V
O Comiss�rio
R�gio esperava o milagre e o milagre pro�duziu-se.
Na verdade, para
que o reconhe�amos, bastar� ter em conta, conforme no-lo refere Ant�nio Enes,
que nunca numa campanha africana os recursos foram mais desproporcionados ao
�xito.
Desembarcando
em Inhambane (1) as for�as e outros ele�mentos destinados a formar a coluna do
Norte, n�o encontra�vam preparados nem quart�is, nem armaz�ns, nem abrigos de
qualquer sorte e por isso sobre o areal tudo teve que acomo�dar-se, � ard�ncia
do sol e � cacimba das noites: homens, animais, fardos de mantimentos, carros,
bagagens, toda a v�ria impedimenta duma tropa a
caminho. E como se isto n�o bastasse a tolher os preparativos da marcha, n�o
tardavam as autoridades locais a sentir-se, pelas decis�es de Galhardo,
deminu�das, incomodadas na amolentada burocracia em que at� ali haviam
vegetado, a envolverem-se com ele na eterna briga das compet�ncias. Viu-se o
Comiss�rio R�gio obrigado a inter�vir, e aparecendo um dia tratou de desfazer
desde logo todos os ressentimentos, quantos atritos tinham resultado de
regulamen�tos muitas vezes tomados demasiado � letra, e, por sua vez,
regulamentou para a circunst�ncia, tudo subordinando ao Comando da expedi��o. E
tendo, por �ltimo, criado uma direc���o de servi�os de etapas, que confiou a
Caldas Xavier, ordenou que se procedesse � ocupa��o de Chicomo. (2)
Seria oportuna a determina��o?
����� N�o faltou quem respeitosamente lhe
fizesse ver a conve�ni�ncia dum adiamento e, segundo ele pr�prio conta, foi
Mou-sinho um dos oficiais que mais instaram nesse sentido, � por�menor que
interessa principalmente por revelar-nos uma faceta do seu car�cter, � primeira
vista dif�cil de conciliar com a ima�gem formada ao explendor das horas de
Chaimite, a �cl�ssica� imagem dum Mousinho de irresist�vel �mpeto, a quem a bra�vura,
o atrevimento pareciam cegar... E neste azo Mousinho aparece-nos com a fei��o
dum homem reflectido, que sabe determinar-se em circunst�ncias dif�ceis... A
sua relut�ncia com efeito justificava-se. Os cavalos de Durban n�o estavam em
condi��es de servir, eram na maior parte sendeiros, manhosos, gastos no tiro de
carro�as. Havia, � certo, rece�bido em Inhambane mais cerca de cem, mas al�m de
n�o terem igualmente ensino, pareciam franzinos, sem resist�ncia. Como podia
ele ent�o demonstrar com tais az�molas o valor, a efic�cia da cavalaria na
guerra sertaneja? Por isso pedia que lhe per�mitissem p�r, antes da coluna
largar, em boas condi��es o esqua�dr�o que comandava. O esfor�o que at� ali
tivera de despen�der para que a sua tropa se apresentasse convenientemente mon�tada
fora admir�vel, t�o grande que �a curto trecho j� nas ruas de Inhambane
perpassavam em passeios ou galopadas pelot�es de aguerrido aspecto, cujas
manobras os negros espreitavam p�vidos, protegendo-se com as esquinas das ruas.
Na opini�o desses espectadores boquiabertos, aquela tropa de zagaias gran�des,
que corria como o vento, e podia saltar por cima das �rvo�res, havia de agarrar
o Gungunhana, se ele n�o mergulhasse nos p�ntanos como r�, ou n�o alteasse no
ar como �guia; mas o seu comandante n�o a julgava ainda feita. �Faz vista, dizia ele, mas qualquer homem do of�cio
descobre-lhe logo os fracos.� (3)
De nada haviam
valido as raz�es que aduzira, e a 4 de Julho, porque o Comando se mostrava
inflex�vel, teve o esquadr�o de avan�ar para Cabane.
Seguiram-se-lhe outros
elementos: a 4-a companhia de infan�taria 2, engenharia, etc. E,
conforme o que fora prescrito, no dia 15 de Agosto, as tropas tomavam posi��es
no Chicomo, tendo realizado uma extenuante marcha de mais de cem qui�l�metros
sempre em som de guerra.
