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Recolhidos e interpretados pelo missionário P.e Alexandre Valente de Matos,  de colaboração com uma equipa de professores moçambicanos.

INTRODUÇÃO

Ao estudar os usos e costumes do povo macua (!) , no qual vivi inserido, por razões de apostolado missionário, durante quase 30 anos, interessei-me com particular empenhamento, desde a primeira hora, pela sua língua e, no aspecto da cultura literária, pêlos contos, adivinhas, provérbios e danças.
No que concerne aos contos, a Editorial Missões-Cucujães deu à estampa, em 1958, cinco pequenos volumes, ilustrados -
Aventuras do Coelho Folgazão, O Coelho Matreiro, Maravilhas e Encantamentos, A Voz da Floresta e Jaula Aberta - , perfazendo um total de 44 histórias exuberantes de leveza e formosura e recheadas de profundos conceitos morais.
Presentemente, estou a dar redacção definitiva a muitos outros contos, cujos originais recolhi dos macuas do Mutuáli, Malema, Ribáuè e lapala
A partir de Setembro de 1976, a revista missionária Boa Nova começou a publicar, mensalmente, um destes contos, deixando-se para mais tarde a sua edição em volumes próprios.
Relativamente às adivinhas, a revista
Missionário Católico, predecessora da Boa Nova, em dois ou três números de há anos, apresentou à curiosidade dos seus leitores um feixe destes graciosos enigmas muito em uso em certos passatempos familiares e tão profundamente marcados pelo colorido local do mundo africano...
Mas há ainda muitas outras adivinhas que esperam a luz da publicidade.
Quanto à língua, a Junta de Investigações Científicas do Ultramar publicou, em fins de 1974, o Dicionário Português-Macua, em formato grande de 185 cm X 248 cm, encadernação luxuosa, num total de 455 páginas.
Agora, é a vez dos provérbios.
Havendo compilado centenas deles com a ajuda de uma prestimosa equipa de professores do Mutuáli, Malema, Ribáuè, lapala e Lalaua, reconheci, com o andar dos anos, que de pouco ou quase nada serviria a causa do bem comum, ao apresentá-los à luz da publicidade com a correspondente versão portuguesa, se os mesmos não fossem acompanhados de um breve comentário e se não se fizesse a exemplificação do seu uso ou emprego na vida dos africanos a que dizem respeito.
Para a realização deste alto objectivo valeu-me imenso a oportunidade da minha passagem pelo mato, em frequentes visitas às cristandades, aproveitando avaramente o tempo, à noitinha, rodeado de um grupo de gárrulos homens que vinham até junto de mim para fazer umas horas de serão...
A maré era, a todos os títulos, sobremodo propícia ao meu trabalho de investigação, já porque, nessa altura, não pesavam sobre mim preocupações de maior, já porque a hora era sobretudo de paz e recolhimento, possibilitando-me uma mais cuidadosa ventilação do sentido autêntico de cada provérbio.
Se, por um lado, a tarefa que me impus era deveras trabalhosa e exaustiva (apesar de que quem corre por gosto não cansa, como reza o prolóquio português...), por outro lado, permitiu-me que recolhesse dados etnográficos de valor incalculável, fazendo vir à superfície pormenores da vida africana, suscitados pelos mesmos provérbios, que, de outra forma, talvez me passassem despercebidos por completo.
Os adágios macuas conglobam toda a sabedoria do povo, patenteando-nos todo o fundo da sua vasta riqueza cultural, intelectual e moral.
Quando, agora, se atenta ponderadamente que todo este código de máximas luminosas, cunhadas em linguagem selecta, lacónica e filosófica, pertence a um povo imenso que até há bem pouco tempoera tido na conta de atrasado e selvagem, no conceito de europeus responsáveis, quanto não devemos penitenciar-nos por não nos termos debruçado a sério, desde o princípio, sobre o estudo da formosa alma africana!
Os aforismos macuas, na sua faceta cultural, fazem parte do chamado património comum a toda a Humanidade, encerrando normas de moralidade e de guia segura para a vida prática, que nos maravilham e enchem de espanto.
Muitas vezes, em companhia dos meus experientes interlocutores ou a sós comigo, sorria de íntima felicidade ao pensar na opulência de conceitos belos e profundos deste tesouro escondido no campo do pai de família...
