A FUGA!
E foi assim que na
madrugada de 3a. feira, 6 de Abril de 1976, uma manh� linda, por
acaso, pois os dias anteriores foram s� de temporal, descolaram do aer�dromo do
Guru�, Vila Junqueiro, em voo directo, dois �Islanders�, que aterrariam no
Aeroporto Internacional de Salisbury, na Rod�sia, �s dez e cinquenta.
Uns dias antes, a um colega
nosso, o Jo�o Pedro, homem de absoluta confian�a, eu daria parte dos meus
planos, aos quais ele aderiu maravilhosamente e, fazendo um desvio da sua
carreira desse dia � Quelimane/Beira/Marromeu - um dos
aer�dromos a escalar, enganou-se no rumo, indo tamb�m aterrar a Salisbury num
�Shrike Comander�, ao mesmo tempo que n�s.
Esse levava a mulher. O meu filho, a
mulher e um filhito. Eu, a minha mulher e um amigo muito �ntimo, a quem
convidei por saber que n�o hesitava, por n�o poder suportar mais tal situa��o.
O Manuel Gon�alves de Oliveira, que era um dos maiores t�cnicos portugueses
sobre cultura de ch�.
Mas ningu�m pense que a
alegria que se sente quando conseguimos fugir a algozes que
nos tornam a vida imposs�vel na terra que amamos, � capaz de superar a tristeza
sem fim que se sente tamb�m por a deixarmos. Ficavam ali amigos que jamais
veria e a quem muita falta ia fazer. A minha casinha, a minha pequena planta��o
de ch�,� que fui
fazendo com muito sacrif�cio, os meus marmeleiros, pessegueiros, macieiras,
pereiras, tanta e tanta �rvore que plantara nos tantos anos em que l� vivi! A
Norte e a Sul, eu deixava as sepulturas dos meus pais e de uma irm�. Deixava
para sempre uma terra que me tinha sido t�o boa. E em consequ�ncia, posso
afirmar que passados todos aqueles anos de vida, n�o deixei l� um inimigo e
dou-me ao luxo de afirmar at�, que s� deixei amigos entre todas as ra�as que
fazem o todo de Mo�ambique, porque todos voavam e contactavam comigo. Tive
sempre tend�ncia para auxiliar os mais desprotegidos da sorte, os mais
atrasados, a grande massa que constitui a sua popula��o.
S� no fim, com a grande
m�quina da trai��o a trabalhar, eles se haviam de portar daquela maneira tamb�m
comigo. A culpa n�o � deles!
E a voar, sempre a voar, ainda ouvia um
militar com muitas responsabilidades por tudo o que estava a acontecer,
dizendo: "Aguentem-se! Tenham calma! Acreditem em n�s! N�s, militares,
garantimos o que est� escrito no Acordo de Lusaca. Integridade f�sica e de
bens! Al�m de tudo garanto-vos que alguns dos novos condutores de Mo�ambique
andaram comigo nas escolas em Louren�o Marques. S�o homens de boa forma��o como
eu (e nisso ele tinha raz�o!) que s� desejam o respeito, o bem
estar e o progresso da nossa terra!"
Outro, da Justi�a:
"O Acordo de Lusaca, primorosamente concebido, vai ser respeitado na
�ntegra". Tanta mentira!...
Outra vez os sinos de
S. Bento badalavam lugubremente, n�o a alertarem-me por estar em perigo, mas a
dizerem-me: "Despede-te. Diz adeus � terra que adoptaste e que �s obrigado
a largar".
Era um dobre de finados! S. Bento! S. Bento!
E, ent�o, chorei, meditando em tudo o que ficava para tr�s.
Toda uma vida! S� que, como eu, havia milh�es a sofrer!