Constava
nessa ocasi�o que o Matibejana estivera no Manjacaze e que ali aos p�s do
Gungunhana que, entretanto pre�tendia fazer crer na impossibilidade de
deitar-lhe a m�o, reno�vara preito de vassalagem, dirigindo-se depois para o
Magul.
* *������� *
����� Ao conselheiro Jos� de Almeida, a quem
acompanhavam o tenente Aires de Orneias e uma for�a de lanceiros, fora come�tida
a miss�o de levar a Gungunhana, junto de quem at� h� pouco exercera fun��es de
residente, o ultimatum para a
en�trega dos r�gulos rebeldes aliados e por ele protegidos. Prece�dido dum
pitoresco cortejo de guerreiros emplumados, reves�tidos de �peles� de ferozes
animais da selva, que executaram depois, em �honra� dos recem-chegados, a
grande manobra dum envolvimento, viera o Gungunhana ao Manguanhana para
receb�-lo e para conferenciar. Era �um homem alto que sem ter as magn�ficas
fei��es de tantos dos seus, tinha-as sem d��vida belas, testa ampla, olhos
castanhos e um certo ar de grandeza, de superioridade.� (4) As discuss�es
arrastaram-se. Al�m de dois grandes indunas na qualidade de ref�ns da en�trega
do Mahazul e do Mabitejana, exigia-se-lhe a sujei��o de todas as terras ao
imposto de palhota, o reconhecimento do direito que o Governo tinha de
estabelecer nelas postos militares; que o Gungunhana n�o tornasse a fazer
guerra aos r�gulos e povos que se houvessem declarado vassalos da Coroa; o reconhecimento
e o acatamento de todas as autoridades que entend�ssemos dever estabelecer, o
cumprimento de todas as ordens e instru��es que delas dimanassem, etc. Gaza
deixaria de ser � conforme Enes observou � um pa�s estrangeiro. Quanto ao
Gungunhana, que Almeida supunha naquele momento achar-se absolutamente
preparado para uma s�ria resist�ncia, continuava a protestar a sua amizade,
tergiversava, apenas pretendia iludir... As suas habilidades, h� muito
not�rias, es�tavam previstas, a ningu�m surpreendiam.
O prazo do ultimatum expirou
em 15 de Agosto sem que o v�tua houvesse entregado qualquer dos rebeldes
reclamados.
Come�ara mal
aquele dia...
A bandeira ao ser i�ada, como de costume no mastro gran�de da resid�ncia,
esfarrapara-se. Deveria ver Enes naquilo uma
advert�ncia, um agoiro? Recordando o pormenor e a coinci�d�ncia de ent�o fazer
anos, confessou na narrativa dos aconte�cimentos: �Nunca tive e espero que n�o
terei um anivers�rio mais desassossegado. Teria paz ou guerra? Devia de querer
a guerra ou a paz? A guerra seria talvez a gl�ria, talvez a ver�gonha e a
ru�na...�.
������ J� havia ca�do a noite quando lhe
entregaram, expedida da esta��o de Mocumbi, pelo antigo residente, um telegrama
datado do Manguanhana, 12. Abriu-o nervosamente. Daquele bocado de papel ia
talvez depender agora tudo. � medida que o lia o sobrecenho desca�a-lhe
franzido sobre a luneta; a testa enrugava-se-lhe, e n�o � inveros�mil supor
que, terminada a leitura, da boca lhe houvessem sa�do num borbot�o de c�lera,
estas palavras que ele pr�prio escreveu: �Retirar as for�as? Nunca!�. (5) O
telegrama comunicava a resposta do Gungunhana. Achava-se o potentado de Gaza
resolvido a entregar os ref�ns, pegaria p�, acederia mesmo a outras condi��es
que lhe eram impostas mas com a condi��o de o Governo mandar reti�rar as tropas
que se tinham adiantado at� �s terras fronteiri�as dos seus dom�nios.
