AFIRMA��O DO PODER E SOCIALIZA��O DA
EDUCA��O
Afirma��o do poder e mobiliza��o pol�tica
Os quatro primeiros anos de liberdade, de
1974 a 1977, podem ser considera�dos como anos de afirma��o do poder em quase
todos os n�veis. Todavia, ela era compreendida de forma diferente pelas elites dirigentes81 da
Frelimo e pelas popula��es, em geral. Estas expressaram-na, de imediato, na
forma de abertura de escolas, postos de sa�de, na retomada de terras f�rteis,
outrora apropriadas por colonos. Para as elites dirigentes, ela significava,
acima de tudo, a extens�o de sua hegemonia pol�tica a todo o territ�rio, a
altera��o profunda das rela��es sociais, que implicava em mudan�a de
mentalidade e de comportamento e, sobretudo, em sintonia e �ac��o conjunta�
entre a infraestrutura e a super estru�tura. O sucesso desse processo dependia,
sobretudo, do envolvimento, ou seja, da participa��o
de todo o Povo:
�S� com a
participa��o de todos liquidaremos os vest�gios coloniais, as sequelas colonialistas,
e criaremos a mentalidade revolucion�ria, a socie�dade revolucion�ria,
desenvolveremos a teoria revolucion�ria, tomando em considera��o a pr�tica� (MACHEL, 1975c: 438).
No entanto, prevaleceram, nessa fase, as
iniciativas das popula��es, quer pela euforia da independ�ncia, quer porque,
sentindo imediatamente na carne o impacto da coloniza��o, estava buscando
formas de, rapidamente, sair do atraso.
A ac��o das elites dirigentes voltou-se
mais para a coordena��o daquelas ini�ciativas, para a mobiliza��o e organiza��o
das popula��es.
A mobiliza��o pol�tica situava-se na
palavra de ordem de contacto directo com as massas, para assegurar o seu enquadramento e engajamento pol�ticos, no processo de
transforma��o da realidade e da mudan�a social, e levar o Povo a assumir o
projecto pol�tico, particularmente o educacional e, atrav�s dela, a �democracia
pol�tica� (MACHEL, 1975a: 26/27). Por ela, a Frelimo procurava manter um
contacto directo e permanente com a base, num fluxo de informa��es e de
pensamento para a ac��o. A mobiliza��o permitia avaliar a �temperatura da
revolu��o� e o grau de confian�a da popula��o para com os dirigentes.
Enquanto forma de educa��o pol�tica, fazia compreender �s
popula��es o valor criador e transformador do trabalho; procurava criar nelas a
consci�ncia do �tra�balho como acto da
autoprodu��o do homem�82, diferente do trabalho escravo colonial.
Enfim, o momento de mobiliza��o era, sobretudo, momento de enten�dimento e de
planifica��o de ac��o. Deste modo, a Frelimo contrapunha-se aos m�todos
administrativo-burocr�ticos coloniais de direc��o da sociedade.
A pr�pria din�mica do processo estabeleceu
uma liga��o pol�tica entre mobi�liza��o e educa��o. A educa��o implantava-se
pela mobiliza��o popular, a Frelimo servia-se dela para mobilizar as popula��es
para o seu projecto global de reconstru��o nacional.
A mobiliza��o aparece ligada � organiza��o das massas. As primeiras
for�mas de organiza��o foram os Grupos
Dinamizadores (DGs). Eles surgiram prati�camente da base. Reuniam
popula��es que se identificavam ou se declaravam simpatizantes da FRELIMO,
provenientes de quase todas as camadas sociais, sem distin��o de ra�a e
religi�o. Funcionavam como espa�o de divulga��o da linha ideol�gica da Frelimo,
de aprendizagem do exerc�cio do poder e de demo�cracia; instrumento de
vigil�ncia contra as manobras de sabotagem inimiga e de controlo da economia.
