II

Corriam naquela �poca agitadas as coisas em Portugal por motivo do ultimatum.

Os com�cios sucediam-se cheios de veem�ncia; dia a dia os jornais renovavam as suas parangonas violentas como ap�s�trofes; circulava por toda a parte o panfleto; a caricatura san�grava e a pr�pria arte descia da sua nuvem a misturar-se ao tumulto, ao nervosismo da rua. Era um ambiente sedicioso. A revolta n�o tardaria a deflagrar. Da sua remansada vila de Neully, onde com regularidade ou pequeno atraso o correio entregava, cintadas, as Novidades, E�a, a quem �esses gritos, esses crepes sobre a face de Cam�es, toda essa barafunda senti�mental e verbosa� inquietavam, sugeria a Oliveira Martins, cujo pensamento renovador come�ava a divorci�-lo de f�r�mulas pol�ticas correntes e n�o tardaria a fazer dele, naquela �poca, uma solit�ria voz a clamar no deserto, � que falasse, que fosse aquele esp�rito �de bom senso e de verdade� que era urgente que se fizesse ouvir...

Teria Mousinho a grande dist�ncia da fogueira, chegado igualmente a inquietar-se?

Algumas alus�es aos perigos e aos sustos daquele per�odo bastam para que quaisquer d�vidas a este respeito se dissipem.

A sedi��o militar do Porto, por uma �lgida manh�, mas ardente de discursos e de entusi�sticos clamores, haviam-na dominado, do alto da escadaria duma igreja, algumas for�as da Guarda, a princ�pio irresolutas... Como se, por�m, ela represen�tasse apenas um caso espor�dico, simplesmente um tumor que rebentara, deixando ilesos o resto dos tecidos do organismo � os costumes pol�ticos do pa�s n�o se modificaram. Por outro lado, � � medida que a decad�ncia se acentuava, � a palavra Revolu��o acudia aos l�bios com a significa��o dum miraculoso fiat... Esmorecida a confian�a nos princ�pios, as institui��es en�travam no plano inclinado em que por fim deviam sumir-se...

������� Mousinho que manteve sempre a sua qualidade de portugu�s insepar�vel da fidelidade �queles princ�pios tradicionais de que, no seu pensamento, era deposit�rio o Rei, e que por esse motivo nunca enfileirou entre os c�pticos que formavam o grande n�mero dos seus contempor�neos, reagia diversamente contra o aviltamento em que tudo ca�a. Por isso, para al�m de perigos e de amea�as, a sua f� previa possibilidades de renascimento... �A cobi�a da Europa dera-nos o conhecimento vago do tesouro que ainda possu�amos.� (1) Sobre os destro�os do mapa cor de rosa, que t�o numerosas e profundas decep��es custara, a nossa voca��o ultramarina poderia de novo expl�ndidamente aplicar-se, operar o resgate dos erros, reconstituir o prest�gio aba�lado da monarquia, congra�ar, facto que tantas vezes no decurso duma hist�ria extensa se havia repetido, o Povo e o Rei, criar o exemplo duma nova �partida� de bons e esfor�ados servidores. Que sentido alto da P�tria, que alta finalidade em todos os seus trabalhos, vicissitudes e gl�rias africanas animavam a ala que Mousinho comandou, revelam-no as seguintes passagens duma carta de Aires de Orneias escrita em 1897: �Tamb�m se a gente n�o acabar por levantar o Pa�s j� n�o sei o que pode a von�tade. Quando penso no que era o Ex�rcito quando sentei pra�a, na sua negra obscuridade, no seu marasmo, no nada que era considerado, e olho para o dia de hoje e penso, n�o posso dei�xar de dizer que alguma coisa temos feito; e se a minha gera���o, � qual for�a � diz�-lo, se deve isso especialmente, o tem podido conseguir, foi ainda por que nos soubemos unir, e pela palavra, pelo escrito e finalmente, merc� de Deus, pelas obras temos mostrado que se pode contar com a tropa. N�o posso portanto deixar de ter esperan�a no futuro, que s� vejo aus�picioso. Hoje n�o � o Pa�s inteiro que para aqui olha como um auspicium melioris alvi? H� de ser o orgulho da minha vida ter j� hoje o meu nome ligado a esse ressurgimento nacio�nal�, (2)