�Retir�-las quando j� se ouvia no Manjacaze o estampido dos canh�es, faz�-las
retirar trazendo apenas por �nicos trof�us uma mancheia de libras, e por �nica
segu�ran�a do futuro, dois pretos cativos, nunca!�
Era contudo necess�rio proceder com cautela a-fim-de n�o expor a
repres�lias certas Almeida, Orneias e os homens da pequena escolta que os
acompanhara. A �ltima palavra do Comiss�rio R�gio n�o deveria ser pois
transmitida do Manguanhana. O que o bom senso aconselhava � que ela o fosse es�tando
todos a salvo, e por isso, no dia imediato, muito cedo, o tel�grafo levou aos
seus emiss�rios ordem para recolherem a Chicomo.
A-fim-de assistir tanto � partida da coluna do Sul que de�veria ocupar a
Cossine e atacar Magul, como � largada da flotilha do Limpopo, a que se
reuniria depois o rebocador Fox, embarcou
Enes na Diu, para Louren�o
Marques, onde o esperavam novas informa��es do antigo residente em Gaza. Uma
delas referia que o Gungunhana fizera saber que uma vez que o rei de Portugal
n�o o queria para s�bdito, resolvia colocar-se sob a protec��o da bandeira de
outro branco. Agi�tava, pois, o pap�o brit�nico, a-fim-de atemorizar-nos. A res�posta,
por�m, n�o tardaria a t�-la.
E telegrafando ao conselheiro Almeida para Chicomo,
o Comiss�rio R�gio ordenou-lhe que comunicasse ao r�gulo que o Governo passaria
dali por diante a trat�-los como a qual�quer outro rebelde.
Era o
rompimento.
*
*������ *
Dias depois a laboriosa Diu trazia
a Louren�o Marques o comandante da coluna que se apresentou ao Comiss�rio R�gio
�t�o correcto no seu uniforme, t�o cuidado na sua pessoa, t�o irrepreens�vel na
sua farda, t�o garboso como se tivesse estado de guarni��o no Chiado�. Vinha
conferenciar acerca da marcha ao Manjacaze.
Entendia Galhardo que as for�as n�o podiam por enquanto execut�-la visto
carecerem, para isso, at� de muitas coisas essen�ciais, � de transportes sobretudo.
Pat�tico dever� ter sido por vezes o di�logo travado entre ambos.
Porque se era preciso partir, n�o demorar a marcha,
o pr�prio Comiss�rio R�gio acabara por reconhecer a impossibi�lidade dela se
efectuar desde logo.
Mas a verdade
tamb�m � que desta imobilidade, desta pre�c�ria situa��o o nosso prest�gio de
na��o n�o poderia sair sen�o deminu�do. �Enquanto o coronel falava � contou
Enes � e eu meditava, chegavam para ele telegramas de Chicomo, todos com m�s
not�cias.� Continuava a mortandade entre os cavalos do esquadr�o e as muares de
artilharia. Em Amba havia setenta e tr�s homens doentes. Faltavam socorros m�dicos.
De Inharrime anunciavam que o Gungunhana concen�trava para as bandas de Pene
seis poderosas �mangas�. A re�corda��o duma carta, recebida havia pouco, de
Mousinho, mais pungente tornava aqueles instantes. A-pesar de arder por me�ter-se
com os seus homens �s terras de Gaza, n�o lhe havia ele referido os riscos da
empresa, estando o esquadr�o t�o mal montado? E Mousinho n�o dizia aquilo por
des�nimo ou medo, nem
porque o impressionassem as descri��es que o conselheiro Almeida fazia do poder
do Gungunhana; mas sentia-se j� arre�pendido de ter contribu�do para que fosse
� �frica cavalaria. A pr�pria infantaria estava arrazada, devido principalmente
a. mesquinhas condi��es de estacionamento. A situa��o,
numa palavra, n�o inspirava confian�a. (6)
Como correr neste caso ao Manjacaze?
Mas se isso era
imposs�vel, alguma coisa urgia que se fizesse para salvar o prest�gio do
ex�rcito e a honra da bandeira.
Que entendia
fazer neste caso o coronel? � perguntava Enes,
inquieto.