Como, efectivamente, agiam mal e enganados andavam muitos europeus-, quando apreciavam o valor do povo moçambicano só pelos defeitos e pechas dos seus cozinheiros, faxinas, mainatos, moleques e demais serviçais ou operários!
A verdadeira alma africana, com toda a gama de valores e potencialidades naturais, essa vivia, em sua pureza original, longe dos centros urbanos, nas povoações sertanejas, aonde não chegava o branco ou, se chegava, nada via nem compreendia, a bem dizer, porque se lhe deparava lá um mundo novo totalmente diferente do seu...
Como é próprio do homem de qualquer latitude do Globo, quando exprime, em forma lapidar, as suas emoções mais íntimas, perante tudo o que o rodeia, topam-se, neste repositório de adágios, verdades axiomáticas comuns a todos os povos e recolhem-se outras -é a maioria- vinculadas ao local ou à terra onde se forjaram, deixando ver, através de formosíssimo colorido de expressão, toda a beleza, frescura e sensibilidade da alma macua.
Nos adágios populares há apelos frequentes aos usos, costumes e tradições do povo, a factos históricos que marcaram terrivelmente a sua vida, a incidentes efémeros e banais e, sobretudo, às lendas ou contos em que são protagonistas de rasgos vibrantes e exaltados os animais da imensa selva verde, com particular relevo para o coelho espertalhão - namarokolo ottenttera...
Em busca de uma forma mais correcta de expressar a verdade, direi que no corpo destes provérbios se reflecte vivamente, como em filmado documentário paisagístico, toda a vida do povo, deixando descobrir as suas fontes inspiradoras: crenças, acontecimentos, histórias reais, fábulas, ditos lacónicos e elegantes, hábitos dos homens e dos animais e, principalmente, a observação atenta até aos últimos pormenores dos caprichosos segredos da Natureza circundante.
Não encontraremos, decerto, ao longo deste rifoneiro referências a alguns motivos em que abunda o adagiário português, mas, em compensação, deparar-se-nos-ão muitos outros sem paralelo no nosso idioma. Não é para admirar, pois que cada terra com seu uso e cada roca com seu fuso...
Sendo os provérbios macuas, em grande número, caracterizados por certa envolvente penumbra de mistério, a sua expressão processa-se, algumas vezes, por linguagem de recorte difícil - ditos concisos lavrados por cinzel obscuro em termos obsoletos e com omissões flagrantes, cujo sentido nem os novos nem os leigos menos versados no conhecimento da língua conseguem captar.
Notar ainda que a maior parte deles tem formulação alegórica, fazendo-nos reportar do seu sentido literal para o metafórico, quando se busca a sua interpretação.
Ê sempre o mistério ou enigma, cobrindo ciosamente com véu espesso, a olhos estranhos, o oráculo riquíssimo das vozes sapienciais de um povo...
Além de tudo o mais, os provérbios macuas condensam toda a filosofia do povo - filosofia esta que se patenteia exuberante em princípios, ditames, normas e axiomas por que se rege o seu direito consuetudinário.
Em muitos passos da sua vida os Macuas fazem uso dos provérbios, reforçando suas atitudes e posições, quer estas se firmem em preceitos de correcção e gravidade, quer derivem para o cómico ou para a grosseria picaresca.
Mas o forte do seu emprego, o lugar onde se obtém o seu efeito mais retumbante, ocorre nas sessões de julgamento dos milandos (litígios) no parrô (tribunal) do régulo.
Quando na ventilação de um milando este atingiu uma fase de beco sem saída, se uma das partes litigantes citar um provérbio, com propriedade e acerto, a favor da sua causa, é como se acendesse uma luz na treva ou se rasgasse uma picada através da selva densa, pois que tem a causa ganha, pela certa.
Os aforismos têm, pois, entrada livre no tribunal do régulo como normas preceptivas ou vindicativas do direito e da justiça, e é à luz da sua doutrina que as contendas e demandas são deslindadas e solucionadas.
Muitas vezes, é o próprio régulo, na sua qualidade de juiz, que encerra a audiência ou o julgamento com a citação de conceituoso rifão, como se poderá verificar, ao longo do presente trabalho.
No adagiário macua podemos ainda assinalar toda uma elevada ética de conceitos e de princípios directivos que nos chocam profundamente pelo fundo maravilhoso de sã doutrina que contêm, evocando a veracidade do anexim latino:

Vox populi, vox Dei.
(Voz do povo, voz de Deus)
.  
   