Chegara, pois, o momento de, como nos bons tempos da conquista, falarem por suas obras portugueses de ouro � ex-�press�o que Mousinho recolheu nas leituras das D�cadas de Couto� para a aplicar um dia a um irm�o de armas, Caldas Xavier.����

����� Das qualidades da grei n�o havia que duvidar, embora �ses�senta e quatro anos de rota��es partid�rias, das quais quarenta e sete de pretendido fomento mascarando a corrup��o�, a houvessem desiludido �por forma a desinteress�-la de toda a pol�tica, em que [via] n�o a compet�ncia dos que melhor podem governar mas apenas a rivalidade mesquinha de inter�sses pessoais ou partid�rios�. �Um pa�s com uma tal gente n�o podia morrer v�tima duma pequena minoria.� (3).

Em Portugal os governos haviam atentado tarde nas coisas da �frica.

E contudo estava-se num s�culo em que um imenso movi�mento de interesse p�los segredos desse vasto continente se dese�nhava. A princ�pio timidamente, a pretexto de resolver umas vezes certos antigos problemas geogr�ficos, sobretudo de ca�r�cter hidrogr�fico, � onde nascia o Zambeze? onde tinha o Nilo as suas fontes? � outras a coberto de denunciarem cen�tros de esclavagismo ainda existentes, e at� por veem�ncias de proselitismo puritano. Depois afirmando j� insofismavelmente os verdadeiros prop�sitos que o animavam, pela anexa��o, pela conquista, pela institui��o de protectorados.

O activo colonial da nossa governa��o pouco mais contava do que o resultado de alguns clarividentes esfor�os isolados.

Ter� sido isto fruto da pr�pria �poca?

Talvez, em parte.

Porque tamb�m a Inglaterra, nos meados do s�culo, pade�ceu as consequ�ncias duma pol�tica de little Englanders, para a qual as col�nias representavam qu�si exclusivamente encargos pesados sem remunera��o no futuro.

N�o acabariam elas mais dias menos dia por separar-se do tronco que as sustentava?

Certo � que com a apari��o de Disra�li em 1876 tudo devia mudar.

Homem de g�nio dotado de penetrante vis�o, um dos seus primeiros actos de governo consistiu em ajustar, com o t�tulo de Imperatriz, ao diadema de Sua Graciosa Majestade, o diamante das �ndias, at� ent�o obscuramente conservado no estojo em que o legara uma famosa companhia ao desapa�recer do mundo... E a nova soberania tornou-se um programa que conseguiu, afinal, acordar depressa no esp�rito brit�nico a consci�ncia do Imp�rio.

Assim fora necess�rio.

Porque outros pa�ses iam aparecendo na cena sertaneja. J� os seus exploradores n�o estavam seguros de n�o encontrar numa qualquer volta competidores, como acontecera a Stanley, acolhido onde hoje � Stanleyville, por outros brancos de falar diferente do seu. � roda de 1834, com efeito, cest une v�ntable course vers l'int�rieur, express�o com que o sr. Jacques Weulerose (4) designa a sofreguid�o de �frica que se apoderou ent�o de alguns povos. Ao passo que a Inglaterra reservava para si a vastid�o hinterland e adquiria Zanzibar, os alem�is instalavam-se no Togo, no Camar�o, na Damara, no Este Afri�cano. �No meio das rivalidades das pot�ncias, a vantagem viria a caber �quele que pudesse rapidamente ocupar a maior por��o de territ�rio�, � pondera ao tratar do fen�meno o his�tori�grafo flamengo sr. Adrien de Mee�s, para quem os portu�gueses ao tempo viviam na convic��o de estarem ainda no s�culo XV... (5) Quando De Brazza apareceu na margem es�querda do Zaire, dentre os belgas que procuravam tamb�m em �frica o seu lugar ao sol, um clamor de protesto se ergueu contra o que eles diziam representar uma �usurpa��o�.