Ambos acabaram
por decidir, enquanto as circunst�ncias, n�o consentissem um procedimento mais
en�rgico e deci�sivo, se voltasse � ideia, que fora tamb�m a de Mousinho, a de
Caldas Xavier, de envolver o potentado v�tua numa rede de postos fortificados
que se iria apertando cada vez mais.
A coluna do Sul
ocuparia a Cossine e uma frac��o sua ou
da coluna do Norte estabelecer-se-ia em Chibutze. Com a linha de Inharrime-Chic�mo
a norte e a sul, se limitaria o dom�nio do r�gulo e novos investimentos
poderiam ser preparados. A oeste � tomar-se-iam igualmente posi��es e do mesmo
modo nas terras de Zavala e da Inhabube a este.
Alimentara
o Comiss�rio R�gio, a-pesar-de ser um ho�mem prudente, durante algum tempo o
desejo dum imediato-desfor�o, mas bem depressa tivera de o reconhecer impratic�vel.. Ent�o, resignando-se � evid�ncia das
circunst�ncias, pen�sou: �A realidade triste era que com tantas espadas afiadas
n�o conseguir�amos sequer aparar uma unha ao Gungunhana!�.
Obtivera em dado momento o comandante informa��es so�bre
o inimigo. O avan�o da coluna, n�o obstante as muitas defici�ncias que ainda na
sua organiza��o faziam sentir-se, pareceu menos temer�rio. �Cobrei �nimo!� �
diz-nos Enes que, dali por diante confiado na influ�ncia duma mais benigna es�trela,
deixou de interessar-se pela cria��o de mais postos
para s� tratar de apressar os preparativos para o ataque ao kraal.
Entrementes
enviava o r�gulo de Gaza a Galhardo emiss�rios com diversos presentes que
seriam recusados � libras, bois, pontas de marfim, � e novas queixas acerca das
nossas tropas que andavam a falar-lhe os dom�nios. Pela boca deles propunha
ent�o capciosamente condi��es para um entendimento defini�tivo subordinado �
retirada de toda a gente preta que nos acom�panhava e que ocupava as suas
terras; e mais uma vez protes�tava que se esfor�aria por apanhar o Matibejana e
o Mahazul, conquanto isso lhe fosse dif�cil sen�o imposs�vel, visto ambos estarem
tanto no conhecimento das ciladas que lhes armava, que a todas elas haviam
conseguido escapar at� ali � protesto t�o sincero que ainda na v�spera do
combate de Magul com um deles se havia avistado.
7 de Setembro.
Apenas o dia rompeu,
uma coluna constitu�da por 308 ho�mens, entre brancos e angolas, comandado pelo
capit�o Freire de Andrade, come�ou a atravessar o Incoluane, opera��o que se
prolongou durante seis horas. E contudo os pequeninos esca�leres da
lancha-canhoneira Lacerda n�o
haviam tido que trans�portar nem comboios de v�veres nem servi�os de sa�de,
pois sem eles ia a for�a
realizar o seu objectivo, � reduzido todo o trem de marcha a 1 carro, 8 burros
e 4 bois. (7)
A
princ�pio sobre a areia que escaldava, depois rompendo caminho em terreno
�ngreme, de floresta, a marcha tornara-se cada vez mais trabalhosa, parecia
qu�si sem fim, quando numa clareira que entrava de alargar-se,
a tropa divisou de s�bito para al�m de desmesurados charcos, sugest�o de
imobilidade e de morte, o inimigo.
������
Logo um toque de sentido soltou as suas notas na imen�sid�o do espa�o
adormecido. Imediatamente em torno do qua�drado se tratou de desenrolar uma
linha de arame e de assen�tar a cada um dos �ngulos uma metralhadora. Soube-se
mais tarde que eram treze as
�mangas� que ao ataque se haviam lan�ado. Fazendo o confronto dos advers�rios,
� devia Enes escrever um dia, no jeito de folhetinista a que tantas vezes se
lhe abandonava a pena: �Se aquilo era poder que afrontasse o Gungunhana! A
horda nem teve pressa da segura carnagem, quedava parada, agachada como um
gato, com o focinho repou�sado nas patas.)) Nem um gesto, nem uma ap�strofe,
nem um tiro. Apenas um espantoso aro de corpos de �bano cujos olhos se fixavam,
no anteg�sto dum regalo, sobre o pequeno qua�drado. Que significava esta
atitude? Que esperava o v�tua? De�pois duma parte do inimigo haver-se escoado
imperceptivelmente entre o capim alto, a tentar o envolvimento dos nossos at�
cortar-lhes a retirada para o Incoluane, aguardava talvez os efeitos
desmoralizadores do sol e da sede para, ao assomar das estrelas, ao rubro
clar�o de fogueiras festivas, ao radiante clamor da vindicta certa, cair sobre
o atrevido e j� extenuado punhado de brancos... Seria ent�o o massacre, um
lauto festim de canibais em honra de manes e deuses vingadores!...
