A fortaleza de� S. Sebasti�o

Os quatro baluartes da fortaleza de S. Sebasti�o : S. Jo�o, Nossa Senhora, Santo Ant�nio e S. Gabriel, e as suas duas baterias razantes, constru�das posteriormente, uma delas em redor da pequena capela, que durante s�culos desempenhou fun��es de catedral, gozaram de re�lativa tranquilidade, desde 1608 ou 1609 at� 1669, ano em que o imane de Mascate atacou a fortaleza com poderosa esquadra. O ataque n�o teve consequ�ncias de maior, pois a frota �rabe teve de retirar com avarias importan�tes. Governava ent�o a capitania In�cio Sarmento de Carvalho e comandava a pra�a, na qualidade de feitor, Gaspar de Sousa de Lacerda.

Desde ent�o estiveram � testa dos destinos da capita�nia de Mo�ambique, entre outros : Rui de Melo Sampaio, Diogo de Sousa Meneses, D. Nuno �lvaro Pereira, de 1627 a 1631; e Ant�nio de Melo e Castro. Nova quadra de repouso. Surgem depois os nomes de Ant�nio de Melo e Castro e Jo�o Fernandes de Almeida.

����� Perdera-se a fortaleza de Momba�a, situada a leste da ilha do mesmo nome, ilha de coral, como a de Mo�ambi�que, e assemelhando-se a ela em mais de um particular, e at� na superf�cie, que ter�, quando muito, o dobro. A cidade ergue-se a nordeste. Vista do mar oferece pito�resca apar�ncia. A parte mais saliente � a fortaleza, erecta num socalco elevado, a cerca de trinta e quatro metros acima do n�vel m�dio. O conjunto do povoado n�o difere sensivelmente do das outras terras orientais antigas, com a casaria terraplenada em terra�os, para co�lher as aguas de chuva e servirem de desafogo quando o sol se oculta, a par de edif�cios modernos, que os s�culos ali apuseram. No s�culo XVI alfombrava-se de densas florestas de mangueiras, hoje reduzidas.

Por toda a parte se topa com vest�gios do dom�nio portugu�s.

Historiemos um pouco.

O nome da ilha de Momba�a prov�m de igual deno�mina��o no Oman, Estado maometano, independente, a sudeste da Ar�bia. A sua organiza��o data do s�culo XI. Refere-se a ele j� Ibn Batuta, como sendo centro co�mercial de import�ncia, em 1331. Vasco da Gama na sua primeira viagem � �ndia chegou � vista dessa ilha a 7 de Abril de 1498. Afamava-se pelas transac��es comerciais efectuadas por numerosos negociantes de muitas ra�as com os canianes e outras castas de Calicut. Foi nessas paragens que se descobriu a trai��o, se a houve, do pi�loto de Mo�ambique, que norteava a flotilha portuguesa.

Castigada a perf�dia, Vasco da Gama pairou ainda al�guns dias, sem entrar no porto. A 13 de Abril prosseguiu na rota para o Oriente.

A hostilidade dos mu�ulmanos era manifesta. Dela nasceu o voc�bulo suaili de Mvita, guerra. Em 1505 o primeiro vice-rei da �ndia, D. Francisco de Almeida, na viagem para l�, exigiu que os �rabes de Momba�a se de�clarassem vassalos do rei de Portugal. Recusaram-se. Recorreu � for�a. A briga foi renhida. Os da cidade apelaram para todos os meios para se defenderem. Os por�tugueses venceram. Tomaram a cidade. Foi erigido um padr�o comemorativo da vitoria.

Em 1525 afirmam uns, em 1529 asseguram outros, D. Nuno da Cunha, por causa da oposi��o do respectivo xe�que, investiu a cidade e queimou-a. Reinou sempre sur�da irrita��o contra n�s, ao contrario do que sucedia em Melinde. Devido a esta latente revolta, bastantes dos opo�sitores ficaram sem as orelhas, e a ponta dos narizes, o que ainda hoje � lembrado com certo rancor. Duarte de Meneses, em 1587, tamb�m fez sentir aos do Cor�o o peso da m�o portuguesa, em desfor�o da submiss�o feita por eles ao sult�o da Turquia.