Assim sobre o piso de Livingstone, de Stanley, de Brazza, de C. Rhodes mais tarde, iam-se delimitando futuros pa�ses, �s vezes um pouco aos encontr�es.

Assim, entrementes, se chegou � Confer�ncia de Berlim que estabeleceu as normas duma partilha jur�dica.

E a-pesar-de tudo isto, os portugueses at� h� poucos anos haviam sido os �nicos a percorrer os sert�es de Angola e Mo��ambique, traficando e influindo dum modo s�rio na vida dos povos centrais do grande continente (6).

Not�veis foram para o reconhecimento deste entre outras as explora��es de Capelo e Ivens, de Serpa Pinto, cujos itiner�rios se desenham sobre vast�ssimos territ�rios que antes deles nenhum outro europeu havia palmilhado. Nem no ponto de vista da devassa cient�fica do centro de �frica se ficava atr�s dos demais povos curiosos. Somente a ac��o pol�tica e diplo�m�tica que a esse movimento veio a corresponder, fora qu�si frouxa, mole de interesse. A prioridade dos descobrimentos p�los portugueses, � diz por sua vez o sertanejo Silva Porto, num escrito sobre as viagens de Livingstone, postumamente publi�cado pela Sociedade de Geografia de Lisboa, � � um facto demonstrado at� � saciedade; apenas os governos n�o correspon�deram ao que deles era de esperar, enviando homens compe�tentes, conhecedores dos diferentes ramos de ci�ncia humana, que explorassem, investigassem, descrevessem. E t�o tardia�mente eles haviam acordado que ao chegarmos � regi�o dos La�gos, � conforme Pinheiro Chagas refere, � j� l� se encon�travam mission�rios protestantes que � nossa estranheza e � intimativa que lhes fizemos para que se fossem, retorquiram senhores de si: C'est a vous d'en sortir! Coisas nossas, � escrevia em 1890, ainda Silva Porto, nas p�ginas testament�rias do seu Di�rio, � pretender realizar quando j� o c�rculo de ferro dos estranhos nos apertava, o que dever�amos ter feito h� vinte anos!

Salisbury no poder reatava a pol�tica tradicional das gran�des Companhias.

Depois veio o ultimatum, � e logo a liquida��o dos falazes �direitos hist�ricos� com que nos embal�vamos, como antigos senhores do Universo, o naufr�gio duma grande ilus�o...

Que ocup�vamos de facto na �frica Oriental?

Duma das vezes em que se lhe ofereceu tratar do assunto, referiu Mousinho: �Domin�vamos na capital da prov�ncia a ilha de Mo�ambique, domin�vamos tamb�m em todo o distrito de Inhambane, ocup�vamos Louren�o Marques e exerc�amos dom�nio mais nominal do que efectivo nas terras lim�trofes assenhoreados p�los r�gulos vassalos da Coroa; t�nhamos pres��dios ou fortes militares em v�rios pontos da prov�ncia, em Sofala, Tete, Sena, Quelimane, Ibo, Tungue, e pouco mais. A isto se reduzia o nosso dom�nio real na �frica Oriental Por�tuguesa; no resto das nossas possess�es desta parte de �frica n�o t�nhamos dom�nio real de esp�cie alguma.� (7) Noutra ocasi�o, com uma impressionante precis�o, descreve-nos o inva�ri�vel tipo desses postos a que se apoiava a nossa soberania: a lament�vel palhota ao lado a qual havia sempre plantado um grosseiro mastro para a bandeira e cuja guarni��o consistia em tr�s ou quatro soldados pretos comandados por um oficial branco exposto, pela desolada monotonia duma perman�ncia na in�r�cia, a todos os ardis do mato, da natureza primitiva, subtil�mente corrosiva...