Passava
da uma da tarde quando no quadrado soou a voz de fogo. O v�tua sa�ra da sua
enervante impassibilidade, agitava-se, e como um felino preparava agora o
salto... Pouco depois estoirava contra tr�s faces do reduto
uma violenta fuzi�laria. Devido � direc��o do vento
por que manifestamente havia, esperado, viam-se os nossos envoltos em densos
vulc�es de fumo� que lhes ocultavam por completo o campo... Mas t�o vigorosa e
tenaz foi a nossa resposta que, descrevendo-a, Enes compa�rou nessa ocasi�o o
quadrado a uma nuvem de tempestade que rastejasse a desfazer-se em raios.
A-pesar da raiva com que fora acometido, �s duas e vinte voltava a reinar em
todo o es�pa�o o sil�ncio. O inimigo havia sofrido pesad�ssimas perdas, dei�xando,
ao retirar, para sempre estendidos no mato, centenas de homens, entre os quais,
a menos de cinquenta metros, o Pene, com as suas ins�gnias, os seus adere�os, a
sua express�o ainda minaz... Dos nossos apenas seis haviam tombado mortalmente
feridos.
T�o imprevisto fora o �xito desta vit�ria em Magul, que at� ao fundo do
Maputo os povos estremeceram receosos de castigo e come�aram a abalar, num
precipitado �xodo em direc��o �s montanhas...
�Perdeu o Gungunhana, mas se da ac��o tiv�ssemos sa�do derrotados,
haver�amos perdido todo o distrito de Louren�o Marques�, � ponderava Enes.
A persegui��o ao Matibejana (Zichacha) e ao Mahazulo ia prosseguir.
Circulava
entretanto pelas brenhas do sert�o o boato de que no Bilene se preparava nova
concentra��o, ainda mais nume�rosa, de aguerridas �impis�. Na verdade, para os
lados do rio Mauzimechope
pressentiam-se certos suspeitos movimentos. Como se tinha feito no Sabi, onde
se acabara por montar um posto fortificado, procedeu-se � organiza��o duma
coluna cuja marcha se conta entre as mais extenuantes da campanha, pois teve de
cobrir entre 30 a 40 quil�metros por dia. Mas no fojo do Zichacha n�o se
encontrara vivalma. Contudo, para que as gentes que naquelas paragens andavam
levantadas con�tra n�s n�o esquecessem depressa a nossa passagem por elas,
tanto essa povoa��o como outras que lhe eram cercas foram arrazadas pelos 3.000
auxiliares que nos seguiam e que j� seguros da nossa boa estrela, em 26 de
Outubro, atravessavam a ponte sobre o Incomati em Chinavane, lan�ando-se
depois, como um verdadeiro vendaval, em razias at� �s proximidades do Limpopo.
Tinham entrado
ao mesmo tempo as opera��es neste rio numa fase de excepcional e vigorosa
actividade. Uma e outra margem at� Lang�ene, a 70 milhas da embocadura, estavam
a ser pelas intr�pidas casquinhas-de-n�s da flotilha furiosamente castigadas.
De quando em quando operavam-se desembarques, faziam-se prisioneiros e uma ou
outra aldeia era incendiada. A gente de Chaichai vinha declarar vassalagem.
Assim o Lim�popo n�o demorara a achar-se submetido.
