������� QUANDO COME�A O GRANDE ENTUSIASMO

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Haver� alguma rela��o entre a maneira como uma crian�a � criada, o meio ambiente em que vive e vai crescendo e, depois, o modo como se comporta pela vida fora? Antes de continuar, vou passar uma vista de olhos pela minha meninice, a ver se de facto se poder� notar qualquer influ�ncia.

O meu pai, que durante a primeira Grande Guerra tinha sido mobilizado como oficial e mandado para Mo�ambique, a� faria toda a campanha. N�s, a minha m�e, com cinco filhos, fomos para a terra dele, onde estavam os meus av�s e tios, pois assim ele sabia que, em qualquer caso, estar�amos protegidos. Eu era o mais novo. Visto que havia a promessa de que se ele n�o morresse, na guerra, nas festas de S. Bento de Seixas (Minho) um dos filhos iria vestido de anjinho, logo recaiu em mim essa honra, talvez por ser o mais mi�do. Ainda n�o tinha quatro anos e fui ent�o de anjinho, numa grande prociss�o, com asas e tudo! Era a primeira vez que me punham asas e, ao que parece, eu gostei. Fui fazendo umas palha�adas, a bater as asas, e � essa a recorda��o mais long�nqua que eu tenho dos meus tempos de mi�do. Em casa, o ambiente era de muita tristeza, mas, por fim, a guerra acabou e vieram os tempos risonhos de felicidade para todos. O pai regressou e, nas ocasi�es que se fardava a rigor, eu ficava deslumbrado: tinha o peito coberto de medalhas! Eu via nele o meu her�i!

Fui crescendo. Um dia, com os meus oito anos, andava com um amigo que o era de todas as horas, o M�rio Rosa, filho de um coronel, l� bem no meio dos areais do Rio Minho. Al�m da alegre passeata, tamb�m �amos ver se apanh�vamos umas solhas, peixes deliciosos, quando nos surge l� longe um hidroavi�o, voando muito baixinho. Come��mos aos saltos e a acenar. Quem l� ia viu-nos e toca a fazer pican�os sobre n�s. O M�rio deitou-se na areia, pois o "bicho" quase nos tocava. Eu dava saltos tentando tocar-lhe nos flutuadores, uma esp�cie de torpedos, que tinha por baixo. Por fim, tamb�m me atirei para a areia, pois vi-me em risco de ser apanhado. Fiquei de barriga para o ar a observar como aquilo era e o que fazia, e nasceu em mim uma vontade louca de, quando parasse, ir tocar-lhe com as m�os para ver como seria. Afastou-se para os lados de Santa Tecla, um monte do lado da Espanha, que fica mesmo na foz do rio, onde faziam uma grande romaria todos os anos e esse era mesmo o dia da festa. Amarissou em Caminha, mesmo em frente. Eu estava a uns quatro quil�metros e teria de atravessar �gua, lodo, o junco das margens, ainda um outro rio chamado Coura, mas havia de l� ir. O M�rio teve de voltar, pois o pai era severo e por nada admitiria que o filho se metesse numa aventura em que tinha de perder horas, com os inevit�veis sobressaltos que provocaria em casa. �ramos mi�dos, mas eu resolvi ir e, mesmo sozinho, fui, sujeitando-me a todas as consequ�ncias. Nadei, andei, enterrado no lodo, corri, nadei outra vez e, finalmente, cheguei! L� estava o p�ssaro parado no meio da �gua e muito povo, de terra, a admir�-lo. Sempre junto ao rio, alcancei um ponto donde foi f�cil nadar at� onde ele estava. Aproximei-me. Toquei-lhe nos flutuadores e tudo me parecia uma coisa do outro mundo! Que maravilha! Como � que aquilo podia andar no ar? Continuei a nadar � volta, at� que fui afastado por uns marinheiros que o estavam a guardar. Regressei sozinho, caminhando quil�metro sobre quil�metro, at� que cheguei a casa, pensando naquela maravilha que vira de perto e tocara pela primeira vez. Levei uns bofet�es por ter posto a fam�lia em alvoro�o com a demora.

Mas eu chegara a casa com a ideia "extravagante", mas fixa, de que seria aviador! At� a� eu ficava doido quando via um avi�o: da� para a frente n�o me sairia mais do cora��o. Entretanto o meu pai tinha voltado � �frica numa Comiss�o de Servi�o, e l� iria mais vezes. N�s fic�mos com a nossa m�e e a tia materna. Ali tivemos de ficar para nos educarmos e nos instruirmos, porque nas terras por onde o meu pai teria de andar, n�o havia escolas, nem ambiente. Como eu me mostrava muito rebelde, logo que fiz a admiss�o ao liceu, resolveram meter-me num col�gio interno, no col�gio de Ermezinde, bem pr�ximo da cidade do Porto. Entendiam que era a melhor maneira de me fazerem entrar no caminho da disciplina. Ainda hoje me lembro do seu belo e persuasivo hino. A princ�pio, como caloiro, levei muita sova de grupinhos que se formavam para tirar o "bicho aos caloiros". Primeiro, sovavam-me, pois estava muito saudoso da fam�lia, muito triste e n�o conhecia ningu�m que me valesse, mas quando comecei a ver que aquilo passava as marcas, resolvi reagir, atirando-me a eles, fossem quantos fossem, e um dia aleijei dois a valer. Comecei ent�o a ter cartas! A partir desse momento, os "grandes", que eram os mais velhos, alguns com vinte anos, come�aram a proteger-me.

Comecei a fazer os primeiros neg�cios da minha vida.

Muitos tinham o v�cio de fumar e, nas alturas em que os cigarros acabavam, algu�m tinha de arriscar-se, fugindo do Col�gio, num daqueles recreios que duravam quase uma hora, correr tr�s quil�metros at� ao centro comercial, comprar os cigarros

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