Tal era o momento em que Mousinho estabelecia o seu pri�meiro contacto com a �frica, que ele at� ali apenas conhecia dos livros estudados, do desenho das cartas e da amurada do navio que o levara � �ndia.

������ Come�ava ent�o Louren�o Marques a estender-se para fora do per�metro do velho pres�dio em que at� h� pouco coubera. A despeito da febril exala��o dos p�ntanos, lojas, habita��es de madeira e zinco tinham-se tornado mais numerosas e, reser�vadas a novas edifica��es que n�o tardariam talvez a ser pro�curadas, algumas avenidas iam-se rasgando um pouco � aven�tura sobre a areia solta e a vegeta��o des�rtica de cactus e mi�mosas, em direc��o �s saud�veis emin�ncias de Machac�ene, do Mah�, do deslumbrante belveder da Ponta Vermelha, onde um solit�rio farolim conversava com a navega��o de largo. Neste aglomerado a ensaiar gestos de alargamento, a pra�a 7 de Mar�o, com a �resid�ncia� qu�si sem vulto, algumas fei�torias estrangeiras, armaz�ns, casas principais, �bars�, uma par�dia de jardim p�blico provinciano ao meio, onde uns can�teiros definhavam e escassos alo�s tristemente floriam, fre�quentada de brancos, de monh�s, de mesti�os e que uma vez por outra aventureiros de pele rosada e cabelo louro, largados pelo paquete que acabava de fundear, atravessavam a cami�nho de terras aur�feras � constitu�a o panorama urbano por excel�ncia caracter�stico. Ali, com efeito, durante o dia lavrava a imagina��o dos neg�cios e � vira��o das noites, como nas pequeninas vilas da metr�pole, � volta do chafariz ou na botica, praticava-se a m� l�ngua, cada qual besbilhotava indiscreto. Vivendo, ent�o, ombro a ombro, dificilmente as intimidades escapavam ao c�ustico da anedota. E o facto de, � como refe�riu Enes, �bastarem alguns passos fora de casa, para logo se encontrar o puro campo africano, povoado unicamente de palhotas, sem outras culturas al�m das machambas dos ind��genas, � ainda mais acentuava a balda, o acanhamento do meio.

� chegada de Mousinho, a popula��o vira, havia pouco mais dum m�s, correr sobre o rail para a fronteira o primeiro comboio.

Como uma arca de peito s�frega de ar, Louren�o Marques come�ava, a-pesar-de tudo, a respirar melhor, � novos e mais largos interesses...

Esse governo de Mousinho que foi curto, valeu principal�mente pela experi�ncia e pela fecunda medita��o que propor�cionou, embora qu�si sempre seja nas biografias, quando o n�o omitem, um simples pormenor de carreira.

Efeito do s�bito e maravilhoso explendor de Chaimite.

Um dos mais interessantes epis�dios que o assinalaram foi o aprisionamento do Countess of Carnarvon, quando o flibus�teiro subia as �guas do Limpopo com o presente de armas da Chartered para o Gungunhana.

Outro foi a desafronta de Macequece, que traz � mente os feitos dos nossos fronteiros e alcaides-mores de castelos de que reza a cr�nica do solo p�trio.

Havia a gente de Chartered em territ�rio nosso capturado um oficial portugu�s � Paiva de Andrade.

A afronta exigia pronto castigo.

Imediatamente Mousinho tratou de organizar uma coluna composta dos pol�cias que tinha � m�o e de alguns volunt�rios. Caldas Xavier, que voltara de novo �s suas explora��es no vale do Limpopo, interrompeu-as logo e foi apresentar-se ao gover�nador do distrito. Assim, a 10 de Janeiro (8), sob o seu coman�do, embarcava a coluna em Louren�o Marques, sa�a na Beira e ao cabo duma exaustiva marcha de quatro meses, durante a qual ami�de tivera de abrir trilho entre a vegeta��o espessa que de todos os lados a envolvia, chegava a Macequece ocupada pelo advers�rio. Uma hora durou a refrega com perdas de parte a parte. Um combate duro e desigual. De Lisboa, alarmado, o Governo mandava depois que os nossos retirassem. Estavam em marcha as negocia��es para o tratado que definiria os limi�tes da Prov�ncia. Houve, pois, que retirar. O tratado foi, com efeito, assinado. �Mas, � ponderava Mousinho, ao lembrar a ocorr�ncia e aquele conv�nio, � houvera, ao menos, um pro�testo a tiro�.