������
Caldas Xavier insistia, insistia... �� preciso que a coluna do Norte
avance�. �Ent�o n�o marchamos?� A verdade � que a crise dos transportes, que
desde a primeira hora a angus�tiava, n�o fora at� ali a bem dizer resolvida e
que continuavam a ser precisos, sem que aparecessem, mais bois, mais carros,
mais muares. Como se n�o bastasse a imobilidade � no grande hotel das estrelas, (8) conforme no seu cal�o as tropas
diziam do insalubre acampamento de Chicomo, n�o fazia sen�o deminuir o n�mero
dos homens aptos a marchar... �Oficiais e soldados davam a perceber, embora
resignadamente e sem a m�nima quebra de obedi�ncia, que seria prefer�vel ir
morrer para a frente, fosse como fosse, mas ao menos combatendo, a perder ali a
sa�de, a vida, naquela ingl�ria inactividade.� (9) Entrou enfim de mover-se a
coluna, ainda com in�meras defici�ncias, a 4 de Novembro. No intento de evitar
surpresas como sucedera em Marracuene, onde pela calada da noite o inimigo
conseguira acercar-se da face mais vulner�vel do qua�drado, a dos angolas,
havia Caldas Xavier adaptado a alguns carrinhos uma esp�cie de far�is com um
poder iluminante de sessenta metros. A Mousinho e aos seus pelot�es, ent�o bas�tante
reduzidos, estava confiado o servi�o de explora��o. Suces�sivas perdas de
animais iam marcando sinistramente o avan�o at� que atingida a lagoa do
Coolela, as for�as acamparam. O kraal do
potentado de Gaza distava agora apenas cerca de meia d�zia de quil�metros... A
noite havia decorrido sem novi�dade de maior, embora ao clar�o dos holofotes
n�o passasse despercebida a actividade dos espi�es que o pr�prio grasnar dos
patos, acordando amedrontados, de quando em quando igualmente denunciavam.
��� Com o nascer do dia preparava-se a coluna para de novo p�r-se em
marcha; j� em direc��o aos profundos maci�os da floresta em frente, os
auxiliares, gente, conforme escrevia Enes, sempre disposta � fuga se encontrava
o inimigo, calcurriava o terreno, e a breve trote avan�avam os pelot�es de
Mousinho, que de vez em quando, voltando-se na sela, fazia ouvir a voz de
comando clara, incomparavelmente quente, comunicativa nestas ocasi�es, capaz de
sacudir as fibras mais ocultas e duras dos seus �rapazes�; come�ava a
artelharia a rodar e os do Estado-Maior metiam o p� ao estribo, � quando entre
os pretos do Spandanhana se produziu um desvairado alvoro�o, um irreprimivel
movimento de recuo. Al�m, do lado oposto da enorme langua, as �impis� do
Gungunhana estendiam-se em linha de atira�dores. E o seu ataque n�o se fez
esperar muito. O quadrado for�mara-se com a calma dum simples exerc�cio. Cada
vez mais os v�tuas acentuavam o c�rculo em que procuravam apertar os nossos. De
parte a parte sustentava-se fogo rijo. No meio do quadrado, al�m do comandante
e doutros, o major Sousa Machado. Mousinho, descrevendo numa carta o combate,
com a gra�a desataviada dum cavaco entre cadetes � porta do Gelo, refere: �Uma beleza! [Machado]
estava a cavalo quando foi ferido. Tinha passado ao p� de mim e disse--me: �Oh!