Em certos momentos, assumiam o papel de �rg�os judi�ciais de pequenas causas,
quando os tribunais sofriam o abalo da transforma��o ideol�gica e estavam
desprovidos de quadros suficientes. Os respons�veis eram eleitos em fun��o de
sua milit�ncia e comportamento e n�o na base de afinida�des raciais, �tnicas e
religiosas. Tornaram-se espa�os de forma��o da consci�n�cia pol�tica e de consolida��o
da Unidade Nacional (MACHEL, 1983: 28), pas�sando a estender as experi�ncias de
reconstru��o social, testadas nas zonas liber�tadas. O V Congresso entende-os
como tendo sido �forma de direc��o imediata da popula��o� (V CONG: 66), num
duplo sentido: que, atrav�s deles, a popula���o participava imediatamente da
direc��o da sociedade e, por outro lado, que eles eram instrumentos por meio
dos quais as elites dirigiam imediatamente a popula��o. De qualquer forma, eles
prefiguravam a participa��o da popula��o (da sociedade civil em organiza��o) na
vida pol�tica da na��o. No movimento cultural espont�neo das popula��es, eles
tiveram uni papel importante na dina�miza��o da cultura: �S�o sem d�vida os
grupos dinamizadores que atrav�s das suas sess�es de cultura mobilizam e
organizam as popula��es para a pr�tica cul�tural e para a forma��o de grupos
culturais nesta fase� - reconhecia Gra�a Machel, ent�o
Ministra da Educa��o e Cultura, em 1979 (MACHEL, G., 1979: 40).
Era nos Grupos Dinamizadores que se discutia e se aprovava
a abertura de uma escola, muitas vezes sem considerar as disponibilidades
financeiras para o seu funcionamento. Foi neste contexto que, por pr�pria
iniciativa, as comunida�des foram abrindo e construindo novas escolas com
recursos locais. Neles se recrutaram elementos para preencher v�rios postos do
aparelho de Estado, inclu�sive pessoal para os sectores de direc��o da
Educa��o, seleccionados por crit�rios de milit�ncia pol�tica e uma m�nima
sensibilidade profissional pelo sector, sem se ater muito a qualifica��es
profissionais, face ao desfalque criado com o abandono de funcion�rios
portugueses que preenchiam todo o aparelho de Estado colonial. Eram express�o
concreta do compromisso da popula��o com as linhas gerais do projecto de
desenvolvimento da Frelimo. Tornaram-se espa�o de exerc�cio de fala e de ac��o
colectiva.
Como estruturas de base, decis�rias, tiveram pouca dura��o. Com a cria��o do Partido Frelimo, em 1977, e o processo de estrutura��o do Partido, a partir de 1978, os Grupos Dinamizadores come�aram a ser substitu�dos por C�lulas do Partido, estruturas internas com actua��o junto das popula��es. Nos primeiros momentos, mostraram-se mais populares e depois, pouco a pouco, deixaram de ser dinamizadores da participa��o real das popula��es, nas decis�es da vida pol�tica da sociedade, para se reduzirem a ve�culos das decis�es centrais do Partido.
A explos�o escolar como express�o de afirma��o do Poder
A iniciativa popular de abertura de escolas provocou uma explos�o escolar sem precedentes, apesar da pol�tica de planifica��o centralizada adoptada em 1977, e prolongou-se at� 1980. Fez-se sentir mais nos dois graus do Ensino Prim�rio.
a) Explos�o Escolar no 1� Grau do Ensino Prim�rio: 1975/1977
quadro 9
�(1� Grau = 1a - 4a classes)
|
Ano |
Total: HM* |
Taxa anual de crescimento |
N�de escolas |
Rela��o Prof/Aluno |
|
1960 |
416.174 |
3,2 |
� |
6 9:1 |
|
1975 |
671.617 |
! 15,5 1 |
5.235 |
65:1 |
|
1976 |
1.276.500 |
- |
+/-80:1 |
|
|
1977 |
1.363.000 |
- |
- |
*HM = Homem e Mulher
Fonte: Comiss�o Nacional de Estat�stica. Informa��o Estat�stica: 1975-1984. Maputo, 1985; e Minist�rio da Educa��o. Colocar a Educa��o ao servi�o do Puro: Relat�rio ao Conselho de Ministros. Maputo, MINED. 1988, p. 24/25.