������ Se os nossos competidores j� n�o procuravam dissimular os seus prop�sitos de expans�o, � tanto que ainda em Abril de 1891, as canhoneiras portuguesas haviam tido que op�r-se pela for�a a uma expedi��o da South �frica, que pretendia penetrar na Beira, � a grande sombra do Gungunhana continuava a alastrar pelas �terras da Coroa�, � aqueles territ�rios distri�tais, � explicava Enes, � cujos r�gulos se consideravam vas�salos imediatos de Portugal, cumpriam os deveres de vassala�gem, especialmente os do pagamento do imposto e da prestac�o de gente para guerra ou trabalho. Para al�m das �terras da Coroa� nunca se tinham estendido as mais ligeiras realidades do nosso dom�nio (9). E, a prop�sito, o antigo comiss�rio r�gio alude � recusa que fizemos, s� para n�o descontentar o Gungunhana, da vassalagem que desejava prestar a Cossine, vasto e populoso pa�s da margem esquerda do Incomati. A sombra do r�gulo ia, pois, dilatando-se, obscurecendo, apagando a nos�sa soberania. Gungunhana levantava gente, cobrava tributos onde e como lhe aprazia, e para negociarem ou atravessarem os seus dom�nios, n�o s� monh�s ou baneanes tiveram muitas ve�zes de solicitar-lhe autoriza��o, mas at� brancos, at� portugue�ses. E tudo isto se passava a dois dias e menos dos nossos por�tos de mar! (10)��� Para n�o irritar o potentado, acedia-se �s suas mais duras imposi��es. E contudo a sua atitude era bifronte. Dele, em 1893, escrevia Mariano de Carvalho que, como comis�s�rio r�gio de Mo�ambique, se encontrou com Mousinho gover�nador do distrito de Louren�o Marques: �Aquele honrado tra�ficante t�o cantado p�los peri�dicos de Lisboa, poucos meses antes havia enviado emiss�rios ao Natal para se entregar aos ingleses e logo depois ao Transvaal para se entender com os b�ers contra n�s. Servia para a ret�rica oficial, para as declama��es patri�ticas dos jornais, para justificar grossos disp�n�dios com intend�ncias e subintend�ncias famosas e rid�culas, para nos extorquir presentes, para se emborrachar com vinho moscatel e na sua falta com aguardente, para tratar e assolar grande parte da prov�ncia ao sul do Zambeze�. (11) Mas que opor � extens�o do mal?

Uma nota ao fundo de certa p�gina de Mo�ambique � a este respeito bastante elucidativa.

�Logo que fui para a �frica e vi o estado de coisas no dis�trito de Louren�o Marques de que era governador, convenci-me da imprescind�vel necessidade de bater os v�tuas. O major Caldas Xavier que no seu reconhecimento do Limpopo tivera ocasi�o de atravessar as terras do Gungunhana, apoiava muito esta opini�o, e afirmava que a empresa n�o era t�o dif�cil nem t�o arriscada como a muitos se afigurava. Rara era entretanto a pessoa que ouvindo falar em tal, nos n�o taxasse de visio�n�rios�.

Ora com efeito em Lisboa n�o se pensava daquele modo. E durante muito tempo se hesitou e manteve a pol�tica de libras e presentes, pre�o do direito que o r�gulo concedia ao nosso pa�s de ter hasteada a bandeira no seu kraal... A nossa autoridade n�o tardaria, pois, � como muito bem previa Enes, no caso de n�o mudarem as coisas em �frica, � a reduzir-se ao terreno que os p�s cobriam.