A fortaleza construiu-se de 1593 a 1595. Manteve-se sem novidade de maior at� 1631, data em que Yussub Ibn Ahmed se insurgiu, capitaneando uma subleva��o. Todos os portugueses ali residentes foram mortos. Hou�ve um cerco, afirma-se, que durou tr�s anos e meio, des�de o come�o de 1695 a fins de 1699. Devo observar que por mais que tenha querido destrin�ar as datas as acho confusas. Como s�o dificeis e raros os pontos de referen�cia fa�o o melhor que posso e se me antolha mais exacto e autentico.

A guarni��o, de sessenta homens, foi-se reduzindo a onze e duas mulheres. Escrevem certos cronistas que, por ultimo, s� restava um defensor, Ant�nio de Barbosa, que lan�ou fogo ao paiol e fez ir alguns baluartes pelos ares, morrendo ele e boa parte dos assaltantes. A este facto seguiu-se uma expuls�o geral de quanto era ou tinha afinidades com portugueses. A fortaleza apresentava a configura��o da planta anexa. Reparou-a Seixas de Ca�breira em 1635, antes do cerco, evidentemente, como se l� numa inscri��o colocada por cima de um portal. Outra lapide se conserva, das ru�nas do forte de S. Jos� � o mesmo ? � Creio que era outro forte erigido no canal de Kilamini, a� por volta de 1666. Em torno da fortaleza existia um povoado, a que chamavam a cidade tiegra, ha�bitada pelos portugueses e, mais tarde, pelos �rabes. Os ingleses apelidam a fortaleza de Jesus ou de Salvador, por causa das letras I. H. S. gravadas num trecho dos es�combros. Numa das fachadas do tribunal via-se, h� pouco tempo, uma lapide evocadora da constru��o do tal forte de S. Jos�.

�lvaro Caetano de Melo e Castro foi, dizem os histo�riadores do tempo, o ultimo governador de Momba�a, e, depois, de Mo�ambique, em 1722. Sucedeu a D. Francisco de Alarc�o Soto Maior. Entre outros actos seus, restabe�leceu a Junta do Comercio. Nesse mesmo ano obteve a doa��o das terras de Bazaruto. Teve de reprimir os des�mandos dos frades dominicanos em Lena, os de um po�tentado portugu�s Manuel Gon�alves Guido e ainda os do ouvidor Jos� Moreira, sindicante dos enredos e me�xericos. Chamado a Goa em 1723 incumbiu-o o vice-rei da �ndia de comandar a expedi��o organizada para tomar Momba�a, outra vez no dom�nio �rabe. A expedi��o foi feliz, assevera o historiador. Essa for�a reconquistou a ci�dade que Melo e Castro reocupou e administrou. Decor�ridos quatro anos os mu�ulmanos tornaram a sublevar--se. Houve ataque e defesa, de 12 de Mar�o de 1728 a 20 de Novembro de 1729, efectuado por outra expedi��o tamb�m ida de Goa. Malograram-se todos os esfor�os. Nova tentativa se realizou no governo de Pereira de Lago. A expedi��o, n�o sei qual o efectivo, embarcou em duas corvetas e outros barcos de menor tonelagem, Comandava-a o tenente-coronel Alberto Caetano Judice. Velejou de Mo�ambique em 1769 e regressou no ano se�guinte. Perdeu algumas embarca��es mi�das. Foram in�frut�feros os esfor�os realizados. Foi a ultima tentativa.

Os ingleses aproveitam, actualmente, o que resta da fortaleza para armaz�ns e pris�o. O clima � bom. Hoje �, como todas as terras do Oriente, uma Balce de �rabes, suahilis, �ndios e europeus. O porto � �ptimo e � terminus da linha f�rrea de Uganda, ligada, como est�, por uma ponte, ao continente. A cada passo se encontram ali vest�gios da nossa ac��o e vitalidade. Alem do que j� se descreveu existem mais as ruinas da capela de Nossa Se�nhora das Merc�s, do s�culo XVII, no local de um forte turco, mais tarde utilizada contra os �rabes.