Mousinho, veja os meus rapazes como est�o bem!� Da� a pouco torna a passar, a
p�; pergunto-lhe eu: �Ent�o mor�reu a sua gata? � como ele chamava ao cavalo que montava. Respondeu-me:
�N�o, uma coisa num bra�o!� e continuou at� ao fim a animar os soldados, indo
s� depois tratar-se�. (10) A mon�tada de Mousinho � que n�o tardaria a
erguer-se num pinote e a cair, depois, como uma massa, inerte, derrubada por um
pro�j�ctil v�tua. Quanto a Galhardo, �uma perfei��o, � prosse�gue a mesma
ep�stola, � de sossego e serenidade. Ficou sem�pre a cavalo. Uma bala ro�ou-lhe
na garupa do cavalo e ele nem pestanejou, sempre de charuto na boca,
percorrendo as faces, recomendando firmeza e sossego, dizendo a sua gra�a a um
e a outro. Muito, muito bem!� A artilharia n�o cessava de bramir. A-pesar disso uma imponente linha de guerreiros destacava-se e aos
saltos avan�ava de encontro � reduzida hoste portuguesa, a que assistia, j�
gloriosa, uma bandeira de l�, duma exist�ncia de algumas horas apenas. (11)
Poucos por�m dentre esses
negros audaciosos ousaram transpor a lagoa e os que diante do fogo do quadrado
n�o recuaram, continuando a adiantar-se aos saltos, a poucos metros dele,
alguns a menos de dez, morderam para sempre o p�. O ataque em que Gungunhana
havia empenhado 12.000 homens, �s seis horas estava domi�nado. �Fora um r�pido
duelo � observou Enes � do moderno armamento europeu com a for�a bruta do
n�mero, em que ven�cera facilmente o armamento porque o manejaram as tropas com
imperturb�vel sangue-frio.� Hav�amos tido 41 baixas � mortos e feridos; o
inimigo cerca de 900.
Ao fim da
tarde �f�z-se o enterro dos cinco soldados mor�tos � conta Mousinho com
comovida singeleza. Arranj�mos um cemit�rio no bosque, debaixo das �rvores, cercado
de fio de arame e abatizes por causa das hienas. Quando se enterra�ram, o
coronel fez uma breve alocu��o, lembrando que tinham morrido como soldados
portugueses ao servi�o de El-Rei. Ajoe�lhou tudo de chap�u na m�o, deram-se as
tr�s descargas do es�tilo, tocaram as cornetas a marcha dos estandartes e
levant�mo--nos. H� ex�quias ou enterros pomposos que valham isto? Che�ga-se a ter inveja dos mortos. (12) A
primeira mancheia de terra foi deitada sobre cada um pelo seu capit�o
respectivo.�
Ent�o, antes da coluna
prosseguir na marcha para o kraal, teve
Mousinho de ir com a sua cavalaria a Chicomo por mantimentos, forragens e
carregadores, dilig�ncia que ficou not�vel pela precis�o com que foi cumprida
no espa�o de tr�s dias, conforme o determinado, a-pesar-de tratar-se
dum per�curso de sessenta quil�metros. Enes, para quem at� ali um ho�mem nos
brejos do sert�o era mais �gil e veloz que um cavalo, n�o hesitava mais tarde
em afirmar que ela representava de facto uma fa�anha surpreendente.
Recome�ada a marcha
para o Manjacaze, atravessado o vau do Manguanhana, n�o tardou que a coluna
notasse a pre�sen�a de gente v�tua, cujo prop�sito de defender o acesso ao kraal n�o resistiu a alguns disparos
com que a haviam alvejado.
Rangia o edif�cio do imp�rio do Gungunhana...
Diante dos
nossos apresentava-se agora uma rude encosta a escalar. Junto � langua,
guardada por uma parte de for�a, estacionava o comboio. Subindo sempre, qu�si a
cortar mato, ao cabo de uma hora, entrava finalmente a coluna no Manja�caze. Era � segundo Mousinho descreve � uma enorme po�voa��o
de cerca de 600 a 700 palhotas, rodeada dum cercado de paus muito altos, ao
meio do qual estava a palhota do r�gulo. (13) Ent�o o coronel Galhardo mandou
deitar fogo a esta. As restantes, dentro de pouco, tornavam-se igualmente pasto
das chamas formando assim uma fogueira imensa que atirava para o espa�o os seus
rolos de fumo e as suas laba�redas, � uma pira imponente no caixilho da
floresta sombria e silenciosa.
�����
Aludindo�� ao�� desapontamento�� de��
verem�� abandonado�� o kraal,
escreve ainda Mousinho: �Todos � uma lamentavam n�o haver quarenta ou
cinquenta cavalos em estado de fazer a per�segui��o, porque [o r�gulo] teria
sido apanhado.� (14)
*
*
Fazendo
o ligeiro balan�o das primeiras vit�rias dizia. Aires de Orneias numa carta
para Lisboa, aos seus: �O Chaichai j� se avassalou, assim como todos os r�gulos
chopes. O Bilene quer submeter-se e se o Punda o fizer fica realizado o que eu
dizia: o pa�s entre o Save, Chengane e o Limpopo est� portugu�s.� (15)
Entrava-se
na �poca das chuvas e esta circunst�ncia acon�selhava a suspens�o tempor�ria
das opera��es, estando demais todas as tropas fisicamente exaustas.