Entre Caldas Xavier e Mousinho, sempre que se encontra�ram, foi este angustioso problema debatido. Absurdo seria supor o contr�rio.

� varanda da �resid�ncia�, na solid�o e na mudez profunda das noites de �frica, de ardente e vibrante irradia��o, enquanto � velada claridade do candieiro, percebido atrav�s das persianas, a sr.a D. Maria Jos� Mousinho de Albuquerque, numa sala perto, escrevia aos seus, � se se anunciara para dali a poucas horas o vapor da carreira, � ou se ocupava em trabalhos para o lar, ambos, nesses encontros, apreciaram sem d�vida todos os aspectos da situa��o, calcularam a extens�o de esfor�o, de inte�lig�ncia, de alma her�ica que se tornavam indispens�veis. �Mo��ambique era uma prov�ncia a conquistar em grande parte e a organizar��devia Mousinho escrever mais tarde, reportan�do-se �queles tempos. E � tamb�m da mesma �poca a adver�t�ncia do major Caldas Xavier: �Quanto mais tarde nos re�solvermos a bater o Gungunhana, maiores ser�o as dificul�dades�. Que as ideias dum e doutro se encontraram, con�firma-o a nota a que se aludiu h� pouco, � ou pelo menos nunca essencialmente divergiram. Material de guerra, empre�go de for�as brancas, emprego de for�as negras, das gentes dos r�gulos avassalados, ocupa��o de pontos t�cticos e cons�tru��o de postos fortificados, uma vasta rede de estreita malha que devia acabar por manter imobilizado e impotente na margem esquerda do Limpopo o potentado v�tua, � raids de cavalaria: �se se me deparasse ocasi�o num [deles], prend�-lo-ia, [ao Gungunhana], pensaria j� Mousinho (12):�a fun��o daquele rio como linha de defesa, explorado por lanchas-canhoneiras; o armamento da cavalaria com lan�a ou carabina como infantaria montada (13), que Caldas Xavier preferia aos lanceiros, que poderia igualmente desempenhar pequenas opera��es em que a carabina teria melhor emprego do que a lan�a e o sabre; e por �ltimo o complemento, a justifica��o da ac��o militar, � a organiza��o do pa�s que seria necess�rio empreender desde logo, indo dos fundamentos da administra��o at� ao aproveitamento econ�mico das suas riquezas, � sua coloniza��o, a par duma pol�tica ind�gena gene�rosa, -eficiente, civilizadora, � todos estes problemas seguramente passaram nessas conversas qu�si casuais em horas de aparente repouso, debatidos com exuber�ncia de recursos de ci�ncia militar, de vis�o pol�tica, com uma igual e mal contida ansiedade de realizar...

Desintelig�ncias administrativas?

Provavelmente. Porque em dado momento Mousinho resolvia em 1892 deixar o governo do distrito, onde, n�o obstante a pre�cariedade das condi��es, fizera cobrar o imposto de palhota.

O seu tiroc�nio africano estava feito.

Mousinho durante esse curto governo n�o tinha unicamente servindo, mas observara com uma absoluta objectividade o meio, as gentes, os factos, o ambiente pol�tico e internacional em que os problemas se apresentavam.

Resultado das suas experi�ncias e duma penetrante medi�ta��o era sem d�vida aquele �plano� de opera��es que entre�gara ao ministro da Guerra, coronel Pimentel Pinto, e que este entendeu dever confiar � aten��o de Ant�nio Enes, na altura prestes a seguir para Marselha, donde partia o barco das Messageries que o levaria ao seu destino. Dias depois, curioso de conhecer a impress�o que a leitura pudesse ter produzido, interrogou o comiss�rio r�gio. �Acha-o vi�vel?� Mas Enes que preferia orientar-se no local, pelo exame directo da situa��o, evitou comprometer-se de antem�o, e respondeu apenas que o trabalho do capit�o Mousinho n�o se afastava muito das ideias que ele tinha sobre o assunto, � e que por isso o tomaria em considera��o.