Mais uns esclarecimentos. At� 1823 a exist�ncia de Momba�a seguiu um curso normal. Nesse ano a fam�lia Mazru, que reinava ali desde o principio do s�culo XVIII, primeiro como representante do Oman, depois como pr�ncipes independentes, colocaram a cidade sob o pro�tectorado brit�nico. Mais tarde a Inglaterra repudiou-o, e at� consentiu que Said Leyyid, de Oman, a bombar�deasse e a tomasse. No entanto s� entrou na sua posse em 1837, por trai��o. Mais tarde o mesmo Leyyid elevou Zanzibar a capital dos seus estados e Momba�a perdeu boa parte da sua import�ncia.

Em 1875 Momba�a revoltou-se contra Zanzibar com o aux�lio dos ingleses. No ano seguinte, em 1876, foi anexada ao Egipto por conselho e influencia do general Gorden, mais tarde chacinado em Karium. Ap�s v�rios incidentes o sult�o de Zanzibar entregou definitivamente Momba�a, em 1887, � administra��o da Gr�-Bretanha. Elevaram-na ent�o a capital da prov�ncia de Leyyidie e do protecto�rado da �frica Oriental. Em 1907 a sede do protectorado transitou para Nairobi. A titulo de curiosidade, acrescentar-se-� que o poema de Milton, o Para�so Perdido, men�ciona Momba�a e Melinde.

Voltemos aos ataques que glorificaram as muralhas da fortaleza de S. Sebasti�o, da ilha de Mo�ambique.

Ap�s a perda de Momba�a os �rabes, orgulhosos com a vitoria, atacaram a capital da provincia, julgando-a t�o f�cil de ocupar como aquela. Os mu�ulmanos do intento retiraram a lamentar-se da li��o infligida. A ultima aco�metida registada efectuou-se no governo de D. Diogo de Sousa Coutinho, decorrido entre 19 de Mar�o de 1793 e 27 de Agosto de 1797. Diversos navios da primeira re�publica de Franca, em guerra com Portugal, bombardea�ram e investiram a cidade. N�o obtiveram nenhuma van�tagem. Pelo contrario. Deixaram em poder dos nossos seis embarca��es, apresadas em combate, Mandou repa�rar os danos produzidos pelos projecteis inimigos o su�cessor daquela autoridade, Francisco Guedes de Carvalho Meneses da Costa.

Em 28 de Junho de 1810 os franceses diligenciaram apossar-se da cidade. Expediram para ali de surpresa, duas fragatas, a coberto da bandeira inglesa. O engano de�pressa se desfez. As fragatas retiraram sem levar mais longe a ofensiva.

Conheci um preto chamado Francisco, velho servi�al do general Amilcar Barcinio Neves, caracter integro de colonial cheio de servi�os, governador da fortaleza de S. Sebasti�o, que asseverava ter presenceado, quando novo, aquele ataque. � possivel. A carapinha do simp�tico ve�lho encaracolava-se qual branco algod�o em rama, si�nal de um s�culo de longevidade. Tamb�m existia outro preto, Jo�o Sinaleiro, com t�o apurada vista que desco�bria navios no horizonte em demanda do porto, a distan�cia que s� bons �culos de alcance divisavam.

No Museu de Artelharia da mesma pra�a de guerra existiam v�rios canh�es, interessantes pela configura��o e origem. Os principais eram camelos, columbrinas, falconetes e obuses. Uns eram portugueses outros holandeses,, dos tomados nos dois cercos atr�s referidos.

Disse que a pequena capela da Nossa Senhora do Ba�luarte desempenhou papel de considera��o durante s�cu�los. Provam-no as lousas que ali cobrem os restos mor�tais de pessoas ilustres. Era ali que os capit�es-mores e governadores iam completar o investimento do seu alto cargo. Depois da cerimonia no pal�cio de S. Paulo e na anexa capela, dirigia-se a numerosa e luzida comitiva para a fortaleza e entravam os que l� cabiam. O resto fi�cava fora. A� o governador cessante ou o encarregado do governo tirava do altar o bast�o branco com cast�o e ponteira de oiro, simbolo do comando supremo, e entre�gava-o ao recem-chegado. Era este quem, depois, o tornava a repor. Enaltecia a solenidade a ben��o lan�ada pelo pre�lado, efectivo ou interino � porque a prov�ncia de Mo�am�bique deveu boa parte da morosidade do seu desenvolvi�mento �s consecutivas interinidades em toda a escala social. Vinham depois mais discursos.