No Cabo,
no Transvaal, pela Europa fora, em toda a parte aonde a not�cia da vit�ria de Coolela
havia chegado, n�o se ocultava a admira��o pelas armas portuguesas.
Ia largar para
Lisboa o Zaire com o Comiss�rio
R�gio, o coronel Galhardo, o grosso da expedi��o.
Poucos dias
antes de embarcar criara Enes o distrito militar de Gaza e nomeara seu governador
o capit�o Mousinho.
Ao assinar o decreto desta nomea��o, aos
seus ouvidos soa�ram sem d�vida, como um sinal, aquelas palavras em que ele,
antes da tomada de Manjacaze, lhe havia afirmado, numa irre�prim�vel
confid�ncia, o ardente prop�sito de surpreender, um dia, com o seu pelot�o, o
r�gulo e, depois de o ter agarrado, de o atirar fortemente atado, para cima dum
cavalo, o trazer como um trof�u a Chicomo.
Das profundidades do sert�o chegavam rumores da fuga arquejante do
Gungunhana, a caminho da fronteira.
Alimentaria ainda Mousinho, a-pesar disso, a ideia
de al�can�ar, de surpreender, de fazer rolar no p�, sob as patas da montada, o
drag�o v�tua?
(1)
O Ambaco com ca�adores 3 e o Estado Maior da coluna chegava a Inhambane a 3 de Junho;
doze dias depois desembarcava do Gene�ral,
a cavalaria com 90 cavalos e 11 muares; a 26,
largava ferro outro barco com bois para talho e trac��o.
(2)
Na vila de Inhambane instalou o comiss�rio r�gio �o melhor que
p�de um hospital central�. �Em meu auxilio foram, felizmente�escre�veu�tr�s
irm�s de S. Jos� de Cluny, as que por telegrama pedira, reco�mendando-me �
interven��o de S. M. a Rainha D. Am�lia para as obter. Com elas entraram no
novo hospital, n�o s� a caridade sen�o tamb�m a ordem, a disciplina, a economia
e... at� a alegria. Especialmente a supe�riora, uma juvenil alsaciana, era a
piedade mais prazenteira, a devo��o mais af�vel, a austeridade mais cariciosa
que podem sonhar os que dese�jam, como eu, que a virtude cative e a religi�o
seduza. O que elas fize�ram! At� aviaram receitas na botica, urna vez que
faltou o botic�rio. At� cortaram e coseram bandeiras portuguesas que n�o tinha
j� para os postos militares. Os soldados da campanha de 1895 n�o tiveram ao
servi�o do seu bem estar os providos recursos com que as pot�ncias militares
civi�lizadas abrandam e suavizam os trabalhos da guerra; mas tiveram sempre
solicitudes paternas a velar por eles, � e a chorar por eles quando n�o podiam
mais!�.
(3)
Enes, �ob.� cit.
(4)
Aires de Orneias, ob cit..
(5)
Enes,� ob.� cit.
(6)��� Passos do resumo� da carta feito por Enes
na Guerra� de �frica
(7)��� Campos J�nior,� Vit�rias de �frica. Lisboa, 1896.
(8)��� Campos J�nior,� ob.
cit.
�������� (9)���� Campos J�nior, ob. cit.
(10) Carta de Mousinho publicada
nas Novidades e que aparece
repro�duzida no I vol. da Colect�nea dos
escritos de Aires de Orneias, editada pela Ag�ncia Geral das Col�nias.
(11) Por costume, a bandeira de um
regimento acompanhava sempre a 1.� companhia. Por isso o coronel Galhardo
resolvera � e muito bem � que a 2." companhia empenhada no combate,
tivesse tamb�m bandeira durante a campanha.
(12)��� Carta de Mousinho atr�s
citada.
(13)��� Carta atr�s j� citada.
(14)��� Carta� j��
citada,� de� Mousinho.
(15)��� Aires� de�
Ornelas,� ob.� cit.