das suas culturas, muitas vezes de n�vel superior � dele
pr�prio, e s� n�o os liquida, numa gigantesca limpeza
�tnica, porque causaria efeitos negativos graves que prejudicariam os seus
objectivos.
A procura de uma identidade que n�o existia,
daquilo que na Europa se designa por consci�ncia nacional, que tamb�m n�o
existia, � procura um passado comum pr�prio para Mo�ambique, que tamb�m n�o
existia. Excepto nos �ltimos quinhentos anos irmanado com Portugal. Nem uma
hist�ria comum. Nem her�is. Nem uma gl�ria para exaltar. N�o h�. S� encontrou
os feitos do Gungunhana. O que era muito pouco! E
muito mau!
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Era manifesto que a cultura ocidental institu�da por Portugal, que
segundo a teoria de Machel era burguesa e por isso corrupta, deveria ser
radicalmente banida. Dando-se inicio a uma nova era. E � dif�cil de acreditar,
� distancia, a frio, com serenidade, que tanto disparate possa ter tido t�o
favor�vel acolhimento, mesmo por gente que ainda hoje parece ser portadora de
bom senso ... at� gente que
anda por a�, pelas nossas ruas a nosso lado, e sobretudo p�los corredores do
poder!
E enquanto isso a �elite" da Frelimo instala-se muito bem,
confort�vel, nas boas vivendas agora vagas dos pretensos colonialistas, ou nos
melhores hot�is, desfrutando a boa comida, a boa bebida, vestindo bem, etiqueta
de marca, at� de Paris, principalmente as damas, antes p� descal�o e capulana,
a cheirar � sovaqueira, � catinga e peixe seco, agora promovidas a
novas-ricas, a primeiras damas, analfabetas e bo�ais, num exibicionismo
rid�culo, na pose caricata e grotesca, gozando os prazeres mais
burgueses que os maridos diziam combater, viajando nos melhores carros, com
dinheiro a rodos, numa permanente orgia de consumo, numa grande farra pr�pria
do novo-riquismo gratuito. As elites e fam�lias e amigos. O luxo � afinal o seu
ideal de vida. Um ou outro tem visibilidade em actos p�blicos, mostrando que
existem. O discurso � o palavreado do costume, - a
conversa da treta - j� t�o conhecido, mas nada de obras, de reformas, enfim
algo de v�lido e de s�rio, que de algum modo corresponda por pouco que seja �
intensa propaganda do que se propunham fazer antes de terem tido o pr�mio
grande da lotaria pol�tica que rodou em Portugal e cujo pr�mio grande foi a
concess�o de um pa�s inteiro, entregue em m�o !
E por outro lado, como contraponto, o povo
infeliz e desgra�ado, sofre a desorganiza��o da produ��o, inclusive das
machambas tradicionais, mesmo nos lugares mais remotos, com a desloca��o
for�ada de popula��es, ou fugindo � Frelimo ou fugindo � guerra, a
instabilidade, a incerteza, a falta de garantia da posse dos bens, e tudo isso
resultava na car�ncia de alimentos, na fome. O desemprego nas cidades, na
aus�ncia de exporta��es e falta de divisas para importar bens de consumo, a
falta de impostos necess�rios para fazer face a elementares despesas p�blicas,
o encerramento da grande maioria das empresas (quase todas) ou
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