Poucos s�o os acontecimentos not�veis sobrevindos depois de uma certa quadra. Ali se realizou, pela ultima vez em terras portuguesas, que eu saiba, em Dezembro de 1879, o castigo das varadas. Na pra�a existia um depo�sito de degredados de perto de mil criminosos. Jos� da Cal, um irregeneravel, assassinou o condestavel dos re�clusos. Aguardou-o na horta, oculto numa guarita de pe�dra do baluarte de S. Gabriel, semeada de produtos eu�ropeus, e quando voltou costas, esfaqueou-o com vinte e tantos golpes contra as esp�duas.

O governador geral Francisco Maria da Cunha, coro�nel de artelharia, ap�s sumario julgamento, mandou for�mar os batalh�es de ca�adores 1, 4 e 5, que ent�o ali se aquartelavam, antes de partir o 4 para Louren�o Mar�ques e o 5 para Tete. Era um espect�culo degradante aquele. A tropa formava quadrado, ao centro a banda, os ternos de corneteiros, os cabos das tr�s unidades, dentro de uma celha um molho de juncos, para serem mais flexiveis, dois soldados com uma espingarda apoiada no ombro, o condenado debru�ado sobre ela, com outros dois soldados, do outro lado, a segurarem-lhe os pulsos. Ent�o cada cabo dava dez chibatadas e seguia-se-lhe ou�tro e outro. Para afogar os gritos do paciente a banda tocava uma marcha bem ruidosa.

���� O medico, dr. Carvalho, que assistia ao cortejo, n�o estava em boas rela��es com o governador geral, desejoso de dar um exemplo severo. Ao cabo de duzentas � tal varadas o facultativo declarou que a puni��o tinha de se suspender, pois o castigado n�o suportava mais, sob o perigo de vida. A repugnante cena terminou. Houve quem telegrafasse de Mo�ambique para Lisboa. Funcio�nava o parlamento. A oposi��o interpelou o governo, progressista. O governador geral foi chamado ao reino e exonerado do cargo. O chibatado escapou. Partiu para Timor a cumprir degredo perpetuo.

Rodados anos sobreveio um incidente tr�gico que inu�tilizou o bravo major Aires, na ocasi�o comandante da fortaleza de S. Sebasti�o. Um soldado europeu desvaira�do, por qualquer motivo f�til, quando o coronel Tornazini, do quadro das tropas coloniais, passeava na parada com aquele oficial apontou-lhe a espingarda e prepara�va-se para a disparar, quando o major Aires, com a cos�tumada serenidade e coragem lhe despediu uma pancada no cano da arma com o chicote que trazia na m�o. O tiro partiu, no instante, e a bala foi esmigalhar a r�tula e o joelho do intr�pido comandante. Amputaram-lhe essa perna e veio acabar seus dias como director do Asilo Militar dos Inv�lidos de Runa.

Outro acontecimento e de extraordin�ria sensa��o sa�cudiu numa convuls�o de terramoto, a 21 de Setembro de 1903, a mesma fortaleza. Por motivo ainda hoje desco�nhecido, mas de certeza imprudentissimo descuido, ex�plodiu a p�lvora do respectivo paiol. O baluarte de Nos�sa Senhora, e parte da cortina anexa, foram pelos ares. Coincid�ncia not�vel. Tudo em volta oscilou e ruiu. S� ficou de p� a respectiva capela do mesmo baluarte, a edifica��o mais antiga do conjunto. Toda a ilha tremeu numa sez�o de perniciosa. A popula��o julgou chegado o fim do mundo.

Governava ent�o a provincia o general Garcia Rosado depois comandante do Corpo Expedicion�rio a Fran�a e embaixador de Portugal em Londres. A boa vontade da autoridade superior da col�nia o assentimento do ministro da Marinha e Col�nias, general Rafael Gorj�o e o zelo e boa vontade do director das Obras Publicas, major de engenharia Henrique Barahona, depressa repu�seram o mais valioso padr�o da ocupa��o da �frica Orien�tal como estava antes.

 

 

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