Ou como reza o ditado português:

                      Ditados velhos são evangelhos...

Afinal, que são os provérbios, na sua maior parte, senão sementes do Verbo ou lampejos da Verdade Eterna a alumiarem todo um povo peregrino na sua caminhada para Deus?...
Folheando à sorte, aqui e além, o presente rifoneiro, encontraremos princípios morais a inculcar-nos: prática da justiça, amor à verdade, espírito de generosidade, deferência para com os outros, serenidade nas dificuldades, prudência nas palavras, estima e veneração pelos velhos, prestação de ajuda mútua, desprendimento do coração perante as belezas efémeras do Mundo, vanidade da formosura feminina, hábitos de trabalho, confiança em Deus nas desgraças e esperança na sua justiça incorruptível, casamento como sociedade perfeita em que o homem e a mulher se complementam mutuamente, o certo contra o incerto, economia doméstica, valor da experiência ou da prática, gratidão, intrepidez, conveniências da mansidão, lições da morte...
Como em reverso da medalha, toparemos outros, cujo papel é dar combate à preguiça, à ganância e ambições desmedidas, ao orgulho e soberbia, à fanfarronice, à intriga, ao roubo, à fornicação, à desconfiança, à avareza, aos maus hábitos, à negligência, à ingratidão, à vergonha, à mentira, à maledicência, à vilania, à inveja - a terrível
nrima, fonte de males imensos no seio das famílias africanas...

No presente trabalho fez-se a análise cuidadosa de 500 provérbios, cuja interpretação proporcionará momentos de leitura curiosa e amena a quantos desejarem familiarizar-se com costumes estranhos, se bem que despertadores de sentimentos de surpresa, simpatia e comunhão.
Serão outros tantos flashes da vida da tribo moçambicana de maior densidade populacional - a tribo Macua -, que, se por um lado patenteia defeitos, por outro demonstra qualidades e vivência de virtudes humanas de ressonância ancestral verdadeiramente notáveis.

Resta-me informar que tenho em meu poder muitos outros adágios que, embora estudados e comentados, reservo para um segundo volume, se houver da parte dos leitores deste livro manifesto interesse pela sua publicação.

Os provérbios estão todos numerados.
Depois de um breve relance de olhos dado, nas primeiras páginas, às listas da língua macua, será fácil tarefa catar qualquer deles no corpo da obra, onde aparecerão novamente na sua formulação macua com a respectiva tradução portuguesa.
Sempre que os adágios macuas apresentavam correspondentes em português, e os seus dizeres me ocorreram oportunamente, citei-os como achega preciosa para mútuo enriquecimento.
Por último, e por me parecer também utilíssimo, em trabalho de séria investigação etnográfica, apresentar os provérbios por assuntos, em português, procedi generosamente à sua classificação, dando assim possibilidade aos curiosos de uma melhor avaliação de conjunto dos autênticos valores culturais do povo africano a que me reporto.

Saindo este livro de provérbios macuas à luz da publicidade depois de celebrado o sétimo aniversário da independência do estado de Moçambique, apresento-o a todo o povo unido moçambicano como modesto contributo da minha parte, a fim de o ajudar a despertar para uma melhor tomada de consciência sobre os reais valores da própria cultura.

Tomar, l de Novembro de 1982.

P.e Alexandre Valente de Matos
(Da  Sociedade  Missionária  Portuguesa)

(!)    Tribo banta do Norte de Moçambique, cuja  população orça   por 3 milhões de pessoas.


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