O n�mero de alunos matriculados no 1� Grau do Ensino Prim�rio passou de 671.61783 (distribu�dos em 329.772 de 1a a 4" classes e 341.845 na Pr�-Prim�ria) em 1975 para l .276.500 alunos em 1976 e l .363.000 em 1977.
b) Explos�o Escolar no 2" Grau do Ensino Prim�rio: 1975-1977
Embora em propor��es diferentes, a
explos�o escolar tamb�m se fez sentir no 2� Grau do mesmo ensino, para o qual
acorreram alunos entre os 9 e os 16 anos 84, que no tempo colonial
haviam sido impedidos de prosseguir os estudos, pelo pr�prio car�cter
discriminat�rio e selectivo do sistema.
QUADRO 10
(2" Grau = 5" e 6" classes)
|
Ano |
Total: HM* |
Mulheres % |
Taxa anual de crescimento |
N" de escolas |
Rela��o Prof/Aluno |
|
1970 |
14.177 |
_ |
+ 7,6 + |
_ |
|
|
1975 |
20.427 |
417 |
26 |
_ |
|
|
1976 |
32.304 |
- |
+ 31,5 i |
- |
� |
|
1977 |
43.468 |
- |
- |
23:1 |
*HM = Homem e Mulher
Fonte: Comiss�o Nacional de Estat�stica.
Informa��o Estat�stica: 1975-1984. Maputo.
1985; e Minist�rio da Educa��o. Colocar a Educa��o ao servi�o do Povo: Relat�rio
ao Conselho de Ministros. Maputo. MINED. 1988. p. 24/25.
As popula��es tamb�m foram exigindo a
abertura de escolas para este grau, de 5� e 6" classes, que correspondia
ao 1� Ciclo Preparat�rio Liceal do ensino secund�rio do sistema colonial. Na
pr�tica, essas escolas funcionaram como tal at� 1983.
Em termos de efectivos absolutos, a
explos�o pode n�o ser significativa. De acordo com o censo de 1970 (cf. <2�a<�m 4), a percentagem de
alunos matricula�dos nesse ano em rela��o � popula��o total era apenas de 0,17%
e, em 1975, de 0,25%, considerando tamb�m que um bom n�mero de alunos em 1975
ainda era constitu�do por filhos de colonos, que depois abandonaram o pa�s. Em
nenhum dos casos a popula��o escolar atingiu 1%. A explos�o toma-se
significativa se se tiver em conta as capacidades
internas de repet�ncias, sobretudo em rela��o aos professores. A rela��o
professor/aluno cresceu de 23 alunos, por professor, em 1977, para quase 40
alunos, em 1980, o que correspondia a duas turmas, em rela��o � m�dia nacional
estipulada. Al�m de que um n�mero significativo des�ses professores leccionava
em outras classes de n�vel b�sico.
As popula��es acorreram tamb�m em massa �s
campanhas de alfabetiza��o, igualmente coordenadas pelos Grupos Dinamizadores.
Segundo estimativa do Minist�rio, devem ter sido alfabetizadas, de 1974 a 1978,
cerca de meio milh�o de pessoas, nas zonas urbanas e semi-urbanas (MINED, 1988:
60).
Primeiras ac��es da Frelimo e do Governo
A interven��o da Frelimo foi de natureza
pol�tica, enquanto o Minist�rio da Educa��o e Cultura se concentrou mais na sua
estrutura��o e na organiza��o das Escolas.
As interven��es procuravam corresponder �
natureza da revolu��o, no sen�tido de processo. Havia consci�ncia de planificar
as ac��es de m�dio e longo prazo com conhecimento profundo da realidade, que se
inserissem no projecto pol�tico global e ultrapassassem a dimens�o do imediato.
Por�m, a prioridade foi responder aos desafios imediatos e mais gritantes.
Assim, em Janeiro de 1975, ainda no
Governo de Transi��o, realizou-se, na cidade da Beira, o I Semin�rio Nacional
de Educa��o, organizado pelo Minis�t�rio da Educa��o e Cultura, e que reuniu
professores prim�rios e secund�rios e quadros com experi�ncia em educa��o nas
zonas libertadas. O Semin�rio teve por objectivo imediato encontrar mecanismos
para implementa��o nas escolas dos princ�pios da ideologia da FRELIMO e de
m�todos de organiza��o corres�pondentes. Foram analisados os programas at�
ent�o em vigor �� luz da nova pol�tica educacional� e foi decidido retirar dos
programas de ensino �tudo o que fosse contr�rio � ideologia da FRELIMO�
(MEC/GSE, 1980: 40), para lhes dar um conte�do de classe (MACHEL, Gra�a 1979:
18).