Recordando depois o epis�dio, explicava na Guerra de �frica:

�A semelhan�a deste projecto com o meu, provinha de que ambos tinham sido baseados em informa��es e alvitres do ma�jor Caldas Xavier, que visitara o Gungunhana e percorrera boa parte do decantado imp�rio v�tua�.

Quais eram as ideias de Caldas Xavier?

Certo passo do Reconhecimento do Limpopo resume-as nes�tes termos:

�N�o se devia atacar abertamente o Gungunhana, que dis�punha de enormes recursos para a resist�ncia, sendo prefer�vel rode�-lo com uma cinta de postos fortificados, que a pouco e pouco se fossem apertando at� garrot�-lo. Se ele, compreen�dendo a amea�a, quisesse reagir, tanto melhor, por isso que os v�tuas s� na defensiva eram formid�veis. Convinha at� provo�c�-los�. Caldas Xavier recomendava at� que se constru�ssem os postos de tal arte que, sendo fortes parecessem fracos, para que o inimigo se arremessasse sobre eles com cega confian�a. �Nada, por�m, de ir procur�-los nas suas florestas, nos seus p�ntanos, em sert�es sem �gua ou alagados, onde o soldado branco seria vencido sem combater�.

Do plano de Mousinho que o coronel Pimentel Pinto lhe havia recomendado, referiu Enes em A Guerra de �frica:

�N�o propunha uma campanha aberta contra o r�gulo de Gaza, nem um ataque ao Manjacaze: aconselhava apenas que duas colunas de tropas europeias, de cerca de 1.200 homens cada uma, auxiliadas por ind�genas, operassem ao norte do distrito de Louren�o Marques e ao sul do de Inhambane, e nes�sas regi�es estabelecessem postos militares fortificados em posi��es estrat�gicas como Chicomo, Magul, etc. Marcava essas posi���es, que deveriam ficar ocupadas e em estado de resist�ncia.�

J� nesse trabalho Mousinho, � que era qu�si o �nico oficial que insistia pelo emprego da sua arma em �frica, � a ela devia atribuir o papel que ardentemente lhe apetecia.

Talvez por influ�ncia sua o ministro da Guerra decidira empreg�-la nas pr�ximas campanhas, � e ao comiss�rio r�gio anunciou que ia mandar fazer parte da expedi��o dois esqua�dr�es de cavalaria.

Enes n�o o contrariou, �conquanto, � conforme depois con�fessou, � n�o tivesse ideias assentes sobre a vantagem do em�prego da arma em guerras sertanejas�, mas pediu e conseguiu que embarcasse apenas um esquadr�o.

A grande hora de Mousinho ainda n�o havia chegado.

Mas n�o tardaria a soar.

 

(1)��� Mousinho, Mo�ambique.

(2)���� Ornelas,�� ob.�� cit

(3)��� Mousinho, ob. cit

(4)��� L�Afrique�� Noir.

(5)��� Histoire�� de� Belgique,�� Plon,� 1928.

(6)��� H.� Capelo & R. Ivens, De Angola � Contra Costa, 1886.

(7)���� Confer�ncia realizada na noite de 19 de Janeiro de 1898 no� Cen�tro� Comercial do Porto.

(8)� 1891

(9)� Enes, A� Guerra de �frica.

(10)� Enes,� ob. cit.

(11)� Planos financeiros, Lisboa, 1893.

(12) Mousinho em A Campanha das tropas portuguesas em Louren�o Marques e Inhambane, Lisboa, 1897.

(13) O efeito de uma carga de cavalaria, � escreveu Caldas Xavier, 110 Reconhecimento do Limpopo, � sobre os nossos inimigos, inteiramente estranhos ao combate desta arma, deve ser espl�ndido e ter� a vantagem de entusiasmar as massas da guerra-preta dos nossos r�gulos armados de escudos e azagaias.

 

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