Durante toda a minha
exist�ncia nunca sentiria �dio por ningu�m, mas naquele dia cheguei a sentir
pena que �s m�es, �s irm�s, �s mulheres e �s filhas dos bandalhos respons�veis
por t�o brilhante �descoloniza��o�, sobretudo dos que nas pr�prias prov�ncias
ultramarinas passaram parte das suas vidas, tendo por obriga��o conhecer bem as
suas gentes e que, pela ambi��o resolveram a sangue frio atrai�oar os seus
compatriotas, n�o tenha acontecido o mesmo que aconteceu �quelas desgra�adas
mulheres e crian�as naquele dia 21 de Outubro. E ainda mais: que qualquer
casita, vivenda ou palacete e alguns h� que a rirem-se da pol�tica que atiram,
mentirosa e sem convic��o, pela boca fora, vivem aconchegados e
principescamente, borrifando-se, no �ntimo, para o pr�ximo, fosse destru�da at�
aos alicerces, para assim eles sentirem um pouco a sensa��o do desespero,
ang�stia e mis�ria que provocaram a milh�es de portugueses.
Seria esse, parte do justo pr�mio que eles teriam de carregar at� �
morte.
Na Rod�sia fomos recebidos e acolhidos maravilhosamente.
Contudo, cedo nos aperceber�amos que em
breve se iria passar o mesmo que havia acontecido em Mo�ambique. A propaganda
era precisamente igual! A minoria branca, duzentos e cinquenta mil, n�o poderia
sobreviver frente �quela meia d�zia de milh�es de negros revoltados e
conduzidos por algu�m que os incitava a correr com eles. Viam o que se estava a
passar mesmo ali ao lado. Eram informados que em Portugal a vida piorava dia a
dia. Mas ali tamb�m o futuro n�o se apresentava nada risonho. E para quem tinha
passado aqueles terr�veis momentos de descoloniza��o em Mo�ambique, esperar
pelo mesmo nessa magn�fica terra que era a Rod�sia, era arrasante. Mas
mantivemo-nos l� ainda um ano e meio debaixo de toda aquela press�o.
Com a sa�de abalada, abalad�ssima, regresso a
Portugal e hoje sou um simples, um triste espectador de um teatro cujo palco me
aparece com um grandioso cen�rio, mostrando l� ao fundo as labaredas do inferno
e c� na boca, uns quantos diabos a executarem uma dan�a incr�vel.
Acredito, ao fim e ao
cabo, que h� portugueses de facto capazes de salvar esta querida P�tria do
naufr�gio em que se encontra. Eles apareceram sempre atrav�s da sua hist�ria de
quase novecentos anos, e aparecer�o agora tamb�m. Tomar�o bem conta do leme
desta barca que andou � deriva.
Mas esses n�o poder�o esquecer
tantos e tantos que trai�oeiramente foram levados ao infort�nio, � mis�ria, �
morte, v�timas de um punhado que quase vendeu a P�tria e que, por enquanto,
ainda se ri, procurando atrav�s da propaganda, sempre a propa�ganda, para se
defenderem, convencer o povo de que esta cruel amputa��o foi um dos pontos
altos da nossa Hist�ria.
A perf�dia humana � capaz de tudo, mas a justi�a h�-de aparecer.
Referi-me sobretudo a
Mo�ambique, essa terra fabulosa levada precipitadamente a uma situa��o
miser�vel, que tanto sofrimento est� a causar a tanta gente sem culpa. Mas n�o
� s� o mo�ambicano a sofrer, n�o foi s� ele o atingido pela grande trai��o. E
essa rapaziada que l� noutras parcelas do Ultramar tombou na defesa da sua
bandeira, da sua P�tria? Eu sei que h� muitos pais, muitas esposas, filhos e
irm�os que choram os entes queridos, que ingloriamente perderam a vida numa
guerra que acabou assim. Foram sepultados por toda a parte. Por estes
cemit�rios de Portugal, muitas sepulturas assinalam o fim dessa juventude,
tamb�m tra�da.
Eu gostaria ainda de ver em cada uma
dessas campas uma l�pide com as mesmas palavras que o grande General Romano
Cipi�o mandou p�r na sua, por ter sido tra�do p�los pr�prios compatriotas,
depois de ter vencido An�bal, o cartagin�s, que fez tremer o Imp�rio Romano:
"Ingrata P�tria. N�o �s digna de possuir os meus ossos!�
E o som triste,
doloroso, dos Sinos de S. Bento, como sempre, quando o perigo me rondava,
continua a martelar-me, dando-me esperan�as, apesar de tudo, que a este momento
horr�vel por que passamos, h�-de suceder um outro que mais sol e felicidade trar� para todos.
S. Bento! S. Bento! S. Bento!