Um m�s depois da proclama��o da
independ�ncia, a 24 de Julho de 1975, o Presidente Samora Machel anunciava,
entre outras medidas, a nacionaliza��o da educa��o. A nacionaliza��o era uma
medida radical e de impacto para o controlo das escolas e para a socializa��o
da educa��o. O objectivo da socializa��o dava-Ihe sentido revolucion�rio. A
FRELIMO pretendia: 1) evitar mais depreda��es e sabotagens nas escolas
particulares; 2) romper com os elementos de desigual�dade social; 3)
possibilitar a planifica��o da ac��o educativa com vista � cria��o de um
sistema de educa��o ao servi�o dos interesses das massas, implantando, assim,
um novo tipo de educa��o (FRELIMO, 1977: 3); e 4) ideologicamente, eliminar aqueles elementos que entravavam a sua hegemonia
pol�tica. A Frelimo fazia dela instrumento v�lido para a universaliza��o
da escola. Como resultado imediato, a escola deixou de ser espa�o privilegiado
de uma ra�a, regi�o ou con�fiss�o religiosa, para ser espa�o aberto a todo o
cidad�o. Estabeleceu-se um ensino laico, p�blico e gratuito. A direc��o e a
gest�o do sistema educativo foram confiadas unicamente ao Minist�rio da
Educa��o e Cultura (MEC).
A partir dos dois eventos de Janeiro e
Julho de 1975, os esfor�os do Minis�t�rio da Educa��o e Cultura foram
concentrados:
- entre 1975 e 1976, na reforma curricular
que guiou a reformula��o dos pro�gramas da 1a � 11a
classes e altera��o dos conte�dos; foram retiradas as disci�plinas de Hist�ria
e Geografia de Portugal e de Relig�o e Moral e substitu�das por Hist�ria e
Geografia de Mo�ambique e da �frica e de Educa��o Pol�tica; foram introduzidos
o estudo pol�tico no seio dos professores, Actividades Cultu�rais �como forma
de afirma��o da personalidade mo�ambicana� e deu-se um valor especial �s
actividades produtivas, respondendo ao princ�pio da liga��o do estudo �
produ��o e da teoria � pr�tica (idem, p. 40 e MACHEL, G., 1979: 19).
- na forma��o
intensiva e reciclagem de professores: at� 1977, foram criados 10 Centros de
Forma��o de Professores Prim�rios, criados pela Portaria Minis�terial n�
252/76, de 6 de Novembro, e 4 Centros de reciclagem;
- na elabora��o
de livros escolares, sobretudo para as disciplinas de forte conota��o
ideol�gica, como a L�ngua Portuguesa, Hist�ria, Geografia e Educa���o Pol�tica;
- na organiza��o, no desenvolvimento e
acompanhamento de campanhas de alfabetiza��o e educa��o dos adultos;
- na organiza��o de escolas, para, de
imediato, assegurar o seu funciona�mento, face � situa��o gerada com o abandono
de muitos professores portugue�ses. Forneceu-se �s escolas um documento sobre Organiza��o
Pol�tica e Admi�nistrativa das Escolas (OPAE), que definia os m�todos de
trabalho colectivo, m�todos de direc��o, apontava formas de democratiza��o e
aprendizagem do exerc�cio do poder, atrav�s de colectivos de alunos e professores,
e dava orienta���es para a Liga��o Escola-Comunidade (LEC). O documento visava
p�r fim ao ambiente de desorganiza��o e liberalismo e � instabilidade que se
vivia nas escolas (ibidem). No entanto, ele n�o logrou resultados desejados,
porque n�o correspondia ainda � realidade das escolas (MACHEL. G., 1979: 17).
Esta situa��o, predominando o atendimento
aos problemas imediatos, vai alterar-se, ao menos por algum tempo, com a
adop��o da pol�tica de planifica��o centralizada pelo III Congresso, em 1977.